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História de Bombeiro 11 a 12 anos Leitura 21 min.

Miguel e o casaco que cheirava a fumo (e a bolo)

Miguel, um jovem voluntário dos bombeiros, aprende com o chefe Rui sobre coragem, respeito e prevenção enquanto participa em pequenas missões da comunidade — desde resgatar um gato até recuperar um drone. Pelo caminho descobre que ser bombeiro é mais sobre calma, treino e ajudar do que sobre heróis e sirenes.

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Homem jovem (Miguel), expressão concentrada e suave, olhos grandes e brilhantes, cabelo castanho curto, com capacete de bombeiro vermelho e casaco amarelo grosso, ajoelhado numa cozinha preenchida por fumaça cinzenta, estende uma pequena manta para alcançar o gato; bombeiro adulto (chefe Rui), rosto calmo e barbas levemente grisalhas, com capacete e casaco, está atrás de Miguel com a mão no ombro, vigilante à janela aberta; mulher idosa (a dona), cerca de 70 anos, cabelo grisalho apanhado, vestido floral, na soleira da porta com as mãos na boca, aliviada e emocionada; animal: gato Pingo, pequeno tigrado de olhos arredondados, encolhido atrás de um móvel enquanto a manta toca suas costas; local: cozinha clara mas tomada por fumaça cinzenta, móveis simples e arredondados, porta de entrada aberta para um corredor com escadas e um fino raio de luz entrando; situação: salvamento cuidadoso e seguro, atmosfera calorosa, cores quentes e contrastes suaves entre o amarelo do equipamento e o cinza da fumaça. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Casaco com Cheiro a Fumo (e a Bolo)

O Miguel apertou o casaco grosso dos bombeiros voluntários e sorriu ao ver o próprio reflexo na porta de vidro do quartel. O casaco era pesado, cheirava a tecido novo… e, lá no fundo, a fumo antigo, como se guardasse histórias dentro das costuras.

— Pronto para mais um turno, Miguel? — perguntou o chefe Rui, com uma caneca de café numa mão e um mapa dobrado na outra.

— Prontíssimo. E hoje vou ser ainda mais rápido — respondeu Miguel, a endireitar o capacete como se fosse uma coroa.

O chefe Rui levantou uma sobrancelha.

— Ser rápido é bom. Ser calmo é melhor. Ser respeitador é obrigatório. Lembra-te: quando as pessoas nos chamam, estão assustadas.

Miguel assentiu, sério. Ele era voluntário, sim, mas levava aquilo como se fosse uma missão secreta. Queria aprender tudo: as mangueiras, os nós, os extintores, a escada, o rádio. Queria ser o tipo de bombeiro que chega e, sem barulho, põe o mundo em ordem.

No quadro da parede, havia uma lista com números importantes. Miguel já os sabia, mas repetia-os como uma canção para não falhar nunca.

— Cento e doze — murmurou, mexendo os lábios. — Um-um-dois. Se eu estiver nervoso, um-um-dois.

Ao fundo da garagem, o motorista Artur estava a limpar o camião com um pano, como se o camião fosse um animal de estimação gigante.

— Miguel, queres ajudar? — chamou Artur. — A espuma não se faz sozinha.

Miguel pegou noutro pano e começou a esfregar. O camião vermelho brilhava, e ele gostava disso. Um camião limpo parecia dizer: “Estou pronto para proteger.”

— Artur, é verdade que já apagaste um incêndio numa fábrica de bolachas? — perguntou Miguel.

— Verdade. — Artur fez uma pausa dramática. — E o pior foi que o cheiro ficou no cabelo durante dias. As pessoas pensavam que eu andava a esconder bolachas no capacete.

Miguel riu, baixinho. O quartel tinha esse tipo de humor: simples, como pão quente. Dava coragem.

Antes de se sentarem para rever o equipamento, o chefe Rui apontou para um cartaz com letras grandes: “RESPEITO: PELAS PESSOAS, PELOS ANIMAIS, PELO FOGO.”

— O fogo não é um monstro, Miguel. É uma força. Às vezes ajuda. Às vezes destrói. Nós aprendemos a falar com ele… com água, com espuma e com cabeça fria.

Miguel voltou a repetir, como quem guarda um tesouro no bolso:

— Um-um-dois. Cento e doze.

E nessa noite, o rádio parecia respirar, à espera do primeiro chamado.

Capítulo 2: O Alarme que Canta Alto

O alarme tocou com um som que não pedia licença. O quartel mudou de ritmo num segundo, como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo.

