Capítulo 1 — A cadeira vazia
Na segunda-feira, o recreio parecia igual: a bola a bater no muro, as raparigas a rir perto do banco verde, o cheiro a tosta vindo do bar. Mas o Tomás, com os seus 11 anos e a mochila a cair-lhe de um ombro, sentiu logo que havia qualquer coisa diferente.
Na sala, a cadeira do avô Augusto costumava existir só na cabeça dele — porque o avô ia buscá-lo quase todos os dias e esperava no portão, de boné e mãos nos bolsos. Nesse dia, não havia boné nenhum à vista quando a campainha tocou.
A mãe apareceu, com os olhos um pouco inchados e um sorriso que parecia feito de papel fino.
— Tomás… vamos para casa, está bem?
Ele franziu a testa.
— O avô está no carro?
A mãe engoliu em seco, como se tivesse uma migalha presa.
— Hoje… não. Vamos andando.
No caminho, o vento mexia nas árvores da rua e fazia as folhas roçarem umas nas outras, como um sussurro.
— Mãe, estás a falar estranho — disse o Tomás, tentando brincar, mas a voz saiu pequena. — Foste abduzida por extraterrestres?
Ela soltou um som que quase era uma gargalhada e quase era um suspiro.
— Quem me dera que fosse uma coisa assim fácil de explicar.
Quando chegaram a casa, o pai estava na cozinha, parado, sem mexer no chá que já devia estar frio.
O Tomás largou a mochila no chão.
— O que se passa?
O pai aproximou-se e ajoelhou-se para ficarem ao mesmo nível. A voz dele saiu firme, mas com uma tremura escondida.
— Tomás… o avô Augusto morreu esta manhã, no hospital.
As palavras bateram como uma porta a fechar. “Morreu.” Uma palavra curta, com um eco enorme.
— Mas… ontem ele mandou-me uma mensagem — disse o Tomás, a puxar o telemóvel do bolso com dedos apressados. “Orgulho em ti. Não te esqueças do lanche.” Estava lá, preto no branco.
— Mandou ontem — respondeu a mãe, pousando uma mão no ombro dele. — Hoje o coração dele… parou.
O Tomás ficou parado, como se o corpo não tivesse recebido instruções. Quis perguntar mil coisas e, ao mesmo tempo, não queria saber de nada.
— Ele vai voltar? — perguntou, num fio de voz, já sabendo a resposta e mesmo assim a pedir que alguém desmentisse o mundo.
O pai balançou a cabeça, devagar.
— Não. Não vai.
O Tomás sentiu os olhos a arderem, mas as lágrimas não caíram logo. Primeiro veio uma estranha sensação de vazio, como quando se esquece um livro importante e a mochila parece leve demais.
A mãe abraçou-o com força.
— Podes chorar, ficar zangado, ficar calado… tudo serve.
Ele mordeu o lábio.
— Eu não sei o que fazer com isto.
— Vamos aprender juntos — disse o pai.
E, pela primeira vez naquele dia, o Tomás percebeu que o “juntos” era um cobertor que podia aquecer, mesmo quando a noite estava a chegar cedo demais.
Capítulo 2 — O hospital e o silêncio
Na terça-feira, foram ao hospital para se despedirem. O Tomás não queria ir. Achava que, se não fosse, talvez aquilo ficasse em pausa, como um vídeo que se pode parar antes da parte assustadora.
No elevador, havia um senhor a assobiar baixinho, como se não se apercebesse de que ali dentro o ar era pesado. O Tomás pensou: “Como é que alguém assobia num lugar destes?” Depois lembrou-se de que, às vezes, as pessoas assobiam para não chorar.
No corredor, o cheiro a desinfetante fez-lhe cócegas no nariz. A enfermeira, com um crachá brilhante, falou com doçura:
— Estás preparado, campeão?
“Campeão” parecia uma palavra grande demais para o que ele sentia. Mas assentiu.
O avô Augusto estava deitado, imóvel. O boné não estava lá. As mãos, que costumavam ser quentes e cheias de histórias, pareciam agora mãos de estátua.
O Tomás aproximou-se devagar. O mundo parecia ter o volume mais baixo.
— Avô? — sussurrou.
Nada. Claro que nada.
A mãe passou-lhe um lenço.
— Se quiseres dizer alguma coisa… podes.
O Tomás olhou para a cara do avô, tentando encontrar o sorriso maroto que aparecia sempre que contava uma piada má. Não estava.
Ele engoliu em seco.
