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Conto nórdico e viking 5 a 6 anos Leitura 10 min.

A lanterna de Freya e a palavra que fez uma ponte

Freya atravessa um fiorde nevado para levar uma palavra de paz entre dois clãs, enfrentando vento, escuridão e pequenos desafios que põem à prova sua coragem e confiança.

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Mulher adulta — Freya — ajoelhada na neve, rosto calmo e concentrado, cabelos trançados, casaco de pele escuro e botas forradas; ela risca uma pedra no metal da sua lanterna para acender uma pequena chama. Menino de 6 anos — Torm — de pé um pouco afastado junto a uma trilha, gorro grande, olhos confiantes, segurando um pedaço de corda; observa Freya com admiração na entrada da aldeia. Homem adulto guarda — ao fundo, um guarda bigodudo em cotas simples com lança, atento junto à entrada. Local: trilha nevada ao lado de um fiorde, lagos congelados, troncos cobertos de neve, casas de madeira com telhados inclinados ao longe. Cena: noite clara sob nuvens baixas, vento rodopiando flocos; Freya reacende uma lanterna vacilante sobre um colchão de musgo seco, pequena chama quente contra o frio branco, atmosfera nórdica e serena. reportar um problema com esta imagem

Parte I — A Palavra no Frio

Nos dias em que os clãs escandinavos viviam como pinheiros juntos: retos, próximos e cheios de vento por dentro, morava Freya numa casa de madeira escura, à beira de um fiorde. Ela era uma mulher adulta, de mãos firmes e olhos calmos. Diziam que Freya sabia ouvir o silêncio, como quem encosta a orelha numa concha e escuta o mar.

Numa manhã pálida, o chefe do clã veio até ela. Tinha barba com gelo e voz de pedra boa.

“Freya,” disse ele, “leva uma palavra até ao clã do outro lado do fiorde. Uma palavra justa. Não é ordem, não é ameaça. É uma ponte.”

E entregou-lhe uma pequena tira de couro com sinais simples, marcados a fogo: era a palavra combinada, para evitar brigas e abrir caminho para a paz.

Freya guardou o couro no bolso do casaco. A palavra era leve como pena, mas pesava como um sino. Porque palavra, no Norte, é coisa séria: se parte, corta; se é inteira, cura.

Ela preparou-se depressa. Um pão duro, um pedaço de queijo, e uma lanterna de metal, com vidro amarelado. Ao acendê-la, a chama pareceu um passarinho dourado, tremendo dentro da gaiola.

“Vai comigo,” murmurou Freya. “Vamos levar luz e levar voz.”

Ao sair, um menino do clã, Torm, correu atrás dela. Tinha seis anos e um gorro maior do que a cabeça.

“Posso ir?” pediu ele, pulando como uma faísca.

Freya sorriu. “Hoje vais ficar. Mas podes fazer algo importante: confia que eu volto. A confiança é como corda de barco: segura mesmo quando não vês a outra ponta.”

Torm apertou o gorro e assentiu, muito sério, como um pequeno chefe.

Freya seguiu pela trilha. A neve estalava sob as botas como biscoito seco. O vento, invisível e brincalhão, empurrava as árvores para fazerem reverência. E as montanhas, altas e quietas, pareciam velhos gigantes a dormir com cobertores de nuvens.

Parte II — O Vento que Faz Troça

No meio do caminho, o céu mudou de humor. As nuvens juntaram-se como ovelhas teimosas e começou a cair neve fina, rodopiando, querendo tapar o mundo. Freya conhecia aquela dança: era a dança que confunde.

A trilha ficou mais apagada. A brancura era tanta que parecia que alguém tinha derramado leite sobre a terra. Freya parou um instante, respirou fundo e falou para si mesma, como faziam os antigos viajantes:

“Eu sei o rumo. Eu sei a palavra. Eu confio nos meus passos.”

Então ouviu um som estranho: “crac… crac…”. Um lago pequeno, coberto de gelo, gemia como porta velha. Freya desviou-se e seguiu pela margem, mas o vento, com o seu humor de duende, soprou com força e apagou a lanterna.

A chama-passarinhos sumiu, e a escuridão ficou mais grande.

“Ah, vento maroto,” disse Freya, sem raiva, “queres brincar comigo?”

Ela procurou pederneira no bolso, mas as mãos, com frio, pareciam luvas de madeira. A pederneira escorregou e caiu na neve, desaparecendo como um segredo.

Freya ficou quieta. O mundo estava branco, e dentro dela também parecia branco por um instante: um vazio, um “e agora?”. Mas ela lembrou-se do que o chefe dissera: a palavra era uma ponte. E lembrou-se do menino Torm, confiando do outro lado, sem ver.

Ela ajoelhou e passou a mão na neve, devagar, como quem penteia um cachorro. Sentiu algo duro: um pedaço de pedra lisa. Não era a pederneira, mas era um sinal. “A terra ajuda,” pensou. “É como uma amiga que fala baixo.”

Freya tirou do bolso um pequeno saco com musgo seco, que guardava para acender fogo. Musgo, no Norte, é como cobertor da floresta: humilde e quente. Com a pedra lisa, ela bateu no metal da lanterna, fazendo faísca. Uma, duas, três… Até que, enfim, uma faísca mordeu o musgo e nasceu uma chama pequenina, tímida como gatinho.