— Atenção, equipa! — a voz no rádio era clara. — Alerta: fumo numa cozinha, Rua das Laranjeiras. Possível panela ao lume. Pessoas no local.

Miguel sentiu o coração a fazer um salto mortal. Depois lembrou-se do que o chefe Rui dizia: “Respira. Olha. Decide.”

— Cento e doze — sussurrou, enquanto corria para o cacifo. — Um-um-dois. Calma.

Vestiu o equipamento com movimentos treinados: calças, botas, casaco, luvas. O capacete encaixou como uma tampa certa. O chefe Rui entrou no camião e apontou para Miguel, como quem diz “Hoje vais aprender”.

O camião arrancou. As luzes giravam, mas por dentro o Miguel tentava manter as ideias alinhadas, como livros numa estante.

— O que vamos encontrar? — perguntou ele.

— Pode ser só uma panela esquecida — respondeu o chefe Rui. — Mas uma panela esquecida pode encher uma casa de fumo. E o fumo é traiçoeiro.

Artur buzinou com cuidado. Nem sempre era possível abrir caminho, e por isso era importante respeitar quem estava na estrada.

— Repara — disse o chefe Rui. — Nós pedimos passagem, não exigimos. O respeito também se conduz.

Chegaram à Rua das Laranjeiras. Um prédio baixo, janelas abertas, uma nuvem cinzenta a espreitar pela varanda do primeiro andar. Na rua, uma senhora abanava um pano como se quisesse expulsar o fumo à força.

— É ali! — gritou ela. — Ai, meu Deus, que eu só fui atender o telefone!

Miguel desceu do camião, e o ar tinha aquele cheiro azedo de comida queimada.

O chefe Rui aproximou-se da senhora, voz calma:

— Boa noite. Está alguém lá dentro?

— Só eu! Mas o meu gato… o Pingo… ele escondeu-se!

Miguel sentiu um aperto. Um gato no fumo era um problema sério. O chefe Rui olhou para Miguel e para a porta do prédio.

— Miguel, comigo. Primeiro: segurança. Vamos cortar o gás e ventilar. Depois procuramos o Pingo.

Miguel assentiu e repetiu, quase sem querer:

— Um-um-dois.

O chefe Rui sorriu de leve.

— Isso mesmo. Não é para dizer aos outros, é para dizer a ti próprio: “Eu sei o que fazer.”

Subiram as escadas. O fumo era mais denso no corredor, mas ainda dava para ver. O chefe Rui colocou a máscara e fez sinal para Miguel fazer o mesmo.

— Lembra-te: nunca entrar num lugar com fumo sem proteção e sem equipa. Nunca sozinho.

— Nunca sozinho — repetiu Miguel.

Entraram no apartamento. A cozinha parecia uma cena de filme: uma panela no fogão, a fumegar como um vulcão pequenino.

O chefe Rui fechou o gás com um gesto rápido, e o Miguel abriu a janela e a porta da varanda para criar passagem de ar.

Ventilação — explicou Rui. — Abrimos caminhos para o fumo sair. Assim, respiramos melhor e vemos melhor.

Miguel olhou para o chão e lembrou-se de outra regra:

— No fumo, devemos ficar mais baixo, certo?

— Certíssimo. O fumo sobe. O ar mais “limpo” está em baixo. Boa, Miguel.

E então ouviram um miado fininho, quase uma pergunta.

— Pingo? — chamou a senhora, lá fora, com voz tremida.

Miguel ajoelhou-se e espreitou debaixo da mesa. Nada. Abriu a porta de um armário com cuidado. O miado veio do lado da sala.

Seguiram o som, devagar. Atrás do sofá, havia dois olhos a brilhar, assustados. O gato estava encolhido como uma bolinha de pêlo.

— Olá, campeão — disse Miguel, com voz mansa. — Não te preocupes. Eu sou do… clube dos capacetes.

O chefe Rui quase riu.

— Miguel, cuidado com as mãos. Usa a manta.

Miguel pegou numa manta pequena, aproximou-se sem pressa e cobriu o gato suavemente, como se o embrulhasse numa nuvem. O Pingo debateu-se por um segundo, depois acalmou quando sentiu o calor.

— Boa técnica — elogiou Rui. — Animais assustados podem arranhar. E o respeito também é por eles.

Desceram as escadas com o gato ao colo. A senhora abriu os braços e chorou de alívio.

— Pingo! Ai, meu Pingo!

Miguel entregou o gato com cuidado, como se fosse um segredo frágil.

