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História sobre a confiança em si mesmo 9 a 10 anos Leitura 9 min. (1)

Um passo de cada vez: a Leonor e a pista de patins

Leonor enfrenta o medo de patinar numa aula com a professora Cátia e os amigos, descobrindo que errar faz parte e que coragem se constrói um passo de cada vez.

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Uma menina de 10 anos, Leonor, rosto redondo, cabelo castanho-claro preso em rabo, confiante e sorridente, com capacete colorido, joelheiras rosa e patins azuis, completando a volta na pista com braços abertos; outra menina de 10 anos, Sara, cabelo curto preto, sorriso encorajador, segura a mão direita de Leonor e patina ao lado, ligeiramente atrás; um menino de ~10 anos, Tomás, cabelo despenteado, camiseta vermelha, um pouco mais adiante fez uma pirueta desajeitada e ri, sentado perto de uma almofada de proteção após uma queda leve; a professora Cátia, cerca de 40 anos, cabelo grisalho-azulado em coque, colete laranja, agachada na beira da pista aplaudindo e incentivando, perto de Leonor; cena numa pista de roller lisa e brilhante, chão creme com reflexos prateados e bordas com almofadas azuis, ao lado de um parque com céu pastel, árvores e bancos de madeira, confetes de luz e sugestão de cheiro de pipoca por pequenas fumacinhas amarelas; situação principal: Leonor no último giro, postura orgulhosa e relaxada, pernas levemente flexionadas, pequena nuvem de poeira sob as rodas, crianças a observam admiradas, ambiente suave, alegre e em movimento. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O sorriso que só eu via

Na terça-feira, a Leonor acordou antes do despertador. O quarto estava meio escuro, a janela a fazer um quadrado de luz no chão. Ela esticou os braços, espreguiçou-se… e, sem pensar muito, fez um auto-sorriso no espelho da cómoda. Um sorriso pequeno, só dela, como quem diz: “Bom dia, Leonor. Vamos lá.”

A escola tinha anunciado uma tarde na pista de patins do bairro. A Leonor gostava da ideia… e ao mesmo tempo a barriga fazia um nó, como se tivesse engolido um atacador.

— Leonor, hoje vais patinar? — perguntou o pai, na cozinha, enquanto o pão saltava da torradeira.

— Vou… ver — respondeu ela, mexendo no leite. “Ver” era uma palavra segura. Não caía.

No caminho para a escola, a Leonor repetiu baixinho: “Um passo de cada vez.” Depois repetiu outra vez, só porque soava bem: “Um passo de cada vez.”

Na mochila, os patins emprestados pela prima Inês faziam um barulho de rodas a baterem uma na outra. Pareciam contentes. A Leonor não sabia se ela também estava.

Capítulo 2: Rodas, cheiros e um chão que brilha

A pista de roller ficava ao lado do parque. Tinha um cheiro misturado de borracha, pipocas e vento. O chão era liso e brilhava como se alguém o tivesse polido com lua.

A professora Cátia explicou regras simples: capacete, joelheiras, respeitar os outros, nada de empurrões.

— E o mais importante — disse ela —: aqui, errar faz parte. Quem cai aprende duas vezes: aprende a cair e aprende a levantar.

A Leonor ouviu aquilo e sentiu um alívio pequenino, como quando se encontra uma moeda no bolso e afinal dá para comprar a merenda.

Os colegas calçavam os patins e deslizavam, alguns com jeito, outros com movimentos de pinguim apressado. O Tomás já estava a inventar piruetas.

— Olha para mim! — gritou ele, e fez uma volta que acabou com um “bum” no colchão de proteção. Levantou-se a rir.

— Foi a pista que me abraçou! — disse ele, com o cabelo todo em pé.

A Leonor riu também. O riso dela saiu baixo, mas saiu.

Ela sentou-se num banco e calçou os patins devagar. As fivelas pareciam muito decididas. Ela, nem tanto.

Quando se levantou, as pernas ficaram estranhas, como se fossem duas colheres compridas.

— Uau… — murmurou. — Isto é que é crescer… para o lado errado.

Capítulo 3: A queda pequena e a coragem grande

A Leonor aproximou-se da beira da pista. A professora Cátia colocou-se ao lado.

— Queres começar comigo? — perguntou.

A Leonor assentiu. A garganta estava seca, mas a cabeça disse “sim”.

Primeiro, um pé. Depois, o outro. O chão parecia querer fugir, muito liso, muito rápido.

— Olha para a frente, não para as rodas — orientou a professora. — E respira. Como se estivesses a cheirar pão quente.

A Leonor respirou. Imaginou o pão da manhã. Funcionou um bocadinho.

Deu um passo… e escorregou. Foi rápido: um “ai!”, um joelho no chão, uma palma no chão. Nada de drama de filme. Só uma queda pequena, mas que parecia enorme dentro dela.

Os olhos encheram-se de água. Ela não queria chorar ali, com a pista a brilhar e os outros a passar.

A professora Cátia agachou-se.

— Doeu muito?

— Doeu… mais aqui — a Leonor apontou para o peito, sem coragem de dizer “vergonha”.

A professora fez um sorriso calmo.

— Sabes o que eu vi? Eu vi alguém que tentou. E isso vale.

