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Fantasia histórica 11 a 12 anos Leitura 25 min.

A canção perdida no Salão dos Espelhos de Versalhes

Uma mulher misteriosa em Versalhes atravessa um espelho para desvendar uma injustiça: busca o nome escondido, uma memória verdadeira e a canção perdida que podem libertar um músico silenciado.

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A personagem principal é uma mulher adulta, rosto determinado e suave, olhos brilhando de lágrimas de alegria, cabelo castanho-escuro preso em um coque solto, vestida com um vestido azul-noite simples amarrotado; ela canta enquanto põe uma folha de música e um fragmento de corda de harpa sobre um pedestal de mármore para despertar a partitura. Um personagem secundário é um homem adulto que surge como névoa personificada, cabelo castanho desgrenhado, olhar surpreso e emocionado, segurando uma pequena harpa de madeira e parado alguns passos atrás do pedestal. Há também uma sombra antagonista em forma humana alongada feita de tinta preta rachada, recuando contra a parede com bordas borradas e gotejantes. O local é uma sala redonda de pedra fria, teto pintado com estrelas parcialmente apagadas, tochas de chama azul projetando luz tremulante, chão coberto por círculos de sal e poeira cintilante, e um grande espelho antigo entreaberto numa parede. Enquanto ela canta, notas de luz saem da folha e enrolam a corda da harpa em torno do anel de prata em seu dedo, a sala se ilumina progressivamente e a sombra se retira — atmosfera mágica, íntima e vitoriosa. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Dama Sem Nome e o Espelho do Salão

No Palácio de Versalhes, as velas faziam rios de luz escorrerem pelas paredes douradas. O Salão dos Espelhos parecia um céu preso numa sala: estrelas de cristal, luas de prata, e rostos que sorriam como se o mundo fosse obediente.

Entre os cortesãos, uma mulher caminhava sem pressa, como quem sabe que o chão tem ouvidos. Usava um vestido azul-escuro, simples demais para a corte e elegante demais para ser ignorado. Ninguém sabia de onde vinha. Alguns diziam que era viúva de um capitão; outros, que era uma prima perdida de algum duque. Para o rei, era apenas “Madame”. Para si mesma, era um segredo.

Ela parou diante de um espelho enorme. O próprio reflexo parecia mais antigo do que o resto do salão. Quando a música mudou, o vidro tremeu — um tremor tão leve que só alguém atento notaria. A mulher, porém, notou.

De perto, viu uma marca no canto da moldura: um lírio gravado e, por baixo, uma palavra quase apagada pelo tempo.

“É você…”, sussurrou, sem saber se falava com o espelho ou com o passado.

— Madame, está perdida? — perguntou um pajem, com uma bandeja de doces, tentando parecer corajoso.

Ela sorriu com delicadeza, como quem oferece calor num inverno.

— Não. Estou a lembrar-me do caminho.

O pajem franziu o nariz.

— Lembrar-se do caminho num espelho? Isso é… estranho.

— Estranho é fingir que o que foi feito não deixa sombra — disse ela, baixinho.

Uma risada distante explodiu do outro lado do salão. Um grupo de nobres comentava, divertido, a história de um velho músico que “desapareceu” anos atrás por ter tocado uma canção proibida. A mulher sentiu o peito apertar, como se uma corda invisível a puxasse para trás no tempo.

O seu desejo secreto, guardado como uma jóia num bolso escondido, queimou mais forte: reparar uma injustiça antiga. Não por vingança. Por amor — esse amor que não grita, mas fica, teimoso, como raiz.

Quando a multidão se afastou, ela aproximou-se da moldura e pressionou o lírio com a ponta do dedo. A madeira cedeu. Um estalo discreto, um suspiro de engrenagens antigas, e o espelho ficou levemente embaciado, como se respirasse.

Do vidro veio um murmúrio, uma voz feita de poeira e música:

— Quem procura o que foi roubado deve pagar com coragem.

Ela não recuou.

— Estou pronta.

O espelho clareou e mostrou, por um instante, não o salão, mas um corredor de pedra iluminado por tochas. Ao fundo, uma porta. E nela, pendurado, um medalhão com um lírio e uma harpa.

A mulher engoliu em seco.