— Está bem agora. Mas… por favor, quando cozinhar, não se afaste do fogão. E se tiver de sair, desligue tudo.

Ela assentiu mil vezes.

— Eu prometo. Obrigada, senhores bombeiros. Obrigada, Miguel.

Miguel sentiu um calor por dentro, diferente do fogo. Era o calor de ter sido útil.

E, no caminho de volta ao camião, repetiu novamente, como um lembrete brilhante:

— Cento e doze. Um-um-dois.

Capítulo 3: Treino com Mangueiras e Paciência

De volta ao quartel, a noite já tinha aquele silêncio macio, próprio das horas em que a cidade boceja. Mas no pátio do quartel ainda havia trabalho.

— Agora vem a parte que poucos veem — disse o chefe Rui. — Limpar, arrumar, verificar. O heroísmo é muito menos cinema e muito mais organização.

Miguel ajudou a enrolar as mangueiras. Descobriu que uma mangueira mal enrolada é como um nó na garganta: depois atrapalha.

O Artur trouxe um quadro de treino e desenhou um quadrado.

Simulação rápida — anunciou. — Imaginem: incêndio pequeno num contentor. O que fazemos?

Miguel pensou. Queria responder depressa, mas lembrou-se: calma.

— Avaliar a situação — começou ele. — Ver se há pessoas. Ver o vento, se há risco de espalhar. E usar o extintor certo.

— Boa — disse o chefe Rui. — E qual é o extintor certo?

Miguel olhou para a parede, onde havia extintores de várias cores.

— Depende do tipo de fogo. — Ele falou com cuidado, como quem pisa terreno escorregadio. — Se for de papel ou madeira… água ou pó químico. Se for de eletricidade… não água. Melhor CO₂.

— Perfeito. — Rui cruzou os braços. — Água e eletricidade não combinam. E óleo de cozinha, como na chamada de hoje, também não se apaga com água. Porque…

— Porque espalha o óleo e pode fazer uma labareda maior — completou Miguel.

O Artur assobiou.

— Está quase pronto para dar aulas, Miguel. Só falta aprender a fazer isso sem ficar com a cara de quem está a fazer um teste de Matemática.

Miguel deu um sorriso torto.

— Eu tento. Mas a Matemática persegue-me.

Treinaram nós: nó direito, nó de oito, nó de volta do fiel. Miguel gostava de como os nós eram uma conversa entre as mãos e a corda: se falasses bem, ela obedecia.

Depois veio o treino de rádio.

— Comunicação clara — disse o chefe Rui. — Sem gritos. Sem novelas. Frases curtas. Confirmar mensagens.

Miguel segurou o rádio como se fosse um microfone de cantor.

“Aqui Miguel. Recebido.” — disse ele, sério demais.

O Artur inclinou-se.

— Miguel, podes dizer isso sem parecer que vais anunciar o vencedor de um concurso?

Miguel pigarreou e tentou de novo, mais natural:

— Aqui Miguel. Recebido.

— Agora sim — aprovou Rui.

No fim, sentaram-se um minuto no banco do pátio. O ar estava fresco. Miguel olhou para o céu e sentiu-se pequeno, mas num sentido bom.

— Chefe Rui — disse ele. — Às vezes tenho medo de falhar.

O chefe Rui demorou a responder, como quem escolhe palavras que não assustem.

— O medo é um alarme útil. Diz-te para prestares atenção. O problema é quando o medo manda em ti. Por isso treinamos. Por isso repetes… como é mesmo?

Miguel sorriu, e a frase saiu como uma música que ele já sabia de cor:

— Cento e doze. Um-um-dois.

— Exato — disse Rui. — Quando a cabeça está confusa, agarramo-nos ao que é certo.

Miguel ficou ali, a ouvir o silêncio, e pensou que ser bombeiro voluntário era isso: estar pronto, mas também ser humano.

Capítulo 4: A Árvore, o Drone e o Vizinho Impaciente

No dia seguinte, o turno começou com sol. A luz fazia o camião parecer ainda mais vermelho, como se estivesse corado de orgulho.

Miguel mal tinha acabado de verificar os kits de primeiros socorros quando o rádio chamou de novo:

— Alerta: objeto preso em árvore, Parque do Miradouro. Possível risco de queda. Crianças no local.

Miguel piscou os olhos.

— Objeto preso… em árvore?

O Artur encolheu os ombros.

— O mundo é criativo.

