Bom dia, consultório!
No bairro da pracinha, a médica Marina abre a porta devagar. O consultório cheira a sabonete e flores. A luz entra como um abraço. Marina lava as mãos com calma. A água morna canta nos dedos.
Ela fala baixinho com seus instrumentos.
— Estetoscópio, vamos ouvir corações. Termômetro, hoje vamos medir febres. Luzinha, vamos procurar gargantas vermelhas. Tudo bem?
Marina aquece o metal do estetoscópio nas mãos, para não ficar frio. Ela põe um adesivo no bolso: um sol sorridente. Ela gosta de dar adesivos no final.
A primeira criança chega com a mãe.
— Bom dia, Léo — diz Marina, agachando para ficar do tamanho dele. — Viemos cuidar desse tossezinho?
Léo segura um tigre de pelúcia.
— Tico tá com medo — sussurra.
— Podemos cuidar do Tico também — diz Marina. — Quer ver? Primeiro, ouvimos o peito. Ouvimos o ar entrar e sair. É como vento em folhas.
Marina encosta o estetoscópio no tigre, faz cara séria, e ri:
— Tico respira como um leão! Agora, posso ouvir você?
Léo assente. Marina encosta o estetoscópio, pede:
— Respira como se fosse encher um balão. Isso, devagar. Um... dois... três...
Ela escuta. Depois pega a luzinha.
— Vou olhar sua garganta. Só um ‘aaa'. É rápido.
— Aaaa — faz Léo, abrindo a boca.
— Vejo um pouco de vermelho. Isso acontece quando o corpo luta contra germes. O corpo é muito esperto.
Marina toca o pescoço com a ponta dos dedos.
— Agora vou apertar sua barriga bem de leve. É como brincar de massagem. Dói?
— Não — diz Léo.
Ela explica para Léo e sua mãe:
— Médica faz isso: observa, escuta, pergunta. Pergunto o que você sente. Vejo como seu corpo está. Às vezes pedimos remédio. Às vezes só pedimos descanso, água e carinho. Sempre explico o porquê.
— Por que a gente tosse? — pergunta Léo.
— A tosse é um ajudante. Ela empurra para fora o que não faz bem. Mas precisamos cobrir a boca com o braço, assim ó. — Marina mostra o “cotovelo máscara”. — Quer praticar comigo e com o Tico?
Eles praticam. O riso preenche a sala. Marina segue:
— E para não ficar doente muitas vezes, a gente tem alguns segredos de cuidado: lavar as mãos com sabão, antes de comer e depois de brincar no chão. Beber água. Dormir cedo. Comer frutas coloridas. Brincar ao ar livre. E tomar as vacinas, que são escudos invisíveis.
— Vacina dói? — Léo pergunta, com olho curioso.
— É uma picadinha rápida. Contamos até dez. Pronto. E o corpo aprende a se defender. Depois você ganha um adesivo de sol. Combinado?
Léo sorri. Marina entrega uma receita simples:
— Chá morno, água, descanso. Se a tosse piorar, me chama. Vamos ser pacientes. O corpo gosta de tempo para melhorar.
Léo dá tchau. Tico também. A sala de espera está tranquila. Marina respira, conta: um, dois, três. Ela gosta de lembrar a todos que respirar ajuda a esperar.
A mini-classe de saúde
À tarde, as crianças do bairro chegam para uma mini-classe de saúde. Marina colocou cartazes coloridos. Em um está escrito: “Cuidar do corpo é como cuidar de um jardim.” Em outro: “Prevenção é força.”
— Bem-vindos! — diz Marina. — Hoje vamos brincar de ser médica e pacientes. Vamos aprender com calma e com alegria.
Nina levanta a mão.
— Eu fico nervosa com vacina.
— Obrigada por contar, Nina — diz Marina. — Sentir nervoso é normal. Médica também sente às vezes. Quando eu fico assim, eu respiro devagar. Quer tentar comigo?
Marina pega um relógio de areia.
— Vamos ver a areia cair e respirar como ondas do mar. Inspira... expira... Contamos até dez.
As crianças fazem junto. Os ombros relaxam. A areia cai como chuva de ouro.
— Agora, esta mesa é a Estação do Coração — diz Marina. — Quem quer ouvir o próprio coração?
Tomás vai primeiro. Marina põe o estetoscópio em suas mãos.
— O coração faz tum-tum sem parar, dia e noite. Ele manda sangue com força e cuidado, como um carteiro que nunca se atrasa.
As crianças escutam e sorriem.
— Parece tambor! — diz Tomás.
Na outra mesa, uma fita mede alturas.
— Crescer é devagar — explica Marina. — Cada corpo tem seu ritmo. Paciência é amiga do crescimento. Comer bem, dormir bem e brincar ajudam muito.
