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História sobre a viagem 11 a 12 anos Leitura 18 min.

Três amigas em Minorca: a aventura de mudar de rota com paciência

Três amigas viajam a Minorca em busca de pequenas descobertas; entre trilhas, desvios e contratempos, aprendem que a paciência, a curiosidade e a ajuda mútua tornam a aventura mais rica.

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Três meninas de 12 anos ajudam um homem idoso a fechar uma grande mala ao anoitecer: Leonor (cabelos castanhos médios em trança solta, camisa clara, caderno numa mão) ajoelha-se à esquerda e manipula cuidadosamente um papel e uma fita adesiva; Inês (cabelo preto em rabo-de-cavalo, T‑shirt colorida) está ao centro e ilumina o zíper com o ecrã do telemone; Marta (cabelo loiro curto, casaco leve) está à direita, segura a mala e sorri, com um pedaço de ensaïmada na mochila; rua estreita de calçada de pedra, fachadas ocres, portas de madeira pintada, vasos nas janelas, pequena praça e esplanada iluminadas pela luz dourada do pôr do sol; foco nas mãos puxando o fecho, contraste entre a luz quente do sol e a fria do telemone e texturas detalhadas do couro da mala, do tecido e dos paralelepípedos húmidos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — Três mochilas e uma ideia teimosa

O aeroporto cheirava a café e a chão encerado. Leonor equilibrava a mochila no ombro como se fosse uma bússola: cada bolso tinha uma função. Num, um caderno com capa dura. No outro, um estojo com lápis e uma fita adesiva “para emergências”. No bolso mais pequeno, um saco de rebuçados de menta “para manter a calma”, segundo ela.

Inês, ao lado, olhava para o painel de partidas como quem decifra um enigma.

— Menorca… é a ilha com as praias transparentes, certo?

— E com um vento que parece ter opinião — disse Marta, a terceira da banda, a puxar o elástico do cabelo. — A minha mãe disse: “leva casaco, mesmo que pareça verão”.

Leonor sorriu, satisfeita com a frase “mesmo que pareça”. Gostava dessas coisas: o que parece e o que é. Abriu o caderno e escreveu: “Objetivo da viagem: descobrir coisas pequenas que valham uma grande memória.”

— Leonor, tu és capaz de transformar uma ida ao supermercado num documentário — brincou Inês.

— E tu és capaz de te perder num corredor com três prateleiras — devolveu Leonor, sem maldade.

Marta riu-se. — Está decidido: eu vou ser a responsável por lembrar que precisamos de comer e beber água.

Os pais ficaram por perto, naquela mistura de “estou aqui” e “não quero atrapalhar”. Quando chegou a hora do embarque, as três fizeram um toque secreto de mãos — inventado na semana anterior — que parecia um mini-tornado.

No avião, sentaram-se juntas. Leonor encostou a testa à janela. As nuvens pareciam colchões gigantes, mas ela sabia que não era para saltar. Inês apontou para um brilho no mar, lá em baixo.

— Achas que dá para ver os peixes daqui?

— Só se forem do tamanho de autocarros — respondeu Marta.

Quando finalmente pousaram, o ar tinha um cheiro diferente: sal, pinho e uma coisa morna, como pedra ao sol. No autocarro que as levou até Mahón, o motorista tinha um rádio baixinho. Leonor tentou apanhar palavras em espanhol e catalão, como se fossem conchas.

— Então, qual é o plano? — perguntou Inês.

Leonor abriu o caderno como quem abre um mapa do tesouro. — Plano: caminhar devagar, perguntar sem vergonha, reparar em tudo.

— E não discutir com pombos — acrescentou Marta. — Eles ganham sempre.

A cidade apareceu com casas claras e varandas de ferro, e o porto parecia um braço de água a abraçar as margens. As três desceram do autocarro com o coração a bater mais rápido, como se Minorca as tivesse chamado pelo nome.

Capítulo 2 — Um caderno de viagem e um mercado cheio de vozes

No dia seguinte, acordaram cedo no alojamento. A janela deixava entrar uma luz suave, quase dourada, que fazia as poeiras parecerem estrelinhas. Leonor já estava de pé, a testar uma pequena invenção: uma tira de cartão dobrada em forma de “L”, com uma linha desenhada.

— O que é isso? — Inês esfregou os olhos.

— Um medidor de sombras — explicou Leonor, orgulhosa. — Se a sombra estiver mais curta, o sol está mais alto. Assim sabemos a melhor hora para caminhar sem assar como torradas.

