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História sobre a morte 11 a 12 anos Leitura 17 min.

A caixa de memórias da avó Rosa

Inês, de 11 anos, enfrenta uma grande perda na família e, com a ajuda dos seus, aprende a lidar com a saudade através de memórias, despedidas e pequenos rituais.

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Menina de 12 anos de expressão melancólica e doce, cabelos castanhos médios, ajoelhada junto à cama com a mão sobre a mão fria da avó, segurando um lenço bordado; mãe de cerca de 35 anos, rosto cansado mas reconfortante, em pé atrás da menina com uma mão no ombro; pai de cerca de 40 anos, de barba curta, sentado à mesa segurando uma fotografia da avó; avó de cerca de 80 anos deitada serenamente, coberta por um xale xadrez vermelho e bege, mãos juntas e uma pequena estrela bordada no lenço; quarto modesto e acolhedor com papel de parede floral claro, janela aberta com cortina leve e luz suave da manhã, móveis de madeira clara e algumas fotos emolduradas; cena principal: despedida íntima e calma, atmosfera silenciosa e afetuosa, cores quentes com texturas que lembram recorte de papel e sombras definidas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A terça-feira que parecia normal

A Inês tinha onze anos e uma mania engraçada: pedia desculpa até às cadeiras quando lhes batia com o joelho. Não era medo. Era jeito dela—uma espécie de cuidado que vinha antes das palavras.

Naquela terça-feira, a casa cheirava a sopa de legumes, a roupa acabada de passar e a tarde húmida. A avó Rosa estava sentada na poltrona perto da janela, com uma manta aos quadradinhos sobre as pernas. A televisão estava ligada, mas sem som. A avó olhava mais para a rua do que para o ecrã.

—Avó, queres que te traga água? —perguntou a Inês, já de pé, pronta a resolver qualquer coisa.

A avó sorriu com os olhos. O sorriso dela era pequeno, mas tinha um calor que a Inês reconhecia desde bebé.

—Sim, minha querida… e depois sentas-te aqui comigo um bocadinho.

A Inês foi à cozinha, encheu um copo e trouxe-o com as duas mãos, como se fosse um tesouro. A avó bebeu devagar.

—Hoje estás muito cansada, não estás? —Inês tentou que a pergunta fosse leve, como quem pergunta se vai chover.

—Estou… mas é um cansaço manso —respondeu a avó. —Como quando se caminha muito e se chega a casa.

A Inês não disse logo nada. Ficou a ouvir o relógio da sala fazer “tic-tac” com uma paciência antiga. A avó pousou a mão na mão dela. A pele estava mais fina, mas a pressão era firme.

—Inês, se eu adormecer mais cedo um dia… tu não ficas zangada, pois não?

—Zangada? —A Inês franziu a testa. —Eu fico… fico a querer que voltes.

A avó fez um carinho no pulso dela, como quem alisa uma dobra do lençol.

—Eu sei. E eu também ia querer. Mas há coisas que não são por maldade. São por tempo.

A Inês sentiu a garganta apertar, como quando se engole uma palavra errada. E naquele instante, a rua lá fora pareceu muito longe, apesar de estar mesmo do outro lado do vidro.

Capítulo 2 — O silêncio na manhã seguinte

Na manhã seguinte, a Inês acordou com um silêncio estranho, pesado e sem cheiro. Normalmente havia barulhos: a chaleira, o rádio baixinho, a avó a tossir de leve, a mãe a abrir e fechar gavetas.

Desta vez, ouviu só passos rápidos e uma porta a fechar devagar demais.

A mãe apareceu no quarto, com os olhos vermelhos e um ar de quem tinha passado a noite a segurar uma coisa frágil.

—Inês… —A voz dela saiu como se tivesse areia. —Vem comigo, amor.

A Inês levantou-se logo. Nem perguntou porquê. Calçou as pantufas e foi atrás.

No corredor, o pai estava encostado à parede, com as mãos na cara. Quando viu a Inês, baixou as mãos, como se tivesse vergonha das lágrimas.

A porta do quarto da avó estava entreaberta.

A Inês entrou devagar. A avó Rosa estava deitada, muito quieta, como se estivesse a descansar depois de um dia comprido. A manta aos quadradinhos cobria-lhe o peito. A janela estava entreaberta e a cortina mexia, fazendo um som suave, como asas pequenas.

