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História sobre os pais 11 a 12 anos Leitura 16 min.

Tico e as lanternas da lagoa

Tico, uma capivara jovem, enfrenta desafios ao querer atravessar a lagoa para entregar uma cesta à Vó Marga, mas descobre a importância da paciência e da comunicação ao lidar com os avisos dos pais e os trabalhos dos castores. Com a ajuda de sua amiga Lia, ele aprende a preencher buracos de informação com perguntas e a valorizar a cooperação.

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Tico, uma capivara jovem de pelagem castanho claro e grandes olhos brilhantes, está em um tronco de madeira acima de uma água cintilante, com uma expressão de excitação e impaciência. Ele segura uma pequena lanterna feita de folhas translúcidas, iluminando seu rosto sorridente. Ao lado dele, Lia, um tamanduá mirim de patas longas e focinho curioso, exibe um sorriso alegre enquanto pinta uma linha de segurança no tronco com um pequeno pincel, seus olhos brilhando de entusiasmo. Ao fundo, a cena acontece à beira de uma linda lagoa, cercada por flores de vitória-régia coloridas, sob um céu crepuscular onde as estrelas começam a brilhar. A situação principal mostra Tico e Lia se preparando para a travessia, cercados por lanternas de vagalumes que dançam ao redor, criando uma atmosfera mágica e calorosa, cheia de amizade e cooperação. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A cesta e o aviso

A manhã começou com o cheiro de capim fresco e pão de sementes. Tico, uma jovem capivara de pelo castanho-claro, equilibrou uma cestinha nas patas. Dentro, tinha folhas de vitória-régia crocantes, bolinhos de mandioca e um bilhete para a Vó Marga. A lagoa estava calma, pontilhada de flores, e peixinhos riscavam a superfície como se escrevessem recados invisíveis.

— Posso levar agora? — perguntou Tico, olhos brilhando.

A Mãe, Dona Marga, olhou a água, depois o céu, e fez um gesto de calma.

— Melhor à tarde, meu filho. Hoje cedo os castores estão mexendo no canal. A água pode ficar turva e rápida.

O Pai, Seu Bento, ajeitou a alça da cesta.

— Espera um pouco. Na hora certa, nós vamos juntos.

Tico suspirou. Parecia um “não” disfarçado. Ele queria mostrar que já era quase um adolescente, capaz de atravessar a lagoa pelo caminho raso que conhecia desde pequeno.

— Eu sei nadar, e a Vó está esperando — disse.

— Ninguém duvida de você — respondeu o Pai, com voz tranquila. — Só estamos combinando de ir depois. Tem mais coisas acontecendo lá do outro lado.

Tico mordeu o lábio. Mais coisas? Que coisas? Ninguém explicou direito. Ele assentiu, mas por dentro sentiu um pequeno nó, misturado com ciúme de quem não é ouvido. A cesta ficou sobre a mesa, e ele saiu para a escola com passos que faziam um “ploc ploc” na lama seca.

Capítulo 2 — A aula de uma palavra nova

Na clareira, a Professora Ara, uma arara de penas vermelhas e azuis, desenhava no chão com um graveto. Escreveu duas palavras: “Conflito” e “Falta de informação”.

— Às vezes a gente discute porque quer coisas diferentes — disse ela. — Isso é conflito. Outras vezes, a gente fica bravo porque não sabe de algo importante. Isso é falta de informação. Alguém tem um exemplo?

Lia, a melhor amiga de Tico, um tamanduá mirim curioso, levantou o focinho.

— Ontem achei que minha mãe tinha comido meu doce. Briguei, fiz cara feia. Depois descobri que ela só tinha guardado porque as formigas estavam em festa.

A turma riu. Tico também, meio sem graça. A professora abriu as asas.

— Percebem? Não era briga. Era um buraco de informação. Como a gente cuida de buracos? A gente preenche com perguntas, não com suposições.

Tico pensou no “depois” dos pais. Perguntou-se se bastava perguntar. Mas perguntar o quê? Na volta para casa, ouviu vozes vindas do quintal.

— Tem que ser surpresa — disse a Mãe. — O Tico vai adorar as lanternas.

