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História sobre a separação e o divórcio 11 a 12 anos Leitura 18 min.

Um coração com duas casas

Clara enfrenta a separação dos pais e descobre que, apesar das mudanças, o amor e a união familiar podem ser mantidos através de um Caderno-Ponte, que se torna um espaço seguro para compartilhar sentimentos e construir novas memórias.

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Uma menina de 12 anos, Clara, com cabelos castanhos cacheados e olhos brilhantes, está sentada em um tapete macio, cercada por almofadas coloridas. Seu rosto expressa uma melancolia suave, com um leve sorriso que revela sua esperança. Ela segura um caderno com páginas coloridas, cheio de desenhos e palavras, enquanto uma pequena gata tigrada, Pipoca, se aninha contra ela, com os olhos fechados, como se compartilhasse seu segredo. Ao lado dela, sua mãe, uma mulher na casa dos trinta anos com cabelos longos e lisos, usa um suéter macio e sorri com ternura, sentada no sofá, de braços cruzados, olhando para Clara com amor. O pai, um homem na casa dos trinta anos com uma barba bem cuidada e um sorriso caloroso, está em pé perto da janela, segurando uma xícara de chocolate quente, observando sua filha com orgulho. A cena acontece em uma sala iluminada, decorada com cores pastel, com raios de sol filtrando através de cortinas leves, iluminando livros espalhados na mesa de centro e desenhos pendurados na parede. A situação principal mostra Clara, cercada pelo amor de seus pais, compartilhando um momento precioso, folheando seu caderno, símbolo do vínculo familiar apesar da separação. reportar um problema com esta imagem

O sofá das novidades

A sala estava com cheiro a tangerina porque a mãe tinha descascado uma há pouco. Eu estava no chão, a desenhar, quando o pai disse:

— Clara, podemos falar um bocadinho?

Sentei-me no sofá, entre os dois. O relógio da parede fazia tic-tac como se estivesse a contar os segundos da minha respiração.

— Nós vamos separar-nos — disse a mãe, devagar. — Não é por tua causa. Nunca seria por tua causa.

— Continuamos a ser teus pais, para sempre — disse o pai. — Só vamos viver em casas diferentes.

Eu tinha doze anos e, naquele momento, parecia ter três e noventa ao mesmo tempo. Senti um nó na barriga e um frio atrás dos joelhos. As perguntas vieram todas juntas, como pombos assustados.

— Quer dizer… eu vou ter duas casas? E os meus livros? E a minha cama? E a Pipoca? — Pipoca era a nossa gata, uma diva que dormia no tapete mais caro.

A mãe pousou a mão na minha.

— Vamos organizar tudo com calma. Tu não vais perder nada do que é importante. E a Pipoca… bem, a Pipoca vai escolher sozinha em que tapete quer dormir.

— Eu quero continuar a ver-vos aos dois — disse, e a voz saiu-me fina, com medo de se partir.

— Vais — garantiu o pai. — Já pensámos num plano. Segunda a quarta com a mãe, quinta a domingo comigo, e trocamos nos almoços de domingo com um abraço. E sempre que precisares de nós, telefonas. De dia ou de noite.

Olhei para as mãos deles, para a mesa baixa com o pratinho de cascas de tangerina, para a janela. O mundo tinha encolhido e crescido ao mesmo tempo. De repente, a Pipoca saltou para o sofá, pisou o meu joelho, equilibrou-se no braço do pai e deitou-se em cima da mãe, como se dissesse: “Tudo isto é meu”.

Engoli o nó. Saíram lágrimas, sim, mas também um riso pequeno.

— A Pipoca já decidiu que vai ter… duas almofadas — murmurei.

A mãe abraçou-me, o pai também. Fiquei ali no meio, um sanduíche de calor.

— Tu és amada — sussurrou a mãe. — Em qualquer morada.

— E estás segura — disse o pai. — Vamos combinar coisas que te façam sentir assim.

Não fiquei feliz logo. Ninguém fica. Mas naquele abraço, entre cheiros de tangerina e pelo de gata, senti que talvez houvesse uma estrada com luzes a indicar o caminho.

Duas casas, uma mochila

A primeira semana foi um caos organizado. Descobri que a minha mochila conseguia ser a minha casa ambulante. Coloquei lá dentro uma escova de dentes com tampa, uns fones, o diário da escola e um livro com um marcador que parecia sempre perder-se, teimoso como a Pipoca.

Na quarta-feira, esqueci-me do caderno de Matemática na casa do pai. Dei por mim a tentar resolver frações no papel das fotografias antigas da mãe. Não funcionou.

