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Conto africano 11 a 12 anos Leitura 14 min.

Duas mangas iguais, uma paz na aldeia

Sali procura uma manga para oferecer no conselho da aldeia e, ao escolher com cuidado, enfrenta dilemas sobre partilha, orgulho e reconciliação, enquanto personagens do pomar a ajudam a decidir.

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Sali, mulher de ~30 anos, rosto redondo e expressivo, pele cor de terra vermelha, cabelos trançados em coroa, sorri suavemente e estende duas mangas quase idênticas ao centro do círculo. Dona Kena, idosa (~60), pele morena, vestida com pagne, sentada à esquerda numa esteira, observa a manga com surpresa e ternura. Tio Bamba, homem idoso (~65), barba curta grisalha e chapéu simples, em pé à direita com um feixe de ramos, tem a expressão suavizada ao olhar Sali. Um menino de ~8 anos, cabelo crespo curto, olhos brilhantes, sentado em primeiro plano numa esteira, observa curioso com leve sorriso. Um pequeno lagarto verde numa raiz da grande mangueira olha para Sali como em aprovação. Lugar: praça da aldeia sob uma mangueira antiga de tronco largo e fenda, folhas densas filtrando a luz dourada do crepúsculo, esteiras dispostas em círculo e casas de terra com telhado de palha ao fundo. Situação principal: Sali oferece duas mangas idênticas no centro do conselho como gesto de partilha e reconciliação; atmosfera acolhedora ao pôr do sol, cores quentes (ocre, laranja, verde profundo), sombras longas e expressões serenas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O pomar que cheirava a sol

Dizem os velhos, e eu repito como se fosse tambor: onde há manga madura, há promessa escondida. E num canto de África Ocidental, onde a terra é vermelha como panela de barro e o vento assobia histórias, vivia Sali, uma mulher feita de coragem e risos curtos.

Sali atravessava o caminho poeirento com uma cesta na cabeça, e cada passo dela parecia dizer: “Hoje, sim. Hoje, eu escolho.” Era um desejo simples, tão simples que cabia na palma da mão: escolher a manga certa para oferecer no conselho da aldeia, onde se faria as pazes entre duas famílias que andavam de cara fechada havia semanas.

O pomar de mangueiras era como uma sala verde sem teto. As folhas faziam sombra em forma de renda, e as mangas pendiam como pequenos sóis, douradas, avermelhadas, algumas com manchas como sardas. Os pássaros, atrevidos, discutiam lá em cima:

— Essa é minha!

— Nada disso, eu vi primeiro!

Sali riu sozinha. “Até os pássaros brigam por pouca coisa”, pensou, e o pensamento virou um espelho: “E nós também.”

No centro do pomar, um tronco antigo, grosso, cheio de marcas, parecia a coluna vertebral do lugar. Sali encostou a mão nele, com respeito.

— Mangueira velha, mangueira sábia… mostra-me uma escolha que não fira ninguém.

O vento respondeu com um farfalhar, como se a árvore estivesse a limpar a garganta antes de falar.

Capítulo 2 — A manga de ouro e a manga de sombra

Sali caminhou entre as árvores, observando. Havia uma manga grande, brilhante, com perfume forte; parecia rir para ela. Havia outra, mais pequena, meio escondida por folhas, com cor discreta, quase tímida.

“Escolher é simples”, dizia a voz apressada dentro dela. “Pega a mais bonita. Quem não gosta do que brilha?” Mas outra voz, a que fala devagar, perguntou: “E se a mais bonita for motivo de disputa?”

Porque Sali sabia: quando o conselho se reunisse, estariam lá Dona Kena, da família do rio, e Tio Bamba, da família do caminho. E os dois tinham brigado por causa de uma cerca de capim e um galho caído. Pequena coisa, mas que virou pedra no coração.

Sali esticou a mão para a manga brilhante. Nesse instante, ouviu um “ai!” fininho, quase como riso de criança.

— Quem falou? — perguntou ela, olhando ao redor.

Do meio das raízes, saiu um lagarto magro, com olhos vivos como sementes de pimenta.

— Fui eu, minha senhora. Não pisa no meu rabo, que ele não é corda de amarrar cabra! — disse o lagarto, ofendido e engraçado.

Sali recuou, surpresa.

— Desculpa, pequeno. Estás bem?

— Estou inteiro, graças à poeira que me avisou. — O lagarto sacudiu-se e apontou com o focinho para as mangas. — Vais escolher uma, não vais? Mas cuidado: há mangas que trazem mel e há mangas que trazem abelhas.

Sali franziu a testa.

— Uma manga pode trazer briga?

O lagarto piscou.

— Tudo o que é doce pode chamar boca demais. E boca demais chama palavra dura. Palavra dura chama orgulho. E orgulho… ah, orgulho é pedra que não aprende a dançar.

Sali respirou fundo. A escolha parecia simples, mas o simples, às vezes, esconde um nó.