— E a travessia à tarde vai estar mais segura — murmurou o Pai. — O caminho novo precisa ser testado com calma.

Lanternas? Caminho novo? Tico parou atrás do bambuzal, sem saber se sorria ou se se irritava por não terem contado. Seria mais uma regra inventada? Talvez seus pais não confiassem mesmo nele.

— Eu queria só levar a cesta — cochichou para si.

Lia surgiu do nada, como sempre.

— O que você está cochichando, Tico?

— Nada — respondeu, automático. Depois respirou. — Meus pais querem esperar para atravessar. Não disseram o motivo inteiro. Eu... eu queria ir agora.

Lia coçou a cabeça com a ponta da língua.

— Podemos perguntar, ué.

— Eles falaram baixo. Deve ser coisa que não querem me dizer.

— Isso se chama adivinhômetro estragado — brincou Lia. — Só funciona com pilha de pergunta.

Tico deu uma risadinha, mas a vontade de provar que sabia se cuidar falou mais alto.

Capítulo 3 — O caminho bloqueado

Combinado: só olhar a beira da lagoa, nada de atravessar. Assim Tico tranquilizou sua própria consciência. Os dois foram até o tronco caído que fazia de ponte. Quando chegaram, viram placas de madeira novas fincadas na terra, com letras pintadas: “CUIDADO — LIMPEZA DO CANAL — ESPERE”.

Do outro lado, o castor Mestre Rômulo e sua equipe trabalhavam com paciência. Arrumavam galhos, retiravam lama fofa e soltavam suspiros de esforço. A água estava mais escura que o normal, redemoinhos pequenos girando aqui e ali.

— Olha só — disse Tico, as orelhas levantadas. — Eles trancaram o caminho.

— Não parece trancado — corrigiu Lia. — Tem um aviso.

— Aviso que atrasa todo mundo — resmungou Tico, testando o tronco com a pata. — Dá para passar por cima sem tocar na água.

— Não inventa, Tico. Meu rabo não foi feito para equilibrar em tronco escorregadio — disse Lia, com humor nervoso.

Tico olhou de novo a placa. “Espere.” Esperei de manhã, pensei Tico. Espere de novo? A impaciência começou a coçar por dentro.

— Oi, jovens! — gritou Mestre Rômulo, sem parar de trabalhar. — Não é segura a travessia agora. A lama solta cria correntezas que parecem pequenas, mas arrastam.

Tico sentiu o peito aquecer, como quando alguém diz que ele é pequeno demais.

— Eu consigo — retrucou, mais alto do que pretendia. — Todo mundo acha que eu não posso.

O castor ergueu o focinho, os olhos calmos.

— Não é sobre você. É sobre a água. Daqui a meia hora, quando a gente terminar, volta a ficar firme. Promessa de castor.

Lia cutucou Tico.

— Meia hora é um bolinho e meio de conversa.

Tico bateu a cauda na água, respingando.

— É sempre “espere”. Ninguém explica tudo.

Mestre Rômulo apoiou o galho e se aproximou.

— Expliquei pouco? Desculpa. Olha só: estamos abrindo um caminho raso novo, mais estável. A água precisa se ajeitar. Se entrar agora, a corrente pode te empurrar para o buraco de lodo. E sair do lodo dá trabalho, não perigo, mas trabalho. Todo mundo prefere evitar tropeço, né?

A forma calma de falar do castor desmontou um pedacinho da irritação de Tico. Talvez não fosse uma briga. Talvez fosse aquilo da aula: um buraco de informação.

— E tem mais — disse Rômulo, apontando para outra placa. — Avisamos no mural da mangueira ontem à tarde, mas parece que o vento derrubou metade dos recados. Já pedi desculpas à comunidade.

— Ah — fez Tico, olhando os caracóis que se amontoavam na base da placa, como se lessem também.

Capítulo 4 — Meia hora de espera

Lia se sentou no tronco, obediente, e bateu o ritmo de uma música com a ponta da pata. Tico se sentou também, ainda com a cesta no colo. Um cheirinho de bolinho subiu, e os dois dividiram um.

— Sabe — disse Lia, mastigando devagar — eu fico brava quando minha mãe fala “depois a gente conversa”. Parece que depois é um lugar que nunca chega.

