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História de pirata 11 a 12 anos Leitura 26 min.

A chave da maré e a capitã Brisa Valente

A capitã Brisa Valente e sua tripulação enfrentam névoas mágicas, provas marítimas e escolhas de lealdade enquanto procuram a lendária Chave de Maré, aprendendo que cumprir promessas e confiar uns nos outros é tão importante quanto um tesouro.

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A capitã Brisa Valente, de rosto determinado, tranças castigadas por um lenço vermelho, jaqueta azul gasta e botas de couro, protege junto ao peito uma grande chave prateada com uma pérola; ao seu lado, o garoto Nino, ~12 anos, olhos maravilhados, segura um pergaminho com linhas azuis; Sarita, ~25 anos, de expressão sarcástica e leal, com rabo de cabelo frouxo e uma sardinha seca na cintura, empunha duas adagas à esquerda de Brisa; o velho Dário, ~60 anos, barbudo e enrugado, com sobretudo de marinheiro e um remo, se posta como escudo atrás dela; ao fundo um prisioneiro magro chamado Rato‑Fino permanece algemado perto de um pequeno barco; vindo da orla da praia, a comandante Lume, ~35 anos, de expressão fria e chapéu preto pontudo, avança com dois guardas de armadura clara; tudo se passa numa ilha isolada de areia escura, com uma árvore retorcida que envolve um buraco irradiando luz azul, rochedos negros, névoa baixa e o pôr do sol dourado filtrando a cena, enquanto a tensão cresce em torno da chave no centro da praia. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A promessa na ponta da faca

O mar cheirava a sal e a liberdade, e o convés do navio rangia como se contasse segredos antigos. A capitã Brisa Valente, com as tranças presas por um lenço vermelho, caminhava de um lado para o outro, os olhos escuros presos no horizonte. Não era a maior pirata dos Sete Cantos, nem a mais temida. Mas era a mais teimosa quando o assunto era uma palavra dada.

— Capitã, o mapa está mesmo… a brilhar? — perguntou Nino, o grumete, apontando para um pedaço de pergaminho amarelado que tremia na mão dele.

Brisa inclinou-se e viu: finas linhas azuis surgiam e desapareciam, como veias de luz. Parecia magia, mas de um tipo prático, como um anzol bem feito.

— Não é brilhar. É… lembrar-se — respondeu ela, tentando soar calma.

Ao lado, a imediata Sarita, com um sorriso torto e uma sardinha seca entre os dentes, fez troça:

— Se o mapa começou a lembrar, espero que lembre onde deixou o tesouro. Eu não quero cavar por saudade.

O riso espalhou-se pelo convés. Até Brisa deixou escapar um meio sorriso. Mas o peito dela apertava. Aquele mapa não era um simples convite à fortuna. Era uma dívida.

No canto do navio, preso ao mastro por uma corrente grossa, estava Rato-Fino, um pirata capturado dias antes. Ele dizia saber onde ficava a “Chave de Maré”, um objeto que abria um cofre lendário. Só que a informação vinha embrulhada em veneno.

— Capitã Brisa! — gritou ele, esticando o pescoço. — Se quer a Chave, tem de me levar junto. E tem de prometer que me entrega inteiro quando tudo acabar.

Sarita cuspiu a sardinha para o lado.

— Inteiro? A gente tem de prometer isso agora? Eu prometo em fatias.

Brisa ergueu a mão, pedindo silêncio. Aproximou-se de Rato-Fino, estudando-o. Era magro, com olhos rápidos e um ar de quem sempre tinha uma desculpa pronta. Ainda assim, o mapa brilhava… e mapas não brilhavam à toa.

— Eu não gosto de promessas para gente que mente — disse Brisa, baixa. — Mas eu gosto menos de quebrar a palavra.

Rato-Fino sorriu, mostrando um dente de ouro.

— Então faça a promessa. A lealdade é bonita, capitã. Combina com você.