Capítulo 3 — O conselho das folhas e o segredo do riso

Sali sentou-se na sombra, e a cesta ficou ao lado como um cachorro obediente. O lagarto subiu numa raiz e falou como se fosse ancião.

— Conta-me, Sali: por que duas famílias não se olham?

— Por causa de um galho e de uma cerca — respondeu ela. — O galho caiu do lado do caminho e derrubou a cerca do rio. A família do rio disse: “Foi de propósito.” A família do caminho disse: “Foi o vento.” E pronto. O vento ficou com fama de mentiroso.

O lagarto soltou um riso que parecia pedrinha caindo na água.

— O vento não mente. Ele só não se explica.

Sali coçou o queixo.

— Quero oferecer uma manga no conselho. Uma só. Para mostrar que dá para partilhar. Mas se eu escolher a maior, vão dizer que favoreço alguém. Se eu escolher a menor, vão dizer que estou a brincar com o assunto.

As folhas acima mexeram-se, e o som parecia um coro: shhh-shhh, shhh-shhh. Sali, com a cabeça cheia de pensamentos, ouviu como se fosse uma resposta.

— Talvez eu não deva escolher pelo tamanho — murmurou. — Talvez eu deva escolher pelo gesto.

O lagarto inclinou a cabeça.

— Gesto é caminho. Caminho leva a casa.

Sali olhou as mangas como quem olha duas portas. A brilhante, no alto, era fácil de ver e difícil de alcançar. A discreta, mais baixa, estava ali, perto, quase oferecendo a mão.

De repente, um macaco apareceu, pendurado num galho, com cara de quem sabe tudo e não sabe nada.

— Oh, Sali! Vais escolher manga? Eu ajudo! — disse ele, já esticando o braço.

— Ajuda como? — perguntou ela, desconfiada.

— Eu pego a maior e… hum… provo um pedacinho para garantir que está boa! — O macaco sorriu, sem vergonha.

Sali soltou uma gargalhada.

— Tu és como problema: apareces sem ser chamado.

O macaco fez uma reverência teatral.

— E tu és como solução: demora, mas chega.

O lagarto bufou.

— Macaco, vai treinar humildade noutro ramo.

O macaco fingiu ofensa, mas ficou ali, curioso. Sali percebeu: até na brincadeira havia lição. Quem quer a “maior” parte nem sempre quer o bem do grupo.

Capítulo 4 — A escolha simples que virou ponte

Sali levantou-se. Não escolheu a manga brilhante nem a discreta. Olhou para o tronco antigo e viu uma fenda, como uma boca pequena. Dentro, havia duas mangas quase iguais, escondidas lado a lado, como irmãs.

— Ah… — Sali sussurrou. — A árvore guardou duas.

O lagarto bateu a cauda no chão, satisfeito.

— Quando a vida quer reconciliação, ela deixa pistas.

Sali pegou as duas mangas com cuidado, como quem segura dois corações. Não eram as maiores, nem as mais pequenas. Eram parecidas, com o mesmo peso na mão, o mesmo brilho humilde.

O macaco desceu um pouco.

— Vais levar duas? Mas disseste que era uma só!

Sali sorriu.

— O meu desejo era fazer uma escolha simples. E a escolha simples é esta: não vou escolher uma família contra a outra. Vou escolher equilíbrio.

Ela colocou as duas mangas na cesta e amarrou um pano por cima, como quem guarda segredo bom. Depois, caminhou para a aldeia. O sol acompanhou-a como um guardião, e o vento, que não se explica, parecia assobiar: “Vai, vai, vai.”

No caminho, Sali encontrou Dona Kena, com um balde na mão, e mais adiante viu Tio Bamba, com um feixe de ramos. Quando os dois se viram, os olhos ficaram duros, como caroço de manga.

Sali entrou no meio, sem pressa, como quem entra num rio para acalmar a água.

— Boa tarde, Dona Kena. Boa tarde, Tio Bamba.

— Boa tarde — responderam, cada um para um lado, sem se olhar.

Sali apontou para o pomar ao longe.

— A mangueira velha deu-me duas mangas iguais. Duas. E eu pensei: se a árvore não brigou com o vento, por que nós brigamos com o galho?

Dona Kena franziu a testa.

— O galho derrubou a minha cerca.

Tio Bamba apertou os ramos.

— O vento derrubou o galho. Eu não mandei o vento.

Sali levantou a mão, como quem segura uma história para não cair.

— E se, em vez de procurar culpado, procurarmos conserto? A cerca pode ser refeita. Mas palavra dura… palavra dura demora mais a endireitar.

Os dois ficaram calados. O silêncio, às vezes, é o chão onde a paz começa a brotar.

Capítulo 5 — No círculo do conselho, a língua aprende a ser macia

À tardinha, o conselho reuniu-se debaixo da árvore grande da praça. Os anciãos sentaram-se em esteiras, as crianças ficaram por perto como passarinhos curiosos, e o fogo do centro fazia sombras dançarem.

