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História de Bombeiro 11 a 12 anos Leitura 14 min.

A bombeira Marta e o Rui: coragem com calma em Vale Sereno

Na aldeia de Vale Sereno, a bombeira Marta e o estagiário Rui enfrentam pequenos incêndios e aprendem, entre missões e treinos, lições de prevenção, trabalho em equipa e autocontrolo.

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Bombeira Marta, rosto determinado, cabelo castanho preso, farda vermelha e amarela, segura um extintor de pó e apaga um pequeno monte de ramos em chamas; ao lado, o aprendiz Rui, ~17 anos, expressão admirativa, mancha de chocolate na bochecha e jaqueta grande, observa segurando uma mangueira; o senhor Anselmo, ~65 anos, bigode, levanta as mãos aliviado junto à entrada do celeiro de madeira com porta vermelha entreaberta; estrada rural com muros de pedra e pinheiros, fumaça cinza, chão de terra, alguns gerânios e ferramentas; cena calma e controlada, pó branco sufocando chamas fracas, gotas de água, luz dourada de fim de tarde, estilo gráfico de linhas nítidas e cores quentes, foco em Marta. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O silêncio do quartel e o cheiro a pinheiros

Na aldeia de Vale Sereno, o quartel dos bombeiros não era um prédio enorme com sirenes a berrar o dia todo. Era uma casa robusta, com portas vermelhas largas, sempre a cheirar a borracha de mangueiras e a pinheiros molhados. Ali, o barulho mais comum era o do relógio da parede, teimoso e pontual.

A bombeira Marta ajustou o cabelo num coque rápido e passou o dedo pela lista de tarefas presa ao quadro:

— Verificar rádio. Conferir kit de primeiros socorros. Testar bomba de água. Limpar viseira do capacete.

O Rui, estagiário do verão (e campeão em perder as luvas), apareceu com um ar muito sério… para quem tinha uma mancha de chocolate no canto da boca.

— Marta, eu juro que não fui eu que trouxe bolachas para o camião. Elas… apareceram.

Marta ergueu uma sobrancelha, divertida.

— As bolachas têm um talento incrível para aparecerem onde não devem. Tal como as tuas luvas.

Ele riu, e o riso dele encheu o quartel como uma luz pequena. Marta gostava disso: um pouco de humor deixava tudo mais leve, mas sem tirar o respeito pelo trabalho.

Ela apontou para a prateleira.

— Hoje vais aprender uma coisa importante, Rui: bombeiro de campanha não é só apagar fogos. É prevenir, ajudar, proteger e manter a cabeça fria. A aldeia confia em nós.

Rui endireitou-se, quase militar.

— Cabeça fria. Entendido.

Nesse momento, o rádio crepitou, baixinho, como se estivesse a pigarrear:

“Equipa de Vale Sereno, atenção. Possível incêndio pequeno junto ao celeiro do Sr. Anselmo. Fumo visto por vizinhos. Confirmem situação.”

Marta não correu a gritar. Respirou fundo, uma vez, como quem arruma os pensamentos numa gaveta.

— Vamos, Rui. E lembra-te: rapidez com calma. O pânico é fogo que não se vê.

Capítulo 2 — Sirene curta, olhos atentos

A carrinha vermelha avançou pela estrada estreita, ladeada por muros de pedra e giestas. A sirene tocava em modo curto, respeitosa: em aldeia, os sons também têm de saber viver em paz.

Marta conduzia com firmeza. Rui, ao lado, prendia o cinto e tentava parecer útil.

— O que fazemos primeiro quando chegamos? — perguntou ele, ansioso.

— Observamos. — Marta apontou com o queixo para a curva à frente. — Procuramos a origem do fumo, o tipo de material a arder e, acima de tudo, pessoas. O fogo pode esperar um segundo; uma pessoa, não.

Quando chegaram ao celeiro, o fumo era real, mas não assustador: subia em fios cinzentos, como se alguém estivesse a cozinhar sopa para gigantes distraídos. O Sr. Anselmo, um senhor de bigode farto, agitava os braços.

