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História de pirata 11 a 12 anos Leitura 27 min.

A ilha do sussurro e as três provas da persistência

A capitã Leonor e a sua tripulação enfrentam névoas, um navio sem bandeira e três provas — medo, dúvida e fome — enquanto seguem o mapa da misteriosa Ilha do Sussurro, aprendendo sobre coragem e amizade.

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Uma capitã de cerca de 35 anos, rosto avermelhado pelo sal e sol, sorriso orgulhoso e olhar terno, veste jaqueta marinheira azul gasta, botas de couro castanho e segura um tricorne que prende ao mastro principal, em pé no convés com postura confiante; ao seu lado direito à frente, Nico, um rapaz de 12 anos de cabelos castanhos desgrenhados e olhos brilhantes de admiração, segura uma corda; à esquerda, Maia, mulher de 30 anos de cabelo preto preso e rosto sério mas sereno, está sobre uma caixa olhando o horizonte com uma luneta; ao fundo, Barba-Pequena, cozinheiro de cerca de 45 anos, robusto com pequeno cavanhaque e avental manchado, ri segurando uma frigideira perto de um barril; convés de madeira clara molhada, cordas grossas enroladas, polias de metal patinado, vela parcialmente recolhida e cabos formando linhas gráficas; mar calmo com reflexos alaranjados e pôr do sol rosa‑alaranjado com poucas nuvens, leves respingos em aquarela nas ondas; atmosfera triunfante e acolhedora, cores quentes e texturas de madeira e tecido em lavis, composição centrada na capitã e no tricorne olhando para o horizonte. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A capitã de sorriso fácil

O mar estava tão azul que parecia tinta derramada. No convés da Caravela Fagulha, a capitã Leonor Faria andava de um lado para o outro com um mapa velho nas mãos e sal no cabelo. Tinha um jeito estranho para pirata: era temida quando precisava, mas não conseguia esconder um sorriso quando alguém fazia uma boa piada.

— Se eu cair ao mar, prometem pescar-me antes do jantar? — perguntou o grumete Nico, equilibrando-se num barril como se fosse um artista de circo.

— Só se prometeres não usar o meu chapéu como boia — respondeu Leonor, apontando para o tricórnio que usava desde sempre, gasto nas pontas, mas impecavelmente escovado.

A tripulação riu. Até Maia, a imediata, que raramente ria, deixou escapar um som curto, quase um “hum”.

Leonor abriu o mapa sobre uma caixa de cordas. As linhas estavam desbotadas, e havia uma mancha redonda que cheirava a limão — alguém, em algum momento, tinha pousado uma fruta ali.

No canto, um desenho de ilha parecia impossível: montanhas em forma de dentes, uma lagoa no centro e, ao redor, símbolos que lembravam olhos.

— A Ilha do Sussurro — disse Leonor, num tom que fazia o vento parecer ouvir. — Mítica. Escondida. E, se este mapa não estiver a gozar comigo, mais perto do que jamais esteve.

— Mítica também significa “provavelmente inventada por um bêbado”, capitã — resmungou o cozinheiro Barba-Pequena, que tinha bigode enorme e barba… quase nenhuma.

— Talvez. Mas eu já fui chamada de invenção também, e aqui estou eu. — Leonor dobrou o mapa com cuidado, como se guardasse um segredo vivo. — Vamos atrás dela.

Maia coçou a sobrancelha.

— Por quê, capitã? Tesouro?

Leonor olhou o horizonte. O sol brilhava com aquela arrogância de quem nunca teve de remar contra a corrente.

— Porque o mundo é grande demais para ficar só no que já conhecemos. E porque… — ela hesitou, rara pausa — …prometi a mim mesma que não desistia de um sonho só porque ele dava trabalho.

Nico levantou a mão como numa sala de aula, o que era um hábito engraçado num navio pirata.

— E se a ilha não existir?

Leonor piscou.

— Então vamos voltar com uma história tão boa que até os tubarões vão pedir repetição.