— Sim — concordou Tico. — E quando não entendo, eu invento. Na minha cabeça, depois vira “não”.

— Aí a gente entra em conflito... com um fantasma — concluiu Lia, rindo. — Não vale.

Tico respirou fundo, lembrando da aula. Preencher buracos com perguntas. Ele ensaiou na mente: “Mãe, Pai, o que vamos fazer à tarde?”. Não soava difícil. O difícil era lidar com a vontade de ir logo.

Mestre Rômulo voltou, sujo de lama até os bigodes.

— Mais quinze minutinhos. Querem ajudar a pintar uma linha de segurança no tronco? Assim ninguém escorrega.

— Quero! — disse Lia, animada.

Tico topou também. Segurou o pincel com a pata dianteira e traçou uma faixa amarela no tronco. O castor explicou que a linha mostra onde é seguro pisar. Tico perguntou por que não tinham posto a linha antes. Rômulo riu:

— Porque hoje de manhã vocês estavam dormindo, e eu não pinto sonhos sem convite.

Eles pintaram, riram das piadas de castor e do jeito engraçado de Lia cantarolar. Tico sentiu o nó dentro do peito afrouxar. Não era que ninguém confiasse nele; havia coisas acontecendo ao mesmo tempo, e cada bicho cuidava de um pedaço.

Quando terminaram, Rômulo enfiou a cabeça na água, avaliou o movimento e deu um ok com a cauda.

— Agora sim. Passagem segura. E obrigado pela ajuda.

— De nada — respondeu Tico, e percebeu que estava sorrindo.

Capítulo 5 — Conversas que desatam nós

Tico e Lia atravessaram com cuidado. Do outro lado, no caminho de pedra até a casa da Vó Marga, viram duas sombras conhecidas se aproximando: a Mãe e o Pai. Os dois tinham olhos preocupados e passos apressados.

— Tico! — disse a Mãe, aliviada. — Você está bem?

— Estou. Eu... eu vim só ver como estava a água — começou Tico, sincero. — E quase transformei isso numa briga que não existia.

O Pai olhou as patas de Tico, sujas de tinta amarela.

— E pelo jeito transformou também num trabalho comunitário — brincou, para quebrar o gelo.

Tico respirou fundo.

— Desculpem por ter saído sem avisar. Fiquei chateado porque parecia que vocês não confiavam em mim. Da próxima vez vou perguntar mais. Eu ouvi vocês falando de... lanternas e caminho novo. Fiquei confuso.

A Mãe se abaixou um pouco para ficar da altura dele.

— Você tem razão. Nós podíamos ter explicado melhor. Queríamos te fazer uma surpresa hoje à noite: uma travessia com lanternas de vaga-lume pelo caminho novo, com a Vó. A gente não disse porque... bem... queríamos ver seu sorriso quando visse tudo iluminado. E sobre esperar: era por causa do trabalho dos castores. Pedimos para eles limparem o canal de manhã, então combinamos de ir à tarde. Faltou juntar as duas informações e te contar direito.

— Então não era sobre eu não saber nadar?

— Não — disse o Pai, com carinho. — Era sobre respeitar o tempo da água e o trabalho dos vizinhos.

Lia levantou o focinho.

— E agora que está tudo claro, a gente pode entregar a cesta à Vó sem fantasmas.

A Mãe sorriu para Lia.

— Claro. Depois, voltamos para preparar as lanternas.

Tico entregou a cesta nas mãos da Vó Marga, que os esperava na varanda coberta de folhas. Ela leu o bilhete, cheirou os bolinhos e apertou Tico num abraço que dizia “tá tudo bem”.

— O segredo do bolinho é não brigar com o fogo — comentou a Vó. — A gente conversa com ele: “devagar e sempre”.

Tico riu. Parecia que tudo naquele dia falava de paciência e conversa.

Capítulo 6 — Lanternas na água

Ao anoitecer, a lagoa brilhou como céu noturno deitado. Vagalumes dançavam dentro de lanternas feitas de cascas translúcidas, amarradas em varinhas de bambu. O caminho raso recém-aberto pelos castores formava uma curva macia até a margem das flores de vitória-régia. Os vizinhos chegaram, uns trazendo música, outros trazendo risos.