— Finalmente — disse, e o seu reflexo sorriu de volta, mas não era só ela. Parecia haver alguém mais, atrás dos seus olhos.

Capítulo 2 — O Corredor que Não Devia Existir

Na noite seguinte, quando Versalhes dormia com um ronco de seda, a mulher voltou ao Salão dos Espelhos. O silêncio ali era diferente: não era vazio, era cheio de ecos. Cada passo parecia acordar uma memória.

Ela carregava uma pequena bolsa. Dentro, uma pena, um frasco de tinta e um anel de prata sem pedra. Coisas simples — e, no entanto, pesadas de significado.

— Se isto for uma armadilha, ao menos é uma armadilha com bom gosto — murmurou, e riu sozinha, baixinho, para afastar o medo.

Tocou o lírio. O espelho embaçou e abriu-se como água, sem quebrar. Um frio antigo lambeu-lhe as mãos.

— Aí vou eu — disse, e atravessou.

Do outro lado, o ar cheirava a pedra úmida e ferro. O corredor era estreito, diferente de tudo o que o palácio mostrava ao mundo. As tochas ardiam com uma chama azulada, como se fossem alimentadas por luar.

Ela avançou até a porta. O medalhão com lírio e harpa balançou, mesmo sem vento.

— Harpa… — sussurrou. — Então é verdade.

A voz do espelho voltou, agora mais próxima, como se viesse das próprias pedras.

— Aqui guardam-se os erros dos grandes e o silêncio dos pequenos.

— E eu vim buscar uma voz — respondeu ela. — A de Étienne.

O nome saiu como oração. Étienne: músico, poeta, homem bom. Alguém que, anos antes, cantara diante do rei uma canção sobre fome, sobre campos queimados, sobre mães a chorar. A canção que não devia ser cantada.

Ele desaparecera. A corte transformara o sumiço em piada. Mas a mulher não ria. Nunca rira.

Ela girou o anel de prata no dedo. Não era um anel qualquer: fora feito de uma corda de harpa derretida, presente de Étienne no último dia em que se viram. Um pedaço de música transformado em círculo.

— Se me estás a ouvir… guia-me — pediu ela, e encostou o anel ao medalhão.

A porta abriu-se sozinha, com um gemido baixo.

A sala além era redonda. No centro, um pedestal de mármore sustentava um livro grosso, preso por correntes. O teto tinha pinturas de estrelas, mas as estrelas estavam riscadas, como se alguém as tivesse apagado com raiva.

E no chão, em volta do pedestal, havia marcas: círculos desenhados com sal e carvão. Magia antiga, daquelas que não pedem licença.

Quando ela se aproximou, o livro mexeu, como um animal adormecido a acordar.

— Não — disse a mulher, firme. — Eu não vim para destruir-te. Vim para desfazer o que fizeste.

As correntes tilintaram. A capa abriu-se numa página onde letras se reorganizavam sozinhas, dançando:

“TRÊS PASSOS PARA QUEBRAR UMA INJUSTIÇA SELADA:

1) ENCONTRAR O NOME ESCONDIDO.

2) OFERECER UMA MEMÓRIA VERDADEIRA.

3) DESPERTAR A CANÇÃO PERDIDA.”

Ela sentiu um arrepio. Nome escondido. Memória verdadeira. Canção perdida.

— Claro… — murmurou. — Não seria fácil.

Do fundo da sala, um som de risada. Não humana. Mais como um gargarejo de fumaça.

Uma sombra desprendeu-se da parede. Tinha forma de homem alto, mas os olhos eram buracos de tinta.

— Quem te deixou entrar, pequena dama? — sibilou a sombra. — Os espelhos são meus.

Ela ergueu o queixo.

— Os espelhos pertencem à luz. Tu só te escondes neles.

A sombra inclinou a cabeça.

— Corajosa. Ou tola. Mas, já que estás aqui… paga o preço.

As tochas azuladas tremeram, como se o corredor inteiro prendesse a respiração.

Capítulo 3 — O Baile das Máscaras e o Nome Escondido

Na manhã seguinte, Versalhes acordou com fofocas frescas: haveria um baile de máscaras em honra de um embaixador. Música, doçura e exagero — o trio favorito da corte.