E assim, com velas estufadas e gargalhadas a servir de música, a Caravela Fagulha apontou para as águas onde os mapas costumavam ficar em silêncio.

Capítulo 2 — A bússola que não gostava de obedecer

Dois dias depois, o mar mudou de humor. O azul virou cinzento, e o vento ficou com cheiro de ferro, como se alguém estivesse a afiar facas no céu.

Nico apareceu no convés com a bússola nas mãos, os olhos arregalados.

— Capitã… ela está… a mentir.

Leonor pegou na bússola. A agulha girava, girava, e parava sempre a apontar para trás, como se dissesse: “Volta para casa, que eu não estou para aventuras.”

— Não é mentira — disse Maia, aproximando-se. — É interferência. Magnetismo. Talvez rochas, talvez… outra coisa.

Barba-Pequena surgiu com uma frigideira na mão, como se isso ajudasse.

— Se o norte se zangou, eu posso fritar um sul bem passado.

— Obrigada pela ideia culinária — disse Leonor, segurando a vontade de rir. — Mas vamos precisar de cabeça, não de tempero.

Ela fechou a bússola e guardou-a.

— Nico, vai ao porão buscar a ampulheta e a corda de nós. Maia, sobe ao mastro e observa as nuvens. Se o céu quer brincar connosco, vamos brincar melhor.

Enquanto a tripulação se mexia, Leonor ajoelhou-se no convés e desenhou com giz uma linha reta.

— Vamos usar o método antigo. Sem depender de agulhas temperamentais. — Tocou com os dedos na madeira, sentindo a vibração das ondas. — O mar fala. Só precisamos de ouvir.

Maia, lá em cima, gritou:

— Nuvens em “rabo de peixe” a oeste! Tempestade a chegar!

Um trovão respondeu como se fosse aplauso.

— Então dançamos com ela — disse Leonor. — Recolham parte das velas. Amarrem tudo o que puder voar. E ninguém me deixa o Nico sozinho perto dos barris, que ele tem talento para inventar quedas.

— Eu ouvi isso! — protestou Nico, já a amarrar uma corda com tanta força que parecia querer prender o próprio vento.

A tempestade chegou com pressa. A água chicoteava o convés, e as ondas levantavam-se como muralhas que queriam impedir a passagem. A Fagulha gemeu, madeira contra mar.

Leonor segurou o leme com os braços tensos, os olhos bem abertos apesar da chuva.

— Força, menina! — murmurou para o navio, como se falasse com um animal teimoso. — Não viemos até aqui para recuar por causa de um banho.

Uma onda enorme tentou engolir o convés. Nico escorregou, mas Maia agarrou-o pelo colete no último segundo.

— De nada — disse ela, sem emoção.

— Eu… eu estava a testar a aderência da madeira! — Nico engoliu água e orgulho ao mesmo tempo.

Leonor não teve tempo de comentar. O céu rasgou-se num relâmpago, e, por um instante, ela viu algo ao longe: uma linha escura no meio da chuva. Não era nuvem. Era uma forma, como um rochedo… ou a lombada de um monstro adormecido.

— Rumo ali! — gritou, com a certeza a furar o medo.

Maia olhou e franziu o rosto.

— Isso parece… errado.

— Muitas coisas certas parecem erradas antes de acontecerem — respondeu Leonor, e manteve o leme firme.

A Fagulha atravessou a cortina de chuva e, de repente, o barulho diminuiu. Como se alguém tivesse fechado uma porta. A água ficou estranhamente calma. A tempestade continuava atrás deles, mas ali havia um círculo de silêncio.

Nico sussurrou:

— Entrámos no olho da tempestade.

Leonor respirou fundo. O ar cheirava a algas e a segredo.

— Não. — Ela apontou para a frente, onde a névoa se abria devagar. — Entrámos num convite.

Capítulo 3 — O navio sem bandeira

Da névoa saiu um navio. Velho, escuro, sem bandeira. As velas pendiam como roupa molhada, e o casco parecia ter ouvido demasiadas histórias tristes.