Marta cheirou o ar. — A melhor hora é agora, antes de eu ficar com fome.

Foram até ao mercado. Lá dentro, o barulho era um mosaico: risos, pregões, sacos a amarrotar, moedas a tilintar. Havia tomates que pareciam bolas de Natal e queijos com cheiro forte, daqueles que “entram primeiro no nariz”, como disse Marta.

Um vendedor de fruta ofereceu-lhes uma fatia de melão.

— Está doce! — disse Inês, com a boca cheia.

— É o sabor de férias — comentou Marta.

Leonor apontou no caderno: “As pessoas aqui falam com as mãos, como se as palavras precisassem de ajuda para dançar.”

Numa banca, viram sandálias de couro alinhadas como soldados. Noutra, postais com fotos de praias escondidas entre falésias. Leonor fixou-se num mapa com trilhos.

— Cala Macarella… Cala Mitjana… Olha, um caminho que passa por uma zona de pinhal e acaba numa enseada. — Os olhos dela brilhavam. — Podemos fazer uma mini-expedição.

Inês mordeu o lábio, animada e nervosa ao mesmo tempo. — E se nos perdermos?

— Não nos perdemos se tivermos paciência — respondeu Leonor, como se fosse uma regra universal. — E se perguntarmos.

Marta levantou um dedo. — E se levarmos água. Muita.

Compraram uma garrafa grande e uma pequena bússola para o chaveiro, mais por graça do que por necessidade. Leonor ficou a girá-la, fascinada.

— Olha, mesmo quando eu rodo, a agulha insiste em apontar para norte. Que teimosia bonita.

— Como tu — disse Inês, a rir.

À tarde, caminharam pelo porto. Barcos balançavam com preguiça. Um senhor idoso remendava redes, e cada nó parecia uma história.

— Deve ter visto tempestades — murmurou Marta.

— E dias calmos — completou Leonor. — É isso que eu gosto: o mundo tem as duas coisas.

No final do dia, sentaram-se num banco, cansadas e felizes. Leonor desenhou no caderno uma linha ondulada para o mar e três pontinhos para elas.

— Hoje não fizemos nada “gigante” — disse Inês.

— Fizemos uma coisa importante — respondeu Leonor. — Reparamos.

Capítulo 3 — A trilha do pinhal e a mudança de rota

De manhã, o céu estava limpo, mas o vento soprava com mais força. Marta apertou o casaco, satisfeita.

— Eu avisei: o vento tem opinião.

Saíram cedo para o trilho escolhido. O caminho começava com terra avermelhada e pedras pequenas que rangiam sob as sapatilhas. O pinhal cheirava a resina e a sombras frescas. As cigarras faziam um som insistente, como se estivessem a aplaudir o calor.

Leonor seguia à frente, com o caderno numa mão e a bússola no chaveiro a bater na mochila.

— A trilha vai por aqui — disse ela, apontando para uma bifurcação.

Inês olhou para o mapa no telemóvel, com o brilho no mínimo para poupar bateria. — Confere. Mas… está a aparecer um aviso.

E foi então que viram: uma placa nova, presa a dois postes, com letras claras e um símbolo vermelho. Dizia que uma parte do caminho estava fechada por motivos de segurança, por risco de deslizamento na zona das falésias. Havia uma seta a indicar desvio.

Marta leu em voz alta, devagar, como se mastigasse as palavras.

“Itinerário alternativo obrigatório.” Ou seja… não dá para fazer o caminho bonito?

Inês fez uma careta. — Eu queria ver a enseada pelo trilho principal…

Leonor ficou parada um segundo. O vento mexeu-lhe no cabelo, como se também quisesse dar opinião. Ela respirou fundo e abriu o saco de rebuçados de menta.

— Ok. Isto é uma daquelas situações em que a paciência é uma mochila invisível — disse, oferecendo um rebuçado às outras.

Inês aceitou. — Estás a dizer isto porque tens rebuçados de menta.

— Também — admitiu Leonor. — Mas pensa: a segurança não é uma chatice, é um cuidado. Se a falésia está instável, não é “aventura”. É perigo sem sentido.

Marta chutou uma pedrinha. — Então o plano muda.

— Planos mudam — respondeu Leonor. — A curiosidade fica.

Seguiram pelo desvio. O caminho alternativo era mais longo e menos “instagramável”, como Inês brincou, mas tinha as suas surpresas: pequenos muros de pedra seca, uma figueira brava com folhas enormes e um miradouro improvisado onde se via o mar a bater nas rochas lá em baixo, com espuma branca como leite.

