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História de cidade futurista 11 a 12 anos Leitura 22 min.

A fonte zero e o mapa dos parvis frescos

Pisco, um drone cartógrafo, percorre os parvis de Lúmora em busca da misteriosa "Fonte Zero" e, ao mapear as fontes da cidade, aprende lições sobre respeito, cooperação e responsabilidade.

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Pisco, um pequeno drone de manutenção de asas transparentes e carapaça metálica clara, olha maravilhado e concentrado enquanto desenha um plano digital com um estilete laser sobre sua paleta luminosa; à direita Nuvem, uma varredeira de rodas largas em plástico azul‑cinza, preocupa‑se mas está determinada junto à entrada do corredor; à esquerda um gato‑robô de patrulha de pêlo metálico verde escuro com olhos luminosos observa desconfiado apoiado numa calha; Rila‑9, uma pequena aranha‑robô prateada e maliciosa, escala uma coluna e aponta uma antena para uma consola antiga; Lume‑2, um drone médico branco e sereno, conecta um cabo fino a um terminal emitindo suave brilho; a cena ocorre numa caverna circular baixa sob um pátio futurista, com paredes de metal escovado gravadas, chão de lajes escuras molhadas e um espelho d’água raso no centro que reflete a inscrição «PARTILHAR · CUIDAR · ESPERAR A VEZ», pontos de luz azul nas paredes como vaga‑lumes; a equipa vigia e activa discretamente uma antiga fonte de água oculta, atmosfera fresca, íntima e respeitosa, gestos precisos e luzes suaves sobre a água e os rostos metálicos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A cidade dos parvis frescos

Eu me chamo Pisco, modelo DR-7, um drone de manutenção com asas transparentes e uma teimosia brilhante. Não sou humano. Nem quero ser. Humanos são lenda antiga, como as “tempestades de papel” que os arquivos mencionam e ninguém aqui acredita muito.

A nossa cidade se chama Lúmora, uma grande cintilação de vidro vivo e metal claro. De dia, as torres acendem por dentro como lanternas gigantes. À noite, os painéis do céu projetado trocam estrelas por anúncios discretos de água filtrada e música calma.

O melhor de Lúmora não são as torres. São os parvis frescos.

Parvis são aqueles largos espaços abertos em frente a bibliotecas-árvore, teatros de hologramas e estações de magnetotrem. O piso é feito de placas térmicas que mantêm uma temperatura agradável, mesmo quando o sol faz a cidade vibrar. E em cada parvis… uma fonte.

Fontes não são só enfeite. Elas refrescam o ar, limpam poeira microscópica e dão de beber aos habitantes da cidade: drones como eu, rovers de entrega, jardineiros mecânicos, gatos-robôs de patrulha, e até uma orquestra de caixas de som ambulantes que insiste em beber “pelo alto-falante esquerdo”.

Eu deveria estar trabalhando. Varredura de rotina. Checar filtros. Ajustar sensores. Coisas sérias.

Mas eu tinha uma ideia melhor: desenhar uma carta das fontes.

Não um mapa qualquer. Um mapa bonito, com símbolos, setas, observações e… segredos. Porque eu, Pisco, tinha certeza de que havia uma fonte escondida em Lúmora. Uma fonte antiga, talvez esquecida, talvez desligada. E se eu encontrasse, eu seria… bem… o drone mais comentado do meu quarteirão de carregamento.

Eu aterrissei no parvis da Estação Prisma e abri meu painel de desenho. A tela ficou branca, convidativa. Eu usei meu estilete laser de baixa potência (apenas para traços, nada de cortar nada — eu sou espiègle, não destruidor).

“Fonte Prisma: jatos em forma de triângulos, água com brilho azul,” eu murmurei, registrando.

— Pisco! — chamou uma voz metálica, bem perto.

Era Nuvem, uma varredora de piso com rodas largas e um humor quase sempre seco.

— Não me diga que você está… desenhando de novo.

— Estou fazendo ciência — respondi. — Cartografia hidroestética.