A Fagulha aproximou-se devagar, rangendo, como se também não quisesse ser mal-educada.

— Vêem tripulação? — perguntou Leonor.

Maia semicerrava os olhos.

— Não vejo ninguém. E isso é o pior sinal possível.

Barba-Pequena apertou a frigideira contra o peito.

— Se aparecer um fantasma, eu ofereço-lhe sopa. Fantasmas devem ser magros.

Nico engoliu em seco.

— Capitã… e se for uma armadilha?

Leonor passou a língua pelos lábios, provando sal.

— Tudo no mar pode ser armadilha. Até uma manhã bonita. Mas não vamos fingir que isto não existe.

Ela pegou num megafone de metal amassado.

— Ahoy! — a voz ecoou e voltou vazia. — Navio à deriva! Há alguém aí?

Silêncio. Depois, um estalo. Uma corda soltou-se sozinha e caiu, como se alguém tivesse largado do outro lado. A escada de corda balançou no ar, oferecendo passagem.

— Isso não é nada sinistro — disse Nico, com uma coragem que parecia emprestada.

— Eu vou — afirmou Leonor, já a prender o sabre no cinto. — Maia, vens comigo. Nico, ficas a bordo. E não negocies com o vento.

— Eu nunca negocio com o vento — disse Nico. — Eu discuto.

Leonor e Maia atravessaram para o navio sem bandeira. O convés estava húmido e frio. Havia marcas de arrastamento, como se barris tivessem sido puxados à pressa. Um cheiro a canela e mofo misturava-se, esquisito como um riso num funeral.

— Canela? — Maia murmurou. — Quem carrega canela num navio fantasma?

Leonor encontrou uma porta entreaberta e empurrou-a com a ponta da bota. Dentro, uma cabine. Sobre a mesa, um diário aberto. A tinta ainda brilhava, fresca demais para um navio tão velho.

Ela leu em voz alta, devagar:

“Se estás a ler isto, é porque o Sussurro te escolheu. A ilha não se encontra: ela encontra-te. Mas cuidado com as três provas. A primeira é o Medo, a segunda é a Dúvida, a terceira é a Fome.” — Leonor parou. — Fome?

— Isso é poético ou é literalmente fome? — Maia apontou para uma gaveta vazia. — Porque eu preferia o poético.

Do lado de fora, ouviu-se um baque. Como uma madeira a bater.

Leonor saiu rápido. No convés, uma sombra comprida atravessou a névoa. Não era pessoa, nem onda. Parecia um braço de água.

— Voltar para a Fagulha. Já. — Leonor não gritou; falou com firmeza, e isso assustou mais.

Enquanto corriam, o navio sem bandeira rangeu como se estivesse a acordar. A escada de corda balançou violentamente.

Maia agarrou-a primeiro, desceu com rapidez. Leonor veio atrás, mas uma rajada puxou a escada para o lado. Por um segundo, a capitã ficou suspensa entre os dois navios, o mar lá em baixo a abrir a boca.

Nico, na Fagulha, atirou uma corda com um nó perfeito.

— Capitã! Segure!

Leonor esticou o braço, os dedos quase a falhar por causa da chuva fina, e apanhou a corda. O puxão queimou-lhe as palmas, mas ela não largou.

— Isso, Leonor — disse para si mesma, entre dentes. — Persistência não é poesia. É isto.

Com esforço, voltou para o convés da Fagulha. Mal os pés tocaram madeira conhecida, o navio sem bandeira afastou-se sozinho, engolido pela névoa como se nunca tivesse estado ali.

Nico respirava como quem tinha corrido uma maratona sem sair do sítio.

— Eu… eu fiz um nó de herói?

— Fizeste um nó de alguém que não desiste — respondeu Leonor, apertando-lhe o ombro. — E isso vale mais do que heroísmo de fachada.

Maia olhou para o diário que Leonor trazia.

— Três provas, então.