— Uau — disse Marta, esquecendo a reclamação. — Parece que o mar está a ferver.

— Está a trabalhar — corrigiu Leonor. — O mar trabalha sempre.

Andaram mais um pouco. O sol subiu e a sombra ficou curta, exatamente como o medidor de Leonor tinha previsto.

— Pausa técnica — anunciou Marta. — Água e bolachas.

Sentaram-se numa pedra grande. Inês abanou as pernas.

— Sabes, eu fico impaciente quando as coisas não saem como imaginei.

Leonor desenhou uma linha no caderno. — A imaginação é ótima para começar. A paciência é ótima para continuar.

Quando retomaram o caminho, avistaram ao longe a enseada, mas de outro ângulo. A água ainda era transparente. Só que agora, para lá chegar, tinham de descer por um trilho mais suave, indicado por cordas e estacas, claramente preparado para ser seguro.

— Afinal ainda dá — disse Inês, com um sorriso a abrir espaço no rosto.

— Dá, só não dá do jeito que tu mandaste — provocou Marta.

Inês deu-lhe um empurrão leve. — Cala-te, ó filósofa da água.

Chegaram à praia com os pés cheios de areia e o coração cheio de “ainda bem”. Não era o caminho que tinham planeado, mas era um caminho que as tinha ensinado uma coisa: nem toda mudança é uma perda.

Capítulo 4 — Um pequeno contratempo e uma grande espera

Depois da praia, voltaram devagar, com o corpo cansado e a cabeça leve. No autocarro de regresso, o motorista anunciou algo com um tom sério. As pessoas começaram a mexer-se, a olhar umas para as outras.

Inês aproximou o ouvido.

— Acho que… há uma paragem que vai ficar fechada por causa de… obras? Ou um problema na estrada.

Marta arregalou os olhos. — Não digam que vamos ter de andar mais.

Leonor tentou entender melhor. Perguntou em espanhol hesitante a uma senhora ao lado. A senhora explicou, com gestos largos, que haveria uma alteração temporária e que o autocarro deixaria todos numa paragem diferente, mais longe do centro, por questão de segurança.

Quando desceram, o sol já não parecia tão amigável. Havia um caminho extra até ao alojamento, e as três estavam com as pernas a protestar.

— Eu não acredito — resmungou Marta. — Os meus pés estão a escrever uma carta de demissão.

Inês olhou para o telemóvel: bateria baixa. — E eu não sei bem por onde ir.

Leonor não disse “eu sabia”, nem fez cara de drama. Ela parou, respirou, e abriu o caderno numa página em branco.

— Ok, nova rota. Vamos transformar isto numa experiência. Primeiro: sombra. Segundo: água. Terceiro: pedir informações.

Encontraram uma paragem com um toldo pequeno. Sentaram-se no chão, encostadas às mochilas. Marta abanava as mãos como se quisesse refrescar o ar à força.

— A paciência é difícil quando tens calor.

— A paciência não tira o calor — disse Leonor. — Mas impede que a gente se zanga com o mundo por causa dele.

Inês ficou em silêncio um momento e depois riu-se.

— Estás a falar como se fosses uma guia turística do bom senso.

— Eu aceito gorjetas em rebuçados — respondeu Leonor, a oferecer mais um.

Passou um senhor com um chapéu de palha. Leonor levantou-se e perguntou, com educação e um sorriso, qual era o melhor caminho para voltar ao centro sem se perderem e sem caminhar demasiado ao sol. O senhor explicou que havia um caminho por ruas mais estreitas, com sombra de paredes altas, e sugeriu uma fonte pública para encher a garrafa.

— Fonte pública! — Marta animou-se. — Isso é tipo achar um tesouro urbano.

Seguiram as instruções. As ruas eram calmas, com portas coloridas e vasos de plantas. De vez em quando, um gato atravessava a rua como se fosse dono de tudo. A fonte estava mesmo lá: água fresca a correr, um som que parecia dizer “não se apressem”.

Inês encheu a garrafa e bebeu devagar.

— Sabe melhor quando estás mesmo com sede.

— Quase tudo sabe melhor quando esperas pelo momento certo — disse Leonor, anotando no caderno.

O caminho foi mais longo do que queriam, mas menos pesado do que temiam. Quando finalmente chegaram ao alojamento, Marta deixou-se cair no sofá.

— Sobrevivi. Quero uma medalha. Ou uma sesta.

— Podes ter as duas — disse Inês.

