Capítulo 1 — O Plano de Lúcia
Lúcia tinha sete anos e uma cabeça cheia de perguntas. Na sua rua, o sol era pontual demais: aparecia, brilhava, e fazia todo mundo suar. Lúcia achava isso injusto. "O sol trabalha demais", disse ela uma manhã, de pijama e meias coloridas.
"Trabalha? Ele é o sol..." murmurou a sua avó, que plantava tomates.
"Isso é exatamente o problema!" Lúcia bateu o pé. "E se eu pusesse o sol em espera por dez minutinhos? Só pra ele descansar. Justiça solar!"
A avó sorriu com dentes de quem sabe muitas histórias. "E como é que se põe um sol em espera?"
"Com jeitinho e um travesseiro grande", anunciou Lúcia. "E um plano."
Ela foi para o sótão e trouxe um lenço listrado, um apito que fazia "piu-piu" e um balão amarelo que comprou numa loja de festas. Lúcia vestiu a capa de chuva ao contrário, prendeu o lenço na cabeça e fez uma lista em letras enormes:
1. Encontrar o sol.
2. Pedir licença.
3. Sussurrar "boa noite" e dar o travesseiro.
4. Voltar para casa antes do lanche.
"E se o sol não quiser?" perguntou o seu gato, Pisco, que apenas piscou.
"Converso com ele", disse Lúcia. "Sou ótima em conversas."
Capítulo 2 — A Jornada até o Céu
Na praça, um homem vendia sorvetes e deixou Lúcia segurar um cone vazio. "Para o caminho", disse ele, confiante de que crianças costumam demorar.
"Sol, sol!" gritou Lúcia, subindo num monte de pedras como se fosse uma montanha. As nuvens cochichavam. Um pássaro fez "cururú" e pousou na sua orelha.
"Olá, pequena arrancadora de sorrisos", disse uma nuvem que, por acaso, era falante. Lúcia quase deixou cair o apito.
"Bom dia, nuvem", respondeu ela. "Vou pôr o sol em espera. Você poderia avisá-lo?"
A nuvem sorriu, o que fez um pequeno arco-íris. "O sol está ocupado com cartas de trabalho. Mas gosta de descansos."
"Acredita em descansos?" perguntou Lúcia como quem descobre um segredo.
"Claro. Todos nós precisamos", disse a nuvem. "Mas o sol só dorme quando recebe um bom motivo. Ele gosta de justiça."
"Perfeito!" Lúcia bateu palmas. "Então é justo pedir."
A nuvem soprou um fio de vento, que levou Lúcia como se fosse um barco num rio de ar. Eles flutuaram até um lugar onde o céu parecia mais baixo, quase ao alcance das mãos.
"Ali está!" sussurrou Pisco, que agora usava óculos imaginários.
E lá estava o sol. Não era uma bola comum. Era um senhor redondo, com bigode feito de raios. Estava a ler uma lista enorme, cheia de tarefas: acordar as flores, aquecer o cachorro da esquina, iluminar o gato que estranhamente não gostava de sol.
Lúcia levou um suspiro e aproximou-se. "Senhor Sol?"
O sol ergueu uma sobrancelha de luz. "Quem chama o meu nome com tanto apito?"
"Sou Lúcia. Tenho sete anos e um travesseiro." Ela ergueu o balão amarelo como sinal de paz.
O sol coçou o bigode. "Um travesseiro? Para quem?"
"Para você. Para você pôr em espera. Só dez minutos."
Capítulo 3 — Negócios, Travessuras e Justiça
"Por que eu deveria?" perguntou o sol. Sua voz era quente como sopa bem temperada.
"Porque... porque é justo", disse Lúcia. "Hoje foi a vez da senhora da mercearia cuidar do cão, e ela teve que sair cedo. O carteiro recebeu um abraço do vento. E o jardineiro plantou flores na chuva. Todos trabalharam para fazer o dia perfeito. Você também merece um descanso."
O sol pensou. Seus raios piscaram. "Humm. Gosto dessa palavra: justo. Justiça gosta de sombra e de chá."
Lúcia abriu o apito. "E se eu provasse? Um jogo: dez minutinhos de espera por um trato de boa ação. Você fecha os olhos, eu canto uma canção, e depois você volta. Se você voltar, eu lhe coloco um travesseiro de nuvem todas as noites."