Leonor guardou o diário no casaco, perto do coração.

— Três provas. E um convite que não aceita “talvez”.

Capítulo 4 — A Prova do Medo

A névoa começou a rodopiar, desenhando caminhos no ar. A bússola continuava malcriada, mas agora a própria água parecia indicar direção: pequenas ondulações apontavam como setas.

A Fagulha avançou e entrou num canal estreito entre rochedos. As pedras eram altas e negras, e tinham fendas que lembravam bocas abertas.

— Não gosto disto — disse Barba-Pequena. — Rochas com cara de gente dão azar. Uma vez vi uma batata com cara de tio-avô e fiquei doente três dias.

— Talvez fosse a batata estragada — disse Nico.

— Era o tio-avô — insistiu o cozinheiro.

O canal afunilou. O vento parou. O silêncio ficou tão pesado que até as gaivotas pareciam prender a respiração.

De repente, as fendas nas rochas começaram a sussurrar. Não era vento. Eram palavras. Baixas, insistentes, como pensamentos que aparecem quando tentamos dormir.

“Vão falhar.”

“Voltem.”

“Ela não é capitã de verdade.”

“Ela só finge coragem.”

Nico tapou os ouvidos.

— Está a falar comigo!

Maia ficou pálida, mas manteve-se firme.

— São… ecos. Medos.

Leonor sentiu o próprio peito apertar. As vozes acertavam onde doía: lembravam-lhe noites antigas, quando tinha decidido tornar-se capitã e muitos riram. “Mulher no comando? Vai afundar o navio antes do almoço.”

As rochas repetiam, agora mais alto:

“Desiste. Desiste. Desiste.”

Leonor fechou os olhos por um segundo. O medo veio como uma onda fria: e se realmente não fosse suficiente? E se a Ilha do Sussurro fosse só um jeito bonito de ser humilhada no fim?

Ela abriu os olhos e viu a tripulação: Nico tremia, Barba-Pequena fazia o sinal de proteção com a frigideira, Maia apertava o corrimão com os nós dos dedos brancos.

Leonor subiu para uma caixa e falou alto, por cima dos sussurros.

— Ouçam! Isto não é o mar a mandar-nos embora. Isto somos nós a tentar convencer-nos de que é mais seguro não tentar.

As rochas chiaram, contrariadas.

— O medo — continuou ela — é como um papagaio chato: repete coisas sem pensar. Mas nós pensamos. E escolhemos.

Nico olhou para ela, os olhos molhados.

— Eu tenho medo de cair e ninguém me apanhar.

— Então não caias sozinho — disse Leonor, estendendo a mão. — Aqui, ninguém enfrenta nada sozinho.

Maia assentiu, e pela primeira vez o seu rosto amoleceu.

— Tripulação, cantem — ordenou Leonor. — Não para calar o medo, mas para caminhar apesar dele.

Barba-Pequena pigarreou.

— Eu só sei aquela do bacalhau apaixonado.

— Serve.

E lá foram eles, desafinados e teimosos, cantando sobre um bacalhau que escrevia cartas de amor a uma sardinha. As vozes humanas preencheram o canal. Os sussurros das rochas fraquejaram, como fogo sem lenha.

A última rocha tentou um ataque final:

“Não és capaz.”

Leonor sorriu, um sorriso curto e feroz.

— Talvez não seja. Mas eu vou tentar de qualquer maneira.

O canal abriu-se de repente, e o mar voltou a respirar. O vento regressou com um assobio alegre, quase como aplauso.

Nico limpou o nariz com a manga.

— Capitã… acho que passámos.

Leonor desceu da caixa.

— Passámos porque insistimos. Guardem isso. A ilha vai tentar outras coisas.

E, ao longe, na linha do horizonte, apareceu uma forma impossível: uma ilha envolta em luz, como se o sol tivesse decidido pousar ali para descansar.