— Eu… eu tirei 16 a Matemática — disse, e aquilo soou tão ridículo e tão importante ao mesmo tempo. — Tu disseste que eu conseguia. Consegui.
Uma lágrima caiu, finalmente, e fez uma mancha escura no lenço.
— E eu comi o lanche, não te preocupes — acrescentou, com uma voz tremida. — Só… só queria ter-te dito mais coisas.
O pai colocou uma mão nas costas dele.
— Podes dizer agora. Mesmo que ele não responda… às vezes ajuda.
O Tomás ficou ali, a respirar devagar. Depois falou do torneio de futebol, do gato do vizinho que o perseguiu, e até da vez em que o avô queimou as sardinhas e disse que era “sabor a aventura”. A certa altura, soltou um risinho involuntário.
— Desculpa — murmurou, como se rir fosse proibido naquele quarto.
A mãe abanou a cabeça.
— Não tens de pedir desculpa por te lembrares do que é bom.
Quando saíram, o Tomás olhou para trás uma última vez. Não sentiu um filme a acabar; sentiu um capítulo difícil a começar. E isso assustava.
No carro, ele perguntou:
— O que acontece depois de alguém morrer?
O pai respirou fundo.
— O corpo deixa de funcionar. Já não sente dor, nem fome, nem cansaço. E nós… nós ficamos com saudade. E com as memórias.
A mãe acrescentou:
— Cada pessoa acredita de um jeito sobre o resto. Mas uma coisa é certa: o amor que sentimos não desaparece.
O Tomás encostou a testa à janela e viu as nuvens a deslizar.
— Eu não queria que o avô fosse embora.
— Eu também não — disse a mãe. — E ainda assim… estamos aqui. E vamos cuidar uns dos outros.
Capítulo 3 — A luz acesa
Nessa noite, o Tomás tomou banho sem vontade, vestiu o pijama do dragão (já meio pequeno, mas ele insistia) e foi para o quarto. As sombras nos cantos pareciam maiores do que o normal, como se tivessem crescido com a notícia.
Ele deitou-se e ficou a olhar para o teto. O silêncio fazia barulho.
Quando a mãe veio dar-lhe boa-noite, ele puxou-lhe a manga.
— Podes deixar a luz do corredor acesa?
A mãe olhou para ele com atenção, sem gozar, sem fazer perguntas a mais.
— Claro.
— E… podes deixar a porta um bocadinho aberta?
— Também — respondeu ela, e deu-lhe um beijo na testa. — Queres falar?
O Tomás hesitou.
— Tenho medo de… de esquecer a voz do avô.
A mãe sentou-se na beira da cama.
— Sabes uma coisa prática? Amanhã podemos procurar vídeos, mensagens, o que tiveres. E podes escrever o que te lembras. Às vezes ajuda a guardar.
O Tomás sentiu um alívio pequeno, como quando se encontra uma moeda no bolso e dá para comprar uma água.
— A voz dele dizia “ó rapaz!” — disse, tentando imitar, e a imitação saiu desafinada. — Era assim.
A mãe sorriu com tristeza.
— Era mesmo assim.
Quando ela saiu, a luz do corredor fazia uma faixa dourada no chão do quarto. O Tomás ficou a olhar para aquela faixa como se fosse uma ponte.
A cabeça dele começou a inventar perguntas, uma atrás da outra: “E se eu também morrer?” “E se a mãe morrer?” “E se isto acontecer outra vez?” O coração acelerou.
Ele levantou-se e foi à sala, de meias, sem fazer barulho. O pai estava no sofá, com o telemóvel na mão e os olhos perdidos.
— Pai… — chamou o Tomás.
O pai endireitou-se logo.
— Não consegues dormir?
O Tomás encolheu os ombros.
— Parece que a casa ficou… diferente. Como se faltasse uma peça.
O pai fez espaço ao lado dele.
— Vem cá.
O Tomás sentou-se e encostou-se. O pai cheirava a sabonete e a cansaço.
— Quando eu era pequeno e o meu avô morreu, eu também queria deixar luzes acesas — confessou o pai. — Achava que a escuridão ia engolir as lembranças.
— E engoliu?
— Não. As lembranças ficam. Às vezes escondem-se, mas aparecem quando menos esperas. Num cheiro, numa música, numa frase.
O Tomás pensou no cheiro a café que o avô fazia, forte, “para acordar até as ideias”, dizia ele.
— Mas dói — disse.
— Dói porque foi importante — respondeu o pai. — A dor é como um sinal a dizer: “Isto valeu a pena.”