A lanterna voltou a brilhar. O passarinhos de fogo acordou, sacudiu as asas e iluminou o caminho.

Freya soltou um riso curto. “Vês? Até a luz confia em voltar.”

Ela caminhou mais um pouco e encontrou um tronco caído, coberto de neve. Parecia uma ponte improvisada sobre um riacho. Ao atravessar, a madeira estalou. Freya parou, com um pé no meio, e o vento fez um “uuuuh”, como se contasse piada.

Ela não correu. Não gritou. Apenas baixou o corpo, pôs as mãos no tronco e foi devagar, como quem conversa com a própria coragem.

“Confiança,” sussurrou, “não é barulho. É passo pequeno.”

Do outro lado, respirou aliviada. A lanterna dançava luz no gelo do riacho, e o riacho respondia com brilhos, como se sorrisse.

Parte III — A Ponte de Voz

Quando o céu clareou um pouco, Freya viu ao longe as casas do outro clã. Eram como caixas de madeira encaixadas na neve, com fumaça subindo em linhas finas. O cheiro de lenha queimando chegou até ela, e parecia um convite.

Na entrada do povoado, dois guardas estavam de pé, com lanças. Tinham olhos atentos, mas não eram maus; apenas eram como cães de guarda: fazem o seu trabalho.

“Quem vem?” perguntou um deles.

“Freya, do clã do fiorde,” respondeu ela. “Trago uma palavra.”

Os guardas trocaram olhares. Um deles franziu a testa, como quem tenta lembrar uma canção antiga.

“Palavras às vezes são flechas,” disse o outro, desconfiado.

Freya ergueu a lanterna, para que vissem o seu rosto. A luz desenhou sombras suaves nas suas bochechas, como se a noite a pintasse.

“Uma flecha voa e fere,” disse ela. “A minha palavra quer pousar e ficar, como pássaro no ombro.”

Tirou do bolso a tira de couro e mostrou os sinais queimados. Os guardas reconheceram o acordo. O mais alto coçou a barba e soltou um meio sorriso.

“Entra. E cuidado com o nosso bode. Ele acha que manda em tudo.”

Como se o bode tivesse ouvido, apareceu mesmo ali, com cara teimosa, e deu uma cabeçada no ar, só para mostrar serviço.

Freya riu baixinho. “Ora, majestade de chifres, não vou discutir contigo.”

Levaram-na até ao salão do chefe. Lá dentro, o fogo crepitava, e o calor abraçava como manta. O chefe do outro clã era uma mulher também, com tranças longas e olhar de rio profundo.

Freya fez uma reverência simples, sem exagero. No Norte, respeito não precisa de muito enfeite.

Ela falou a palavra do acordo, com voz clara, sem pressa. Cada som parecia uma pedrinha colocada no lugar certo. E enquanto falava, a lanterna ao seu lado brilhava, quieta, como testemunha.

A chefe escutou até ao fim. Depois, ficou um momento em silêncio. Silêncio de pensar, não de brigar.

“Boa palavra,” disse ela por fim. “Palavra inteira. Palavra que não mente.”

E levantou-se. “Diz ao teu chefe que aceitamos. E que a tua coragem tem mais força do que muitos escudos.”

Freya sentiu o peito ficar leve. Não porque era heroína, mas porque a ponte tinha sido construída.

Ao sair, um dos guardas ofereceu-lhe um pedaço de pão doce.

“Para o caminho. E para o bode não te seguir,” brincou ele.

Freya guardou o pão e respondeu: “Se ele vier, eu digo-lhe uma palavra também.”

Quando voltou à trilha, o vento parecia menos atrevido. A neve caía devagar, como pena. E a lanterna ia à frente, mostrando o chão, passo após passo.

Perto de casa, já ao entardecer, Freya viu Torm esperando. Ele correu até ela.

“Voltaste!” disse, com olhos grandes.

“Voltei,” respondeu Freya. “E tu confiaste.”

Torm endireitou os ombros. “Eu segurei a corda.”

Freya afagou-lhe o gorro. “E eu senti.”

Ela entrou no povoado e entregou ao chefe a resposta. A palavra tinha ido e voltado, inteira, como barco que regressa ao porto.

Naquela noite, Freya saiu um instante para fora. O céu estava limpo, cheio de estrelas, como sementes de luz espalhadas. Ela ergueu a lanterna, e a chama dançou uma última vez, pequena e fiel.

Depois, com calma, Freya baixou a lanterna, deixando-a repousar perto da porta.

A luz ficou mais baixa, mas a confiança, essa, ficou alta dentro de todos, como uma estrela que não se apaga.

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Fiorde
Um lugar onde o mar entra entre montanhas, como um braço de água.
Lanterna
Objeto que faz luz para ver no escuro, segurado com a mão.
Pederneira
Pedra usada para fazer faísca e acender fogo.
Musgo
Planta macia que cresce em pedras e troncos, como um cobertor verde.
Desviou-se
Mudou de caminho para não ficar em cima de algo perigoso.
Reverência
Ato de curvar o corpo para mostrar respeito a alguém.
Crepitava
Som de fogo fazendo pequenos estalos e chiados quando queima.
Confiança
Sentir segurança de que alguém vai cumprir o que disse.
Trilha
Caminho estreito na terra por onde as pessoas andam.
Tranças
Cabelo entrelaçado em tiras que formam um desenho longo.

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