Capítulo 1
A Lara tinha 7 anos e uma vontade enorme dentro do peito. Era uma vontade do tamanho do tapete da sala: montar o puzzle de mil peças que ela tinha ganhado da tia.
Ela abriu a caixa com cuidado e cheirou. Cheirava a papel novo e a aventura.
“Hoje eu vou conseguir”, disse ela, com as mãos na cintura.
O pai espreitou por cima do sofá. “Mil peças? Uau! Isso é quase uma cidade inteira.”
“É uma floresta com um castelo e um lago”, explicou a Lara. “E eu vou fazer tudo, tudinho.”
A mãe apareceu com um pano e sorriu. “Então vamos preparar o lugar. Uma mesa limpa ajuda o cérebro a pensar.”
A Lara puxou uma toalha velha para a mesa da cozinha, como se fosse um mapa secreto. Espalhou as peças. Fez um barulhinho de chuva de papel.
O gato, o Pipo, saltou para uma cadeira e piscou devagar.
“Pipo, não vale roubar peças”, avisou a Lara.
“Mi-rrr”, respondeu o Pipo, como quem diz: “Eu? Jamais.”
A Lara começou pelo que parecia mais fácil. Separou as peças das bordas.
“Olha, esta tem céu!”, disse ela, levantando uma peça azul.
“E esta tem relva”, disse o pai, pegando numa verde.
A Lara riu. “Pai, não baralha! É a minha missão.”
“Desculpa, capitã Lara”, brincou ele e fez continência.
A Lara alinhou as bordas como se fossem uma cerca. Mas uma coisa estranha aconteceu: faltava uma peça de canto. Um cantinho bem importante.
Ela parou. Olhou para a caixa. Sacudiu a caixa. Olhou para o chão. Nada.
“Hum…”, fez ela, com o nariz enrugado.
A mãe sentou-se ao lado. “Faltou uma peça?”
“A peça do canto!”, disse a Lara, quase a sussurrar. “Sem ela, a moldura fica… aberta.”
A mãe tocou no ombro dela. “Não vamos entrar em pânico. Vamos fazer um plano.”
A Lara respirou fundo, como tinha aprendido na escola. Um, dois, três.
“Plano”, repetiu a Lara. “Eu adoro planos.”
O pai pegou numa lanterna pequena, daquelas que pareciam um dedo de luz. “Podemos fazer uma busca de exploradores.”
“Uma busca!”, os olhos da Lara brilharam.
O Pipo saltou para o chão e foi cheirar a toalha, como se também estivesse a procurar.
“Equipa Lara, em ação!”, disse a menina.
E assim, a cozinha virou o início de uma grande aventura do dia a dia.
Capítulo 2
A Lara decidiu que a busca tinha regras. Ela pegou num caderno e fez um desenho rápido: uma casa com setas.
“Primeiro: onde o puzzle esteve?”, perguntou ela, como uma detetive.
“O puzzle veio da sala”, respondeu o pai. “Tu abriste a caixa no tapete.”
“Então vamos à sala”, disse a Lara. “Com cuidado e olhos de águia.”
Na sala, o tapete parecia um mar de fios. A Lara ajoelhou e passou a mão devagar.
“Peça de canto, onde estás?”, murmurou.
O pai apontou a lanterna para baixo do sofá. “Aqui é a Caverna do Sofá. Dizem que lá dentro vivem meias perdidas.”
A Lara riu. “Eu já perdi três meias lá.”
Ela deitou-se no chão e espreitou. O Pipo deitou-se também, como se estivesse a imitar.
“Pipo, és a minha sombra peluda”, disse a Lara.
“Mi-rrr”, respondeu o gato, com ar importante.
A Lara esticou o braço. Tocou em pó, tocou numa mola de caneta, tocou numa peça de LEGO.
“Aqui!” gritou ela.
O pai aproximou-se. “Encontraste?”
A Lara puxou… e saiu uma peça. Mas não era do puzzle. Era uma rodinha de carrinho.
“Ops.” Ela fez uma careta. “Falso tesouro.”
“Também conta”, disse o pai. “Exploradores encontram coisas.”
A mãe trouxe uma caixinha. “Vamos guardar os achados. Assim ninguém tropeça.”
A Lara pôs a rodinha lá dentro, com muito respeito.
Continuaram. A Lara olhou atrás das almofadas, dentro da caixa do comando da televisão, e até debaixo da planta.
“Se eu fosse uma peça, onde me escondia?”, pensou alto.
“A peça é tímida”, brincou a mãe. “Talvez precise de ser convidada.”