Brisa sentiu vontade de dar um empurrão nele, só para ver se a corrente aguentava. Em vez disso, respirou fundo.

— Eu prometo que, se você não tentar nada contra a minha tripulação, eu entrego você às autoridades do Porto do Farol, inteiro, no fim desta viagem.

Sarita arregalou os olhos.

— Capitã…

— Palavra dada — cortou Brisa. — E agora, rumo às Ilhas do Sussurro.

O vento encheu as velas, e o navio — o Vento Bravo — avançou como se também tivesse algo a provar.

Capítulo 2 — As Ilhas do Sussurro

As Ilhas do Sussurro não apareciam nos mapas comuns. Surgiam quando queriam, envoltas numa neblina que cheirava a algas e histórias mal contadas. Quando o Vento Bravo entrou naquele véu branco, os sons mudaram: o mar ficou abafado, e até as gaivotas pareciam falar baixo.

Nino aproximou-se de Brisa, segurando o mapa como se fosse uma bandeja de sopa quente.

— Capitã… eu ouvi meu nome.

Brisa não queria admitir, mas também tinha ouvido. Um “Brisa…” sussurrado, vindo de lugar nenhum e de todo lado.

Sarita deu um tapinha no ombro do grumete.

— Se a neblina começar a pedir dinheiro emprestado, aí sim a gente se preocupa.

O navio avançava devagar. As cordas estavam úmidas, e a madeira do convés parecia mais fria que o normal. À proa, o timoneiro Velho Dário, que tinha mais cicatrizes do que paciência, resmungou:

— Essas ilhas brincam com a cabeça da gente. Não respondam aos sussurros. Sussurro é isca.

Brisa assentiu. Coragem não era gritar e correr. Às vezes era ficar quieta e prestar atenção.

De repente, a neblina abriu como cortina. Duas ilhas apareceram, uma de cada lado, como dentes. Entre elas, um canal estreito e escuro.

— É aqui — disse Rato-Fino, do seu canto, com voz doce demais. — O mapa vai guiar. Só tem um detalhe: o canal muda.

— Muda como? — perguntou Brisa.

— Como humor de capitã — respondeu ele, rindo.

Sarita pegou uma maçã e atirou na direção dele. A maçã não acertou, mas fez Rato-Fino fechar a boca.

Brisa examinou o mapa. As linhas azuis agora formavam setas que dançavam, apontando para dentro do canal. Só que, a cada onda, as setas se mexiam.

— Dário, vela reduzida. Nino, fica comigo na proa. Sarita, olhos no prisioneiro. Se ele espirrar diferente, você me avisa.

— Com prazer — disse Sarita, estalando os dedos como quem afia facas invisíveis.

O Vento Bravo entrou no canal. As rochas surgiam e sumiam sob a água, como costas de monstros adormecidos. A tripulação prendeu a respiração. Brisa sentia o coração bater com força, mas a mente estava clara: observar, decidir, agir.

Nino apontou para a esquerda.

— Capitã! Bolhas!

Uma fileira de bolhas subia, marcando um caminho seguro. O mapa piscou, confirmando.

— Então é isso. O mar está falando… sem palavras — murmurou Brisa. — Sigam as bolhas.

Sarita, lá atrás, gritou:

— Se o mar começar a contar piada, eu pulo!

Brisa quase riu, mas não desviou o olhar. O canal estreitou ainda mais, e uma onda bateu, empurrando o navio para perto das rochas.

— Agora! — ordenou ela. — Vira a bombordo!

O leme rangeu. O Vento Bravo desviou por um palmo. Um palmo que separava aventura de desastre.

Do outro lado do canal, a água ficou mais calma. A neblina se dissolveu, como se tivesse perdido o interesse.

— Passamos — sussurrou Nino, aliviado.

Brisa apertou o ombro dele.

— Ainda não. Ilhas assim não deixam ninguém passar sem cobrar alguma coisa.