—Ela… —A Inês tentou dizer, mas a palavra não saiu.

A mãe aproximou-se e falou com calma, escolhendo as frases como quem escolhe o tom certo numa luz de presença.

—A avó morreu esta manhã, Inês. O corpo dela parou de funcionar. Ela já não sente dor, já não tem cansaço. Não é um castigo. É o fim da vida.

A Inês olhou para o rosto da avó. Parecia, ao mesmo tempo, familiar e distante, como uma fotografia antiga.

—Posso tocar? —perguntou num sussurro.

—Podes —disse o pai.

A Inês tocou na mão da avó. Estava fria, como um copo esquecido na mesa. O frio assustou-a por um segundo, mas depois deu-lhe outra coisa: uma certeza. Aquela mão já não apertava de volta.

As lágrimas começaram a cair sem pressa. Não eram um rio, eram pingos. Pingos que diziam: “Eu estou aqui, mas tu já não.”

—Desculpa… —escapou-lhe. E ela nem sabia por que estava a pedir desculpa.

A mãe abraçou-a de lado, com firmeza.

—Não tens de pedir desculpa. Chorar é uma maneira de amar quando a pessoa já não pode ouvir.

A Inês ficou ali, a respirar devagar, como se o ar fosse um cobertor que tinha de aprender a puxar para cima outra vez.

Capítulo 3 — O círculo de palavras

Na tarde desse dia, a Inês não queria lanche. A cozinha parecia demasiado grande. Até o barulho do frigorífico soava irritante, como se a casa não tivesse percebido o que aconteceu.

O pai sentou-se à mesa com uma caneca de chá. A mãe trouxe um prato de bolachas, não para insistir, mas para estar. A tia Carla, irmã da mãe, chegou e tirou o casaco sem fazer perguntas inúteis.

—Inês —disse a tia, puxando uma cadeira—, podemos fazer uma coisa que me ajudou quando eu era pequena. Um círculo de palavras.

—Tipo… uma reunião? —A Inês tentou uma piada, mas saiu torta.

—Sim, mas sem ata e sem chefe —respondeu a tia, com um sorriso manso. —A ideia é simples: cada um diz o que sente, ou o que lembra, ou uma pergunta. Sem interromper. Sem corrigir. Só ouvir.

A Inês olhou para a mesa. Havia migalhas e um guardanapo com uma dobra perfeita. Ela reparou em pormenores porque o essencial doía.

—Eu começo —disse a mãe. —Eu sinto um buraco. E sinto alívio por ela já não estar a sofrer. E sinto culpa por sentir alívio.

O pai passou a mão pelo cabelo.

—Eu sinto que devia ter feito mais. Mesmo sabendo que fizemos o possível. E eu sinto medo de me esquecer da voz dela.

A tia Carla respirou fundo.

—Eu sinto saudades do cheiro do perfume da tua avó, aquele que parecia flor e sabonete. E sinto gratidão por ter aprendido com ela a fazer arroz soltinho… mesmo que eu ainda falhe às vezes.

A Inês ficou em silêncio. As três pessoas olharam para ela sem pressa, como quem abre espaço numa sala para alguém passar.

—Eu… —A Inês engoliu em seco. —Eu sinto raiva. Não da avó. Da morte. Parece uma coisa… injusta. Eu queria que a vida tivesse um botão de “pausa”. E… —a voz falhou— eu sinto medo que, quando eu estiver a rir na escola, isso signifique que eu deixei de gostar dela.

A mãe estendeu a mão por cima da mesa. A Inês pegou nela.

—Rir não apaga ninguém —disse a mãe. —O luto não é uma prova para passar. É uma forma de caminhar com saudade.

A Inês respirou mais fundo.

—E eu tenho uma pergunta —continuou. —A avó… está onde agora?

O pai olhou para a caneca, como se procurasse a resposta no vapor.

—Depende do que cada um acredita. Eu acredito que o amor que ela deixou fica aqui. E que nós levamos coisas dela connosco. Algumas pessoas acreditam num céu, outras numa paz, outras na memória. O importante é que ela não está a sofrer.

A tia Carla acrescentou:

—E há uma coisa concreta: o corpo dela vai ser cuidado com respeito. Vamos despedir-nos. Vamos estar juntos. E vamos lembrar-nos dela com verdade. Até das manias.

