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História de tesouro escondido 9 a 10 anos Leitura 16 min.

O tesouro que não brilha, mas ilumina

Marta e a avó seguem pistas escondidas em fotos e objetos antigos, embarcando numa pequena aventura pelo sótão e pela praia que revela memórias de família e os segredos do passado.

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Menina de 10 anos, rosto redondo com sardas, cabelo castanho preso em rabo de cavalo, olhos grandes e brilhantes, sorriso maravilhado, mãos cheias de areia, ajoelhada abrindo uma pequena escotilha de madeira na areia; uma mulher de cerca de 70 anos, cabelo grisalho em coque, casaco leve floral, olhar terno e emocionado, em pé atrás da menina com uma mão no ombro dela e outra segurando uma bolsinha de tecido; um pequeno caranguejo vermelho‑alaranjado ao lado da escotilha, pata levantada em pose surpresa, de estilo cartoon; praia de dunas douradas com algas verde‑escuras, um rochedo varrido pelo vento com uma marca em forma de estrela e ao fundo um farol branco sob céu azul pálido com nuvens; a escotilha revela um saco de tecido azul contendo um caderno de couro e fotos antigas, luz suave do fim de tarde inclinada criando atmosfera quente e misteriosa, composição centrada nas mãos da menina e no objeto antigo; cores quentes e contrastantes, linhas curvas e sombreamento simples, texturas de papel envelhecido e madeira gasta visíveis. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A Caixa que Cheirava a Mar

Marta tinha 9 anos e um nariz que parecia ter superpoderes. Quando alguma coisa era antiga, ela sentia logo: o pó com cheiro de papel, o perfume esquecido de madeira e, às vezes, um leve aroma a sal, como se o tempo também pudesse guardar o mar dentro de uma gaveta.

Nessa tarde de sábado, a avó Lina chamou-a ao sótão.

— Marta, ajuda-me a arrumar estas tralhas antes que elas aprendam a falar sozinhas! — disse a avó, com um sorriso maroto.

O sótão era um mundo inteiro: malas cansadas, candeeiros a piscar como pirilampos do passado e teias de aranha finas como linhas de costura. Marta espirrou. A avó espirrou também. Depois riram as duas, como se o pó tivesse contado uma piada.

No canto mais escuro, Marta viu uma caixa pequena de lata, amassada num dos lados, com desenhos de ondas. Quando a puxou, fez um som metálico: “tlim!”. A tampa estava presa com um cordel antigo.

— Avó… isto estava aqui? — Marta perguntou, com o coração a bater mais depressa.

A avó parou, ficou séria por um segundo e depois pousou a mão, suave, no ombro da neta.

— Estava. E talvez estivesse à tua espera.

Marta desatou o cordel devagar. Dentro havia uma fotografia desbotada de uma menina com tranças, um rapaz de boné e um cão de orelhas grandes. Atrás, escrito à mão: “Verão do Farol, 1974”. E havia também uma carta dobrada, com o papel tão fino que parecia querer desfazer-se no ar.

Marta teve vontade de perguntar mil coisas ao mesmo tempo, mas a avó foi mais rápida:

— Isso não é ouro nem joias. É um tesouro diferente. Um tesouro de fotos e cartas. E há mais… escondido.

Os olhos de Marta brilharam como quando encontra uma concha rara na praia.

— Podemos… procurar?

A avó hesitou. Depois, com um suspiro que parecia vento a abrir uma porta:

— Podemos. Mas com cuidado e com bondade. O passado é frágil.

Marta assentiu, muito séria. E, naquele instante, o sótão deixou de ser um sótão. Virou um mapa.

Capítulo 2: A Primeira Pista na Moldura Rachada

A avó levou Marta para a sala, onde havia uma moldura antiga por cima da lareira. A fotografia mostrava um farol branco, um céu com nuvens fofas e uma praia cheia de pedras redondas. No canto inferior, quase escondidas, estavam três letras: “C.V.P.”

— Isso é uma pista? — Marta sussurrou, como se as paredes pudessem ouvir.

— Era o jeito do teu bisavô. Ele adorava enigmas — disse a avó. — “C.V.P.” pode ser muita coisa. Mas eu lembro-me de uma frase que ele dizia: “Quando a coragem vacila, volta para o primeiro passo.”

Marta franziu a testa, pensou, e depois abriu um sorriso:

“Coragem… Volta… Primeiro”! C-V-P!

A avó bateu palmas, orgulhosa.

— Muito bem, detetive.

Marta aproximou-se da moldura. A madeira estava fria e áspera, com uma racha fininha. Ao passar o dedo, sentiu algo preso ali — um pedacinho de papel enrolado, escondido como um segredo envergonhado.

Com cuidado, puxou. O papel soltou-se com um “ploc” suave. Estava amarelado e cheirava a limão antigo, como aqueles sabonetes que ninguém usa porque são “para ocasiões especiais”.

No bilhete, havia um desenho simples: três pedras redondas empilhadas e uma seta apontando para baixo. E uma frase:

“Debaixo do lugar onde o fogo dorme, a memória acorda.”