E, como se o mar tivesse escutado, um som de sino veio da água.

Capítulo 3 — O sino submerso

O som era grave, redondo, como se alguém tocasse um sino dentro de uma concha gigante. A tripulação se aglomerou na amurada, espiando o verde-escuro.

— Isso é coisa de fantasma — declarou Sarita. — Fantasma ou… imposto.

Velho Dário fez o sinal de “bater três vezes na madeira”, superstição de marinheiro.

Brisa pegou uma corda e amarrou na cintura.

— Capitã, não — disse Nino, alarmado. — Não vai pular aí!

— Alguém tem de ver o que é. E alguém tem de ser eu — respondeu ela, com firmeza. — A capitã manda e… às vezes, obedece ao bom senso.

Sarita ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi quase uma piada.

— Quase — devolveu Brisa.

Ela respirou fundo e mergulhou.

A água era fria como um segredo guardado. Lá embaixo, a luz entrava em lâminas, e sombras balançavam como panos. Brisa desceu guiada pela corda, os pulmões apertando. Então viu: um sino enorme, coberto de coral, preso a uma âncora antiga. E, ao lado, uma corrente que desaparecia numa fenda.

Mas o que fez Brisa prender o ar não foi o sino. Foi um pequeno medalhão preso na corrente: um disco de metal com o símbolo do Porto do Farol — o mesmo símbolo da guarda.

“Armadilha”, pensou. “Ou aviso.”

Ela puxou o medalhão e, no mesmo instante, sentiu a corrente vibrar. O sino tocou sozinho, e algo mexeu na fenda: uma sombra longa, como um peixe-serra… ou um tronco com dentes.

Brisa subiu rápido, mas sem entrar em pânico. “Correr” na água era mais sobre economia de movimentos do que desespero. Quando a cabeça dela rompeu a superfície, Nino e Sarita a puxaram para o convés.

— O que você viu? — perguntou Sarita, molhada até os cotovelos.

Brisa mostrou o medalhão.

— Alguém da guarda esteve aqui. E o sino… é um alarme.

Rato-Fino riu do canto.

— Ah, capitã. Vocês chegaram ao ponto divertido.

Brisa virou-se, os olhos estreitos.

— Que ponto é esse?

— O ponto em que escolhe em quem é leal — respondeu ele. — Ao seu navio… ou às suas promessas.

O mar ao redor começou a ondular de um jeito estranho, como se respirasse. O sino tocou de novo, e, à superfície, surgiram três boias de madeira, cada uma com um número pintado. 1, 2 e 3.

Nino engoliu em seco.

— Isso parece… um jogo.

— É — disse Rato-Fino, animado. — A Chave de Maré está numa dessas rotas. Mas só uma é segura. As outras levam a redes, rochas e… coisas famintas.

Sarita bateu com o pé no convés.

— E como a gente escolhe? Tira no palitinho?

Brisa encarou o mapa. As linhas azuis tremiam, indecisas. Ela fechou os olhos por um segundo e ouviu o mar. Não os sussurros falsos da neblina, mas o som real: o ritmo das ondas batendo no casco, a direção do vento.

Coragem era agir mesmo com medo. Inteligência era usar o que tinha. Resiliência era aceitar que, às vezes, errar fazia parte — e continuar mesmo assim.

Brisa abriu os olhos.

— Rota 2 — disse ela.

— Tem certeza? — Nino perguntou.

— Não. Mas tenho razões.

Sarita riu, nervosa.

— Ah, ótimo. “Razões” é sempre o que eu quero ouvir antes de quase morrer.

Brisa apontou.

— A rota 1 está contra o vento. A 3 passa perto demais das rochas. A 2… o mar está mais solto. Vamos.

O Vento Bravo seguiu pela rota 2. A água clareou. Por um momento, pareceu que Brisa tinha acertado. Então, um estalo seco ecoou: uma rede subiu do fundo, tentando abraçar o navio.

— Às facas! — gritou Brisa. — Cortem!