A mulher, por fora, parecia apenas mais uma convidada. Por dentro, carregava a noite como um peso. A sombra dissera “paga o preço”. E o livro exigira “encontrar o nome escondido”.

No baile, as máscaras faziam de todos personagens de teatro. Leões de ouro, ninfas de marfim, corvos com bicos brilhantes. O rei Luís XIV, o Rei Sol, surgiu com uma máscara de sol radiante — porque até quando se esconde, ele quer ser visto.

A mulher escolheu uma máscara de lua: branca, serena, com um sorriso discreto. Uma lua entre sóis.

A música começou. Violinos e flautas corriam como água viva. Ela dançou, mas os seus olhos procuravam outra coisa: símbolos, sinais, o rasto do lírio e da harpa.

— Madame Lua! — chamou alguém, aproximando-se com passos muito seguros. Um homem com máscara de raposa, cheiro de perfume forte e risada pronta.

— Senhor Raposa — respondeu ela, com educação polida.

— Ouvi dizer que gosta de espelhos.

Ela sentiu o sangue gelar, mas não deixou transparecer.

— Quem não gosta? Eles mostram-nos… — ela fez uma pausa — …o que estamos dispostos a ver.

A raposa riu.

— Cuidado. Há gente que se vê melhor sem consciência.

Ela inclinou a cabeça.

— E há gente que cheira a culpa a quilómetros.

A raposa pareceu divertir-se.

— Ah! Que língua afiada. Diga-me, Madame, acredita em histórias antigas? Naquelas de feitiços escondidos sob o chão do palácio?

Ela manteve o tom leve, como se falasse de doces.

— Acredito que o passado gosta de voltar para cobrar.

A raposa aproximou-se mais, como quem confia num segredo.

— E se eu lhe dissesse que há um nome que não pode ser dito aqui? Um nome enterrado em papel, trancado em tinta real?

Ela percebeu: era isso. O nome escondido. O nome que selava a injustiça.

— Eu pediria que o dissesse, então — respondeu, sorrindo por trás da máscara.

— Não de graça — murmurou a raposa. — Dê-me algo em troca. Uma lembrança sua.

A mulher pensou em Étienne, na última tarde, na harpa, na canção. Uma lembrança sua… era perigoso. O livro pedira uma memória verdadeira, mas ainda não agora. Ela não podia gastar a mais preciosa antes do tempo.

Mesmo assim, tinha outras.

— Está bem — disse ela. — Mas escolha com cuidado. Há lembranças que mordem.

A raposa estendeu a mão, enluvada. Ela tocou-lhe a luva com a ponta dos dedos e pensou, por um segundo, no cheiro de pão quente numa aldeia pobre onde ajudara crianças famintas. Um momento simples, humano, sem magia. A lembrança saiu dela como um fio de luz.

A raposa estremeceu.

— Que… — engoliu em seco — …que coisa estranha. Sentir fome sem estar com fome.

— Agora somos mais parecidos — disse ela, calmamente. — O nome.

A raposa hesitou, como se algo o apertasse por dentro.

— Chamavam-no de Étienne, sim. Mas o nome que o prendeu… o nome escrito no decreto… foi “ÉTIENNE DE VALCOURT, TRAIDOR DO SOL”.

A mulher fechou os olhos por um instante. Valcourt. Ali estava. O selo. A corrente.

— Obrigada, Senhor Raposa.

— Não me agradeça — disse ele, com a voz mais baixa. — Há espelhos que devolvem o que tiramos. E eu… eu não gosto de devolver coisas.

Ela afastou-se na multidão. A música continuava, mas para ela tudo soava como vento numa tumba.

No canto do salão, viu o rei rir com um grupo de nobres. Um riso alto, claro, como se a felicidade fosse um direito hereditário.

A mulher apertou o anel de prata no dedo.

— Étienne de Valcourt — sussurrou. — Vou tirar-te desse papel.

E, do outro lado da sala, por um instante, um espelho pareceu escurecer, como um olho a piscar.

Capítulo 4 — A Memória Verdadeira na Câmara das Estrelas Riscadas

Nessa noite, ela atravessou o espelho de novo. O corredor de pedra recebeu-a com o mesmo frio e as mesmas tochas azuis, como se nunca tivesse saído.

