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História sobre a morte 7 a 8 anos Leitura 12 min.

As caixas do avô

Miguel e a mãe organizam os objetos e lembranças do avô, e entre perguntas, histórias e pequenas memórias o menino aprende a enfrentar a saudade e a manter viva a presença do avô.

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Um menino de 8 anos, rosto redondo e sardas, cabelo castanho despenteado, expressão suave e um pouco melancólica, segura um pequeno botão azul na mão esquerda e um cavalinho de madeira na direita, sentado no chão entre caixas abertas; à sua direita, ligeiramente atrás, a mãe (cerca de 35 anos), cabelo castanho apanhado em coque, olhar terno e calmo, agachada a escrever a etiqueta "Photos" numa caixa; atrás deles, uma avó (cerca de 70 anos), cabelo grisalho preso e óculos redondos, sorri segurando um tabuleiro de biscoitos, junto a uma mesa. A sala é acolhedora, piso de madeira clara, estantes com livros e porta‑retratos, uma grande janela com luz dourada de fim de tarde, plantas em vasos e um tapete discreto. Estão a arrumar as recordações do avô: caixas com um antigo despertador, receitas manchadas, fotografias a preto e branco e etiquetas; a atmosfera é ternamente íntima, cheia de gestos cuidadosos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O dia de céu claro

No sábado, o menino Miguel acordou com o sol que desenhava retas douradas na parede do quarto. Tinha oito anos e gostava de desenhar barcos e colecionar botões coloridos. Sua mãe entrou no quarto devagar, com um sorriso que era ao mesmo tempo triste e calmo.

— Vamos tomar o pequeno-almoço lá fora? — perguntou ela. — Temos um dia para arrumar algumas coisas com o avô.

Miguel mascou o pão e olhou para a janela. O avô morava numa casa cheia de plantas e livros de histórias. Mas Miguel já sabia que o avô tinha partido. As palavras dos adultos, antes confusas, tinham chegado até ele como uma nuvem fina: “O avô morreu.” Ele não sabia bem o que isso queria dizer, só sentiu um nó no peito.

No carro, a mãe deixou que Miguel escolhesse a música. Ele escolheu uma canção suave que a avó costumava cantar. As notas pareciam segurar a mão dele.

Quando chegaram à casa do avô, o jardim cheirava a terra molhada. A vizinha, dona Rosa, acenou com um bolo e um abraço discreto. Dentro da casa, o silêncio era ordenado: xícaras na prateleira, um casaco sobre a cadeira, livros empilhados como degraus. Tudo parecia no lugar certo, só que o dono não estava.

— Quero ajudar — disse Miguel, apertando o bolso onde guardava um botão azul que o avô lhe dera. — Posso, mãe?

— Claro, meu amor — respondeu a mãe. — Podemos escolher algumas coisas juntos. Devagar. Quando quiseres parar, paramos.

Miguel sentiu um alívio por ter permissão. Ele imaginou que arrumar podia ser um jeito de conversar com o avô, de contar coisas que não tinha dito.

Capítulo 2 — Caixas e memórias

Na sala, a tia Lúcia trouxe caixas de papelão. Havia fitas coloridas e canetas. A mãe sentou-se com um caderno para anotar o que guardariam. Miguel pegou um estojo de metal com lápis apagados. Havia também um lenço com um padrão de girassóis e um relógio que fazia tic-tac baixinho.

— O que fazemos com isto? — perguntou Miguel, mostrando o relógio.

— Podemos escolher coisas que nos lembram dele — disse a mãe. — O que te parece guardar o relógio na caixa das memórias?

Miguel assentiu. Colocou o relógio devagar, como se fosse um animal pequeno. Depois encontrou um caderno com receitas anotadas com letra torta. Havia manchas de chá nas páginas e palavras que cheiravam a cozinhas antigas.

Enquanto arrumavam, a tia Lúcia contou uma história breve sobre um verão em que o avô tinha feito uma sopa estranha que todos amaram. Miguel riu sem querer. A risada era leve e se espalhou pela sala.

— O avô gostava de guardar coisas — disse a mãe. — Mas também gostava de conversar. Quando guardamos algo, lembramos das conversas.