Mestre Rômulo veio com a equipe, cheirando a sabão e orgulho.

— Testemos o caminho juntos — disse ele. — Devagar e sempre.

Tico ficou entre a Mãe e o Pai, cada um segurando uma varinha luminosa. Lia apareceu com três lanternas de uma vez, quase tropeçando no próprio entusiasmo.

— Eu sou um poste ambulante — declarou, arrancando risadas.

Antes de atravessar, o Pai fez um combinado simples:

— Regra da travessia: passos curtos, olhos nos pés e mãos ocupadas só com as lanternas. Se alguém não entender, pergunta. Se errar o passo, volta e tenta de novo. Sem drama.

— Sem drama — repetiu Tico, sentindo o coração quentinho. Era bom quando as regras eram claras, e não um enigma.

Foram andando. O reflexo das luzes dançava na água, fazendo desenhos de estrelas. Tico percebeu que a linha amarela que ele havia pintado continuava pelo tronco e depois por pedrinhas pequenas, como migalhas de segurança. Olhou para o castor, que piscou um olho em agradecimento.

No meio do caminho, um filhote de tartaruga começou a ir na direção errada. Tico e Lia, sem gritos, se aproximaram.

— Ei, é para cá — disse Tico, apontando a linha. — Quer ajuda?

— Quero — respondeu a tartaruguinha, aliviada.

Eles caminharam juntos até o outro lado. Quando chegaram, a Vó Marga ergueu uma lanterna mais alto, e o brilho parecia um abraço feito de luz.

Tico se virou para os pais.

— Obrigado por esperarem comigo e por explicarem. Eu também vou treinar explicar quando eu não souber o que quero — disse, meio tímido.

A Mãe beijou sua cabeça.

— A gente aprende junto. Pais não têm manual. Só têm a chance de reparar quando erram.

— Reparar — repetiu Tico, gostando da palavra. — Hoje eu reparei pintando a linha, ajudando, e pedindo desculpa.

— E eu reparei ouvindo você — disse o Pai. — E falando tudo bem explicado.

Lia cutucou Tico.

— Então, se amanhã eu não entender seu recado, eu pergunto. E se a gente discordar, a gente combina. Nada de brigar com fantasmas.

— Combinado — respondeu Tico.

Na volta, sentados na varanda, a família fez uma pequena lista simples em um pedaço de casca de árvore: “Se não entender, perguntar. Se atrasar, avisar. Se errar, reparar. Se o outro estiver preocupado, escutar.”

A Vó, sabida como o curso da água, resumiu:

— Cooperação é quando cada um traz um pedaço e todo mundo atravessa. Vocês hoje fizeram isso: castores, capivaras, tamanduá, tartaruguinha... Ninguém foi herói sozinho.

Tico olhou a lagoa. A linha amarela brilhava sob a lua, como um pensamento que finalmente fazia sentido. Ele encostou a cabeça no ombro da Mãe, sentiu a pata do Pai por cima da sua e respirou tranquilo.

— Sabe, eu achava que a minha vontade e a vontade de vocês estavam brigando — disse, quase cochichando. — Mas era só um buraco no meio do caminho. Da próxima vez, eu pergunto onde fica a ponte.

A Mãe sorriu.

— E nós prometemos mostrar a ponte, com lanternas, sempre que pudermos.

As cigarras cantaram baixinho, como se dissessem “boa noite”. A lagoa cheirava a capim e a bolo. E, no ritmo suave dos vagalumes, Tico aprendeu que ouvir, explicar e cooperar transformam qualquer “espere” em “vamos juntos”.

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Conflito
Uma situação em que duas ou mais pessoas têm opiniões ou desejos diferentes e não conseguem chegar a um acordo.
Vagalume
Inseto que emite luz à noite, conhecido por seu brilho, especialmente em áreas escuras.
Lanterna
Um objeto que ilumina, geralmente portátil, utilizado para clarear ambientes escuros.
Correnteza
Movimento contínuo e rápido da água em um rio ou lagoa.
Paciência
A capacidade de esperar ou suportar situações sem ficar irritado ou ansioso.
Reparar
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