Parte 1 – O primeiro inverno da Lia
Lia tinha três anos e umas bochechas muito redondas.
Ela morava num prédio baixinho, com uma janela grande no quarto.
Um dia, Lia acordou e sentiu algo diferente.
O quarto estava um pouco mais escuro, mesmo de manhã.
Ela correu até a janela, descalça, e olhou para fora.
Tudo estava branco.
O chão estava branco.
Os telhados estavam brancos.
Até as árvores, que antes eram verdes, agora tinham um cobertor branco nas folhas.
Lia apertou o nariz no vidro frio.
— Mamãe, caiu tinta branca na rua? — perguntou.
A mãe riu e veio abraçá‑la por trás.
— Não, filhinha. Isso é neve. É o inverno.
— Inverno… — repetiu Lia, devagar, como se experimentasse a palavra na boca.
Lá fora, o céu estava clarinho, quase cinza.
Parecia que tinha sono também.
Lia estava com um pouquinho de medo.
Nunca tinha visto tudo tão diferente.
— Mamãe, a neve é brava? — perguntou, baixinho.
A mãe fez um carinho no cabelo dela.
— Não, meu amor. A neve é fria, mas é macia. E nós vamos nos agasalhar bem. Vai ficar tudo quentinho.
Lia respirou fundo.
Se a mãe estava calma, ela podia ficar calma também.
Parte 2 – A amiga da varanda
No andar de cima, morava Dona Rosa.
Dona Rosa era uma senhora de voz doce, que usava óculos escuros mesmo dentro de casa.
Ela não enxergava com os olhos, mas enxergava muitas coisas com o coração.
Lia gostava dela.
Sempre que passava, dizia:
— Oi, Dona Rosa!
E a senhora respondia:
— Oi, minha flor! Como está o mundo hoje?
Naquele dia de neve, Lia e a mãe subiram para levar um bolo quentinho para Dona Rosa.
Lia segurava a forma com muito cuidado.
Quando entraram, a casa parecia um ninho: quentinha e cheirosa.
Cheiro de chá, de bolo e de cobertor limpinho.
— Bom dia, Dona Rosa! — disse a mãe.
— Bom dia, minhas queridas! — respondeu a senhora. — Está frio lá fora, não é?
Lia se aproximou da janela da sala de Dona Rosa.
A janela estava fechada, mas deixava passar um pouquinho de luz clara.
— Está tudo branco — contou Lia.
Dona Rosa sorriu.
— Branco… você pode me contar como é esse branco, Lia? Eu não vejo a neve, mas posso escutar você.
Lia virou o corpo inteiro para a janela, pensativa.
Ela queria explicar bem.
— É assim… — começou. — Sabe quando a gente coloca açúcar em cima do bolo?
— Sei, sim — respondeu Dona Rosa. — Fica branquinho e doce.
— Então… lá fora parece que alguém jogou açúcar em tudo! Mas não é doce. É frio. E fofinho.
Dona Rosa riu baixinho.
— Açúcar frio… gostei disso.
Lia continuou:
— O chão ficou todo macio. O carro do papai parece um bolo grande. E as árvores estão usando casaco branco. As folhas quase não aparecem.
— Casaco branco nas árvores — repetiu Dona Rosa. — Que bonito.
Nesse momento, Lia teve uma ideia.
— Mamãe, a gente pode fazer um desenho pro inverno?
— Um desenho? — A mãe sorriu. — Podemos, sim.
— Mas eu também quero “ver” o desenho — disse Dona Rosa. — Será que dá para fazer um desenho que eu possa sentir com as mãos?
Lia ficou muito animada.
— Dá! A gente faz um quadro de inverno com coisas que dá pra tocar!
Parte 3 – Criando o inverno com as mãos
Na cozinha de Dona Rosa, a mãe de Lia pegou uma cartolina grossa.
Lia começou a procurar coisas pela casa.
Achou algodão no armário do banheiro.
Um novelo de lã branca na sala.
Alguns botões redondos numa caixinha.
— Mamãe, o algodão pode ser a neve!
— Boa ideia — disse a mãe. — E a lã pode ser o cachecol.
— E os botões… podem ser as janelas dos prédios — completou Lia.
As três sentaram à mesa.
A mãe colocava cola.
Lia colava o algodão em nuvens fofas.
Dona Rosa tocava devagar.
— Hum… isso aqui é a neve? — perguntava.
— É, é a neve! — dizia Lia. — Aqui é a rua, bem fofinha. Aqui é a árvore com casaco branco. E aqui… — Lia colocou a lã desenhando uma linha — …é o cachecol de uma criança.
— Que criança? — perguntou Dona Rosa, curiosa.
Lia pensou um pouquinho.
— Pode ser eu. Ou pode ser outra criança. Uma que gosta do inverno.
Dona Rosa passou as mãos pelo quadro de neve.
Seu rosto estava calmo.
— Eu posso sentir tudo — disse ela. — A rua macia, a árvore, o cachecol. Você me fez ver o inverno com as mãos, Lia.
Lia ficou muito orgulhosa.
Seu peito parecia quentinho por dentro, como se tivesse um cobertor ali.
— Dona Rosa, você é diferente de mim, né? — perguntou Lia. — Você não vê com os olhos.
— É, eu sou um pouco diferente — respondeu a senhora, com carinho. — E você é diferente de mim. E isso é muito bom.
Lia olhou para o quadro que estavam fazendo juntas.
— Acho que o inverno também é diferente das outras estações — disse. — No verão é tudo colorido. No inverno é tudo branco. Mas os dois são bonitos.
A mãe sorriu.
— É verdade, Lia. Ninguém precisa ser igual ao outro para ser bonito e especial.
Lia pensou nas crianças da escola.
Algumas eram mais altas, outras mais baixas.
Tinha cabelo liso, cabelo enrolado, gente que corria rápido, gente que gostava de ficar desenhando.
Ela mesma era pequena, com passos curtinhos.
Às vezes queria ser como as outras crianças.
Mas ali, ajudando Dona Rosa a “ver” o inverno, sentiu que ser Lia era bom.
— Eu não preciso ser igual a todo mundo, né? — perguntou.
— Não precisa — respondeu a mãe. — Você só precisa ser a Lia. E isso já é muito.
— E eu também não preciso enxergar como todo mundo — completou Dona Rosa. — Porque agora tenho você para me contar as cores e os invernos.
Quando terminaram, o quadro de inverno ficou cheio de algodão, lã e botões.
Não era igual a nenhum outro quadro.
Era especial, porque tinha sido criado juntas.
— Nosso quadro é bonito, mesmo sendo diferente — disse Lia, encostando o rosto no algodão macio.
— Justamente por ser diferente — respondeu Dona Rosa.
Lá fora, o dia começava a escurecer, mesmo sendo cedo.
O inverno deixava o céu mais rápido escurinho.
Mas dentro da casa, tudo era claro e quentinho.
Lia bocejou.
— Acho que estou com sono de inverno — falou, rindo.
A mãe a pegou no colo.
— Vamos para casa, minha pequena artista.
Lia deu um último abraço em Dona Rosa.
— Amanhã eu te conto mais coisas brancas, tá?
— Eu vou esperar — disse Dona Rosa. — Boa noite, minha flor de inverno.
Voltando para o seu quarto, Lia olhou de novo pela janela.
A neve ainda cobria tudo.
Mas agora ela não tinha mais medo.
Sabia que o inverno podia ser frio lá fora,
mas também podia ser muito, muito quentinho
quando a gente criava coisas bonitas
juntinho de quem a gente gosta.