A sala redonda esperava. O livro, aberto, respirava palavras.

A sombra estava lá, encostada à parede, fingindo que não se importava. Mas os seus olhos de tinta seguiam cada passo.

— Voltaste — disse a sombra. — E não estás a tremer. Estou quase desapontado.

— O medo não me impede — respondeu ela. — Só me lembra que isto importa.

Ela aproximou-se do pedestal e falou alto, para que a magia ouvisse sem desculpas:

— O nome escondido é Étienne de Valcourt.

As letras do livro brilharam, como brasas.

“PASSO UM ACEITE.”

As correntes afrouxaram um pouco, com um som de metal cansado.

A sombra rosnou.

— Não te entusiasmes, dama. O segundo passo é mais difícil. Uma memória verdadeira… e não uma dessas lembranças fáceis que se dão como moedas.

A mulher respirou fundo. A memória verdadeira era a que doía e, ao mesmo tempo, sustentava.

Ela tirou da bolsa a pena e a tinta. Desenhou, no círculo de sal, um pequeno símbolo: uma harpa simples, como a de um camponês, não como as luxuosas do palácio.

— A minha memória não é para te alimentar — disse à sombra. — É para abrir uma porta.

Ela fechou os olhos e deixou a lembrança vir inteira, sem cortar as partes feias.

Viu-se mais jovem, num jardim longe de Versalhes. Étienne tocava baixo, com cuidado, como se cada nota fosse frágil. Ao lado, uma menina pequena — sua irmã — tossia, pálida. A menina ria mesmo assim, porque a música fazia cócegas na tristeza.

A mulher recordou-se de como pedira ajuda na cidade, e de como os ricos tinham fechado janelas. Recordou-se do médico que não veio. Recordou-se do último suspiro da menina, leve como pétala. Recordou-se do rosto de Étienne, molhado de lágrimas, e de como ele dissera:

— Se ninguém ouve os pequenos, vou cantar por eles, mesmo que o rei tape os ouvidos.

A memória atravessou-a como uma flecha. Ela tremeu, sim — não de medo, mas de verdade.

Quando abriu os olhos, lágrimas tinham caído no sal. E o sal brilhou.

O livro respondeu:

“PASSO DOIS ACEITE.”

As estrelas riscadas no teto acenderam-se uma a uma, como se alguém as desenhasse de novo com luz.

A sombra deu um passo atrás.

— Não… não era para ser assim.

A mulher limpou o rosto com a mão, sem vergonha.

— Amor não é fraqueza — disse. — É uma força que insiste.

As correntes do livro soltaram-se mais. O ar da sala ficou menos pesado, como se o lugar tivesse respirado após muitos anos sufocado.

Mas o livro ainda mostrava o último passo:

“DESPERTAR A CANÇÃO PERDIDA.”

A sombra mostrou dentes que não tinha, uma espécie de sorriso rasgado.

— E agora? Onde está a canção, Madame Lua? Perdida é perdida. Foi enterrada com ele.

A mulher tocou o anel de prata. Sentiu uma vibração, quase imperceptível, como uma nota que ainda não decidiu nascer.

— Nem tudo o que é enterrado morre — respondeu ela. — Às vezes… espera.

Capítulo 5 — A Canção Debaixo do Trono

No dia seguinte, a corte reuniu-se para um concerto privado. O rei gostava de se cercar de música, como se pudesse mandar até nas notas. Os músicos alinharam-se, nervosos, com instrumentos polidos e sorrisos forçados.

A mulher conseguiu entrar como ajudante de uma camareira. Ninguém presta atenção às mãos que seguram bandejas. Em Versalhes, muita coisa acontece invisível.

O trono estava numa plataforma. Acima, o símbolo do sol brilhava em ouro. A mulher sentiu o coração acelerar. A sombra do corredor parecia segui-la, escondida nos cantos, nos reflexos das jarras, na superfície das janelas.

Ela aproximou-se do trono quando todos se distraíram com a chegada do rei. Abaixo da plataforma, viu algo que não combinava com o luxo: uma pequena fenda na madeira, como se alguém tivesse arrancado uma peça e colocado de volta às pressas.