A tripulação correu. Lâminas brilharam. Cordas arrebentaram. A rede prendeu parte do leme, e o navio girou.

Nino, sem pensar, pulou e enfiou a faca na corda principal. A corda se soltou com um tranco, e ele quase caiu na água.

Brisa agarrou o braço dele a tempo.

— Você é maluco? — ela ralhou, e o tom era metade bronca, metade alívio.

Nino, ofegante, sorriu.

— Aprendi com a senhora.

Sarita cortou a última fibra e gritou:

— Se esse é o “seguro”, eu não quero saber o perigoso!

A rede afundou. O navio estabilizou. E, adiante, uma pequena ilha apareceu, com uma árvore torta e um brilho azul entre as raízes.

Rato-Fino suspirou.

— Parabéns. Vocês passaram na primeira prova.

Brisa limpou a lâmina e encarou o horizonte.

— Prova ou não, nós não desistimos.

Capítulo 4 — A raiz que guarda segredos

A ilha era do tamanho de um sonho curto. Areia escura, pedras lisas, e uma árvore solitária que parecia ter sido desenhada por alguém com pressa. O brilho azul vinha de um buraco entre as raízes, como um olho aceso.

Brisa levou um pequeno grupo: Sarita, Nino e Velho Dário. Rato-Fino ficou no navio, bem preso, reclamando como se a corrente fosse injustiça pessoal.

— Se vocês acharem a Chave de Maré, lembrem de mim! — ele gritou. — Eu sou parte do acordo!

Sarita respondeu sem virar:

— Você é parte do problema, isso sim.

Na ilha, o ar tinha cheiro de terra molhada, raro no meio do mar. O brilho pulsava devagar. Brisa ajoelhou e enfiou a mão no buraco. Sentiu metal frio.

Puxou. Era uma chave comprida, com entalhes como ondas e uma pequena pérola no cabo. A Chave de Maré.

Nino arregalou os olhos.

— É… linda.

Velho Dário coçou a barba.

— Linda como tempestade vista de longe.

Brisa segurou a chave com cuidado. Uma onda de emoção subiu nela: vitória, sim, mas também a lembrança da promessa feita a Rato-Fino. Lealdade não era só com amigos. Às vezes, era cumprir o combinado com alguém que você preferia esquecer.

Um estalo de galho interrompeu o momento. Das pedras, surgiram três figuras com capas encharcadas e lanças curtas. Na frente, uma mulher com chapéu preto e um sorriso afiado.

— Boa tarde, capitã Brisa — disse a desconhecida. — Sou a comandante Lume, guarda do Porto do Farol.

Brisa ficou de pé lentamente.

— Guarda? Aqui?

Lume apontou para a chave.

— Esse objeto pertence ao Estado. E, por coincidência, também estamos à procura de um pirata chamado Rato-Fino. Dizem que você o capturou.

Sarita soltou uma risadinha.

“Por coincidência”. Claro. E eu sou uma sereia de botas.

Lume ignorou.

— Entregue a chave e o prisioneiro. E eu esquecerei… algumas coisas sobre o seu navio.

Brisa sentiu o sangue esquentar. Uma ameaça embrulhada em gentileza era pior que um grito.

— Eu prometi entregar Rato-Fino às autoridades do Porto do Farol — disse Brisa, com calma controlada. — Então, sim. Eu vou entregá-lo. Mas não assim. E não agora, com a minha tripulação encurralada.

Lume inclinou a cabeça, como quem admira um quadro.

— Lealdade. Que bonito. E que útil… para te prender.

De repente, as lanças avançaram. Sarita puxou duas adagas. Dário ergueu um remo como se fosse uma espada.

Brisa tomou uma decisão rápida: lutar ali seria perder. A coragem, dessa vez, era recuar com inteligência.

— Nino, fumaça! — ordenou ela.