Chegaram ao parque e encontraram um grupo de miúdos a apontar para um ramo alto. Lá em cima, preso entre folhas, estava… um drone. Um drone preto, com uma hélice partida, balançando como um fruto estranho.

Uma rapariga de tranças agitava as mãos.

— Foi o meu! Eu só queria filmar o pôr do sol e… ele decidiu morar na árvore!

Um homem de braços cruzados, provavelmente um vizinho, resmungava ao lado.

— Isto é uma perda de tempo! Bombeiros para brinquedos! Daqui a pouco chamam-vos para apanhar meias no varal!

Miguel sentiu a vontade de responder torto, mas respirou. Respeito. O chefe Rui aproximou-se do homem, tranquilo.

— Compreendo que pareça pouco importante. Mas a árvore está sobre o passeio. Se o drone cair, pode acertar em alguém. E se alguém tentar subir, pode cair também.

O homem abriu a boca, fechou, e acabou por fazer um gesto pequeno com a mão.

— Pois… está bem.

Miguel olhou para a rapariga, que mordia o lábio.

— Não te preocupes — disse ele. — Vamos tentar sem magoar a árvore e sem magoar ninguém.

— E sem magoar o meu drone — acrescentou ela, muito séria.

— Vamos tentar também isso — disse Miguel, com um sorriso.

Montaram a escada com cuidado. O chefe Rui explicou enquanto trabalhavam, como se estivesse a dar uma aula ao ar livre.

— Escadas têm regras. Base firme, ângulo certo. E alguém segura sempre. Segurança primeiro.

Miguel ficou a segurar a escada. O Artur subiu, leve apesar do equipamento. Lá de cima, falou:

— Está preso num sítio chato. Preciso de uma vara.

Miguel correu ao camião e trouxe uma vara telescópica, usada para alcançar objetos e mexer em coisas sem pôr o corpo em risco.

Enquanto o Artur trabalhava, o vizinho impaciente aproximou-se, já menos carrancudo.

— Vocês fazem isto muitas vezes?

— Fazemos o que for preciso — respondeu Miguel. — Incêndios, acidentes, resgates… e às vezes drones teimosos.

O homem coçou a nuca.

— Eu… não sabia. Achei que era só apagar fogo.

Miguel aproveitou a oportunidade.

— Apagar fogo é parte. Mas também prevenimos, ajudamos, socorremos. E tentamos manter as pessoas calmas.

Como se o universo quisesse confirmar, um miúdo gritou:

— Ele vai cair! O drone vai cair!

Miguel levantou a mão.

— Calma, pessoal! Afastem-se um bocadinho, por favor. Deixem espaço.

As crianças obedeceram, e Miguel sentiu orgulho: respeito também é saber ouvir instruções.

Com um movimento cuidadoso, o Artur libertou o drone. Ele desceu devagar, como se estivesse a fazer as pazes com a terra. Miguel apanhou-o com as duas mãos.

— Resgate bem-sucedido! — anunciou Artur, do alto, como se tivesse salvado um rei.

A rapariga de tranças recebeu o drone como quem recebe um animal de estimação.

— Obrigada! Prometo que… vou treinar longe das árvores.

O vizinho pigarreou.

— Olhem… desculpem lá o que eu disse. Vocês têm paciência.

O chefe Rui sorriu.

— Paciência é equipamento invisível. Mas é dos mais importantes.

No caminho de volta, Miguel repetiu, baixinho, como um hábito que o mantinha firme por dentro:

— Cento e doze. Um-um-dois.

Capítulo 5: A Noite do Cheiro a Fumo que Não Existia

Quando a noite chegou, o quartel ficou mais silencioso. Miguel estava a preencher uma ficha de material quando alguém bateu à porta. Era um senhor idoso, de chapéu, com os olhos inquietos.

— Boa noite… desculpem incomodar — disse ele. — Sinto cheiro a fumo em casa. Mas não vejo fogo. E isso assusta-me.

Miguel deu um passo à frente, mas o chefe Rui fez sinal para irem juntos. Respeito também era não tratar ninguém como “exagerado”.

— Fez bem em vir — disse Rui. — Vamos consigo ver o que se passa. E se sentir perigo imediato, sabe qual é o número.

Miguel respondeu ao mesmo tempo, como se fosse um eco bem treinado:

— Cento e doze.

O senhor respirou um pouco melhor.

Foram até à casa, a duas ruas do quartel. A sala estava arrumada, cheirava a cera de madeira… e, sim, havia um leve cheiro a queimado, como torrada esquecida.