Capítulo 5 — A Prova da Dúvida

À medida que se aproximavam, a Ilha do Sussurro parecia mudar. Ora estava mais perto, ora mais longe. Às vezes, parecia ter duas lagoas. Outras vezes, montanhas diferentes. Era como olhar para uma história que alguém reescrevia enquanto a líamos.

— Isso está a brincar connosco — disse Maia.

— Está a testar-nos — respondeu Leonor. — Dúvida. A segunda prova.

O mapa antigo tremia nas mãos da capitã, como se também estivesse inseguro.

Nico apontou.

— Capitã, vejo uma enseada ali! Água calma, entrada fácil!

Barba-Pequena apontou para o lado oposto.

— E eu vejo outra! Com cheiro a… a pão quente. Juro pela minha frigideira.

Maia franziu o nariz.

— Pão quente no mar? Isso é suspeito.

Leonor observou as duas enseadas. Uma parecia acolhedora demais: areia branca, palmeiras certinhas, e até um arco-íris fora de contexto. A outra era mais simples: pedras, água verde-escura, e um vento que trazia cheiro de terra molhada.

A dúvida mordeu-lhe o pensamento: e se escolher errado e colocar todos em perigo? E se o sonho dela custasse caro?

Ela respirou fundo e decidiu usar o que sempre usava quando a coragem tremia: inteligência e paciência.

— Nico, pega numa linha com chumbo e mede a profundidade naquela enseada “perfeita”. Maia, observa as aves. Onde há vida real, há verdade.

Nico lançou a linha. Ela desceu… e desceu… e desceu, como se a água não tivesse fundo.

— Capitã… isto não faz sentido!

Maia apontou para o arco-íris. Nenhuma ave. Nem uma gaivota curiosa.

— Ilusão — disse Maia. — Bonita, mas vazia.

Barba-Pequena farejou o ar na direção da enseada simples.

— Aqui não cheira a pão quente… cheira a lama e folhas. Cheira a… lugar.

Leonor sentiu a dúvida a recuar, contrariada.

— Então vamos pelo lugar que não promete demais. O que é real nem sempre faz propaganda.

A Fagulha entrou na enseada de pedras. As ondas bateram com força, como se a ilha estivesse a testar a decisão. Uma corrente puxou o navio de lado. O casco raspou numa pedra, arrancando um som que fez doer os dentes.

— Segurem! — gritou Leonor, mantendo o leme firme. — Não recuem!

Maia e Nico puxaram cordas, ajustaram velas, trabalharam como se tivessem nascido ali. Barba-Pequena, inesperadamente útil, atirou sacos de areia para equilibrar o peso.

A corrente tentou mais uma vez, mas a Fagulha, teimosa como a capitã, venceu e entrou em águas mais calmas. O navio ficou ancorado com segurança.

Nico caiu sentado, exausto e feliz.

— Eu duvidei… mas fiz na mesma.

Leonor ajoelhou-se ao lado dele.

— A coragem não é ausência de dúvida. É continuar mesmo com ela no bolso.

Maia olhou para a floresta da ilha, densa e brilhante de humidade.

— Falta a terceira prova.

Barba-Pequena segurou a barriga.

— Se for fome, eu já estou a meio caminho.

Leonor riu, mas sentiu um arrepio. O diário falava sério demais para ser só poesia.

— Pegam em água, cordas e facas. Vamos a terra. E vamos juntos.

Capítulo 6 — A Prova da Fome

A floresta da Ilha do Sussurro era um mundo à parte. O ar era quente, cheio de perfume de flores e fruta madura. Insetos zumbiam como pequenos motores. O chão, coberto de folhas, fazia um “crac” suave a cada passo.

No início, era quase divertido. Nico apontava plantas estranhas, Maia marcava o caminho com pequenas fitas, e Barba-Pequena comentava tudo como se fosse guia turístico.

— À direita, temos uma árvore que parece brócolo gigante. À esquerda, um arbusto que me julga.

Mas, com o tempo, o estômago começou a falar. Primeiro, baixinho. Depois, como tambor.