— Graças a Deus! Eu só queria queimar uns ramos… e o vento fez-se esperto!

Marta manteve a voz calma, que parecia um cobertor.

— Sr. Anselmo, afaste-se um pouco. Rui, corta a zona: nada de curiosos perto. E lembra-te do que falámos: primeiro, segurança.

Rui foi, meio atrapalhado, mas decidido.

— Pessoal, para trás, por favor! — disse a dois vizinhos que espreitavam como se fosse uma novela.

Marta avaliou: havia um montinho de ramos a arder perto de palha seca. Isso podia crescer depressa.

— Rui, traz o extintor de pó químico. Eu vou com a mangueira, mas pode nem ser necessário gastar água do depósito.

Rui arregalou os olhos.

— Extintor? Pensei que era sempre mangueira e pronto.

— Depende. — Marta agachou-se, pegou no extintor e mostrou-lhe a etiqueta. — Este serve para fogo de materiais sólidos e líquidos inflamáveis. Mas atenção: nunca apontes para a chama de cima para baixo como se estivesses a varrer chão. Apontas para a base do fogo, em movimentos laterais, como se estivesses a pintar uma faixa.

Rui segurou o extintor com as duas mãos, como se fosse um instrumento musical pesado.

— Pintar o fogo. Entendi… mais ou menos.

— Eu faço a primeira descarga, tu observas. Depois trocamos.

Marta puxou o pino, pressionou a alavanca e uma nuvem branca abafou o brilho alaranjado. O fogo encolheu, zangado, até virar só fumo. Ela não se apressou a declarar vitória; esperou, observou e mexeu nos ramos com uma pá.

— O fogo é teimoso. Às vezes finge que acabou para voltar quando ninguém olha.

Rui olhou para o montinho, impressionado.

— Parece um bicho a dormir.

— É. E nós somos os guardas do sono dele.

Capítulo 3 — O treino que salva antes do perigo

Quando o celeiro ficou seguro, Marta não foi embora como se tivesse terminado. Ela caminhou com o Sr. Anselmo até um balde de água e pediu-lhe para molhar a zona ao redor.

Prevenção, Sr. Anselmo. Um círculo húmido ajuda a travar o fogo. E da próxima vez, nada de queimas em dia de vento. Pode parecer só uma brisa, mas para o fogo é um convite.

O Sr. Anselmo coçou a cabeça.

— Eu achei que o vento era meu amigo…

Marta sorriu.

— O vento é amigo de quem não tem pressa. Para o fogo, é um atalho.

De volta ao quartel, Rui não conseguia ficar quieto. Queria perguntar tudo: sobre mangueiras, sobre o rádio, sobre o fato resistente.

Marta decidiu aproveitar aquela energia.

— Hora de treino. Hoje aprendes três coisas: equipamentos, comunicação e autocontrolo.

Ela abriu o armário do material. Cada coisa tinha um lugar, como num jogo de encaixar.

— Este é o EPI: Equipamento de Proteção Individual. Capacete, viseira, luvas, casaco e calças resistentes, botas e, quando é preciso, máscara. Nada disto é “fantasia”. É a diferença entre trabalhar e te magoares.

Rui tocou no casaco com cuidado.

— É pesado.

— É. E por isso treinamos. — Marta passou-lhe uma mangueira enrolada. — Agora, aprende a “linha”: desenrolar sem dar nós. Um nó numa mangueira é como uma garganta apertada: a água não passa bem.

Rui tentou desenrolar e… a mangueira fez uma cobra de borracha que se enrolou no tornozelo dele. Ele quase caiu.

— Ela não gosta de mim!

Marta riu baixinho.

— Ela respeita quem a respeita. Olha: roda o corpo, não puxes só com os braços. Usa as pernas. E mantém a calma. A pressa dá nós.