Ela mostra uma cesta de frutas de brinquedo.
— Cores no prato, como um arco-íris: vermelho do morango, laranja da cenoura, verde do brócolis, amarelo da banana. Cada cor tem poderes. O vermelho dá energia, o verde ajuda a defesa, e assim vai.
— E a febre? — pergunta Duda. — Minha cabeça fica quente.
— Febre é um recado: “O corpo está lutando.” Quando temos febre, bebemos água, descansamos, usamos roupas leves. Avisamos um adulto. Às vezes tomamos remédio que a médica indica. Se a febre dura, voltamos para conversar. A conversa é parte da cura.
Na Estação da Luzinha, as crianças olham a garganta umas das outras, só de faz de conta, em bonecos.
— Médica não é só injeção — diz Marina. — Médica pergunta: “Como você dorme? O que você come? Você brinca no sol?” Eu escuto histórias. Eu escrevo no papel para lembrar depois. Eu trabalho junto com famílias e professores. Todos cuidam juntos.
Chega a hora da Estação Vacina de Brincar. Há uma laranja na mesa.
— A vacina entra como um beijinho rápido — explica Marina. — A laranja não chora, mas nós podemos chorar. Chorar é permitido. O importante é segurar a mão de alguém, respirar e contar.
Nina olha para a laranja. Ela segura a mão de Marina.
— Podemos treinar?
— Podemos sim — responde Marina. — Mão dada, olhar num desenho na parede, e... um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Pronto.
Nina sorri tímida.
— Eu consegui treinar.
— Conseguiu — diz Marina. — Você foi paciente e corajosa. Paciência é como uma ponte. Ela leva a gente de um momento difícil até um lugar tranquilo.
As crianças fazem curativos nos bonecos. Aprendem a lavar um joelho machucado com água e sabão. Marina diz:
— Primeiro limpamos. Depois secamos com carinho. Se arder, pensamos numa coisa boa. Podemos cantar. Dor pequenininha passa mais rápido quando alguém está junto.
Todos terminam a mini-classe com uma roda. Marina pergunta:
— O que vocês aprenderam hoje?
— Lavar as mãos canta musiquinha — diz Duda, cantando “frente, trás, entre os dedos”.
— Comer muitas cores — diz Tomás.
— Respirar devagar — diz Nina, com o relógio de areia na mão.
— E cooperar — completa Marina. — Quando cooperamos, tudo fica mais leve.
Noite tranquila
O céu escurece. Começa uma chuva fina. Pingos batem na janela como dedos no tambor. O consultório fica macio de silêncio.
Entra um menino com o pai. O joelho dele está ralado.
— Estávamos correndo — diz o pai. — Ele caiu.
— Acontece — diz Marina. — Cair faz parte de brincar. Vamos cuidar.
Ela lava o machucado com água e sabão.
— Pode arder um pouco. É um ardidinho que limpa. Como bolhinhas levando a sujeira embora. Vamos respirar juntos?
O menino concorda. Ele segura a mão do pai. Marina sopra junto, como quem apaga uma vela devagar. Coloca o curativo com cuidado, como quem veste uma capa de herói.
— E para evitar outros tombos, tênis preso, olho no chão molhado e passo calmo — diz Marina. — Prevenção é atenção.
O menino ganha um adesivo de sol. Ele ri.
— O sol no meu joelho vai deixar ele forte?
— Vai lembrar você de cuidar dele — diz Marina. — E amanhã já vai estar melhor.
A chuva para. A noite chega macia, com cheiro de terra molhada. Marina arruma os medicamentos, guarda a luzinha, escreve no caderno:
“Hoje ouvi corações. Hoje ensinei a contar até dez. Hoje vi coragem pequena e grande.”
Ela apaga a luz e pensa no jardim do bairro. Pensa nas crianças levando para casa o que aprenderam. Lavar as mãos como quem toca piano. Comer cores como quem pinta um quadro. Brincar no sol com chapéu. Dormir cedo, para o corpo consertar tudo por dentro.
Antes de sair, Marina fala com o consultório, como quem fala com um amigo:
— Obrigada por mais um dia. Amanhã tem mais.
Na rua, o ar está fresco. A lua parece uma rodela de queijo no céu escuro. Marina imagina todos dormindo, quentinhos, ouvindo o próprio tum-tum, como tambor de festa ao longe.
Ela sorri e pensa:
— Ser médica é ouvir, explicar, esperar. É trabalhar junto. É ensinar que o cuidado cabe nas mãos de todos. Com paciência, com calma, com carinho.
E a cidade, devagar, fecha os olhos. O mundo respira como mar calmo. E o coração de cada criança descansa, sabendo que há sempre alguém para cuidar, e que elas também já sabem cuidar um pouquinho de si.