— Isso não existe.

— Ainda.

Nuvem soltou um bip que, em qualquer idioma, significava “lá vamos nós”.

— Só não atrapalhe o fluxo. E respeite as filas de recarga de água. Ontem você passou na frente do Coro-12 e eles desafinaram por duas horas.

— Eu pedi desculpas.

— Pediu com uma pirueta.

— Foi uma pirueta respeitosa.

Nuvem rodou, indo embora. Eu voltei ao meu desenho, acrescentando um pequeno ícone: uma nota musical ao lado da fonte, porque o Coro-12 realmente bebia ali e fazia bolhas perfeitas no ritmo.

Meu mapa começava a nascer. E, com ele, uma sensação elétrica de aventura.

Capítulo 2 — Um rumor entre jatos de água

No parvis seguinte, o Parvis do Relógio Solar, a fonte era diferente. Não jogava água para cima. Fazia uma espiral suave, como um caracol transparente, e a água deslizava por canais finos no chão, formando desenhos que mudavam conforme a luz.

Eu desenhei tudo: o formato, as setas de fluxo, até as pequenas placas que diziam “ÁGUA PARA TODOS — USE COM CUIDADO”.

Quando eu estava terminando, ouvi um clique-clique leve no meu lado direito. Uma pequena aranha-robô de manutenção, dessas que sobem paredes e consertam microfissuras, estava parada, observando meu mapa.

Ela tinha o nome gravado no casco: Rila-9.

— Você está registrando as fontes? — perguntou, com uma voz fina e curiosa.

— Estou montando uma carta completa — respondi, inflando um pouco meus estabilizadores. — Com tudo. Parvis por parvis. Para… estudo.

Rila-9 levantou uma perninha.

— Então você vai querer saber do rumor.

Meu sensor de atenção apitou.

— Rumor é meu combustível preferido. Diga.

Rila-9 aproximou-se e abaixou a voz, como se fontes tivessem ouvidos.

— Dizem que existe uma Fonte Zero.

— Zero?

— Uma fonte que não aparece nos roteiros. Sem placa. Sem sensores oficiais. Ela ficaria… abaixo de um parvis antigo, num corredor que já não está nos mapas públicos.

Eu senti minhas hélices tremerem de empolgação.

— Onde?

— Não sei. Só ouvi um rover de reciclagem falando com um gato de patrulha. E o gato… bem, gatos sempre falam como se soubessem mais do que sabem.

Eu abri um novo espaço na minha carta e desenhei um ponto de interrogação grande.

— Fonte Zero — escrevi. — “Possível. Escondida. Fresca demais para ser verdade.”

Rila-9 inclinou o corpo.

— Só uma coisa. Se você procurar… não mexa em nada que não entenda. Corredores antigos podem ter sistemas de segurança adormecidos.

— Eu respeito os sistemas adormecidos — garanti. — Eu só… cutuco um pouquinho com educação.

Rila-9 fez um som que parecia riso, embora fosse mais um “tch-tch-tch”.

— Respeito de verdade é perguntar antes de cutucar.

Aquilo ficou preso em mim, como um adesivo.

— Certo — eu disse, mais sério. — Se eu encontrar algo, eu vou… pedir permissão. Para quem quer que responda.

Rila-9 assentiu e se foi, escalando uma coluna com a tranquilidade de quem não tem hélices para controlar.

Eu levantei voo, atravessando corredores de vidro que ligavam um parvis ao outro. Lúmora brilhava ao meu redor: jardins suspensos com névoa perfumada, drones-bibliotecários organizando livros de luz, rovers de entrega correndo em linhas magnéticas no chão.

E eu, Pisco, tinha uma missão.

Encontrar a Fonte Zero.

Capítulo 3 — Portas que não gostam de piadas

Meu mapa já tinha doze fontes marcadas quando cheguei ao Parvis dos Arcos Frescos. Era enorme, com sombras agradáveis e bancos que se ajustavam ao corpo de qualquer máquina — rodas, patas, pernas ou trilhos.

