Capítulo 1: O Mapa dos Desafios
Na manhã de sábado, Nuno saiu de casa com os bolsos cheios de elásticos, molas da roupa e um lápis quase do tamanho do braço. Tinha 10 anos, muitas ideias e um riso que saltava sem pedir licença. Na praça da vila, uma faixa colorida brilhava ao sol: “Feira dos Desafios Impossíveis”. Havia balões, música e uma fila de miúdos a pisar o chão como se fosse um tambor.
“Impossíveis? Mas então para que servem?”, perguntou Nuno à senhora da banca, uma senhora de chapéu com pompons que abanavam.
“Servem para te divertires a derrotar a palavra ‘impossível'”, disse a senhora, piscando um olho. “Queres um mapa?”
“Quero, por favor! E um pompom do chapéu, se sobrar”, respondeu Nuno.
A senhora riu e estendeu-lhe um mapa com cinco quadradinhos vazios para carimbos: Pulo da Gelatina, Torre de Sabão, Vento das Perguntas, Riacho Risonho e Relógio Torto.
Bia, a amiga de Nuno, apareceu a correr, com os atacadores trocados. “Já viste? Se conseguirmos os cinco carimbos, ganhamos uma lata de gargalhadas. Diz que é um brinquedo que guarda risadas para quando tu precisas!”
“Uma lata de gargalhadas? Isso dá para os testes de matemática?”, perguntou Nuno com cara séria.
“Dá para tudo”, respondeu Bia. “Mas… e se falharmos?”
“Falhar é só um jeito de treinar o triunfo”, disse Nuno, repetindo uma frase do avô. “Vamos!”
No canto da praça, o primeiro posto brilhava com uma gelatina gigante a tremer dentro de uma piscina rasa. Um cartaz dizia: ATRAVESSA SEM ESCORREGAR. Nuno apertou os elásticos no pulso como quem calça coragem.
“Preparado?”, perguntou Bia.
“Preparado para escorregar com estilo”, disse Nuno, a sorrir.
Capítulo 2: O Pulo da Gelatina
A piscina era de gelatina verde-limão e parecia um lago encantado que tinha comido demasiadas sobremesas. Três miúdos tentavam passar e acabavam a fazer piruetas escorregadias. O voluntário do posto, o senhor Basílio, ergueu um apito.
“Regra um: sem correr. Regra dois: sem saltos gigantes. Regra três: não morder a gelatina.”
“Mas se cairmos, podemos morder?”, cochichou Nuno para Bia.
“Podes só se estiver do teu lado do chão”, respondeu ela, rindo.
Nuno observou. Um miúdo avançou de passo largo e os pés fugiram para lados diferentes, como dois gatos que não se dão. Outro tentou deslizar e virou-se. Um terceiro foi aos saltinhos nervosos e acabou sentado, risonho.
“Tenho um plano”, disse Nuno, tirando molas da roupa dos bolsos. Prendeu duas nas meias e duas no lado de fora das sapatilhas, criando “garras” improvisadas. “Tração instantânea!”
“Isso é… genial ou cómico?”, perguntou Bia.
“Os dois!” Nuno deu o primeiro passo sobre a gelatina. Sentiu o frio subir pelo ténis, mas as molas agarraram melhor do que esperava. “Devagarinho, como se a gelatina fosse porquinho-da-índia e eu não quisesse assustá-lo.”
Dez passos, onze. A gelatina tremia e fazia engraçados “ploc-ploc”. Nuno abriu os braços, equilibrou-se e falou com a gelatina como se fosse um amigo: “Calma, verde de bom coração, eu sou leve e gentil.”
Quase no fim, um pequeno tropeço. A gelatina ameaçou dar-lhe um abraço pegajoso. Nuno respirou fundo, lembrou-se do avô: falhar é treino. Ajustou o pé, colocou mais peso no calcanhar e voltou ao centro. “Quatro passos e um sorriso”, sussurrou.
Atravessou! O senhor Basílio bateu palmas. “Carimbo para o corajoso das molas!”
“E para mim?”, perguntou Bia.
“Se cruzar, ganha também.”