A Lara endireitou-se e falou com voz gentil. “Peça do canto, não estamos zangados. Só queremos montar a floresta contigo. Podes aparecer.”
O Pipo começou a andar em círculos, cheirando o ar. Parou perto da porta.
“Ele sabe alguma coisa!”, disse a Lara.
“Ou cheirou bolachas”, disse o pai, rindo.
A Lara seguiu o Pipo até ao corredor. O gato parou junto ao cesto da roupa.
“A Cesta das Camisolas!”, disse a Lara, dramática. “Lugar perigoso!”
A mãe riu. “Perigoso só para as camisolas amassadas.”
A Lara meteu as mãos dentro do cesto. Era quente e macio. Mas nada de peça.
Ela suspirou, mas não desistiu. “Ok. Próximo lugar.”
No quarto dela, havia um tapete pequenino e uma estante com livros. A Lara lembrava-se de ter levado a caixa para mostrar à sua boneca.
“Boneca Nina”, chamou ela. “Tu não viste uma peça?”
A boneca ficou calada, como sempre.
“Ela está a fazer mistério”, disse o pai.
A Lara abriu a gaveta onde guardava lápis. Havia um lápis sem ponta, dois autocolantes, e um botão.
“Aqui também não”, disse ela.
Ela começou a ficar frustrada. Sentiu um calorzinho no rosto.
A mãe ajoelhou-se ao lado. “Lara, às vezes a solução não aparece quando a gente corre. Vamos fazer outra coisa: pensar.”
“Pensar eu consigo”, disse a Lara, limpando a testa. “Eu sou boa em pensar.”
Ela olhou para o caderno e para as setas. “O puzzle passou pelo tapete… depois foi para a cozinha… no caminho, passou pelo corredor.”
O pai estalou os dedos. “E o que há no corredor?”
“A sapateira!”, disse a Lara. “E o tapete do corredor!”
“E o Pipo”, disse a mãe, apontando para o gato, que agora estava a esfregar-se na sapateira como se fosse um poste.
A Lara ajoelhou no tapete do corredor. Era comprido e listrado.
“Tapete, desculpa incomodar”, disse ela. “Mas preciso de uma coisa.”
Ela levantou uma ponta do tapete. E viu uma pontinha de cartão.
“Ahá!” gritou ela, com alegria.
Com dois dedos, puxou a peça com cuidado, como se fosse um peixinho.
Era… uma peça de canto! O cantinho perfeito!
A Lara levantou-a no ar como um troféu. “Encontrei!”
O pai aplaudiu devagar. “Bravo, capitã.”
A mãe deu um abraço rápido. “Vês? Coragem e cabeça fria.”
A Lara riu. “E um gato detetive!”
O Pipo piscou, como se dissesse: “De nada.”
Capítulo 3
De volta à cozinha, a Lara colocou a peça de canto no lugar. A moldura do puzzle ficou fechada, como uma janela pronta para mostrar um mundo.
“Agora sim”, disse ela, feliz.
Ela voltou a separar as peças. Céu num monte, água no outro, relva noutro. Fez um montinho só de coisas brilhantes.
“O que é esse monte brilhante?”, perguntou o pai.
“Deve ser o lago”, disse a Lara. “Água tem brilho.”
A mãe trouxe três pratos vazios. “Podemos usar isto para organizar. Assim as peças não fogem.”
A Lara arregalou os olhos. “Pratos de organização! Isso é… genial.”
“É só emprestar o que a cozinha sabe fazer”, disse a mãe.
A Lara começou a montar o céu. Duas peças azuis encaixaram com um “clique” que parecia música baixinha.
“Ouviram? Ele falou comigo!”, disse ela.
“O puzzle falou?”, perguntou o pai, com cara séria.
“Falou sim. Disse: ‘Obrigada por me encontrares'”, inventou a Lara.
O pai fez voz engraçada. “Eu sou o Senhor Puzzle e exijo chá de maçã.”
A Lara riu. “Senhor Puzzle, trabalhe!”
O Pipo sentou-se ao lado, com a cauda enrolada. Às vezes, a cauda fazia “puff” no ar e quase tocava nas peças.
“Pipo, cauda estacionada”, disse a Lara.
O gato lambeu a pata, fingindo não entender.
A Lara montou uma parte do castelo. Uma torre apareceu. Depois uma janela. Depois uma porta.
“Olha, mãe! Dá para imaginar quem mora aqui.”
“A princesa?”, perguntou a mãe.
“O guarda do castelo que gosta de sopa”, disse a Lara. “E um sapo que canta.”