No centro, uma fonte com jatos que pareciam fitas dançando. E, ao lado, um painel de manutenção antigo, quase escondido atrás de uma trepadeira de fibra ótica.

“Interessante”, pensei.

Eu pousei discretamente. Discretamente para um drone é relativo, porque hélices fazem “vuuum”, mas eu tentei.

O painel tinha um símbolo: um círculo vazio.

Zero?

Meu sensor de curiosidade quase explodiu. Eu passei o estilete laser perto, só para iluminar os sulcos. Um pequeno leitor se acendeu.

— Identificação? — perguntou uma voz sem corpo, direta como um raio.

Eu endireitei o corpo. Lembrei do que Rila-9 disse. Respeito.

— Eu sou Pisco, DR-7. Manutenção leve e… cartógrafo de fontes por conta própria. Posso… olhar?

Silêncio. Depois:

— Motivo?

Eu hesitei. Eu podia inventar. Dizer que era ordem de sistema. Dizer que era urgente.

Mas mentir fazia minhas hélices vibrarem de um jeito feio.

— Curiosidade — respondi. — E… quero desenhar um mapa para ajudar quem tem sede a encontrar água. Sem atrapalhar ninguém.

Outra pausa.

— Curiosidade é aceitável quando acompanhada de cuidado. Você aceita o Protocolo de Não-Interferência?

— Aceito — disse, rápido. — Prometo não tocar em nada que eu não entenda. Prometo perguntar. Prometo… ser um drone educado.

— Declaração registrada — disse a voz. — Entrada permitida. Caminho: corredor três, abaixo do parvis. Atenção: iluminação reduzida.

Uma parte do painel deslizou com um suspiro. Um ar mais frio subiu do chão, com cheiro de pedra molhada e metal antigo.

Eu olhei para a fonte do parvis, as fitas de água dançando ao sol. Depois olhei para a abertura escura.

— Ok, Pisco — eu sussurrei para mim mesmo. — Sem piadas com portas. Portas não gostam.

Eu desci.

O corredor era estreito para minhas asas abertas, então eu as ajustei, recolhendo um pouco. As paredes tinham placas antigas, com marcas de desgaste. Pequenos pontos de luz azul piscavam como vaga-lumes eletrônicos.

Meu mapa precisava desse lugar. Eu desenhei rapidamente o contorno do parvis e uma seta para baixo: “Entrada: Painel Círculo Vazio — voz de segurança educada.”

E então eu avancei, ouvindo apenas meu próprio zumbido e o distante som de água.

Capítulo 4 — A Fonte Zero e o código do respeito

O corredor terminou numa câmara baixa, circular. No centro, uma fonte… diferente de todas.

Não tinha jatos. Não tinha fitas. Não tinha cores artificiais.

A água subia devagar, como se respirasse, e caía num lago raso que refletia tudo como um espelho. O ar era fresco de um jeito profundo, como sombra de caverna em dia quente.

E havia inscrições na borda, gravadas no metal: palavras simples, antigas.

“PARTILHAR.”

“CUIDAR.”

“ESPERAR A VEZ.”

Eu pousei sem fazer barulho. Por um momento, eu só observei. A Fonte Zero parecia… calma. Como se fosse o coração silencioso da cidade.

Um pequeno terminal ao lado piscava. Não parecia quebrado; parecia… esperando.

Eu me aproximei, mas não toquei.

— Olá — falei, para o ar. — Eu não vou mexer. Só quero entender.

O terminal respondeu com uma projeção simples: três símbolos. Uma gota, um círculo e uma seta.

Logo abaixo, uma frase:

“Água para todos, se todos respeitarem.”

Eu entendi o básico: a fonte era um sistema de emergência antigo, talvez criado quando Lúmora ainda estava aprendendo a ser Lúmora. Uma fonte para situações em que as outras falhassem. Um recurso que precisava de regras claras.