A Inês soltou um meio sorriso, apesar das lágrimas.

—A mania de dizer “leva um casaquinho”, mesmo no verão.

—Exatamente —disse o pai. —Isso vai viver para sempre, aposto.

A Inês sentiu o peito apertado, mas já não parecia uma corda a sufocar. Parecia um nó que, com tempo, se podia desapertar devagar.

Capítulo 4 — Preparar a despedida

Nos dias seguintes, a casa encheu-se de tarefas: telefonemas, mensagens, pessoas a bater à porta com abraços cuidadosos e frases repetidas. A Inês ouvia “os meus sentimentos” tantas vezes que começou a soar como um casaco emprestado—útil, mas que não assenta bem.

A mãe pediu-lhe ajuda para escolher uma fotografia da avó para levar. A Inês abriu uma caixa de sapatos onde a avó guardava retratos antigos e cartas com a letra redonda.

Havia uma foto da avó com a Inês bebé ao colo, as duas com o nariz encostado. Havia outra da avó num piquenique, a segurar uma melancia como se fosse um troféu.

A Inês riu-se. Foi um riso pequeno e culposo, e ela tentou engoli-lo.

—Desculpa, avó —murmurou para a foto.

A mãe estava ao lado e ouviu.

—Não peças desculpa por te lembrares dela viva —disse. —A morte não transforma a vida inteira dela num assunto triste. Ela foi muita coisa.

A Inês escolheu a foto da melancia. Pareceu-lhe justa. A avó, ali, parecia dizer: “A vida é pesada às vezes, mas olha o que eu consigo carregar.”

No dia da despedida, a Inês vestiu uma roupa simples e pôs no bolso um lenço de tecido que a avó lhe tinha oferecido, com um bordado de uma estrela. Era um lenço minúsculo, mas na mão dela parecia uma âncora.

No local, havia gente a falar baixo. A Inês sentiu-se como se estivesse a andar dentro de uma biblioteca, só que em vez de livros havia corações a bater devagar.

Quando se aproximou, viu a avó pela última vez. O rosto estava sereno. A Inês pensou: “Ela não está aqui dentro, como eu.” E esse pensamento doeu e aliviou ao mesmo tempo, como tirar uma farpa.

—Posso dizer-lhe uma coisa? —perguntou ao pai.

—Podes. E podes dizer em voz alta ou em pensamento.

A Inês inclinou-se.

—Obrigada por tudo. Mesmo pelos “leva um casaquinho”. Eu vou tentar ser… tão paciente como tu. E… eu vou comer sopa sem reclamar. Às vezes.

A palavra “às vezes” escapou e ela quase ouviu a avó a rir, como se a sinceridade fosse o melhor presente.

Quando se afastou, a tia Carla pôs-lhe a mão no ombro.

—Fizeste bem. Despedidas não apagam a dor, mas dão-lhe um lugar.

A Inês assentiu. Estava cansada, mas era um cansaço diferente: como depois de se carregar uma mochila pesada e, por um momento, pousá-la no chão.

Capítulo 5 — A saudade no bolso

Na semana seguinte, a escola parecia continuar a funcionar como se nada tivesse acontecido. Os colegas falavam de testes, de jogos, de séries. O mundo era teimoso.

A Inês contou à melhor amiga, a Marta, durante o intervalo, junto ao campo de basquete.

—A minha avó morreu —disse, e as palavras caíram no chão entre as duas.

A Marta arregalou os olhos.

—Eu… sinto muito. Queres… falar?

A Inês deu de ombros, mas o gesto não era indiferença, era defesa.

—Não sei. Às vezes eu quero. Às vezes eu não quero. E às vezes eu estou bem e depois, do nada, fico com vontade de chorar porque vejo uma senhora com uma manta parecida.

A Marta pensou um pouco.

—Então fazemos assim: quando quiseres falar, dizes “manta”. E eu sei que é para parar e ouvir.

A Inês soltou uma risada curta.

“Manta” é uma palavra estranha para um código secreto.

—Melhor ainda —disse a Marta. —Se fosse “protocolo 17”, íamos parecer agentes secretos cansados.

A Inês sentiu uma coisa a abrir dentro dela, como uma janela que finalmente se destranca. Não apagava a saudade, mas deixava entrar ar.

