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Grande lobo mau 11 a 12 anos Leitura 15 min.

A vela da Lina e o lobo das sombras

Lina enfrenta um lobo na Floresta dos Carvalhos Negros ao visitar a avó e, com coragem, luz e cuidado, aprende a respeitar o medo sem se deixar dominar por ele.

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Menina de 12 anos, rosto redondo com sardas, cabelo castanho preso em rabo de cavalo, expressão determinada e trêmula, segura uma pequena vela acesa diante de si no umbral de um quarto escuro; ao lado, uma avó de cerca de 70 anos, cabelo grisalho em coque, olhos cansados mas aliviados, senta-se na beira da cama enrolada em um cobertor e olha para a menina com gratidão; um grande lobo cinzento de pelo espesso e olhos amarelos recua sobre a cama onde ocupava o lugar da avó, com a boca entreaberta em posição defensiva na borda da luz da vela; o aposento é um pequeno quarto de madeira com paredes de tábuas, janela aberta deixando entrar uma faixa de sol dourado, velho armário de madeira, mesa com objetos rústicos (pão, faca, uma segunda vela apagada) e tapete gasto; cena de confronto tenso porém não violento — a vela projeta uma chama quente e alaranjada que recorta sombras nítidas sobre o lobo e revela a verdade, a avó recupera o sorriso; atmosfera de contraste entre luz e sombra, paleta em guache com tons quentes (ocre, laranja, marrom) e cinza-azulado nas sombras. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A menina e o saco de pano

Na beira da Floresta dos Carvalhos Negros, havia uma casa pequena com uma chaminé que fumegava como se contasse segredos ao céu. Ali vivia Lina, doze anos, olhos atentos e passos teimosos. Diziam que ela tinha o coração feito de pão quente: simples, mas capaz de aquecer qualquer inverno.

Nessa tarde, o vento soprava comprido, como um assobio que não acabava. Lina apertou o saco de pano contra o peito. Dentro dele, havia maçãs secas, um pedaço de queijo, castanhas e uma vela curta.

— Para quê tanta coisa? — perguntou a avó, amarrando o lenço na cabeça.

— Para o regresso — respondeu Lina, como quem responde a uma pergunta antiga. — Eu quero uma reserva. Se eu me atrasar, se chover, se eu me perder… eu quero ter como voltar.

A avó sorriu, mas os olhos ficaram sérios, como poças fundas.

— A floresta gosta de brincar com “ses”. E há um lobo que evita lugares iluminados. Ele não gosta de fogo, nem de janelas claras. Anda onde a sombra é mais grossa.

Lina engoliu em seco. A palavra “lobo” sempre parecia maior do que as outras.

— Eu não vou fazer barulho — prometeu. — E vou respeitar o caminho. E… respeitar até as árvores.

— Respeitar tudo o que respira — disse a avó. — Até o medo.

Lina assentiu. O medo, para ela, era como uma capa: pesada, mas às vezes útil. E, com o saco de pano e a promessa de voltar, partiu.

Capítulo 2 — O caminho das sombras costuradas

O trilho entrava na floresta como uma linha num tecido escuro. Lina caminhava e ouvia: o estalar de ramos, o bater de asas, o longe de um córrego. A luz, entre as folhas, caía em pedaços, como moedas perdidas.

Ela repetia baixinho, para manter o ritmo:

— Vou e volto. Vou e volto.

A certa altura, viu uma clareira pequena, onde o sol tocava o chão com dedos dourados. No centro, havia um tronco caído, e em cima dele uma pena branca, como se alguém tivesse escrito uma frase sem tinta.

Lina aproximou-se. A pena tremia, mesmo sem vento.

— Que estranho…

Do lado oposto da clareira, a sombra parecia mais escura do que devia. E dela saiu uma voz, macia como lã molhada:

— Menina… menina… Por que carregas um saco tão cheio?