— Respira — disse a mãe. — Vamos fazer uma lista do que passa a ser da mochila, para não andarmos a metade.

Tirámos um papel grande e fizemos a “Lista Sempre”, com canetas coloridas. Tinha coisas como “carregador”, “barrete da sorte”, “caderno de Matemática” (sublinhado três vezes) e “chave de casa do pai”.

Na quinta, o pai tentou fazer panquecas e queimou duas.

— Isto são panquecas versão carvão — brincou, abanando uma como se fosse um disco voador. Ri-me, apesar da nuvem de fumo. Abrimos a janela. A Pipoca observava-nos do parapeito, com ar de juíza.

Na escola, contei à minha melhor amiga, a Íris.

— Os meus pais separaram-se.

— Oh — disse ela, e abraçou-me daquele jeito que não aperta, mas não larga. — Queres falar?

— Às vezes quero. Às vezes não sei o que dizer.

— Eu estou — disse ela. — Mesmo quando não quiseres dizer nada.

A diretora de turma apresentou-me a Psicóloga da escola, a Dona Ana. A primeira vez que entrei no gabinete dela, reparei numa estante com livros e um tapete fofinho.

— Aqui podes dizer tudo, ou não dizer nada — disse a Dona Ana. — Às vezes, arrumar as emoções é como arrumar a mochila. Há coisas que têm de ir contigo, e outras que podem ficar num sítio seguro.

— E onde é esse sítio?

— É isso que vais descobrir comigo. E com a tua família.

Nessa tarde, quando o pai me deixou em casa da mãe, carimbámos uma rotina: dar um abraço no domingo, mesmo se o cabelo estiver despenteado e a Pipoca estiver a miar para entrar no carro. Era o nosso jeito de dizer “ainda somos nós”.

O caderno que faz ponte

A ideia do caderno apareceu numa sexta-feira em que a chuva batia na janela como dedos impacientes. A mãe estava a cozer sopa de cenoura e eu desenhava um mapa de tesouro no verso dos TPC de Ciências (não recomendo).

— Sabes — disse a mãe, mexendo a sopa —, quando eu era pequena e a avó viajava, tínhamos um caderno de mensagens. Escrevíamos, colávamos bilhetes, guardávamos histórias. Era a nossa ponte.

— Uma ponte… — repeti, a gostar da imagem. — Entre que margens?

— Entre dias. Entre casas. Entre saudades.

— Podemos ter uma ponte dessas?

No sábado, o pai levou-me à papelaria. Escolhi um caderno de capa dura azul com pequenas estrelas prateadas. O pai comprou autocolantes de gatos (óbvio), e uma caneta com tinta azul escura que parecia mar.

— Como lhe vamos chamar? — perguntou o pai.

“Caderno-Ponte” — disse eu, e sorri. — Ou “Livro da Clara e dos Pais”. Mas gosto de “ponte”. Passa por cima de água e por baixo de nuvens.

Na primeira página, escrevi com letra caprichada:

“Regras do Caderno-Ponte:

1. Viaja sempre na minha mochila.

2. Não é para discutir, é para partilhar.

3. Aqui cabem receitas, listas, histórias, bilhetes, medos e alegrias.

4. Quem escreve pode fazer perguntas; quem lê responde com cuidado.

5. Primeira página de dentro: contactos SOS e coisas que me fazem sentir calma.”

Na “Página SOS” escrevi os números da mãe, do pai, da Dona Ana, da tia Joana e do vizinho Rui, que tem uma chave extra de cada casa e um sorriso que aparece antes das palavras. No verso, fiz a “Lista Calma”: “Respirar 4-4-4, desenhar, abraçar a Pipoca (se ela deixar), ouvir a minha música de chuva, beber água, falar com alguém”.

Depois comecei a primeira entrada:

“Hoje, a mãe ensinou-me a fazer sopa de cenoura. Ficou cremosa e quente. A minha colher preferida é a azul. Senti saudades do pai a provar e dizer que estava ‘top'. Pergunta: pai, qual é o teu truque para panquecas que não viram carvão?”

Quando o pai recebeu o Caderno-Ponte, respondeu:

“Truque 1: baixar o lume. Truque 2: virar quando as bolhinhas aparecem. Truque 3: chamar a Clara para provar. PS: hoje a Pipoca tentou comer farinha. Não resultou.”

Eu ri. Percebi que o caderno não era só papel. Era caminho.