Sali colocou a cesta no meio do círculo. Todos olharam como se a cesta fosse um tambor prestes a falar.

O ancião mais velho, com voz de areia e mel, perguntou:

— Sali, o que trazes?

Sali ajoelhou-se e abriu o pano. As duas mangas apareceram, irmãs de cor e forma. Um “oh” correu pelo círculo, como vento numa plantação.

— Trago uma escolha — disse ela. — Uma escolha simples, mas com dois braços. Trago duas mangas iguais, para duas mãos. Para que ninguém diga: “Ela deu mais a um.” E para que alguém diga: “Ela lembrou que partilhar é mais forte do que ganhar.”

Dona Kena e Tio Bamba estavam ali, em lados opostos. Sali pegou uma manga e foi até Dona Kena.

— Esta é para a família do rio. Para lembrar que água corre, mas não guarda rancor.

Depois pegou a outra e foi até Tio Bamba.

— Esta é para a família do caminho. Para lembrar que caminho existe para aproximar, não para separar.

Tio Bamba olhou a manga, depois olhou Dona Kena. O orgulho dele, pedra antiga, mexeu-se um pouco, como se quisesse aprender a dançar.

Dona Kena respirou fundo e disse, num tom mais baixo:

— Eu falei com raiva. A cerca é só capim. Eu é que fiz dela uma muralha.

Tio Bamba coçou a nuca, sem jeito.

— E eu respondi como se o vento fosse meu empregado. Eu podia ter ajudado a refazer a cerca no mesmo dia.

Uma criança no fundo do círculo cochichou:

— Viste? Adulto também aprende.

Alguns riram, e o riso foi como óleo bom: fez as coisas deslizarem sem ferir.

O ancião assentiu.

— Quem admite o erro afia a própria sabedoria.

Então Sali falou, olhando para os dois:

— Amanhã de manhã, eu vou com vocês ao lugar da cerca. Levamos ramos, levamos corda, levamos mãos. E deixamos a raiva no chão, para as formigas carregarem.

Dona Kena e Tio Bamba trocaram um olhar. Não era ainda um abraço, mas já não era uma faca.

— Combinado — disseram, quase ao mesmo tempo.

Capítulo 6 — O canto do griot e o fim que fica a sorrir

Na manhã seguinte, como prometido, refizeram a cerca. Sali amarrou nós firmes, Dona Kena alinhou o capim com cuidado, Tio Bamba trouxe ramos novos e, quando um nó ficou torto, ele riu:

— Olha, este nó está mais teimoso do que eu ontem!

Dona Kena respondeu, com humor:

— Então dá-lhe uma manga para ele ficar doce.

Os dois riram juntos, e o som foi leve, como panela vazia que já não assusta. O pomar, ao longe, parecia observar, quieto, satisfeito.

À noite, a aldeia reuniu-se outra vez. Desta vez, não para discutir, mas para agradecer. Chegou o griot, com o seu instrumento pendurado no ombro e os olhos cheios de caminhos. Ele sentou-se, afinou uma corda, e a primeira nota caiu no ar como gota num pote.

E ele cantou, cantou devagar, para as crianças entenderem e para os adultos lembrarem:

“Ouçam, ouçam, ouçam,

manga no alto chama desejo,

manga na mão chama partilha.

Duas famílias, duas margens,

um rio só quando chove.

Quem aponta o dedo perde a palma,

quem abre a palma ganha o mundo.

A palavra é faca quando corre,

a palavra é pano quando dobra.

Sali, mulher de passo firme,

escolheu simples, escolheu ponte:

não ‘um contra o outro',

mas ‘um com o outro'.

E se o vento derruba galho,

que as mãos levantem cerca;

se o orgulho faz sombra,

que o riso traga lua.

Durmam, durmam, durmam,

que a paz é fruta madura:

não se apressa,

mas adoça.”

A última nota ficou a balançar como folha antes de cair. As crianças bocejaram, os adultos sorriram, e até a noite pareceu mais macia. E assim, no silêncio bom depois do canto, a reconciliação entrou em cada casa, como cheiro de manga que não pede licença.

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Pomar
Lugar onde se plantam e crescem várias árvores de fruto.
Farfalhar
Som suave que as folhas fazem quando o vento passa por elas.
Fenda
Abrir estreito numa árvore, pedra ou chão, como uma pequena boca.
Ancião
Pessoa muito idosa e respeitada, que costuma dar conselhos.
Reconciliação
Ato de voltar a ter amizade ou paz depois de uma briga.
Humildade
Qualidade de quem não se acha melhor que os outros.
Orgulho
Sentimento de satisfação, que às vezes impede pedir desculpas.
Assobiar
Produzir som com a boca ou com o vento, fazendo um apito.
Esteiras
Tapetes feitos de fibras, usados para sentar ou cobrir o chão.
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Narrador e músico da tradição oral que conta histórias e canta.

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