Bia copiou as “garras”, mas ainda escorregou duas vezes. Cada vez que escorregava, Nuno brincava: “Está a dançar o ‘gelati-shuffle'!” Entre risos, ela chegou ao outro lado, com a dignidade de uma bailarina que inventa passos no caminho.
Ao receber o carimbo no mapa, Nuno abriu um sorriso que parecia um balão prestes a fugir-lhe da cara.
Capítulo 3: A Torre de Sabão
O segundo posto era uma torre de blocos brancos, altos e reluzentes como queijo fresco. Um aviso dizia: SUBIR ATÉ À BANDEIROLETA, SEM CAIR NO CARREGADOR DE BORRIFOS. No chão, um borrifador gigantesco de jardim soltava nuvens de espuma quando alguém escorregava.
“Sabão e gravidade… combinação digna de um banho de sábado”, disse Nuno.
“Quem disse que escorregar é falhar?”, respondeu Bia. “Às vezes é só um abraço do chão.”
Um miúdo, Quim, já tentava subir. Agarrava um bloco, escorregava e o borrifador “pshiiiiii!” cobria-o de espuma até aos joelhos. “Isto é impossível!”, gritou Quim, com a espuma a formar-lhe uma barba.
Nuno olhou para a base da torre. “Posso experimentar?”
“Vai lá”, disse o voluntário, Dona Rosilda, com luvas de borracha. “Mas não uses pregos, arames ou magia proibida.”
“E magia permitida?”, perguntou Nuno.
“Só a do cérebro.”
Nuno pensou. Sabão é escorregadio, sim. Mas e se a força vier de outro lugar? Tirou do bolso um rolo pequeno de fita adesiva. “Posso pôr isto nas mãos?”, perguntou.
“Se for para segurança e não para colar a torre, sim.”
Nuno envolveu duas voltas leves de fita nas palmas, deixando-as um pouco pegajosas. “Agora sou lagartixa.” Subiu devagar, em movimentos curtos, testando cada apoio. “Bia, diz-me uma canção com passos pequenos.”
Bia começou a cantarolar baixinho: “Passo de formiga, passo de passarinho, sobe devagarinho… não cai no sabão.”
Quim torceu o nariz. “Canções não ajudam!”
“Então empresta-me a tua ideia”, disse Nuno. “Qual é?”
Quim hesitou. “Eu tento abraçar a torre e… escorrego todo.”
“E se abraçarmos só com os braços e usarmos os joelhos como travões?”, sugeriu Nuno. “Vem atrás de mim, um de cada vez.”
Nuno subiu mais dois blocos, encostando o joelho e apoiando a palma com fita. Quim imitou, e a espuma resmungou sem borbulhas novas. Bia contava: “Um, dois, ajeita o joelho! Três, respira e mexe o pé!”
No topo, a bandeirola abanou. O vento fez caretas, mas Nuno alcançou o pano e deu um toque. A torre tremeu, mas permaneceu firme. O borrifador, derrotado, soltou só um “psh” tímido.
Dona Rosilda carimbou três mapas. “Para os três, pela ideia partilhada. Em desafios ‘impossíveis', cabe mais do que uma pessoa.”
Quim sorriu, com a barba de espuma agora a cair aos pedaços. “Desculpa ter dito que a canção não ajuda.”
“Ajuda sim”, disse Nuno. “Dá ritmo à insistência.”
Capítulo 4: O Vento das Perguntas e o Riacho Risonho
O terceiro posto tinha cataventos de todas as cores e um painel que virava sozinho. O aviso dizia: RESPONDE AO VENTO. A cada rajada, a pergunta mudava. Nuno aproximou-se e ouviu uma voz grave vinda do tubo do vento: “Quantos pés tem um centopeia educada?”
“Cento?”, chutou Bia.
O vento riu: “Educada, primeiro pede licença. Segunda pergunta: O que pesa mais, um quilo de risos ou um quilo de suspiros?”
“É igual!”, gritou Nuno. “Quilo é quilo.”
“Terceira: Como se pára uma gargalhada em fuga?”
“Com uma piada pior, que a apanha pelo caminho!”, respondeu Quim, já mais confiante.
O catavento parou e o painel acendeu-se. “Resposta coletiva acertada!”, disse o vento, com voz contente. Carimbo neles.
“Gostei deste”, comentou Bia. “O impossível era só não ouvir.”