Rui respirou fundo e repetiu, mais devagar. Desta vez, a mangueira obedeceu.

— Uau. Funciona mesmo.

— A maioria das coisas funciona melhor quando tu também funcionas melhor. — Marta apontou para o rádio. — Comunicação: frases curtas, claras. Diz o que vês, onde estás e o que precisas. Não inventes heroísmos no microfone.

Rui pegou no rádio e imitou uma voz grave:

“Aqui o super-bombeiro Rui, salvador de aldeias!”

Marta cruzou os braços, teatralmente séria.

“Aqui a comandante Marta, confiscadora de rádios.” — Depois piscou-lhe um olho. — Faz como deve ser.

Ele endireitou-se.

“Aqui Rui, no pátio do quartel. A testar comunicação. Tudo ok.”

— Perfeito. — Marta assentiu. — Autocontrolo: quando a adrenalina sobe, tu baixas a respiração. Inspiras pelo nariz, soltas devagar. A mente precisa de espaço para pensar.

Rui repetiu, e o corpo dele pareceu acalmar.

— É tipo… pôr o coração em modo silencioso.

— Exatamente.

Capítulo 4 — O incêndio que quase começou com uma torradeira

Já era fim de tarde quando o rádio voltou a chamar:

“Vale Sereno, deslocar à Casa da Dona Alzira. Cheiro intenso a queimado e fumo na cozinha.”

Rui abriu a boca:

— Isso é incêndio grande?

— Pode ser pequeno e perigoso na mesma. — Marta pegou no capacete. — Em casa, o fumo enche tudo rápido. Vamos.

A casa da Dona Alzira era baixa, com gerânios na janela. Quando chegaram, a porta estava aberta e a senhora, de avental, abanava um pano como se pudesse expulsar o fumo à teimosia.

— Eu só pus a torrada um bocadinho mais… e fui atender o telefone… e depois… ai, meu Deus!

Marta aproximou-se com calma.

— Dona Alzira, a senhora está bem? Saiu toda a gente?

— Estou, estou. Só eu e o meu gato, o Capitão Sardinha.

Rui cochichou:

— Esse gato tem patente?

— Tem cara de comandante, pelo menos. — Marta baixou a voz. — Rui, segurança: corta eletricidade. Eu vou ver a fonte do fumo.

Dentro, o ar estava cinzento. Marta manteve-se baixa, porque o fumo sobe.

— Aprende isto: em fumo, respiras mais perto do chão e procuras a saída sempre. Nunca te perdes da porta.

Rui foi ao quadro elétrico e desligou a chave geral, como Marta ensinara no treino. Depois chamou:

— Eletricidade cortada!

Na cozinha, a torradeira tinha virado uma pequena chaminé. Não havia chamas grandes, mas a fumaça era grossa.

Marta tapou a torradeira com uma tampa metálica, retirando oxigénio, e depois usou um pano húmido, com cuidado.

— Às vezes, apagar é tirar ar. Sem oxigénio, o fogo desiste.

Rui olhava como se estivesse a ver magia científica.

— Então… não é sempre jogar água?

— Água em eletricidade ligada pode dar choque. Por isso cortaste a luz. Trabalho em equipa.

Dona Alzira apareceu à porta da cozinha, aflita.

— E o Capitão Sardinha?

Um miado saiu debaixo da mesa, ofendido, como se dissesse “Eu estava a fazer inspeção!”

Rui ajoelhou-se devagar.

— Vem cá, Capitão. Não é hora de exercícios secretos.

O gato saiu com dignidade, mas espirrou uma vez, teatral.

Marta deixou escapar um sorriso.

— Está salvo, Dona Alzira. E agora vamos arejar a casa.

Abriram janelas, criaram corrente de ar e conferiram se não havia pontos quentes escondidos.

Marta explicou à Dona Alzira, com delicadeza:

— Nunca deixe comida no fogo ou na torradeira sem supervisão. E se houver fumo, primeiro sai, chama ajuda e só depois tenta resolver. A sua segurança vale mais que qualquer torrada.