Nino tirou do bolso uma pequena bomba de fumaça, presente de Sarita “para emergências e sustos”. Ele jogou no chão. Um “puf!” cinzento explodiu, cobrindo tudo com cheiro de pimenta.

— Cof cof! — Sarita tossiu. — Eu odeio quando a gente usa as minhas ideias… porque funcionam!

No meio da fumaça, Brisa pegou Nino pela mão e correu. Dário veio logo atrás. Eles alcançaram o bote escondido do outro lado da ilha e remaram com força, ouvindo gritos abafados.

Quando subiram no Vento Bravo, a tripulação já içava as velas. Brisa mostrou a chave, e um coro de “oooh!” e “ah!” correu pelo convés.

— Guardas do Farol atrás de nós! — gritou ela. — E não vieram para conversar.

Sarita apontou para Rato-Fino.

— E esse rato está sorrindo demais.

Rato-Fino, de fato, parecia satisfeito.

— Eu disse que era divertido.

Brisa guardou a chave no casaco.

— Divertido é sobreviver. E nós vamos.

Capítulo 5 — A perseguição e o teste da lealdade

O mar se abriu em espaço amplo, mas a paz durou pouco. Ao longe, a silhueta de um navio da guarda surgiu, cortando as ondas com velocidade. Bandeira do Porto do Farol. Casco rápido. Problema grande.

Velho Dário avaliou o vento.

— Eles vão nos alcançar antes do pôr do sol.

Sarita estalou a língua.

— Então a gente faz eles perderem o sol. Ou o juízo.

Brisa olhou para a Chave de Maré. O mapa brilhava de novo, agora apontando para um banco de areia traiçoeiro, quase invisível na superfície. Um atalho perigoso. A guarda, com navio mais pesado, teria dificuldade.

— Vamos pelo banco — disse Brisa.

Nino mordeu o lábio.

— Mas… podemos encalhar.

— Podemos — confirmou ela. — Por isso precisamos de atenção. E de confiança.

O Vento Bravo inclinou, entrando na água rasa. A cor do mar mudou para turquesa claro, bonito e ameaçador. Brisa ficou ao lado de Dário, olhos no movimento das ondas. Pequenas cristas denunciavam a areia escondida.

Atrás, o navio da guarda se aproximava. O som do canhão sendo preparado chegou como trovão.

— Capitã! — Sarita apontou. — Eles vão atirar!

Brisa apertou os punhos. Se o canhão acertasse, alguém se machucaria. A lealdade dela com a tripulação pulsou, urgente.

Rato-Fino, preso, pigarreou.

— Se me soltar… eu posso ajudar.

Sarita quase caiu para trás de tanto indignação.

— Ajudar? Você?

— Conheço essas águas — disse ele, rápido. — Posso dizer onde o banco afunda. E… se me entregar agora, talvez a guarda pare de atirar.

Brisa ficou imóvel por um segundo. A promessa dela era clara: entregar Rato-Fino no fim da viagem, às autoridades, inteiro. Mas entregar agora, no meio do perigo, seria proteger a tripulação… ou seria ceder à chantagem?

Ela se agachou diante dele.

— Você quer que eu quebre a minha palavra comigo mesma — disse Brisa. — Quer que eu me apresse para te salvar.

Rato-Fino engoliu em seco. Pela primeira vez, o sorriso dele falhou.

— Eu… quero viver.

— Eu também quero que todos vivam — respondeu ela. — E é por isso que não vou fazer acordo com medo.

Ela se levantou e gritou para a tripulação:

— Posição! Nino, na proa, me diga a cor da água! Sarita, prepara o “plano malicioso”!

Sarita abriu um baú e tirou… um saco de sabão em pó.

Nino piscou.

— Isso é… sabão?

— É, e é traiçoeiro — disse Sarita, jogando o saco para Brisa. — Joga na água. Faz espuma. Eles não vão ver a mudança de profundidade. Só não deixa a gente escorregar, senão vai ser uma pirataria bem elegante: todo mundo caindo.