Ondas e valas

Nem todas as semanas são suaves. Houve uma terça-feira com ondas grossas. Na escola, discuti com a Íris por causa de um trabalho de grupo. Fiquei a pingar nervos o resto do dia. À tarde, o pai atrasou-se a buscar-me ao treino. O céu estava a escurecer e, pela primeira vez, senti-me a encolher num banco de cimento, o telemóvel sem bateria.

Lembrei-me do Caderno-Ponte, da Página SOS. Levantei-me, fomos à secretaria do clube, que ainda estava aberta.

— Posso usar o telefone fixo? — perguntei, respirando devagar como na “Lista Calma”.

— Claro, querida — disse a senhora da secretaria, uma senhora com um colar gigante.

Telefonei à mãe, que telefonou ao pai. O vizinho Rui passou por lá de bicicleta e ficou comigo a contar histórias de quando também se perdia na cidade. Quando o pai chegou, o rosto parecia um ponto de exclamação, com arrepios de culpa.

— Desculpa, Clara. Fiquei preso no trânsito e depois, e depois… — Ia dizer “e depois” para sempre.

— Estou segura — disse, baixinho. — Tinha o plano.

— Obrigado por o usares — disse ele. — E por confiares. Vamos melhorar o nosso “Plano A e Plano B”. Combinamos sempre um adulto de reserva em cada dia. E eu deixo sempre o telemóvel carregado no carro.

Anotámos no Caderno-Ponte:

“Plano A e Plano B de sair do treino:

A: Pai às 18h.

B: Se passar 10 minutos, ligo do telefone do clube à mãe ou ao Rui.

C: Fico dentro do edifício até alguém chegar.”

No fim de semana, eu e a Íris fizemos as pazes. Escrevi no caderno:

“Coisas que aprendi: discutir não é o fim, é uma curva. Parar, pedir desculpa, ouvir.”

Às vezes, no meio das ondas, apareciam valas. Houve uma noite em que me zanguei com a mãe por uma coisa pequena, um casaco no chão.

— Parece que queres que eu viva das regras! — gritei, e o grito assustou-me a mim própria.

A mãe olhou-me com olhos de quem segura um vaso a tremer.

— Parece. Mas não é isso que quero. Quero que te sintas segura. As regras são como guardas de estrada, não como muros.

Sentei-me no tapete com a Pipoca ao lado. É difícil falar quando se está zangada. Mas é pior guardar.

— Tenho medo de que me falte alguma coisa — disse.

— A mim também — confessou a mãe. — Vamos pôr essa frase no caderno, para não se perder. E pensar no que não nos falta.

Escrevemos uma lista: “Não nos faltam: abraços, sopa quente, domingos de trocas, alguém para ouvir, a Pipoca (que às vezes finge que não gosta de nós), a nossa canção para adormecer, uma palavra de segurança: ‘Farol' (se eu disser ‘Farol', significa ‘preciso de parar e ser ouvida').”

Pequenos faróis

Criámos pequenos faróis em cada casa. No meu quarto da mãe, colámos um mapa com ímanes em forma de estrelas. Cada estrela era um compromisso: “Música às terças”, “Chamada ao pai às 20h de quarta”, “Sopa de domingo com a mãe”, “Pancadas de riso com a Íris às sextas”. Na casa do pai, colámos no frigorífico um calendário com canetas apagáveis. Um canto tinha “Três Coisas Boas do Dia”, que escrevíamos antes de dormir:

— Três coisas boas, vá — dizia o pai, já de pijama com riscas. — Eu começo: a Pipoca não derrubou nenhuma planta. Consegui virar panquecas sem queimar. E a Clara ensinou-me o truque de respirar 4-4-4.

— Eu: a Dona Ana ensinou-me a ouvir o meu corpo. A mãe disse-me que tenho um riso de guizo. E o sol apareceu quando voltava da escola, mesmo que por pouco.

O “Farol” funcionava. Um dia, o pai e a mãe vieram à minha apresentação de teatro. Sentaram-se em lados diferentes da plateia, como se houvesse uma linha invisível. Eu sentia o coração a bater mais do que as falas. Antes de subir ao palco, sussurrei para mim:

Farol.

E imaginei luz. Quando as cortinas fecharam, vi os dois a bater palmas. Não juntos, mas ao mesmo tempo, com olhos de sorriso. Depois, no corredor, a mãe disse:

— Foste luminosa, Clarinha.

— Foste incrível, filha — disse o pai. — Posso tirar uma foto com as duas? Uma de cada lado? E uma só nós os três, se te parecer bem.

— Parece — disse eu. Ficámos juntinhos, um braço de cada, como pontes.