Lina virou-se devagar. Ali estava ele: grande, cinzento, com olhos brilhantes como duas moedas frias. O grande lobo. Não estava no sol. Mantinha as patas na fronteira, onde a luz parava, como se a clareira fosse uma fogueira invisível.

— Eu… eu levo comida — disse Lina, tentando que a voz não tremesse. — Para o caminho de volta.

O lobo inclinou a cabeça, curioso.

— Volta? Quem pensa na volta quando ainda nem chegou?

— Eu penso — respondeu Lina, firme. — Porque voltar é importante.

O lobo mostrou os dentes, mas não avançou. A luz segurava-o como uma mão.

— Há atalhos — sussurrou. — Atalhos escuros, frescos. Lugares onde o sol não te espia. Se seguires por lá, chegas mais depressa.

Lina sentiu a tentação como um puxão no tornozelo. Quem não queria chegar depressa? Mas lembrou-se da avó, e do lenço, e das palavras: respeitar tudo o que respira… até o medo.

— Obrigada — disse ela, educada, porque respeito também mora na boca. — Mas vou pelo caminho certo.

O lobo riu baixo, como um tambor abafado.

— O caminho certo… às vezes leva à barriga errada.

E recuou, desaparecendo na sombra, como tinta que se espalha na água.

Lina respirou, sentindo o coração bater como um passarinho preso. E continuou, repetindo mais alto, para que a floresta ouvisse:

— Vou e volto. Vou e volto.

Capítulo 3 — A casa que piscava luz

A casa da avó ficava mais adiante, escondida entre pinheiros. Ao vê-la, Lina sentiu um alívio quente, como sopa no estômago. A janela brilhava. Era uma luz pequena, mas teimosa, como uma estrela que não desiste.

Lina bateu à porta.

— Avó? Sou eu, Lina!

Uma voz respondeu, abafada:

— Entra… entra depressa…

Lina franziu a testa. A voz parecia… errada. Como se estivesse a vestir a pele de outra voz.

Ela empurrou a porta. A sala estava escura demais para uma casa que “piscava luz”. A vela em cima da mesa estava apagada. O ar cheirava a folhas molhadas e a alguma coisa selvagem.

— Avó? — Lina chamou outra vez.

Na cama, sob o cobertor, havia um vulto. Um capuz escondia o rosto.

— Chega mais perto — disse o vulto.

Lina deu um passo, depois outro. O medo puxava-a para trás, mas a coragem empurrava-a para a frente. Coragem, ela pensou, não é não sentir medo. É caminhar com ele ao lado, como quem leva um cão desconfiado pela trela.

— Avó, por que a casa está tão escura? — perguntou Lina.

— A luz… incomoda — respondeu o vulto, com uma pressa estranha. — Fecha a janela. Apaga tudo.

Lina olhou para a janela. A cortina estava puxada, mas uma fresta deixava entrar um fio de sol. E naquele fio, ela viu poeira dançar, como pequenos fantasmas alegres.

Lina não fechou a janela. Pelo contrário: abriu-a mais. A luz entrou e caiu no quarto como um pano branco.

Então ela viu. O focinho. Os olhos. Os dentes.

O grande lobo estava ali, encolhido na cama, com o lenço da avó na cabeça como uma mentira mal amarrada.

— Ah… — murmurou Lina, e a palavra saiu como um sopro gelado.

O lobo rosnou, mas recuou, porque a luz encostou nele como sal numa ferida.

— Pequena esperta — disse ele. — A tua avó foi… passear.

Lina sentiu raiva, mas segurou-a com as duas mãos, como se segura uma tigela cheia para não derramar.

— Onde ela está? — perguntou, e a voz dela soou mais adulta do que a sua idade.

O lobo sorriu, mas o sorriso tremeu.

— Nas sombras. Onde eu mando.

Lina olhou à volta, rápida. Viu a lareira fria, viu o armário, viu a mesa com uma faca de pão, viu a sua própria vela no saco. E lembrou-se: o lobo evita lugares iluminados.

Ela tirou a vela do saco.