— É aqui — murmurou.

O anel de prata aqueceu. Ela enfiou a ponta da pena na fenda e fez força. A madeira cedeu, revelando um compartimento secreto.

Dentro, não havia joias nem cartas. Havia uma folha de música dobrada, amarelada, e um fragmento de corda de harpa.

A canção perdida.

Um guarda passou perto. Ela fechou o compartimento num segundo e endireitou-se, fingindo observar um tapete.

O guarda estreitou os olhos.

— O que está a fazer aí?

Ela levantou uma sobrancelha, como se a pergunta fosse ofensiva demais para responder.

— A admirar a limpeza do chão. É espantosa.

O guarda pareceu confuso, como se não soubesse se devia rir ou suspeitar. Optou pelo caminho mais fácil: virou-se e foi embora.

A mulher soltou o ar que nem percebera ter prendido. Mais tarde, escondida atrás de uma cortina, abriu a folha de música. A melodia era simples e poderosa, como um rio que não pede permissão para correr.

Mas havia um problema: a canção não podia ser apenas tocada. Ela precisava ser despertada — como dizia o livro. A magia antiga exigia mais do que som; exigia intenção, verdade, coragem.

Naquela noite, de volta ao Salão dos Espelhos, ela encarou a própria imagem. A máscara de lua estava guardada, mas a lua permanecia nela.

— Se eu tocar isto… — disse para o espelho — …posso perder tudo.

O espelho respondeu com o seu silêncio pesado.

Ela sorriu, cansada.

— Eu já perdi o que mais doeu. Agora só me resta lutar pelo que vale.

Tocou o lírio. A água do espelho abriu-se.

— Vamos acordar uma canção — disse, e atravessou.

Capítulo 6 — O Duelo Contra a Sombra e o Triunfo da Esperança

Na câmara das estrelas riscadas, o livro esperava. As tochas azuis ardiam mais alto, como se sentissem que algo decisivo se aproximava.

A sombra surgiu imediatamente, irritada, espalhando frio.

— Chega de brincadeiras. Se cantas, quebras o selo. Se quebras o selo, eu perco o meu banquete. — A voz dela parecia arranhar as paredes. — Não vou permitir.

A mulher tirou a folha de música e o fragmento de corda. Colocou-os sobre o pedestal, ao lado do livro.

— Não preciso da tua permissão — disse ela, com firmeza tranquila.

— Precisas de ar para cantar — sibilou a sombra.

O ar ficou pesado, como se mãos invisíveis apertassem o peito da mulher. Ela tossiu, mas manteve-se de pé. A sombra aproximou-se, alongando-se, tentando envolvê-la.

— O teu amor é só uma história que contas a ti mesma — provocou. — A corte esquece. O rei esquece. O mundo esquece.

A mulher fechou os olhos por um instante e pensou na irmã a rir. Pensou em Étienne a prometer cantar pelos pequenos. Pensou nos rostos famintos da aldeia, nos olhos que pediam sem palavras.

Abriu os olhos com uma luz calma.

— Eu não esqueço — disse. — E basta uma pessoa para começar o retorno.

Ela pegou no fragmento de corda e passou-o pelo anel, como se unisse duas partes de um mesmo círculo. O metal vibrou. A folha de música levantou uma pontinha, como se tivesse vento próprio.

A sombra lançou-se sobre ela.

A mulher não puxou uma espada, nem fez um gesto espetacular. Apenas começou a cantar.

A voz saiu baixa, mas firme, como fogo protegido pela mão. A melodia preenchia a sala sem pressa, nota a nota, e cada nota parecia limpar a poeira do tempo. As estrelas riscadas no teto voltaram a brilhar, agora inteiras. O sal no chão cintilou como neve ao sol.

A sombra recuou, como se a música fosse luz demais para os seus olhos de tinta.

— Pára! — gritou, e a palavra virou um vento cortante.

A mulher continuou. A canção falava de campos e gente comum, de esperança que teima, de amor que se oferece sem pedir medalhas. Falava de um rei que podia ouvir — se quisesse.

O livro tremeu. As correntes estalaram e caíram, uma a uma, com um som que parecia sinos.