O Tomás ficou quieto, a ouvir o som do frigorífico na cozinha. Um som normal, teimosamente normal.
— Então é normal eu estar… confuso?
— É normal. E é normal, também, ter momentos bons no meio disto. O luto não é uma fila direitinha. É mais como um caminho com curvas.
O Tomás bocejou, finalmente.
— Posso dormir com a luz do corredor acesa por uns dias?
— Podes — disse o pai. — E, se quiseres, amanhã fazemos uma coisa para o avô.
— Tipo o quê?
O pai pensou.
— Algo que ele gostasse. E algo que ajude outra pessoa. O teu avô era assim, lembras-te? Levava o carrinho das compras da vizinha, dava conversa ao senhor do quiosque…
O Tomás assentiu devagar.
— Ele dizia: “Ser gentil não custa, mas vale muito.”
O pai sorriu.
— Exatamente.
Capítulo 4 — O caderno das memórias
No dia seguinte, o Tomás pegou num caderno de capa azul que estava meio vazio. Na primeira página, escreveu com letra grande: “Coisas do avô Augusto”. Não era um poema nem um trabalho da escola. Era um sítio para guardar pedaços.
Na cozinha, a mãe preparava sopa, e o cheiro a legumes lembrava domingos.
— Posso fazer uma lista? — perguntou o Tomás.
— De quê?
— De tudo o que eu não quero esquecer.
A mãe enxugou as mãos ao avental.
— Acho uma ótima ideia.
Ele sentou-se à mesa e começou:
“1) O boné castanho.
2) A forma como ele assobiava ‘A Internacional' sem saber a letra.
3) A piada do ‘pão com pão' que ele contava sempre e eu fingia que era nova.”
Riu-se sozinho, e depois parou, com um nó na garganta. A caneta tremeu.
— Mãe… e se eu escrever e mesmo assim esquecer?
Ela sentou-se ao lado dele.
— Esquecer um bocadinho não é trair ninguém. O cérebro às vezes protege-nos. E depois, quando estamos prontos, lembra-se de novo. O amor não depende de te lembrares de cada detalhe.
O Tomás olhou para a caneta.
— Na escola vão perguntar.
— Podes dizer a verdade, se quiseres — disse a mãe. — Ou podes dizer: “Não quero falar agora.” As duas coisas estão certas.
Ele escreveu mais:
“4) Ele chamava-me ‘capitão' quando eu estava triste.
5) Ele ensinou-me a apertar os atacadores sem ficar com laços tortos.”
À tarde, foi ao quarto do avô, que agora estava fechado. A porta fazia um rangido pequeno, como um protesto. O pai abriu.
— Queres entrar?
O Tomás hesitou, mas entrou. O quarto cheirava a madeira e a colónia. Na cómoda, havia um relógio parado. O tempo ali dentro parecia confuso.
Na prateleira, o Tomás encontrou uma caixa com cartas antigas e fotografias. Pegou numa foto em que o avô aparecia jovem, com um sorriso atrevido e uma bicicleta.
— Ele já foi assim? — perguntou, surpreendido.
— Foi — disse o pai. — As pessoas têm muitas versões. E todas cabem na saudade.
O Tomás tocou na foto com cuidado.
— Posso ficar com esta?
— Podes.
À noite, voltou a deitar-se. Ainda pediu a luz do corredor acesa, mas já não parecia uma emergência. Era só um hábito que o acalmava.
Antes de adormecer, escreveu no caderno:
“6) O avô dizia: ‘Quando não souberes o que fazer, faz uma coisa boa.'”
Capítulo 5 — Um gesto que se espalha
Na quinta-feira, a professora Helena falou à turma com voz calma:
— O Tomás está a passar por um momento difícil. Se ele quiser falar, ouvimos. Se ele não quiser, respeitamos.
O Tomás sentiu os olhares como pequenas lanternas apontadas para ele. Quis desaparecer dentro da mochila. Mas a Beatriz, que se sentava atrás, inclinou-se e sussurrou:
— Se precisares de apontamentos, eu empresto.
O Tomás assentiu, grato e meio envergonhado.
— Obrigado.
No intervalo, o Diogo aproximou-se, com a bola debaixo do braço.
— Queres jogar? Se não quiseres, na boa.
O Tomás olhou para a bola e pensou no avô, que o levava ao parque e dizia que os passes eram “cartas de amizade”.
— Quero — disse, e surpreendeu-se com a própria resposta.
Jogou sem ser o melhor nem o pior. Correu, tropeçou, riu quando o Diogo falhou um golo sozinho (o Diogo também riu, o que ajudou). Por alguns minutos, o Tomás não esqueceu o avô, mas a dor ficou mais baixa, como um rádio ao fundo.