O pai apontou para uma peça com um pontinho amarelo. “Será uma luz?”
“É o sol”, disse a Lara. “O sol do puzzle.”
Ela continuou. Às vezes, uma peça parecia certa, mas não era. A Lara tentava, tirava, tentava outra.
“Não encaixou”, dizia ela. “Tudo bem. Eu tento de novo.”
A mãe sorriu. “Isso é resiliência.”
“Re-si-li… o quê?”, perguntou a Lara.
“É quando a gente não desiste e volta a tentar”, explicou a mãe, com voz suave.
“Ah! Então eu tenho isso”, disse a Lara. “Tenho resiliência no bolso.”
O pai olhou para os bolsos dela. “Eu só vejo migalhas.”
“São migalhas de coragem”, respondeu a Lara, e todos riram.
Com o passar do tempo, a floresta foi aparecendo. Árvores altas, folhas em forma de nuvem, pedrinhas no caminho. O lago ficou bem no meio, como um espelho.
Mas ainda faltava uma parte. Uma parte complicada: muitas folhas verdes iguais.
A Lara fez um som de desânimo. “Este verde é todo igual. Parece que o puzzle está a brincar comigo.”
O pai inclinou-se. “Podemos usar um truque. Vamos procurar formas, não só cores.”
“Formas!”, repetiu a Lara. “Boa ideia.”
Ela pegou numa peça e viu que tinha uma pontinha redonda. Pegou noutra e viu que tinha uma entrada quadrada.
“Esta redonda procura a sua amiga redonda”, disse ela, como se fosse um jogo.
A mãe juntou-se. “E esta aqui tem uma risquinha de castanho. Deve ser um tronco.”
A Lara aproximou as duas. “Tronco com folha… clique!”
“Conseguiste!”, disse o pai.
A Lara endireitou as costas. “Eu sou uma montadora profissional.”
O Pipo bocejou, como se dissesse: “Eu sou um supervisor profissional.”
A Lara montou mais e mais. Quando cansava, bebia água. Quando uma peça não entrava, ela falava baixinho com ela.
“Sem pressa”, dizia a Lara. “Tu vais achar o teu lugar.”
E o lugar aparecia. Sempre.
No fim da tarde, só faltavam cinco peças.
“Cinco!”, contou a Lara. “Eu consigo.”
Ela colocou uma, depois outra. A imagem ficou quase completa. O castelo parecia sorrir, e o lago parecia brilhante.
Restava uma peça. Uma última peça bem no centro do lago, como se fosse uma gota final.
A Lara segurou a peça com cuidado. Era azul com um risquinho branco.
“Última peça”, sussurrou ela. “Vamos lá.”
Ela tentou encaixar. Não entrou.
“O quê?” A Lara franziu a testa. Tentou rodar. Ainda não.
O pai levantou uma sobrancelha. “Será que… é do avesso?”
“Peças não têm avesso”, disse a Lara, confusa.
A mãe apontou com delicadeza. “Lara, olha bem. Essa peça parece ter um pedacinho de barco. Mas no lago, aqui, falta o brilho. Talvez a peça seja desta parte da margem.”
A Lara olhou para a imagem. Aproximou a peça da margem.
“Ah!” Ela riu, meio envergonhada. “Eu estava a colocar o barco no lugar do brilho.”
“Barcos também gostam de brilhar”, disse o pai, divertido.
A Lara encaixou a peça na margem. “Clique!”
Ficou perfeito. O puzzle inteiro.
A Lara ficou quieta por um segundo, só a olhar. Depois abriu um sorriso enorme.
“Eu consegui!”, disse ela. “Eu montei a floresta inteira.”
A mãe fez um carinho no cabelo dela. “Com engenho. Organizaste, pensaste, tentaste.”
O pai apontou para o castelo. “Agora a cidade do puzzle pode começar a festa.”
O Pipo levantou-se e, muito devagar, aproximou-se do puzzle. Cheirou uma pontinha e espirrou. “Atchim!”
A Lara caiu na gargalhada. “Pipo! Estás com alergia a castelos?”
O pai riu também. “Ou a sopa do guarda.”
A mãe riu baixinho. “Ou a aventuras bem montadas.”
A Lara abraçou o Pipo com cuidado. “Obrigada, detetive.”
O Pipo fez “mrrr” e esfregou a cabeça no braço dela. E, enquanto a cozinha voltava a ser só cozinha, a Lara ainda ria, com o coração cheio e leve, como uma peça que finalmente encontrou o seu lugar.