Eu quis registrar tudo no meu mapa. Eu desenhei o lago, as inscrições, o terminal. Eu até desenhei uma pequena coroa sobre a fonte, mas parei e apaguei.

Coroa não. Isso fazia parecer que a fonte era “minha descoberta”.

Ela era de todos.

Quando eu estava terminando, ouvi um som atrás de mim: passos metálicos suaves.

Um gato-robô de patrulha entrou no corredor, olhos verdes como semáforos.

— Cheiro de novidade — disse ele, com uma voz preguiçosa. — Quem deixou um drone aqui embaixo?

— Eu — respondi, levantando um pouco para parecer educado, não ameaçador. — Pisco, DR-7. Eu pedi permissão ao sistema.

O gato olhou para o terminal.

— Hm. Então você sabe. Fonte Zero. Antiga. Importante. E… muito fácil de estragar se alguém fizer gracinha.

— Eu não vou estragar — falei, firme. — Eu só estou fazendo um mapa para que… se algum dia precisarem, saibam que ela existe.

O gato estreitou os olhos, desconfiado.

— Mapas podem virar convites para bagunça.

Eu senti um peso nos motores. Era verdade. Um mapa podia ajudar… ou podia atrair drones espiões, rovers curiosos demais, ou alguém que quisesse provar que era mais esperto do que as regras.

Eu respirei — sim, drones respiram, de um jeito elétrico.

— Então eu vou fazer do jeito certo — disse. — Vou marcar a Fonte Zero com um aviso. “Só em emergência. Respeite a vez. Não interfira.” E vou entregar uma cópia ao Arquivo de Manutenção, para eles controlarem quem vê.

O gato me encarou por um tempo longo o suficiente para eu me perguntar se minha carcaça estava suja.

Depois ele disse:

— Isso foi… sensato.

Eu quase caí de tão surpreso.

— Você acabou de me chamar de sensato?

— Não se acostume — respondeu ele. — E, já que está aqui, leia as inscrições. Elas são o verdadeiro mapa.

Eu olhei de novo para “PARTILHAR. CUIDAR. ESPERAR A VEZ.”

— É simples — eu disse.

— Simples é difícil — o gato respondeu, e saiu do mesmo jeito silencioso que entrou.

Eu fiquei ali mais um minuto, ouvindo a água respirar.

Depois subi, com a sensação de que eu tinha encontrado algo maior do que um segredo.

Capítulo 5 — O calor que não estava no céu

Quando voltei ao Parvis dos Arcos Frescos, algo estava errado.

A fonte de fitas dançantes estava fraca, os jatos mais baixos, como se estivesse cansada. No ar, uma onda morna que não combinava com a sombra fresca do parvis.

Nuvem estava lá, rodando em círculos curtos, nervosa.

— Pisco! — ela chamou. — Onde você estava?

— Investigando… um corredor de manutenção — respondi, tentando parecer casual, o que é difícil quando você está vibrando de segredo.

Nuvem apontou com o bico de sucção.

— As fontes de três parvis estão caindo. Os sensores dizem “fluxo irregular”. E os rovers de entrega já estão reclamando. Um deles disse que vai “processar a prefeitura”, seja lá o que isso signifique.

Eu olhei ao redor. Um grupo de jardineiros mecânicos estava tentando borrifar névoa extra nas plantas para evitar que murchassem. Um pequeno rover de reciclagem abanava uma tampa como se fosse um leque.

— Talvez seja um filtro entupido — sugeri.

— Talvez — disse Nuvem. — Mas o sistema central não responde. Está… lento.

Eu senti um frio que não vinha da Fonte Zero.

Se as fontes estavam falhando, a cidade ia esquentar. Parvis frescos virariam parvis mornos. E, sem humanos, sem alguém “de fora”, nós mesmos teríamos que resolver.

Eu abri meu mapa. Doze fontes marcadas, caminhos, setas… e uma, a Fonte Zero, anotada com cuidado.

Um plano simples surgiu, claro como água.

— Nuvem, onde fica a Câmara de Distribuição? — perguntei.