“E não pensar sozinho”, acrescentou Nuno. “Pensar em conjunto é tipo… vento a favor.”
Seguiram para o quarto posto, o Riacho Risonho. Era uma ponte de corda sobre um riacho transparente, cheio de pedrinhas redondas. O cartaz: ATRAVESSA SEM FAZER O SAPATO MOLHAR. O detalhe: cada vez que alguém ria, o riacho salpicava, como se tivesse ouvidos cócegas.
“Mas como é que não rimos?”, perguntou Bia, já a segurar o queixo.
O voluntário, um rapaz com bigode desenhado a marcador, explicou: “O riacho adora gargalhadas. Se te rires, ele espirra-te. Pode-se passar devagar e sério, ou inventar um truque.”
Nuno respirou. Ser sério era difícil, porque a ponte abanava e o bigode de marcador já o fazia sorrir. “Se eu rir para dentro, conta?”, perguntou.
“Se o riacho não ouvir, não conta.”
“Então vou rir com os joelhos”, disse Nuno, e começou a atravessar, apertando e soltando os joelhos como se tivessem um segredo. Cada vez que uma vontade de rir subia ao peito, ele fazia um som baixo de trombone com os lábios fechados: “Brrrrr.”
Bia tropeçou de leve quando viu um peixe que parecia usar óculos naturais, duas bolhas redondas. “Olha o peixinho professor!”
O riacho fez “tlim!” e lançou três gotinhas. Nuno endireitou a ponte, olhando para o céu. “Nuvens. Contar nuvens ajuda.” Passo a passo, sem olhar para as bolhas engraçadas, cruzaram. Quim, atrás, lutava contra o riso.
“Quim, pensa em coisas aborrecidas”, disse Nuno.
“Tabuada do sete”, sussurrou Quim, sério de repente.
Conseguiram! O chão do outro lado parecia mais seco do que o humor do voluntário. Carimbo dado, o rapaz apagou e redesenhou o bigode, agora para cima. “Estilo campeão.”
“Falta só um”, disse Bia, olhando o mapa. “O Relógio Torto.”
“Ouvi dizer que é o mais ‘impossível' de todos”, comentou Quim, a imitar voz misteriosa.
“Ótimo”, disse Nuno. “Gosto de impossíveis que sabem dançar.”
Capítulo 5: O Relógio Torto
No centro da praça, um relógio alto com ponteiros compridos parecia ter feito sesta num sofá torto. Um cartaz: ENDIREITA O TEMPO. O desafio era simples de ler e complicado de fazer: colocar os ponteiros nas doze em ponto, usando apenas três objetos da mesa: uma pena, um garfo e um elástico. O relógio zumbia baixinho, como um gato.
“Três objetos para endireitar o tempo?”, disse Bia. “E se fosse uma frase de livro?”
“É um puzzle”, disse Quim. “E o puzzle gosta de truques.”
Nuno pegou na pena. Passou-a no mostrador. A pena fez cócegas, e o ponteiro dos minutos mexeu um milímetro, sorrateiro. “Reage a toques leves”, notou. “Mas a pena só dá cócegas pequenas.”
Experimentou o elástico, esticando-o do garfo ao puxador de uma portinhola lateral. “Vou inventar um catapulta… catapultinha.”
A primeira tentativa: o elástico escapou e o garfo deu um salto, batendo numa madeira. “Falhou”, disse Nuno, sem drama. “Treino um.”
Na segunda, prendeu o elástico de um lado do garfo às ranhuras do relógio e, com a pena, empurrou o garfo devagar. O ponteiro grande mexeu… e travou numa saliência.
“O relógio é torto por dentro também”, disse Bia, agachando-se para ver a portinhola. “Olha, há rodinhas pequenas.”
“Se eu empurrar aqui e tu, Bia, fizeres cócegas ao ponteiro, talvez ele aceite mover-se sem embirrar”, sugeriu Nuno.
Quim segurou o corpo do relógio para não tremer. “Vou ser o poste.”
Terceira tentativa: Nuno usou o garfo como alavanca, prendendo o elástico ao dente mais forte. Bia passava a pena no ponteiro com delicadeza. “Rir de leve para não molhar os sapatos”, lembrou, só por graça. O ponteiro caminhou, teimoso, como uma tartaruga confiante. Faltavam dois riscos para a posição.
