De manhã cedo, a doutora Lia, uma jovem mulher com mãos calmas e olhos atentos, abre a porta da clínica. O ar entra devagar e traz um cheirinho doce de feno. No cesto do coelho, o feno parece um pequeno ninho de nuvens douradas. As patinhas fazem tap tap no chão, como gotas a dançar. E, de vez em quando, um ron-ron-ron macio enche o ar.
No corredor há um cartaz com as regras de limpeza, o protocolo de higiene. Lia gosta de olhar para ele todos os dias. Conta com o dedo.
Um: lavar as mãos com água morna e sabão.
Dois: secar com a toalha macia.
Três: pôr luvas limpas.
Quatro: limpar a mesa com spray que cheira a limão.
Cinco: guardar os instrumentos limpinhos.
Ela canta baixinho enquanto a água corre, e a espuma faz bolhas como nuvens pequeninas. O som da torneira é uma canção de chuva.
A primeira a chegar é a gatinha Mimi, de bigodes finos.
"Bom dia, Mimi", disse Lia.
"Mrrr-ronron", respondeu a gatinha.
"Primeiro, lavo as mãos", disse Lia. "A água faz música."
Lia seca bem as mãos, põe luvas novas e limpa a mesa. Depois usa o seu ouvido mágico para escutar o coração. Um, dois, três… tum-tum, tum-tum. Mimi ronrona mais forte, como um motorzinho feliz. Lia sorri. Gosta de fazer tudo com cuidado, passo a passo, como quem desenha uma linha direita.
Chega o Tuto, um cão pequeno de orelhas saltitantes. As patinhas dele fazem tap, tap, tap, como um tambor baixinho.
"Tap, tap, tap", fizeram as patinhas de Tuto.
"Olá, Tuto", disse Lia. "Vou limpar a mesa de novo."
Tuto dá uma lambidinha curiosa no ar. Lia ri baixinho e pega o pano.
"Eu quase esqueci de trocar as luvas", disse Lia. "Vou trocá-las agora."
Ela fala em voz clara, porque ser honesta é dizer a verdade e fazer o certo. Troca as luvas, limpa outra vez, e explica: quando cuidamos de cada passo, os amigos de patas ficam seguros e confortáveis. Tuto abana a cauda. O spray cheira a limão fresco. A mesa brilha.
No cesto de feno, o coelhinho Nabo mastiga devagar. Croc, croc. O feno cheira a chá doce. Lia afaga as orelhas macias. Usa uma escovinha pequena, uma luz pequenina, e um termómetro que parece um peixinho a nadar rápido. Tudo é lento e preciso, como quem põe contas numa linha: um, dois, três. Nabo pisca e encosta o nariz, quente como pão acabado de sair do forno.
Ao longo do dia, Lia volta ao cartaz e confirma: mãos lavadas, luvas trocadas, mesa limpinha, instrumentos guardados. Quando alguém espirra, ela limpa outra vez. Quando cai uma gota de água no chão, ela seca. É como arrumar brinquedos: cada coisa no seu lugar. Assim, os ronrons ficam redondos e as patinhas descansam.
O sol fica amarelo-alaranjado na janela. A clínica fica quieta, com feno cheirando a paz. Lia escreve no caderno: “Hoje fui cuidadosa e honesta. Hoje expliquei e ouvi.” Ela tapa os frascos, guarda o ouvido mágico, e dá um último carinho.
"Muito bem", sussurrou o vento do fim do dia.
"Obrigada por me lembrar de ser honesta, coração", disse Lia.
Apaga a luz. Os ron-ron-ron são uma canção de embalar. As patinhas sonham. A noite chega macia, como uma manta. Amanhã, a doutora Lia volta, com mãos limpas, sorriso quente e cuidado sem pressa. Tudo bem. Tudo calmo. Tudo seguro.