Leonor olhou para as amigas e sentiu uma alegria quieta: tinham enfrentado o contratempo sem se perderem por dentro.

Capítulo 5 — Noite em Ciutadella e o sorriso que ficou

No último dia, foram a Ciutadella ao fim da tarde. A cidade parecia feita para passeios lentos: ruas de pedra, fachadas antigas, um cheiro a pão quente a sair de uma porta discreta. A luz do pôr do sol pintava tudo com tons de mel.

Marta, mais recuperada, apontou para uma praça com crianças a correr.

— Olha, eles parecem não ter bateria que acabe.

Inês rodopiou uma vez, só porque sim. — Eu queria levar esta luz numa garrafa.

Leonor abriu o caderno e escreveu: “A luz não cabe numa garrafa, mas cabe na memória.”

Sentaram-se numa esplanada simples e dividiram uma ensaïmada. Leonor partiu-a em três com cuidado, como se fosse uma cerimónia.

— Sabem o que eu aprendi? — disse Inês, limpando açúcar do canto da boca. — Que nem tudo precisa de acontecer rápido.

Marta assentiu. — E que mudanças de rota não são o fim do mundo. Às vezes são só… outro lado do mapa.

Leonor olhou para as duas, contente. — E que perguntar ajuda não é fraqueza. É inteligência social.

Quando se levantaram para voltar, passaram por uma rua mais estreita. Havia um homem a tentar fechar uma mala grande, sentado num degrau. A mala teimava em não cooperar, com um fecho preso. Ele puxava, largava, suspirava.

Marta sussurrou:

— A mala dele está a ganhar a luta.

Inês deu uma gargalhada curta, mas depois ficou séria. — Devíamos ajudar?

Leonor aproximou-se com cuidado, sem invadir.

— Precisa de ajuda?

O homem levantou o olhar, surpreendido, e acenou. Leonor ajoelhou-se ao lado e observou o fecho. Tirou do bolso a fita adesiva e um pequeno lápis. Não era magia; era atenção. Ela alisou o tecido preso, usou o lápis para afastar a dobrinha, e Marta segurou a mala firme. Inês iluminou com o telemóvel, mesmo com pouca bateria, como se aquela luz fosse importante.

— Devagar — disse Leonor, paciente, enquanto puxava o fecho com cuidado.

O fecho deslizou. A mala fechou com um som simples, quase tímido.

O homem soltou o ar e sorriu. Não foi um sorriso enorme de filme, foi um sorriso real, daqueles que aparecem quando alguém te tira um peso pequeno mas irritante do caminho.

— Gracias — disse ele, e os olhos dele brilharam como se tivesse recebido um presente.

— De nada — responderam as três, quase em coro.

Elas afastaram-se, e por uns segundos caminharam em silêncio. Inês foi a primeira a falar:

— Estranho… eu sinto-me mais leve.

Marta encolheu os ombros. — Talvez porque ajudámos a fechar uma mala e abrimos um sorriso.

Leonor não escreveu nada dessa vez. Guardou o caderno e ficou só a sentir o momento: a rua, a noite a chegar, o som distante de conversas, e a alegria simples de ter partilhado um sorriso com um desconhecido.

No regresso, o vento voltou a soprar, mas parecia menos mandão. As três caminharam devagar, como quem não quer esmagar a lembrança. E, quando finalmente se deitaram, Minorca continuou ali, não só como lugar no mapa, mas como uma coleção de pequenas descobertas — e a certeza tranquila de que a paciência também é uma forma de aventura.

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Bússola
Objeto que mostra a direção do Norte, usado para orientar-nos no caminho.
Medidor de sombras
Instrumento simples que mostra o tamanho da sombra para saber a posição do sol.
Enigma
Algo difícil de entender ou um problema que é preciso descobrir.
Resina
Uma substância pegajosa que as árvores produzem, com cheiro forte.
Deslizamento
Quando terra ou pedras caem ou escorregam numa encosta, fazendo perigo.
Itinerário alternativo obrigatório.
Frase que indica que um caminho diferente deve ser seguido por ordem de segurança.
Miradouro improvisado
Um lugar para ver a paisagem criado de forma simples e não oficial.
Pregões
Chamadas altas dos vendedores no mercado para mostrar os produtos.
Cigarras
Insetos que fazem um som forte e contínuo, comuns em dias quentes.
Falésias
Grandes paredes de rocha junto ao mar, com risco de cair partes.
Falésia
Grande parede de rocha à beira do mar; pode ser perigosa se estiver instável.

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