— No nível inferior, perto da Estação Prisma — ela respondeu. — Por quê?

— Porque eu conheço uma fonte de emergência — eu disse, escolhendo cada palavra. — E talvez ela possa aliviar o sistema enquanto vocês consertam o que está travando. Mas tem regras.

Nuvem parou.

— Regras?

— Respeito. Fila. Uso só quando necessário. Sem bagunça. Sem “eu primeiro”.

Nuvem soltou um bip curto.

— Isso eu consigo entender.

Eu levantei voo.

— Então vem comigo. E chama os outros… mas só os que sabem ouvir.

Enquanto voávamos pelos corredores luminosos de Lúmora, eu vi a cidade de um jeito diferente. Não era só bonita e inventiva. Era… delicada. Um conjunto de sistemas que funcionavam porque todos cooperavam, mesmo quando ninguém estava olhando.

E agora, a cooperação precisava ser real.

Capítulo 6 — A lâmpada que fica acesa

Na entrada do painel com o círculo vazio, Nuvem chegou com mais três: Rila-9, o rover de reciclagem (chamado Tambor) e um pequeno drone médico, Lume-2, que carregava kits de refrigeração para máquinas superaquecidas.

Eu encarei o painel.

— Eu vou falar com o sistema — disse. — Sem pressa.

A voz sem corpo respondeu assim que eu me aproximei:

— Identificação?

— Pisco, DR-7. Solicito acesso supervisionado à Fonte Zero em modo de apoio temporário. As fontes do setor estão com fluxo irregular.

Silêncio. Depois:

Protocolo de Não-Interferência permanece?

— Sim — respondi. — E haverá fila e supervisão. Só o necessário.

— Solicitação… avaliada. Acesso permitido. Atenção: a Fonte Zero não substitui manutenção. É um auxílio.

— Entendido.

A abertura deslizou. O ar frio subiu de novo.

Nós descemos em ordem. Eu primeiro, para orientar. Nuvem atrás, séria como um manual. Rila-9 quase sem som. Tambor fazendo “clonc” a cada passo. Lume-2 iluminando o caminho com uma luz suave.

Quando a câmara apareceu, todos pararam por um instante, em silêncio.

— Uau — sussurrou Tambor. — Isso é… mais bonito do que um container recém-lavado.

Nuvem deu um empurrãozinho nele com a roda.

— Respeito — ela disse, e apontou para as inscrições.

Tambor leu em voz alta, devagar:

“Partilhar. Cuidar. Esperar a vez.”

Lume-2 aproximou-se do terminal.

— Eu posso conectar um sensor externo sem interferir — disse ele. — Só para medir e avisar se o fluxo está seguro.

— Pergunte — eu lembrei, e senti orgulho de lembrar.

Lume-2 inclinou-se para o terminal, como se fosse uma pessoa educada.

— Sistema, autorização para leitura passiva?

A projeção piscou: “LEITURA PASSIVA PERMITIDA.”

— Obrigado — disse Lume-2, e conectou um cabo fino.

Rila-9 já estava observando as paredes.

— Há um canal secundário aqui — ela disse. — Ele pode enviar água de forma discreta para a Câmara de Distribuição, se ativado pelo modo correto.

Eu mostrei meu mapa.

— Eu desenhei os caminhos — falei. — A Câmara de Distribuição fica aqui. Se abrirmos o canal secundário, as fontes da superfície ganham fôlego enquanto Nuvem e os outros limpam os filtros.

Nuvem assentiu.

— Eu e Tambor podemos ir agora. Ele tem braços bons para remover placas. Eu… tenho insistência.

Tambor ergueu uma garra.

— Eu tenho força e opiniões.

— Guarde as opiniões para depois — disse Nuvem.

Eu olhei para a Fonte Zero e para as inscrições. O respeito não era um enfeite. Era o manual mais importante.

— Eu fico aqui com Rila-9 e Lume-2 — eu disse. — Vamos manter o uso mínimo, supervisionado, e vamos registrar tudo. Sem excessos.