O sol riu, fazendo chuviscar confete de luz. "Um travesseiro de nuvem? Hm. Tem de ser fofinho."
"É o melhor travesseiro! Promesso!" Lúcia fez uma vénia tão dramática que quase voou.
"Está bem", disse o sol. "Mas uma condição: enquanto eu tirar a soneca, ninguém pode aproveitar para ser injusto ou maldoso. Justiça primeiro!"
"Combinado!" Lúcia estendeu a mão. O sol tocou-a com um raio que não queimou nada, apenas fez cócegas.
Lúcia colocou o balão amarelo e começou a cantar. "Dormes, sol, dormes devagar, deixa a lua passar... piu-piu!"
Pisco fez coro com um miado desafinado. A nuvem trouxe um cobertor macio. O sol fechou os olhos, e os raios diminuíram até virarem um brilho tímido. O céu ficou mais macio, como um cobertor estendido.
Mas então, uma sombra se movia apressada: era o Senhor Carrapato, o relojoeiro que ganhara fama por manipular horários para seu lucro. Ele queria que o sol trabalhasse sempre, para vender relógios que "funcionavam mais horas".
"Ah-ha!" exclamou o Senhor Carrapato. "Sem sol, minhas vendas caem!"
Lúcia arregalou os olhos. "Isso é injusto!"
"Exato", disse a nuvem. "A justiça é agora uma guarda que não permite trapaças."
Lúcia, com coragem e língua afiada, disse: "Senhor Carrapato, não se faz assim. O sol tem direito a um descanso."
O Senhor Carrapato tentou puxar o cordão que controlava os ponteiros do mundo. Mas Pisco saltou e enroscou-se nos sapatos do relojoeiro, fazendo-lhe trocar os ponteiros por risadinhas.
"Ha!" gritou Lúcia. "Seu tempo de enganar acabou!"
O vento levou o cordão e desenrolou uma fitinha colorida que virou laço no pulso do Senhor Carrapato. Ele soltou uma risadinha, e, surpreendentemente, sentiu vontade de tirar uma soneca também. Justiça fez cócegas e riu.
Capítulo 4 — Um Céu Acalmado
Dez minutinhos passaram — ou talvez terem sido ligeiramente mais, porque risadas às vezes esticam o tempo. O sol abriu um olho, espreguiçou-se e bocejou uma luz quentinha.
"Obrigada", sussurrou, colocando o travesseiro de nuvem cuidadosamente. "Foi um bom descanso."
"Obrigada por ser justo", respondeu Lúcia. "E obrigado por voltar."
O Senhor Carrapato ajustou os relógios e sentiu no peito uma coisa nova: vontade de repartir tempo. Ele começou a consertar relógios para as pessoas, sem querer mais ganhar horas demais. A praça sorriu.
"A justiça não precisa de martelo", disse a sua avó, que agora trazia biscoitos. "Às vezes, só precisa de coragem e um travesseiro."
O sol sorriu, aumentando o brilho só o suficiente para deixar as flores felizes. O céu estava calmo, com nuvens que pareciam algodão doce. Lúcia sentiu-se como podia: pequena, mas importante.
"Posso pedir um favor?" perguntou o sol.
Lúcia ficou em pé como se fosse uma heroína de histórias de capa e balão. "Claro!"
"Quando eu estiver cansado, posso chamar você?"
"Pode!" disse Lúcia, e fez uma reverência exagerada.
Capítulo 5 — Voltar para o Lanche
Lúcia voltou para casa com Pisco no colo e uma mão cheia de biscoitos. A avó bateu palmas. "E então, o sol está em boa forma?"
"Está", disse Lúcia, mastigando um biscoito. "E aprendi que justiça é deixar todos descansarem. Até os que brilham muito."
Pisco ronronou. A nuvem fez um desenho de coração no céu. O sol piscou uma última vez, prometendo que amanhã voltaria a trabalhar, mas com menos pressa e mais sorriso.
Lúcia olhou para o céu apaziguado e sentiu-se leve. "Missão cumprida", murmurou.
E o céu, agora calmo, respondeu com um abraço de luz.