“PASSO TRÊS CUMPRIDO.”

O chão abriu um círculo de luz suave. Dele surgiu uma figura, primeiro como névoa, depois como pessoa: um homem de cabelos castanhos, olhar cansado, mãos de músico. Étienne.

Ele olhou em volta, confuso, e então a viu.

— Tu… — a voz dele era rouca, como porta que não se abre há anos. — Achei que tinhas ido embora.

Ela deu um passo, e o mundo pareceu parar para ver.

— Eu fiquei — disse ela, com lágrimas novas, mais leves. — Fiquei a viver por ti e por ela. E hoje… trouxe-te de volta.

A sombra gritou, mas agora o grito era fraco, como vela no fim.

— Isto não é justo!

Étienne encarou a sombra como se reconhecesse um inimigo antigo.

— Injusto foi o silêncio — disse ele.

A mulher cantou a última frase da canção. Não era um final de vitória barulhenta, mas um final de amanhecer.

A sombra encolheu, tornando-se apenas uma mancha no canto da parede. E a mancha evaporou, como tinta lavada pela chuva.

O ar ficou leve. A sala, antes prisão de segredos, parecia agora uma capela de luz.

Étienne respirou fundo, como quem aprende de novo a existir.

— E agora? — perguntou ele, com medo e espanto juntos.

Ela sorriu.

— Agora devolvemos a tua voz ao mundo.

Voltaram pelo corredor e atravessaram o espelho. No Salão dos Espelhos, o dia nascia. A luz da manhã entrava pelas janelas e fazia o ouro parecer menos pesado, mais humano.

Naquele mesmo dia, durante o conselho, uma confusão correu pelos corredores: documentos antigos foram encontrados num compartimento do trono, incluindo o decreto que chamava Étienne de traidor. Mas ao lado dele havia a partitura da canção e uma carta, escrita com a tinta que a mulher trouxera, com caligrafia clara:

“UM REINO NÃO SE TORNA MAIOR POR CALAR OS PEQUENOS.”

Ninguém viu quem deixou a carta. Alguns culparam fantasmas. Outros, a própria consciência, o que era ainda mais assustador.

O rei leu em silêncio. O rosto dele não se tornou santo nem perfeito — era humano demais para isso. Mas os seus olhos perderam a risada fácil por um momento. E, nesse momento, algo mudou.

Mais tarde, numa sala pequena longe das multidões, Étienne tocou a harpa de novo. Não para impressionar, mas para respirar.

A mulher sentou-se ao lado dele. O anel de prata brilhava discretamente no dedo.

— Não reparámos o mundo inteiro — disse ela.

— Não — respondeu ele, tocando uma nota suave. — Mas abrimos uma fenda na escuridão.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, sem cerimónias de corte.

— A esperança é assim — murmurou. — Entra pelas fendas. E depois… alarga-as com paciência.

A música encheu o espaço como um abraço. Do lado de fora, Versalhes continuava grandioso, cheio de jogos e aparências. Mas, ali dentro, uma injustiça antiga tinha sido desatada. E onde o silêncio fora imposto, nasceu uma canção.

E a canção, teimosa e luminosa, prometia que o amor — quando se recusa a esquecer — pode mesmo mudar o destino.

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Cortesãos
Pessoas que trabalham ou vivem na corte de um rei, com funções sociais ou políticas.
Salão dos Espelhos
Grande sala com muitos espelhos usados para festas e mostrar riqueza do palácio.
Pajem
Jovem que serve na corte, costuma ajudar nobres e levar mensagens ou objetos.
Embaciado
Quando um vidro fica turvo ou com vapor e não se vê bem através dele.
Engrenagens
Peças dentadas que se encaixam e giram para fazer máquinas funcionar.
Medalhão
Pendente grande e decorado, muitas vezes usado ao pescoço para guardar lembranças.
Pedestal
Base alta onde se coloca uma estátua, livro ou objeto importante.
Mármore
Pedra lisa e brilhante, usada para escultura e para construir pisos ou estátuas.
Correntes
Conjunto de elos de metal unidos, usado para prender ou ligar coisas.
Tochas
Bastões que queimam para dar luz, feitas com material inflamável na ponta.

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