Depois do jogo, viu o Rodrigo, um colega mais novo, sentado no muro, a olhar para o chão. O Rodrigo limpava o nariz com a manga, disfarçando.
O Tomás aproximou-se devagar.
— Estás bem?
O Rodrigo abanou a cabeça.
— O meu cão morreu ontem — disse, rápido, como se fosse uma palavra proibida.
O Tomás sentiu um choque pequeno: a morte tinha decidido aparecer também ali, no recreio, entre as linhas do campo.
Ele sentou-se ao lado, sem pressa.
— Eu… o meu avô morreu esta semana.
O Rodrigo olhou para ele, com os olhos vermelhos.
— Dói muito.
— Dói — concordou o Tomás. — Mas… eu estou a fazer um caderno de memórias. Escrever coisas boas. Talvez ajude contigo também. Tipo… o teu cão, o que ele fazia de mais engraçado?
O Rodrigo fungou.
— Ele roubava meias. Uma vez fugiu com uma meia do meu pai e o meu pai correu atrás dele de chinelos. Parecia um pato.
O Tomás soltou um riso curto.
— O teu pai corre como um pato?
— Corre — disse o Rodrigo, e riu também, com uma lágrima a cair ao mesmo tempo. — Era o Toby.
— O Toby parece ter sido fixe — disse o Tomás. — Se quiseres, amanhã trazes uma foto e eu ajudo-te a fazer uma página.
O Rodrigo respirou fundo.
— A sério?
— A sério — respondeu o Tomás, lembrando-se da frase do avô: “Ser gentil não custa, mas vale muito.” — Às vezes… ajuda não estar sozinho.
Quando chegou a casa, contou à mãe o que aconteceu.
— Fizeste exatamente o que o teu avô faria — disse ela, apertando-lhe a mão.
O Tomás olhou para o caderno azul.
— Acho que ele ficaria orgulhoso.
— Eu tenho a certeza — respondeu a mãe.
Capítulo 6 — O adeus e a paz
No sábado, houve a cerimónia de despedida. A sala estava cheia de pessoas que o Tomás conhecia de vista: a vizinha do terceiro andar, o senhor do quiosque, uma antiga colega do avô. Cada um trazia uma história pequena, como se o avô tivesse espalhado sementes por todo o lado.
O Tomás levou a fotografia da bicicleta no bolso e o caderno azul na mão. Não queria dizer um discurso grande. Só queria fazer uma coisa verdadeira.
Quando chegou a altura de se aproximarem, ele foi com os pais. O coração batia-lhe rápido, mas as pernas aguentaram.
O Tomás pousou a foto ao lado de outras flores.
— Obrigado, avô — sussurrou. — Eu vou tentar ser… uma pessoa boa, como tu.
O pai passou um braço à volta dele, e a mãe apertou-lhe o ombro. O Tomás percebeu que, mesmo com a falta, havia ali uma rede.
Mais tarde, em casa, fizeram uma coisa simples: a mãe preparou o arroz doce que o avô adorava e que ele criticava sempre, fingindo ser chefe de cozinha.
— Falta aqui “um toque de mistério” — dizia ele, e depois punha canela como se fosse magia.
O Tomás polvilhou canela por cima e disse:
— Pronto. Mistério adicionado.
O pai riu, e a mãe riu também, com os olhos brilhantes.
— O avô aprovaria — disse ela.
À noite, o Tomás foi para o quarto. Ainda acendeu a luz do corredor, mas agora não era só por medo. Era como deixar uma janela acesa para as lembranças entrarem sem bater.
Sentou-se na cama, abriu o caderno e escreveu:
“7) Hoje eu disse adeus. Doeu, mas eu consegui respirar.
8) A saudade é pesada, mas eu não preciso carregá-la sozinho.”
Deitou-se. A faixa de luz no chão parecia mais suave, menos urgente.
Ele fechou os olhos e imaginou o avô na bicicleta, a pedalar devagar numa estrada com árvores, a acenar com uma mão e a equilibrar-se com a outra, como sempre.
O Tomás sentiu uma lágrima, mas não veio com pânico. Veio com calma.
— Boa noite, avô — murmurou.
E, enquanto o sono chegava, ele percebeu que a morte tinha deixado um silêncio, sim, mas que dentro desse silêncio havia espaço para amor, para memória e para compaixão. A luz ficou acesa mais um pouco, e o coração dele, devagar, encontrou paz.