Miguel escolheu um botão vermelho, igual ao que tinha, e colocou na caixa. Cada objeto que tocava trazia uma imagem: o avô a ler um jornal, o avô a ensinar um nó de marinheiro, o avô a esconder pequenos bombons no bolso do casaco.

— E estas cartas? — perguntou Miguel, achando um envelope amarelado.

— Podemos ler juntos — disse a mãe. — Se quiseres.

Eles abriram uma carta escrita com caligrafia inclinada. Era do avô para a avó, com um rabisco engraçado no canto. Miguel leu algumas linhas com a mãe ao lado, e sentiu o peito aquecer de um jeito novo. As palavras pareciam um abraço antigo.

O dia passou entre pilhas e lembranças. Às vezes Miguel sentia vontade de chorar; outras vezes vinha um sorriso tímido. A mãe sempre dizia: “Está tudo bem. Sente o que precisa sentir.” E isso deixava Miguel mais leve.

Capítulo 3 — Perguntas e respostas

Quando estiveram no quarto do avô, Miguel encontrou uma caixa com fotografias. Trazia imagens do avô com uma bicicleta, com o gato, em frente a um mar azul. Havia uma foto do próprio Miguel quando era menor, coroado com um triângulo de papel. Ele segurou a foto e o chão parecia firme.

— Mãe, por que o avô morreu? — perguntou Miguel, com a voz pequena.

A mãe respirou fundo antes de responder. Escolheu palavras simples e verdadeiras.

— O corpo do avô cansou de viver — disse ela. — Às vezes, quando alguém envelhece ou fica doente, as partes do corpo param de funcionar. A pessoa fica muito cansada e vai embora. Não volta a brincar, mas deixa coisas e muitas lembranças.

Miguel pensou. Imaginar o avô como alguém que descansava fez sentido. Ele lembrou-se do avô a bocejar depois de dias cheios no jardim.

— Mas eu vou ficar sozinho? — perguntou Miguel.

— Não — respondeu a mãe, pegando a mão dele. — Ficas com a família, com as histórias e com o amor que o avô nos deixou. E sempre que sentires falta, podes falar com ele nas lembranças. Podemos contar histórias sobre ele juntos.

Miguel apertou a mão da mãe. Num canto do quarto, havia um pequeno cavalo de madeira. Ele levou o cavalo para a caixa das memórias. O processo de escolher as coisas deixou tudo menos assustador. Era como empilhar pedras para construir uma pequena ponte que levava até o avô, feita de memórias.

Durante a tarde, Miguel fez muitas perguntas sobre o corpo, sobre o lugar onde fica quem parte, sobre o que era a saudade. A mãe respondeu com calma e honestidade. À noite, Miguel ouviu a mãe dizer que a dor pode diminuir com o tempo, que algumas pessoas sentem falta por muito tempo e outras menos; que chorar é um jeito de lembrar. Essas palavras foram como uma luz suave para Miguel.

— Posso falar com o avô agora? — perguntou ele antes de dormir.

— Claro — disse a mãe. — Fala o que quiser. Eu posso ouvir.

Miguel fechou os olhos e falou baixinho. Contou sobre o botão azul, sobre o bolo de chocolate e sobre o dia em que o avô o deixou subir numa cadeira para alcançar a prateleira. Era um monólogo cheio de fatos simples e de amor. Depois, dormiu com a mão no botão.

Capítulo 4 — Uma história que fica

No dia seguinte, arrumaram as caixas para levar para casa. A família combinou onde guardar cada uma: a caixa das receitas na cozinha, a das fotos na estante, a do cavalo no quarto do Miguel. A mãe escreveu etiquetas: “Receitas do avô”, “Fotos de aventuras”, “Coisas que esqueço”.

Na casa, à hora do chá, a avó pediu para Miguel ajudá-la a preparar biscoitos. Ele misturou a massa e aprendeu a medir a farinha como o avô costumava ensinar: com cuidado e sem pressa. Enquanto os biscoitos assavam, a avó sentou-se e começou a contar uma história que Miguel ainda não conhecia.