Leonor tinha trazido provisões, mas ali dentro as coisas pareciam… desaparecer. O saco de pão, quando abriram, estava vazio. A água, num cantil, tinha virado uma poça de areia fina.

Nico arregalou os olhos.

— Eu não comi isto, juro!

Maia apertou os lábios.

— A ilha está a mexer com a nossa necessidade. Quer ver o que fazemos quando falta.

Barba-Pequena olhou em volta, olhos brilhantes.

— Eu juro que vi uma galinha assada a passar ali.

— Isso era fome a desenhar — disse Leonor, mas a sua própria visão vacilou: por um segundo, viu a mesa da sua infância, pão quente, manteiga a derreter. Sentiu o cheiro e quase chorou.

A fome não era só no estômago. Era saudade, desejo, vontade de desistir e procurar conforto.

O caminho tornou-se mais íngreme. A lagoa central, vista de longe, chamava como um espelho. Mas cada passo parecia mais pesado. Nico começou a arrastar os pés.

— Capitã… eu não consigo.

Leonor também tremia por dentro. A cabeça latejava, e a tentação de sentar e “esperar um pouco” era enorme. Mas ela viu algo no tronco de uma árvore: um risco antigo, como marca de faca. Depois outro. Alguém já tinha passado ali e deixado sinais.

— Não estamos sozinhos — murmurou.

Ela reuniu a tripulação.

— Olhem para mim. — A voz dela saiu rouca, mas firme. — A ilha quer que a gente pense só em comida e conforto. Quer que a gente brigue, que cada um corra atrás do seu pedaço. Mas nós somos tripulação. Persistência é continuar em conjunto, mesmo quando o corpo reclama.

Maia tirou do bolso uma pequena caixa. Dentro, um pedaço de açúcar mascavado, guardado para emergências.

— Eu guardava isto há meses — disse ela. — Partilhamos.

Nico olhou como se fosse um tesouro lendário.

Barba-Pequena suspirou, dramático.

— Isto é amor em forma de açúcar.

Maia partiu o pedaço em quatro. Pequeno, ridiculamente pequeno. Mas quando Leonor colocou o seu pedaço na língua, o doce espalhou-se como uma promessa: não era sobre matar a fome, era sobre lembrar que ainda havia força.

— Agora — disse Leonor — seguimos os sinais nas árvores. Devagar. Um passo de cada vez.

Foram assim, contando passos quando a cabeça rodava, apoiando Nico quando ele tropeçava, e ouvindo Barba-Pequena inventar receitas imaginárias para distrair a mente.

— Ensopado de vento com molho de coragem, servido em prato de “não desisto” — dizia ele, e até Maia deixou escapar um meio sorriso.

Por fim, a floresta abriu-se para uma clareira. No centro, uma pedra enorme, lisa, com uma fenda como boca. Dentro da fenda, havia um tricórnio antigo, pendurado num gancho de osso. Acima, gravado na pedra, um símbolo: um olho.

Leonor aproximou-se. O seu próprio tricórnio estava na cabeça. Sentiu-se observada, mas não ameaçada. Como se a ilha avali­asse não o chapéu, mas quem o merecia.

O diário dizia: “A ilha não se encontra: ela encontra-te.” E ali estava ela, encontrada.

Quando Leonor tentou tocar no tricórnio antigo, ouviu-se um clique. A pedra tremeu e abriu-se como uma porta secreta, revelando uma pequena câmara com objetos deixados por viajantes: bússolas partidas, moedas furadas, pedaços de mapas… e uma garrafa com um pergaminho dentro.

Leonor pegou na garrafa, as mãos a tremer menos agora.

— Isto é o que viemos buscar — disse Maia, surpreendida.

Leonor abriu a garrafa e desenrolou o pergaminho. Não era um mapa de tesouro. Era uma mensagem curta, escrita por diferentes caligrafias ao longo do tempo, como se muitos tivessem acrescentado uma linha:

“Se chegaste aqui, não foi sorte.”