Uma rajada de vento da feira torceu o elástico. O garfo escorregou e bateu de lado. O ponteiro voltou um risco para trás.
“Outra vez?”, perguntou Quim, sem perder a força nos braços.
“Outra vez”, disse Nuno, e não soou cansado. “Agora com mais paciência.”
Respirou fundo. Ajustou o elástico com menos tensão, para que não pulasse. Disse ao relógio, como fizera com a gelatina: “Calma, velho amigo. O tempo gosta de quem não pressa.”
A quarta tentativa foi lenta. A pena parecia um pincel a desenhar silêncio. O garfo, uma mão extra. O elástico, uma promessa esticada. O ponteiro grande encostou na marca das doze. Bia segurou-o no sítio com toques de pena, e Nuno usou a ponta do garfo para empurrar o ponteiro pequeno, que se mexeu como quem acorda do sono.
“Mais um bocadinho”, disse Quim, com um olho fechado pelo esforço.
“Agora!”, disse Nuno.
Os dois ponteiros alinharam-se no alto. O relógio fez um “clim!” feliz e endireitou-se todo, como quem estala as costas. A praça aplaudiu, e o organizador da feira apareceu com uma lata prateada. “Parabéns! Cinco carimbos.”
“É a lata de gargalhadas?”, perguntou Bia, os olhos a brilhar.
“É sim. Abrem?”
“Vamos guardar para quando for mesmo preciso”, disse Nuno, a pensar nos testes de matemática e nos dias de chuva sem bolos. “Mas… talvez só um bocadinho agora.”
Bia abriu a lata com cuidado. De lá de dentro saiu uma gargalhada pequenina, saltitona, como um passarinho. “Tlim! Hahaha!” A praça riu com ela. Quim tentou agarrar o riso com as mãos. “Vem cá, gargalhinha!”
A senhora do chapéu de pompons aproximou-se. “Sabes o que torna um desafio impossível possível?”, perguntou a Nuno.
“Molhos… digo, molas. E amigos. E pensar devagar quando o coração quer correr.”
“E voltar a tentar sem ficar zangado com o mundo”, acrescentou Bia.
“E aceitar ajuda e ajudar”, completou Quim, orgulhoso.
No final do dia, houveram jogos, sumos e um desfile de cataventos. Nuno caminhou com o mapa carimbado, o peito leve como quem tinha descoberto um segredo que não se tranca.
“Sabes, Bia”, disse ele, “gosto de coisas que começam tortas e acabam direitas. Dá-nos trabalho e dá-nos vontade de rir.”
“E se voltarmos amanhã e inventarmos os nossos desafios?”, sugeriu Bia. “Tipo, saltar sombra sem pisar luz.”
“Ou atravessar a sala sem dizer ‘e'”, disse Quim, rindo.
Nuno guardou a lata de gargalhadas na mochila. “Combinado. O impossível é um jogo com mais níveis. E eu adoro jogos com níveis.”
No caminho para casa, o sol dourava os telhados e o vento fazia música nas bandeiras. Nuno olhou para as mãos, ainda com um resto de cola da fita. Pensou no avô, na frase que lhe ficava no coração: falhar é treino. Sorriu de novo, um sorriso que prometia mais ideias, mais tentativas e mais gargalhadas partilhadas.
Na esquina, a vizinha chamou: “Então, campeão dos impossíveis, como foi?”
“Foi divertido!”, respondeu Nuno. “Descobri que impossível é só uma palavra que gosta de ser contrariada com carinho.”
E, nessa noite, adormeceu a imaginar uma torre de sabão a usar botas de borracha, uma gelatina a dançar valsa, um relógio a bocejar de satisfação e um riacho que, de tão risonho, se cansava de espirrar. No sonho, Nuno tentava outra vez, sempre com vontade, e o mundo respondia com trilhos que se endireitavam debaixo dos seus passos atentos e bem-humorados. Porque a melhor parte não era chegar às doze em ponto, era aprender a dançar com os ponteiros. E a dançar, Nuno já sabia: começava com um passo pequeno, outro pequeno, um riso guardado no bolso e a certeza de que, amanhã, haveria mais jogos com o impossível.