Em casa, continuou a haver momentos difíceis. A mãe às vezes ficava parada a olhar para uma panela como se tivesse esquecido o próximo passo. O pai punha a mesa e, por um segundo, punha um prato a mais, depois tirava, sem dizer nada.

Numa dessas noites, a Inês pegou no lenço bordado com a estrela e foi até à sala.

—Mãe? Pai? —chamou. —Podemos fazer outro círculo de palavras? Só um bocadinho.

O pai sentou-se logo. A mãe também, com os olhos cansados, mas presentes.

—Eu sinto que a casa faz eco —disse a Inês. —Como se as paredes estivessem à procura da voz dela.

A mãe assentiu.

—Eu sinto isso também.

O pai respirou fundo.

—Eu sinto medo de que a tristeza vire hábito. Mas eu também sinto orgulho em nós, por estarmos a falar.

A Inês apertou o lenço.

—Eu queria uma coisa concreta para fazer quando a saudade vem.

A mãe pensou e apontou para uma pequena prateleira.

—Podemos fazer uma “caixa de memórias”. Pôr lá coisas e histórias. E quando a saudade aparecer, abrimos. Não para ficar presos no passado, mas para lembrar que ela existiu de verdade.

A Inês gostou da ideia. Concreta. Possível. Como um plano para dias em que o coração parece não saber o que fazer com tanto sentimento.

Capítulo 6 — O céu como resposta

Nessa noite, a Inês ajudou a escolher a caixa: uma de madeira clara, com uma tampa que fechava bem. Puseram lá a fotografia da melancia, uma receita escrita pela avó, um botão antigo que ninguém sabia de que casaco era, e o lenço da estrela—não para desaparecer, mas para descansar quando ela quisesse.

Antes de ir para a cama, a Inês foi à janela do quarto. O ar da noite estava fresco e limpo. Lá fora, o céu tinha uma cor profunda, quase azul-escura, e as estrelas pareciam furos de luz num pano esticado.

A mãe entrou devagar e encostou-se ao ombro dela.

—Não consigo parar de pensar nela —disse a Inês. —E depois penso que um dia vou pensar menos. E isso assusta-me.

A mãe olhou para o céu, como se procurasse palavras entre as estrelas.

—Vais pensar de maneiras diferentes —respondeu. —No início, a saudade é como uma onda grande. Depois, as ondas ficam mais espaçadas. Mas o mar continua lá. O amor não desaparece. Só muda de forma.

A Inês ficou a observar uma estrela mais brilhante, sozinha, perto do telhado do prédio da frente.

—Acham que ela está a ver-nos?

—Eu não sei como é exatamente —disse a mãe com honestidade. —Mas sei que, quando olhas para o céu e te lembras dela com carinho, isso é uma conversa. Talvez não seja como um telefonema… mas é como mandar uma mensagem que o coração entende.

A Inês respirou fundo. O peito doía, mas o ar parecia mais leve.

—Então… boa noite, avó —sussurrou para o céu. —Eu vou ficar bem. Não já. Mas eu vou.

A mãe beijou-lhe a testa.

—Eu também acredito nisso.

A Inês foi para a cama. Puxou o cobertor e fechou os olhos. E antes de adormecer, a imagem das estrelas ficou ali, calma e firme, como se o céu fosse uma mão enorme a segurar o mundo no lugar—e, lá dentro, a saudade tinha espaço para existir sem a assustar.

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Poltrona
Cadeira grande e confortável para uma pessoa sentar e descansar.
Manta
Peça de tecido para aquecer as pernas ou ombros numa cadeira ou cama.
Quadradinhos
Padrão feito de muitos quadrados pequenos num tecido ou desenho.
Tic-tac
Som repetido e lento de um relógio a marcar o tempo.
Manso
Tranquilo, calmo, sem força ou violência.
Engolir
Fazer algo passar pela garganta para dentro do estômago; também pode ser guardar uma emoção.
Entreaberta
Algo que está um pouco aberto, sem estar totalmente fechado nem totalmente aberto.
Cobertor
Tecido grosso usado para aquecer uma pessoa durante o sono.
Luto
Período em que as pessoas sentem e mostram tristeza por alguém que morreu.
Saudade
Sentimento de falta e desejo de ver ou sentir alguém que já não está perto.
Despedida
Momento em que se diz adeus a alguém pela última vez ou por um tempo.
Sereno
Calmo e tranquilo; sem perturbação.

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