Miguel observou. Não havia fumo visível, mas o cheiro era insistente. O chefe Rui começou a fazer perguntas simples:

— Tem aquecedor ligado? Tomadas antigas? Algum aparelho a chiar?

— Tenho uma extensão atrás da televisão — disse o senhor. — E ontem ela fez um estalinho.

O chefe Rui ajoelhou-se e pediu uma lanterna. Miguel iluminou o canto, e viu a extensão: estava quente e um pouco escurecida.

— Isto pode aquecer demais — explicou Rui, com voz calma. — Às vezes não há chamas, mas há sobreaquecimento. E isso é perigoso.

Miguel sentiu um arrepio. A palavra “perigoso” era uma campainha.

Rui desligou a extensão da tomada, e Miguel abriu as janelas para arejar.

— O que devo fazer? — perguntou o senhor, com as mãos a tremer.

— Primeiro, não usar mais esta extensão — disse Rui. — Segundo, evitar ligar muitos aparelhos na mesma tomada. Terceiro, se tiver dúvidas, chamar um eletricista. E sempre que sentir cheiro a queimado, não ignore.

Miguel completou, com cuidado para não soar mandão:

— E se algum dia vir fumo ou fogo, ou sentir que está a piorar… cento e doze.

O senhor olhou para Miguel como se o número fosse uma chave.

— Cento e doze — repetiu ele, devagar. — Vou escrever num papel.

— Escreva e cole no frigorífico — sugeriu Miguel. — O frigorífico guarda comida… e recados importantes.

O senhor deu uma risadinha.

— Boa ideia. O meu frigorífico vai ser mais sábio do que eu.

De volta ao quartel, Miguel sentiu algo diferente: nem todos os “salvamentos” tinham sirenes. Às vezes era só evitar que um problema nascesse.

O chefe Rui bateu-lhe no ombro.

— Hoje aprendeste prevenção. Nem sempre se apaga um incêndio. Às vezes impede-se que ele comece.

Miguel assentiu. E, antes de se deitar no beliche, repetiu mais uma vez, quase como uma oração pequena:

— Um-um-dois. Cento e doze.

Capítulo 6: O Despertar Calmo e a Frase Final

A madrugada trouxe um chamado curto: um pequeno acidente sem feridos, só uma limpeza de óleo na estrada para evitar derrapagens. Miguel ajudou a sinalizar o local, colocou cones, explicou a um condutor nervoso como contornar com cuidado.

— Obrigado — disse o condutor. — Eu estava a tremer.

— É normal — respondeu Miguel. — Mas agora está seguro. Vá devagar.

Quando regressaram, o céu já clareava. O quartel cheirava a café e detergente, mistura estranha mas reconfortante. Miguel guardou as luvas, limpou o capacete e ficou um instante a olhar para o casaco pesado, pendurado, quieto como se estivesse a dormir.

Pensou na senhora e no gato Pingo, na rapariga do drone, no vizinho impaciente que afinal só precisava de entender, no senhor do cheiro a fumo que não existia… ainda.

O chefe Rui passou por ele.

— Bom turno, Miguel.

Miguel sorriu, cansado e feliz, com a calma boa de quem fez o que podia.

— Chefe… acho que estou a aprender a ser rápido com calma.

Rui assentiu.

— E a respeitar em todas as direções. É assim que se cresce.

Miguel inspirou. No fundo da cabeça, o número brilhava, firme como uma luz de emergência:

— Cento e doze.

Depois desligou as luzes do corredor, subiu para o quarto e deitou-se. Fechou os olhos com o som distante da cidade a adormecer outra vez.

Hoje, ele pensou, sem pressa e sem barulho, «hoje, ajudei».

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Quartel
Lugar onde ficam os bombeiros e os seus veículos e equipamentos.
Mangueiras
Tubos flexíveis que levam água para apagar incêndios.
Extintores
Aparelhos portáteis que lançam produto para apagar pequenos fogos.
Extintor
Aparelho portátil usado para apagar um fogo pequeno.
Ventilar
Abrir janelas ou portas para deixar o fumo e o cheiro saírem.
Ventilação
A ação de criar correntes de ar para limpar o fumo.
Traiçoeiro
Algo perigoso porque engana e parece mais calmo do que é.
Simulação rápida
Exercício onde se pratica uma situação de perigo sem risco real.
Nó de oito
Tipo de nó forte e seguro, usado para amarrar cordas.
CO₂
Gás usado em alguns extintores para apagar fogo sem molhar.

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