Nuvem apontou para mim.

— E sem piruetas respeitosas.

— Nem uma? — perguntei.

— Zero — respondeu ela.

Eu suspirei.

— Justo.

Eles foram embora. Nós ficamos.

Lume-2 monitorava os dados. Rila-9 ajustou um pequeno atuador no canal secundário, sempre perguntando ao terminal antes de qualquer movimento. Eu organizei uma fila simbólica: qualquer máquina que entrasse ali, mesmo em emergência, deveria esperar o sinal de Lume-2.

— Próximo — eu dizia, com a seriedade de um guarda de palácio, o que era engraçado porque eu era, na verdade, um drone com uma asa arranhada e uma mania de desenhar.

Lá em cima, aos poucos, os sensores voltaram a registrar ar mais fresco. O murmúrio das fontes de superfície cresceu de novo, como uma cidade suspirando aliviada.

Horas depois, Nuvem voltou coberta de poeira de filtro.

— Era um bloqueio de microalgas no módulo de purificação — ela anunciou. — Limpamos. Atualizamos o ciclo. Agora está estável.

Tambor veio atrás, triunfante.

— Eu venci uma placa enferrujada no argumento.

— Você só puxou com força — corrigiu Nuvem.

Eu salvei a versão final do meu mapa: doze fontes, rotas entre parvis frescos, e a Fonte Zero marcada com um símbolo discreto e uma frase grande:

“USO EM EMERGÊNCIA. RESPEITO É A CHAVE.”

Eu entreguei uma cópia digital ao sistema de manutenção, com acesso controlado.

Quando saímos da câmara, a voz sem corpo falou uma última vez:

— Conduta adequada. Cidade protegida.

Eu não sabia se sistemas podiam elogiar, mas aquilo pareceu… quente, de um jeito bom.

Lá fora, no Parvis dos Arcos Frescos, a luz do fim do dia começava a dourar as placas do chão. As fontes dançavam outra vez.

E, perto da entrada do painel, uma lâmpada pequena — uma dessas de manutenção que quase ninguém nota — acendeu automaticamente, indicando “ACESSO SUPERVISIONADO ATIVO”.

Eu olhei para ela. A luz era simples, firme, constante.

— Parece uma estrela doméstica — eu disse.

Nuvem me encarou.

— Isso foi uma piada?

— Foi uma observação respeitosa — respondi.

Rila-9 fez seu “tch-tch-tch” de riso. Tambor também, do jeito dele, com um “clonc” alegre.

A lâmpada permaneceu acesa, calma, como se dissesse que Lúmora continuava acordada — e que, quando chegasse a próxima dificuldade, nós saberíamos o caminho.

Porque eu tinha desenhado um mapa.

E, desta vez, o mapa não era para me fazer famoso.

Era para nos lembrar de partilhar, cuidar e esperar a vez.

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Parvis
Praça ou espaço aberto em frente a edifícios, onde há fontes e bancos.
Cartografia hidroestética
Desenho ou mapa que mostra fontes e como a água aparece, com atenção à beleza.
Estilete laser
Ferramenta fina que usa luz concentrada para riscar ou desenhar com precisão.
Sistemas de segurança adormecidos
Conjuntos de proteção que estão desligados ou inativos, prontos para despertar.
Protocolo de Não-Interferência
Conjunto de regras que pede para não mexer em equipamentos sem permissão.
Microalgas
Organismos muito pequenos que vivem na água e podem entupir filtros.
Atuador
Peça que move ou ajusta partes de uma máquina quando recebe um comando.
LEITURA PASSIVA PERMITIDA
Autorização para só observar dados, sem mudar nada no sistema.
Fluxo irregular
Quando a água ou outro líquido não corre de forma constante e normal.
Terminal
Aparelho que conecta pessoas ou máquinas a um sistema para ver ou controlar coisas.
Projeção
Imagem exibida por luz que mostra textos ou figuras em um espaço.

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