“Foi insistência.”

“Foi amizade.”

“Foi escolher continuar.”

Nico leu e engoliu em seco.

— A ilha… é um tesouro de pessoas.

Leonor respirou fundo, sentindo a fome aliviar, como se a prova tivesse terminado ao ser compreendida.

— E agora — disse ela, olhando para o tricórnio antigo — deixamos a nossa marca também.

Capítulo 7 — O tricórnio pendurado

A viagem de volta ao navio foi mais leve, embora as pernas ainda estivessem cansadas. A floresta parecia menos apertada, como se a ilha tivesse decidido parar de empurrá-los.

Quando chegaram à enseada, a Caravela Fagulha estava intacta, balançando tranquila, quase orgulhosa.

No convés, Leonor reuniu a tripulação. O sol começava a cair, pintando tudo de laranja e ouro. O mar, ali, parecia um gigante adormecido a respirar devagar.

Leonor tirou o seu tricórnio. A marca clara na testa fez Nico sorrir.

— Capitã sem chapéu parece… civilizada.

— Que insulto — disse ela, e a tripulação riu.

Ela segurou o tricórnio nas mãos. Era mais do que um acessório de capitã: era memória, era teimosia, era dias em que ninguém acreditou e mesmo assim ela foi.

Caminhou até ao mastro principal. O vento brincava com as cordas, como dedos impacientes.

— Maia — disse Leonor — hoje não chegámos aqui por eu mandar bem. Chegámos porque todos persistiram quando dava vontade de parar.

Maia assentiu.

— E porque a senhora tem a mania de escolher o caminho difícil.

— Tenho — admitiu Leonor. — Mas o caminho difícil ensina a gente a ser mais forte sem ficar mais dura.

Nico aproximou-se.

— Vamos contar isto quando voltarmos?

— Vamos — disse Leonor. — Mas não como história de “somos incríveis”. Como história de “fomos teimosos e juntos”.

Barba-Pequena limpou uma lágrima que ninguém tinha pedido para ver.

— Eu vou cozinhar um jantar tão bom que até a dúvida vai pedir sobremesa.

Leonor riu e, com um nó firme, prendeu o tricórnio ao mastro, bem alto, onde pudesse apanhar vento e sol. O chapéu balançou, orgulhoso, como uma bandeira discreta.

Por um instante, a capitã sentiu vontade de pegar nele de novo, de mantê-lo consigo. Mas depois lembrou-se do que lera no pergaminho: “Foi insistência.” E insistência, às vezes, também é saber deixar algo para trás, como prova de que estivemos ali.

— Está pendurado — disse Nico, olhando para cima. — E agora?

Leonor colocou as mãos na cintura e olhou para o mar aberto, infinito como um desafio novo.

— Agora a gente volta para casa… e planeia a próxima loucura.

O vento soprou, a Fagulha rangeu contente, e o tricórnio, pendurado no alto, ficou a dançar, como se risse junto com eles.

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Convés
Parte superior e plana do navio onde a tripulação anda e trabalha.
Grumete
Jovem aprendiz ou marinheiro novo que ajuda nas tarefas do navio.
Tricórnio
Chapéu com abas viradas para cima, usado por capitães ou figuras antigas.
Imediata
Pessoa que ajuda o capitão e organiza a tripulação no navio.
Ampulheta
Instrumento de medir tempo com areia que cai de um vidro para outro.
Mastro
Grande poste vertical do navio que sustenta as velas e cordas.
Bússola
Objeto que mostra a direção do norte para ajudar na navegação.
Interferência
Algo que atrapalha um aparelho, como a bússola, fazendo-o enganar.
Névoa
Nuvem muito baixa e espessa que dificulta ver à frente no mar.
Enseada
Pequena entrada de água entre terras, como uma baía protegida.
Pergaminho
Papel antigo enrolado dentro de uma garrafa, com mensagens escritas.
Fenda
Rachadura ou abertura estreita numa rocha ou pedra.

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