A Leonor ficou em silêncio. Depois, sem ninguém pedir, fez o auto-sorriso. Bem pequenino. Só para lembrar o espelho da manhã.

— Posso tentar outra vez? — perguntou, com a voz fina.

— Claro. E desta vez vamos aprender o truque do “agacha e abraça”.

— Abraça?

— Sim. Abraça o ar com os braços para manteres equilíbrio. O ar é leve, mas ajuda.

Capítulo 4: Pequenos passos, grandes sinais

A Leonor voltou a pôr-se de pé. O coração batia como se estivesse a correr uma maratona… sem sair do lugar.

— Um passo de cada vez — disse ela, quase como uma canção.

— Isso mesmo — respondeu a professora.

Ela agachou um pouco, braços abertos, e fez dois passinhos curtos. Depois mais dois. As rodas fizeram um som suave: shhh… shhh… como folhas a roçar.

A amiga Sara apareceu ao lado, a deslizar devagar.

— Queres dar a minha mão? — perguntou.

A Leonor hesitou. Queria fazer sozinha… mas também queria sentir-se segura.

— Só um bocadinho — disse ela.

A Sara deu a mão sem apertar demais, como quem diz: “Estou aqui, mas quem manda és tu.”

E a Leonor andou. Três metros. Quatro. Cinco. Parou a rir, surpresa.

— Eu… eu consegui!

— Conseguiste, sim! — a Sara respondeu. — E olha que tu estás a fazer cara de quem descobriu um superpoder.

A Leonor levou a outra mão à boca para não rir alto demais. Mas riu. O riso saiu com bolhas, como refrigerante.

Mais tarde, o Tomás passou por elas, muito confiante, e disse:

— Atenção, pista! Aí vem o campeão!

E, claro, o “campeão” tropeçou no próprio pé e ficou sentado no chão, com ar de estátua.

A Leonor estendeu-lhe a mão.

— A pista abraçou-te outra vez?

— Abraçou. Ela gosta muito de mim — respondeu ele, sério, e depois piscou o olho.

A Leonor sentiu uma coisa boa: não era só ela que caía. Caíam todos. E continuavam.

No fim da aula, a professora propôs um desafio simples: dar uma volta completa à pista, sem pressa. Quem quisesse.

A Leonor olhou para o chão brilhante. Olhou para as mãos. Olhou para dentro.

O nó na barriga ainda existia, mas estava mais pequeno.

Capítulo 5: A volta inteira e a alegria tranquila

A Leonor alinhou na beira da pista. Capacete bem preso. Joelheiras no lugar. O vento fresco a tocar-lhe nas orelhas.

— Lembra-te — disse a professora Cátia —: devagar é um tipo de coragem.

A Leonor respirou como pão quente. Depois avançou.

Shhh… shhh…

Ela passou pelo banco onde tinha calçado os patins. Passou pelo canto onde tinha caído. O coração tentou apertar, mas ela respondeu com uma frase conhecida:

— Um passo de cada vez.

No meio da pista, havia uma parte um pouco mais lisa, como se fosse gelo. As rodas escorregaram um milímetro e a Leonor sentiu o medo levantar a cabeça.

Ela agachou. Abriu os braços. “Abraça o ar”, lembrou-se.

E o medo baixou um pouco, como um gato que se encolhe ao colo.

Mais à frente, ouviu a Sara:

— Vai, Leonor!

E ouviu o Tomás:

— Não deixes a pista apaixonar-se por ti também!

A Leonor soltou uma gargalhada e quase perdeu o equilíbrio… mas recuperou. A gargalhada virou força.

Quando completou a volta, não foi com velocidade. Foi com atenção. Foi com calma. Foi com ela própria.

Parou junto à professora, ofegante, e fez o auto-sorriso mais claro do dia.

— Eu dei a volta… inteira — disse, como se dissesse uma coisa muito importante. E era.

A professora Cátia fez-lhe uma festa no ombro.

— E sabes o que é melhor? Amanhã vais saber ainda mais.

No regresso a casa, a Leonor caminhou com os patins na mochila, sentindo o peso deles como um troféu normal, do tamanho certo.

À noite, antes de dormir, foi ao espelho. O quarto estava quieto. Ela viu a própria cara, as bochechas ainda coradas, os olhos brilhantes.

Fez o auto-sorriso. Desta vez, não foi pequeno. Foi inteiro.

E pensou, com uma calma boa: “Eu não preciso ser perfeita. Eu só preciso tentar. E tentar outra vez.”

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Espreguiçou-se
Esticar o corpo devagar ao acordar, como alongar braços e pernas.
Auto-sorriso
Sorriso que a própria pessoa faz para si, para se animar.
Deslizavam
Andavam com movimenento suave sobre rodas ou gelo, sem saltos.
Joelheiras
Proteções que se põem nos joelhos para evitar feridas ao cair.
Colchão de proteção
Grande almofada que protege quando alguém cai numa atividade.
Agachou-se
Baixar o corpo dobrando os joelhos, ficar mais perto do chão.
Piruetas
Movimentos de volta rápida do corpo, como giros no ar ou no chão.
Maratona
Corrida muito longa; aqui é usada para dizer esforço grande e cansado.
Capacete
Proteção dura que se usa na cabeça para não se magoar.
Ofegante
Respirar rápido e com dificuldade, geralmente depois de esforço.

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