— Sabes quando o teu avô era menino? — começou a avó. — Ele ganhou um barco de madeira que fez ele viajar por um rio imaginário. Certa vez, o barco quase virou porque um pato curioso pousou em cima. O teu avô riu tanto que o pato parecia posado nas nuvens.

Miguel riu alto. A imagem do pato posado no barco fez sua barriga doer de alegria.

— E então? — pediu ele.

— E então — continuou a avó — o teu avô aprendeu que as coisas que nos assustam podem nos ensinar a rir. Ele guardou sempre esse riso. E quando cresceu, oferecia esse riso para quem quisesse.

Miguel sentiu um calor no peito. A avó olhou para ele e para a caixa das memórias, como se dissesse que tudo aquilo tinha sentido.

Mais tarde, eles se sentaram no sofá com as fotos abertas. Miguel escolheu uma foto para colocar numa moldura na sua prateleira: era a do avô com uma rede de pesca, sorrindo com os dentes de sempre. Ele pegou a moldura com cuidado e falou alto, como se contasse para a sala inteira.

— O avô gostava de contar piadas de peixes — disse Miguel. — E ele fazia o melhor chá de limão. Eu vou lembrar sempre.

A mãe sorriu. A avó enxugou um canto do olho e disse: “Ele adoraria saber que agora tens o seu cavalo de madeira.” Miguel colocou a foto ao lado do cavalo. Fizeram um lugar especial na estante para as memórias.

Naquela noite, antes de dormir, Miguel pediu para a mãe contar mais uma história do avô. A mãe sentou ao lado da cama e contou como o avô, em criança, plantou uma semente de girassol e ficou olhando todos os dias até a flor subir. Miguel imaginou o avô pequeno, de mãos sujas de terra, e sorriu.

— Por que estás a rir, filho? — perguntou a mãe.

— Porque o avô também gostava de coisas simples — disse Miguel. — Isso é bonito.

A mãe beijou a testa dele e disse:

— O avô deixa-nos um tesouro: as pequenas coisas que nos fazem sorrir.

Miguel fechou os olhos. Sentiu que, mesmo com a falta dentro do peito, havia um lugar seguro onde guardava as histórias, os botões, o cavalo e o relógio. Era como uma mochila invisível que levava com ele para a escola, para os jogos e para os dias de chuva.

Ao adormecer, lembrou-se de uma última coisa que queria contar em voz clara: uma lembrança que fez surgir um sorriso tão grande que parecia encher o quarto.

Na manhã seguinte, na escola, a professora pediu que cada criança falasse sobre um momento feliz com alguém da família. Miguel, com a foto do avô dentro da mochila e o botão no bolso, levantou-se e contou como o avô ensinara a atar os sapatos com um nó que nunca desamarrava.

— Ele dizia que o nó é para lembrar que temos de cuidar das coisas — contou Miguel, com voz firme. — E a melhor parte é que eu posso contar essa história para os meus amigos quando sentir saudade.

Quando voltou para casa, encontrou a mãe no jardim. Ela não disse nada. Apenas abraçou-o por um longo tempo. Miguel sentiu que a saudade continuava ali, mas que também havia amizade, cuidado e histórias que não morrem.

E assim, com caixas arrumadas, risos partilhados e memórias embaladas, Miguel descobriu que a morte do avô não apagava o amor. Transformava-o em histórias, em botões guardados, em receitas, em risos que se repetem ao longo dos dias. E cada vez que contava uma dessas histórias, o avô parecia apertar a mão dele do outro lado da lembrança.

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Pequeno-almoço
A primeira refeição do dia, que se toma de manhã.
Colecionar
Juntar e guardar coisas parecidas porque se gosta muito delas.
Discreto
Que não chama a atenção; é calmo e reservado.
Lenço
Pedaço de pano que se usa para limpar o rosto ou o nariz.
Girassóis
Flores grandes e amarelas que viram a cabeça para o sol.
Tic-tac
Som contínuo e pequeno que um relógio faz ao marcar o tempo.
Memórias
Lembranças das coisas e das pessoas que vivemos.
Amarelado
Que ficou com cor amarela, como papel velho ou manchado.
Caligrafia
Jeito de escrever à mão, que pode ser bonito ou torto.
Saudade
Sentimento de falta e carinho por alguém que não está ao lado.

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