No Caderno-Ponte, colei o bilhete do teatro com fita dourada e escrevi:

“É possível: os dois orgulhos cabem no mesmo coração. Também cabem dois lugares no auditório. E fotos que não doem.”

Começaram a aparecer receitas no caderno, com desenhos meus: “Sopa de cenoura da mãe”, “Panquecas ponto de viragem do pai”. Apareceram também coisas úteis: na última folha, fiz “Lista de Mala Quase Automática”, com quadradinhos para assinalar:

— Escova de dentes com tampa

— Caderno de Matemática (olha que este!)

— Pijama-cacto (o que pica menos)

— Carregador

— Fones

— Caderno-Ponte

— Medalha de sorte do teatro

A mãe ensinou-me a fazer uma “Caixa de Mimos”, igual nas duas casas: dentro tinha cartas de pessoas que gosto, uma foto da praia, um frasco pequeno com cheiro a lavanda para os dias de nó, e um papel com “Lembrar: amar dois não é trair nenhum”.

Família em dois mapas

Os meses passaram com ritmos novos. O outono deu lugar ao inverno, que nos deu noites mais longas para histórias. O Caderno-Ponte engordou como um gato feliz: páginas com desenhos, convites rasgados, frases enviadas de uma casa para a outra. A Dona Ana sorriu quando lho mostrei.

— Este caderno é uma casa também — disse ela. — Tem portas (as páginas), janelas (as fotografias), e um quintal de memórias.

Na escola, fiz um trabalho de Ciências sobre constelações. Escrevi: “As estrelas parecem afastadas, mas às vezes juntam-se para desenhar figuras no céu.” A professora sublinhou a frase e pôs um autocolante de foguete. Eu pensei nos meus pais e sorri. No jantar, li em voz alta.

— Adoro essa ideia — disse a mãe. — Figuras no céu.

— Vamos colar isso no caderno — disse o pai. — E desenhar uma constelação chamada ‘Clara'.

Um domingo de sol, fizemos um piquenique no parque grande, porque a mãe sugeriu e o pai concordou. Não voltámos a ser um casal. Não era esse o plano. Mas fomos, naquele dia, um trio que partilha toalhas e guardanapos. Eu dei comida às formigas, a Pipoca não foi convidada (porque detesta relva), e nós rimos quando o vento virou copos de sumo. No final, escrevi:

“Piquenique em equipa. A mãe trouxe sanduíches, o pai trouxe fruta, eu trouxe o caderno. Coisas que aprendi: a família pode caber em dois mapas e, mesmo assim, ter o mesmo norte.”

À noite, já de regresso à casa do pai, sentei-me na cama. O meu quarto tinha um candeeiro novo em forma de lua. Liguei-o. A luz era mansa, desenhava um círculo no teto. Peguei no Caderno-Ponte e folheei. Parei numa página onde eu tinha colado uma folha da árvore do parque. Um pedacinho de verde seco que parecia dizer “aqui estive”.

Escrevi:

“Querido Caderno-Ponte,

Hoje percebi que tenho duas almofadas, dois pares de chinelos, dois lugares à mesa, duas chaves. E um coração com espaço para tudo isto. Quando fico triste, continuo a ficar. Mas agora sei a quem dizer. Sei respirar. Sei onde está a Lista Calma. Sei que posso dizer ‘Farol' e que alguém vem. Sei que posso inventar memórias novas sem perder as antigas.”

Fechei o caderno, arrumei-o na mochila (quadradinho assinalado). Mandei mensagem à mãe:

— Boa noite. Farol aceso. Amo-te.

Ela respondeu com um coração laranja e uma foto da Pipoca a dormir no tapete caro (óbvio).

O pai abriu a porta devagar e meteu a cabeça.

— Precisas de alguma coisa?

— Só de um “boa noite” extra.

Ele entrou e deu-me dois beijos, um em cada testa imaginária.

— Boa noite, estrela. Amanhã de manhã, panquecas… sem carvão.

— Combinado — disse eu.

Adormeci a pensar que, às vezes, a vida muda de forma como a lua. E, como a lua, continua a iluminar. A nossa família não estava partida; estava desenhada de outra maneira. E eu tinha uma ponte, um plano, e um grupo de pessoas que me ouviam. Bastava abrir o caderno, respirar, e seguir as luzes.

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Coração com espaço
A ideia de que o coração pode amar várias pessoas ao mesmo tempo, sem que isso diminua o amor por cada uma.
Constelações
Grupos de estrelas que formam figuras ou padrões no céu, como desenhos que podemos imaginar.
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