— Se tu mandas nas sombras… então eu vou chamar a luz — disse Lina.

O lobo arregalou os olhos.

— Não te atrevas.

Lina acendeu a vela com um fósforo que guardava num bolso, como quem guarda um segredo. A chama nasceu pequena, mas orgulhosa, e o quarto pareceu respirar melhor.

O lobo recuou mais, encolhendo-se, como um bicho apanhado em dia claro.

— Menina tola — rosnou ele. — Uma vela não é um sol.

— Não — respondeu Lina. — Mas é o suficiente para mostrar a verdade.

Capítulo 4 — O acordo da escada rangente

O lobo não saltou. Não atacou. Ficou a olhar para a chama como se ela fosse um olho.

Lina ouviu, ao longe, um ruído: toc… toc… toc… como alguém a bater numa madeira. Vinha de dentro da casa, não de fora.

Ela apontou a vela para o armário. O toc… toc… toc… vinha dali.

— Avó? — Lina chamou, a voz agora mais fina, cheia de urgência.

O lobo lambeu os lábios.

— Ela não devia fazer barulho — disse ele. — Barulho atrai… problemas.

Lina respirou fundo. O medo queria gritar, mas ela escolheu falar com firmeza.

— Tu vais abrir esse armário — disse Lina, olhando o lobo nos olhos. — E vais sair da minha frente.

O lobo soltou uma gargalhada curta.

— E se eu não quiser?

Lina levantou o saco de pano.

— Eu tenho comida. Tenho uma reserva. Tenho tempo para esperar. E tenho luz. Tu tens fome e tens pressa. A pressa é uma porta aberta.

O lobo estreitou os olhos, como se calculasse.

— O que queres trocar, menina?

— Um acordo — disse Lina. — Tu abres o armário e vais embora pela porta. Sem tocar na minha avó. E eu… eu apago a vela quando tu estiveres lá fora.

O lobo farejou, desconfiado.

— E se eu voltar depois?

Lina ergueu o queixo.

— Então eu acendo todas as velas da aldeia. E ponho lanternas no caminho. Luz em todo lado. Tu não vais ter onde esconder o teu orgulho.

A palavra “orgulho” pareceu picar o lobo. Ele detestava ser visto como fraco.

Houve um silêncio. O tipo de silêncio que pesa nas orelhas.

Por fim, o lobo desceu da cama, sempre evitando a faixa de sol. Caminhou de lado, como uma sombra que tenta fingir que é parede. Abriu o armário com uma patada. O toc… toc… toc… virou um suspiro.

A avó caiu para a frente, amarrada com uma corda, mas viva. Os olhos dela brilharam quando viram a vela.

— Lina… — disse ela, rouca. — Minha corajosa.

— Devagar, avó — pediu Lina, já a desamarrar. — Devagar, como quem volta para casa.

O lobo ficou à porta, rosnando baixinho.

— Apaga — exigiu ele.

Lina olhou para a avó. A avó assentiu, mas apontou discretamente para a janela, para o sol que ainda entrava.

Lina soprou a vela. A chama morreu, mas a luz do dia ficou.

O lobo hesitou, irritado.

— Truques… — murmurou.

— Verdades — corrigiu Lina.

E o lobo saiu, fugindo para o lado da casa onde a sombra era mais grossa, como se a própria floresta o puxasse pela cauda.

Capítulo 5 — A volta e a reserva

A avó sentou-se, respirando com cuidado, como quem recolhe pedaços de si mesma.

— Fizeste um acordo com um lobo — disse ela, e havia orgulho e preocupação misturados, como mel e sal.

— Eu fiz um acordo com a luz — respondeu Lina.

A avó riu, mas logo ficou séria.

— Ele pode voltar.

Lina abriu o saco de pano e colocou a comida em cima da mesa.

— Por isso eu trouxe reserva. Não só para mim. Para nós. Se tivermos de esperar, se tivermos de ficar acordadas, se tivermos de chamar ajuda… não vamos ficar fracas.