Brisa pegou o saco e, com ajuda de dois marinheiros, despejou a espuma no rastro do navio. Um tapete branco se espalhou, bonito como nuvem e perigoso como mentira.

O navio da guarda entrou na espuma, confiante. Um disparo de canhão passou longe, mas o próximo não veio. Em vez disso, ouviu-se um “CRRRAAACK”.

O navio pesado da guarda encalhou com força no banco de areia.

Do convés do Vento Bravo, a tripulação gritou em vitória. Sarita fez uma reverência exagerada para o navio preso.

— Obrigada, obrigada! Apresentamos: “A Guarda do Farol, agora em versão ilha fixa”!

Brisa soltou uma risada curta. O perigo não tinha acabado, mas um peso saiu dos ombros dela.

Nino apontou para o horizonte, onde a água voltava a ser profunda.

— Estamos saindo!

Brisa assentiu. Mas então viu pequenas embarcações sendo lançadas do navio encalhado. A guarda não desistiria tão fácil.

— Eles vêm em botes — avisou Dário.

Brisa olhou para Rato-Fino. Ele a encarou de volta, calado.

— Se você conhece as águas, fale — disse ela. — Ajude. E eu cumpro a promessa.

Rato-Fino hesitou, como se a garganta estivesse cheia de areia. Então, finalmente:

— À direita, depois daquela mancha escura, tem um canal fundo. Sigam por ele. E… cuidado com a corrente. Puxa pro sul.

Brisa transmitiu as ordens. O Vento Bravo acelerou, deslizando pelo canal invisível. Os botes da guarda ficaram para trás, lutando contra a corrente que Rato-Fino tinha avisado.

Quando o mar voltou a se alargar, o vento amainou, e a perseguição perdeu fôlego. No convés, a tripulação se apoiou nos joelhos, rindo e ofegando.

Sarita apontou para Rato-Fino.

— Ele falou. Um pontinho pra ele. Um pontinho bem pequeno.

Brisa cruzou os braços, encarando o prisioneiro.

— Você ajudou porque queria sobreviver. Mas ajudou. Eu não esqueço.

Rato-Fino baixou os olhos. Parecia, por um segundo, menos esperto e mais humano.

— Capitã… por que se importa tanto com palavra?

Brisa olhou para o mar, que agora parecia respirar tranquilo.

— Porque um navio não se sustenta só com madeira e corda. Se sustenta com confiança. E confiança se constrói… cumprindo.

Capítulo 6 — A entrega e a maré de paz

Dois dias depois, o Porto do Farol apareceu no horizonte, com suas casas claras e o farol alto como um dedo apontando o caminho. O Vento Bravo entrou na enseada devagar. A água estava lisa, quase sem ondulações, como se o mar tivesse cansado de brigas e quisesse apenas descansar.

“Mar de óleo”, pensou Brisa. Uma calma tão perfeita que dava vontade de falar baixo para não quebrar.

A guarda do porto esperava no cais. A comandante Lume estava lá, com o mesmo chapéu preto e o mesmo sorriso afiado. Só que agora havia algo diferente: ela parecia… irritada e aliviada ao mesmo tempo.

Brisa desceu a prancha com Rato-Fino ao lado, ainda acorrentado, mas inteiro, como prometido. Sarita e Nino vinham atrás.

Lume aproximou-se.

— Você me deu trabalho — disse ela.

— E você tentou me prender com fumaça nos olhos — respondeu Brisa. — Estamos quites?

Lume olhou para Rato-Fino e fez um gesto. Dois guardas o pegaram.

Rato-Fino virou a cabeça para Brisa, rápido.

— Você cumpriu — disse ele, quase num sussurro. — Achei que não ia.

Brisa manteve o queixo erguido.

— Eu disse que cumpria. E cumpri.

Lume estendeu a mão.

— A Chave de Maré.