Dona Alzira suspirou, aliviada.

— A partir de hoje, torradas só com vigilância. E telefone… só depois do pequeno-almoço.

Rui, lá fora, comentou baixinho:

— Missão: salvar pessoas, casas e… pequenos-almoços.

— Exato — disse Marta. — E sem perder a calma.

Capítulo 5 — A noite no quartel e a lição que fica

De volta ao quartel, a aldeia já estava a ficar silenciosa. As luzes das casas pareciam vagalumes presos em frascos.

Marta guardou o material com o mesmo cuidado com que alguns guardam cartas importantes. Rui ajudou, agora sem se atrapalhar tanto. Até encontrou um par de luvas… que não eram dele.

— Olha, luvas! — comemorou.

Marta examinou.

— Essas são do Tiago. Se ele souber que pegaste nelas, vai dizer que as luvas escolheram um novo dono.

Rui pousou-as depressa, como se queimassem.

— Então… não escolhem. Voltam para o lugar.

Marta sentou-se no banco e tirou o capacete. A luz do teto refletiu na viseira, mostrando manchas de pó e marcas do dia. Ela pegou num pano macio e começou a polir, devagar, até o capacete ganhar brilho de novo.

Rui observou, curioso.

— Por que faz isso agora?

— Porque cuidar do equipamento é cuidar de quem o vai usar. — Marta continuou a polir. — E também porque me ajuda a abrandar. Depois de uma ocorrência, o corpo ainda quer correr. Polir o capacete é como dizer ao cérebro: “Já passou. Agora voltamos ao equilíbrio.”

Rui sentou-se ao lado, mais quieto do que nunca.

— Hoje eu senti o coração disparar… mas lembrei-me da respiração. Funcionou.

Marta assentiu, satisfeita.

— Autocontrolo não é ser de pedra. É sentir tudo e mesmo assim escolher o que fazer.

Ela terminou. O capacete estava tão brilhante que Rui via o próprio rosto nele, um pouco torto, como num espelho divertido.

— Estou engraçado aí dentro — disse ele.

— Ótimo. Se um dia o medo te deixar sério demais, lembra-te desse reflexo.

Marta levantou-se e colocou o capacete na prateleira certa, com um gesto respeitoso. Depois apagou algumas luzes, deixando apenas uma lâmpada pequena no corredor.

Do lado de fora, o vento passava entre os pinheiros, agora manso. Marta ficou um instante à porta do quartel, ouvindo a aldeia respirar.

Sem dizer nada, fez um pequeno voto silencioso: que as noites em Vale Sereno fossem tranquilas, que o fogo ficasse apenas nas lareiras e nas histórias, e que todos acordassem seguros no dia seguinte.

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Quartel
Lugar onde trabalham os bombeiros e onde guardam os equipamentos e viaturas.
Mangueiras
Tubos flexíveis que levam água desde o veículo até ao fogo para apagar.
Viseira
Peça transparente do capacete que protege os olhos e o rosto do calor e fumo.
EPI
Sigla para equipamento que protege o corpo: capacete, casaco, luvas e botas.
Equipamento de Proteção Individual
Conjunto de roupas e objetos que impedem ferimentos no trabalho perigoso.
Autocontrolo
Capacidade de manter a calma e pensar bem, mesmo em situações stressantes.
Prevenção
Conjunto de ações para evitar que acidentes ou fogos aconteçam.
Extintor de pó químico
Aparelho portátil que liberta pó para apagar chamas pequenas rapidamente.
Oxigénio
Gás no ar que as pessoas respiram e que também alimenta o fogo.
Chaminé
Abertura por onde sai fumo; aqui usada para dizer que a torradeira fumava muito.
Corrente de ar
Movimento do ar entre janelas que ajuda a arejar e a tirar o fumo.
Adrenalina
Substância que o corpo produz em situações de medo, que acelera o coração.

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