O Raposinho Tomás morava perto de um bosque calmo, onde as folhas faziam “shhh, shhh” quando o vento passava. A sua toca era quentinha e cheirava a pinho e a sopa de cenoura.
Numa manhã, a Coruja do Correio pousou num ramo e disse: “Tomás, vem um novo vizinho para a Clareira do Lago.”
Tomás abriu bem os olhos. “Um novo vizinho? Que bom!”
Nesse dia, Tomás arrumou a casa. Varreu o chão com a cauda, dobrou a manta aos quadradinhos e pôs uma flor amarela num copo. Depois, encheu uma cesta: maçãs vermelhas, bolachas de aveia e um frasco de mel.
“Para dar as boas-vindas,” disse ele, baixinho, como se fosse um segredo doce.
Quando Tomás chegou à Clareira do Lago, viu uma mochila grande ao lado de um arbusto. E viu um coelhinho de orelhas compridas. O coelhinho olhava para tudo com um sorriso tímido, como quem escuta um lugar novo.
Tomás aproximou-se devagar. “Olá! Eu sou o Tomás. Eu moro ali, perto do carvalho.”
O coelhinho fez uma pequena vénia. “Olá… eu sou o Kiko.”
Tomás apontou para a mochila. “Mudança?”
Kiko acenou. “Sim. Eu já vivi em muitos países do bosque grande.”
Tomás inclinou a cabeça, curioso. “Muitos? Como assim?”
Kiko sentou-se na relva e bateu com a patinha no chão, como se marcasse um ritmo. “Eu vivi onde faz muito frio. A neve era como açúcar. Tudo ficava branco, branco, branco.”
Tomás riu, com um risinho macio. “A tua cabeça parecia um bolo de farinha!”
Kiko riu também. “E vivi num lugar muito quente. O chão era amarelo e o sol parecia um pão no forno.”
Tomás olhou para o lago, que brilhava como uma moeda. “Aqui temos água fresca e sombras. É bom também.”
“É bom,” concordou Kiko. “Cada lugar é diferente. E eu sou um pouco de cada lugar.”
Tomás estendeu a cesta. “Trouxe maçãs e bolachas. Queres?”
“Quero!” disse Kiko, e os olhos dele ficaram redondos e felizes.
Sentaram-se os dois. Comeram devagar. O lago fazia “plim” com as gotinhas. Um pato passou a remar, muito sério, e isso fez os dois rirem outra vez.
Depois, Tomás disse: “Queres brincar comigo? Posso mostrar o bosque.”
Kiko apertou as alças da mochila. “Quero, sim. Mas às vezes eu falo palavras diferentes. Eu aprendi línguas em muitos países.”
Tomás piscou um olho. “Aqui no bosque, a gente aprende com os amigos. É fácil.”
Foram pelo caminho de terra. Tomás mostrou o lugar das amoras. “Aqui é o cantinho do doce.”
Kiko cheirou uma amora e disse: “No lugar frio, eu comia bagas pequeninas. Eram azuis.”
“Azuis?” Tomás abriu a boca, admirado. “Como o céu!”
“Como o céu,” repetiu Kiko, contente.
Mais adiante, encontraram a Tartaruga Lina, que andava devagarinho com uma folha na cabeça, como chapéu. Lina olhou os dois e disse: “Olá, Tomás. Quem é o teu amigo?”
Tomás apresentou: “Este é o Kiko. Ele viveu em muitos países.”
Lina sorriu com calma. “Bem-vindo, Kiko. No meu passo lento, cabe todo o mundo.”
Kiko riu e disse uma palavra estranha, bem curtinha: “Oláa!” E depois explicou: “Num lugar eu dizia assim.”
Tomás tentou repetir. “Oláa!”
Saiu engraçado, com a língua meio enrolada. Lina bateu palminhas com as patas. “Muito bem!”
Continuaram. Encontraram o Esquilo Pipo, que guardava nozes numa pilha perfeita. Pipo olhou Kiko e perguntou: “Tu comes nozes?”
Kiko respondeu: “Como. E num país eu comia sementes compridas. Pareciam barquinhos.”
Pipo arregalou os olhos. “Barquinhos? Eu gosto de barquinhos!”
Tomás disse: “Então hoje vamos fazer um barco de folha.”
E fizeram. Escolheram uma folha grande, verde e brilhante. Pipo trouxe um palito. Lina trouxe um fio de erva. Tomás dobrou a folha com cuidado, e Kiko soprou para ela ficar bem aberta.
“Pronto!” disse Tomás. “Um barco!”
Kiko colocou o barco no riacho. O barquinho foi andando, andando, como se tivesse pés.
Todos acompanharam com os olhos. Tomás disse: “Vês? A gente faz coisas juntos, mesmo sendo diferentes.”
Kiko assentiu. “No lugar quente eu brincava com areia. Aqui eu brinco com folhas. É novo e é bom.”
De repente, o barco encostou numa pedrinha e parou. Kiko ficou quietinho. “Oh… eu estraguei?”
Tomás pegou numa varinha e, com muito carinho, empurrou o barco só um pouquinho. O barco voltou a andar. “Não estragaste nada. Às vezes o caminho só precisa de um empurrão amigo.”
Kiko respirou fundo e sorriu. “Um empurrão amigo.”
Quando o sol começou a descer, o bosque ficou cor-de-laranja, como uma manta quente. Tomás levou Kiko até à nova toca, perto da Clareira do Lago.
“Queres um presente de boas-vindas?” perguntou Tomás.
Kiko abriu as patinhas. “Quero.”
Tomás tirou de uma bolsinha uma folha de papel grosso. Era uma carta grande, desenhada à mão. No meio havia um mapa simples do bosque: o lago, o carvalho, o riacho, o cantinho das amoras. E, num canto, havia um espaço em branco.
“É uma carta para guardares,” disse Tomás. “Uma carta para lembrar que aqui tens amigos.”
Kiko passou o dedo pelo desenho do lago. “Posso assinar?”
“Claro!” disse Tomás. “Vamos assinar os dois.”
Tomás escreveu: “Tomás, o raposo.”
Kiko escreveu: “Kiko, o coelho viajante.”
E em baixo, bem curtinho, escreveram juntos, devagar, palavra por palavra, como uma canção de dormir:
“Aprendemos que cada amigo tem uma história. Aprendemos que há muitos países e muitas palavras. Aprendemos que ser diferente é bonito. E que brincar junto faz o coração sorrir.”
Kiko encostou a carta ao peito. “Vou pôr na parede da minha toca.”
Tomás bocejou, com um bocejo redondo. “E amanhã podemos fazer outro barco.”
“Sim,” disse Kiko, com voz macia. “Amanhã.”
O bosque ficou quieto. As estrelas acenderam-se uma a uma, como pequenas lanternas. Tomás voltou para casa com o coração leve, e Kiko entrou na nova toca com a carta assinada, sabendo, bem tranquilo, que ali também era lugar para ele.