A avó tocou na mão de Lina.

— A tua teimosia hoje foi uma fechadura.

Lina ouviu um uivo distante, como uma pergunta que a noite fazia.

A avó levantou-se com esforço e acendeu a lareira. As chamas cresceram e dançaram, laranja e douradas, como raposas felizes.

— Vamos fazer outra coisa — disse a avó. — Vamos mostrar respeito até ao medo. Não vamos insultar a floresta, nem provocar o lobo. Mas vamos proteger a casa.

Lina concordou. Pegaram em lanternas, colocaram-nas perto das janelas e na varanda. Pendurararam um pequeno sino na porta, que tilintava como um grilo de metal.

— Luz e atenção — disse Lina.

— E gentileza — completou a avó. — Até com quem nos assusta. Porque gentileza não é abrir a porta ao perigo. É não deixar o perigo transformar o nosso coração.

De madrugada, Lina e a avó ouviram passos lá fora, leves como folhas. Uma sombra passou pelo jardim, sem entrar na luz. O lobo rodeou a casa como um pensamento escuro, procurando uma fresta. Não encontrou.

A luz segurou o contorno do medo, como uma linha de giz.

E a sombra, frustrada, afastou-se.

Capítulo 6 — A lição que dorme no peito

Quando o céu começou a clarear, a floresta ficou menos ameaçadora. As árvores pareciam velhos guardas que, afinal, bocejam de manhã.

Lina preparou chá e dividiu as castanhas com a avó. Comeram devagar, como se cada dentada fosse um ponto de costura a fechar a noite.

— Avó — perguntou Lina — eu tive medo. Muito medo. Mas eu não queria que o medo mandasse em mim.

A avó passou a mão pelos cabelos de Lina.

— O medo é como um lobo pequeno dentro da gente — disse ela. — Se o alimentamos com pânico, ele cresce. Se o guiamos com cuidado, ele vira vigia. Ele avisa, mas não domina.

Lina olhou para a janela. O caminho para casa brilhava, e ela pensou no lobo, que evitava lugares iluminados. Pensou também em si: na reserva, na vela, na decisão de não seguir o atalho escuro.

— Eu respeitei o lobo… mas não obedeci — disse Lina, com um sorriso cansado.

— Isso é sabedoria — respondeu a avó. — Respeitar os outros não é deixar que nos façam mal. É falar com firmeza sem perder a humanidade.

Mais tarde, a avó acompanhou Lina até ao início do trilho. Deram-se as mãos por um momento.

— Vais voltar bem — disse a avó.

— Vou e volto — repetiu Lina, agora como uma canção.

No caminho, a menina viu a pena branca outra vez. Pegou nela e colocou-a no saco de pano, como símbolo: uma lembrança de que a verdade pesa pouco, mas pode mudar o destino.

E, quando chegou a casa, Lina pendurou uma lanterna na janela. Não para desafiar a floresta, mas para lembrar a si mesma que coragem é guardar luz para o regresso — e que o respeito, quando caminha ao lado da prudência, é uma chama que não se deixa apagar.

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Chaminé
Tubo por onde sai a fumaça da casa, no teto.
Segredos
Coisas guardadas ou ditas só para algumas pessoas.
Teimosos
Que insiste em fazer algo, mesmo se for difícil mudar.
Clareira
Lugar aberto na floresta onde há mais luz e menos árvores.
Fronteira
Linha ou limite entre duas áreas, como luz e sombra.
Focinho
Parte da frente do rosto de animais como cães e lobos.
Vulto
Forma vaga ou pouco clara que se vê, sem detalhes.
Encolhido
Que fica menor ou encolhido por medo ou frio.
Sussurrou
Falou baixinho, quase sem fazer som.
Armário
Móvel com portas onde se guardam objetos ou roupas.
Lanternas
Aparelhos que fazem luz, usados para iluminar à noite.
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Ação ou palavra amável, feita para cuidar dos outros.

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