Brisa tirou a chave do casaco. Por um instante, o brilho da pérola refletiu o sol e pintou um ponto azul na face de Nino. Brisa entregou a chave sem hesitar.

Sarita cochichou, teatral:

— Adeus, coisa brilhante. Você foi nossa por… cinco minutos.

Brisa ouviu e respondeu, também em cochicho:

— Cinco minutos de pura glória.

Lume guardou a chave e, para surpresa de todos, não deu ordem de ataque. Apenas encarou Brisa com uma seriedade nova.

— Você poderia ter fugido sem trazer o prisioneiro — disse Lume. — Poderia ter vendido a chave a colecionadores. Mas trouxe os dois. Por quê?

Brisa olhou para a sua tripulação: Sarita tentando parecer dura, mas com o canto da boca tremendo; Nino com olhos atentos, como se colecionasse lições; Velho Dário fingindo que não se importava, mas claramente orgulhoso.

— Porque aventura sem lealdade vira só confusão — respondeu Brisa. — E eu não comando confusão. Eu comando um navio.

Lume soltou um ar pelo nariz, quase um riso.

— Você é uma pirata estranha, Brisa Valente.

— Obrigada. Eu me esforço.

A comandante fez um gesto para os guardas.

— Levem Rato-Fino. E… capitã Brisa, hoje não vou caçar o seu navio. O Porto do Farol agradece por tirar esse homem do mar. Mas não se acostume.

Sarita abriu os braços, como se apresentasse um espetáculo.

— Ouviu, capitã? Hoje a gente é quase… cidadã exemplar!

Brisa subiu de volta ao navio. A tripulação começou a preparar as velas para sair antes que alguém mudasse de ideia. O sol descia devagar, dourando o mar liso. O Vento Bravo se afastou do porto, e a água ficou ainda mais calma, um espelho enorme.

Nino encostou na amurada ao lado de Brisa.

— Capitã… a gente perdeu a chave. E o tesouro.

Brisa observou o reflexo das nuvens na superfície perfeita.

— A gente ganhou outra coisa — disse ela.

— O quê?

Brisa respirou o ar salgado e sorriu, pequena e verdadeira.

— A certeza de que podemos atravessar neblina, redes e perseguições sem perder quem somos. E isso… vale mais que ouro.

Sarita se aproximou, segurando um balde.

— Capitã! O sabão sobrou. Quer que eu lave o convés ou o orgulho da guarda?

Brisa riu, e o riso saiu leve, como vela ao vento.

— Lava o convés. O orgulho deles deve ser muito grande. Não temos balde suficiente.

O Vento Bravo deslizou sobre o mar de óleo, silencioso e brilhante. À frente, o horizonte parecia uma porta aberta. E, naquele momento, a aventura não era uma tempestade. Era a promessa tranquila de mais caminhos, mais risos e mais coragem — com o mar, finalmente, em paz.

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Convés
Parte plana e superior do navio onde a tripulação anda e trabalha.
Pergaminho
Papel antigo usado para escrever mapas ou mensagens importantes.
Imediata
Oficial que ajuda a capitã e dá ordens quando necessário.
Prisioneiro
Pessoa que está presa e não pode sair livremente.
Neblina
Névoa grossa que torna difícil ver à distância no mar.
Proa
Parte da frente do navio, onde se olha para o caminho.
Bombordo
Lado esquerdo do navio quando se olha para a frente.
Leme
Peça que controla a direção do navio, ligada ao timão.
âncora
Objeto pesado que prende o navio ao fundo do mar para não sair.
Medalhão
Objeto redondo e decorado, muitas vezes usado como lembrança.
Sino
Pequeno objeto de metal que faz som quando é tocado.
Submerso
Algo que está totalmente debaixo da água.
Corrente
Série de elos de metal usados para prender ou puxar objetos.
Bomba de fumaça
Pequeno dispositivo que solta fumaça para esconder ou distrair.
Encalhar
Quando um navio fica preso em areia ou rocha e não pode andar.

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