Marta olhou para a lareira. A avó olhou para Marta. As duas olharam uma para a outra. Depois, em silêncio, foram buscar uma lanterna.

— Avó, isto está a ficar mesmo… de filme! — Marta disse, tentando não rir de nervoso.

— De filme antigo, com pipocas de pó — respondeu a avó.

A lareira estava apagada, mas tinha cinzas antigas, frias, e um cheiro leve a lenha. Marta ajoelhou-se. O coração dela era um tambor pequeno. Com as mãos, afastou as cinzas devagar, como quem escava um ninho.

Lá em baixo, havia uma pedra solta.

— Está aqui! — Marta murmurou.

Ela puxou a pedra. O som ecoou: “toc… toc…”. Dentro, um pequeno espaço escondido. E, dentro dele, um envelope embrulhado em tecido azul.

Marta segurou o tecido. Era macio, gasto, como uma camisola favorita.

— Abre — disse a avó, mas com uma voz doce, quase como um pedido.

Marta abriu. Lá dentro: duas fotografias e uma carta com um selo antigo. Numa foto, o cão de orelhas grandes segurava algo na boca: um saquinho de pano. Na outra, a menina das tranças apontava para uma duna.

No verso, uma nova pista:

“Procura o guardião que não fala, mas vê tudo.”

Capítulo 3: O Guardião de Pedra e o Vento Zangado

Marta e a avó foram até ao jardim. O céu estava cinzento-claro, daqueles que parecem um lençol esticado, e o vento empurrava as folhas como se estivesse com pressa.

No canto do jardim havia uma estátua de pedra: um mocho. Tinha olhos redondos e sérios, como um professor que sabe todas as respostas, mas deixa os alunos pensar primeiro.

— Um guardião que não fala… — Marta disse. — O mocho!

Quando Marta se aproximou, o vento soprou mais forte e fez “fuuuu”, como se não gostasse da ideia. As árvores abanaram os braços.

— Parece que o vento está a tentar assustar-nos — disse Marta, apertando o casaco.

— O vento é só um ator dramático — respondeu a avó. — Faz barulho, mas não morde.

Marta riu, mas o coração continuou atento. Ela tocou na estátua. A pedra estava gelada e ligeiramente húmida, com musgo macio em algumas partes, como barba verde.

No pé do mocho, havia uma placa com letras quase apagadas. Marta limpou com a manga. Apareceu uma palavra: “LADO”.

— Lado… — Marta repetiu. — Temos de ver o lado.

Ela rodeou a estátua. No lado direito, nada. No esquerdo, uma pedrinha diferente, mais lisa. Marta tentou puxar. Não saiu. Tentou empurrar. A pedra cedeu um bocadinho.

— É um botão secreto! — Marta disse, com um sorriso tão grande que quase lhe cabia o vento todo.

Ela pressionou. Ouviu-se um “clac”. A base da estátua abriu uma fenda estreita. Dentro, estava uma pequena caixinha de madeira.

Marta pegou nela com cuidado, como se fosse um passarinho.

A caixinha tinha um cheiro forte a cedro e uma fita vermelha à volta. Marta desfez a fita. A tampa rangeu “criic”, como se contasse uma história com a própria voz.

Lá dentro: mais cartas, amarradas com fio, e uma fotografia dobrada. Ao abrir a foto, Marta viu o farol da moldura… e, ao lado, uma rocha com uma marca em forma de estrela.

No verso da foto, uma frase:

“Quando ouvires as ondas, não corras. Escuta.”

Marta olhou para a avó, os olhos cheios de perguntas.

— Avó… isso é na praia do farol, não é? A mesma foto…

A avó respirou fundo, e por um instante os olhos dela ficaram brilhantes, como se tivessem guardado mares inteiros.

— É. E eu não vou mentir: tenho um bocadinho de medo de mexer nessas memórias.

Marta pegou na mão da avó. A mão estava quente, com pequenas rugas, macias como papel dobrado muitas vezes.

— Vamos juntas. Com cuidado. E com bondade — disse Marta. — Prometo.

A avó sorriu, e o vento, como se tivesse ouvido, acalmou um pouco.

Capítulo 4: Enigma nas Dunas e a Gargalhada do Caranguejo

No dia seguinte, foram à praia do farol. O ar cheirava a sal e algas, e o som das ondas era como um grande “shhh” a pedir silêncio. A areia estava fria nos sapatos, e o vento carregava gotinhas que faziam cócegas na cara.

O farol, ao longe, parecia um lápis branco a desenhar o céu.

Marta segurava a fotografia com a estrela na rocha. A avó levava uma mochila com água, bolachas e… um guarda-chuva “para o caso de o céu mudar de ideias”, como ela dizia.

As duas caminharam até às dunas. A areia ali era mais fofa, e cada passo afundava um pouco, como se a terra estivesse a dizer: “Calma, não tenhas pressa.”

“Quando ouvires as ondas, não corras. Escuta.” — Marta repetiu. — Isso quer dizer… parar e ouvir?

A avó fechou os olhos por um momento. As ondas batiam: “plásh… plósh… plásh…” Num ritmo quase como uma canção.

— Ouço três batidas mais fortes — disse a avó. — Como… três passos.

Marta abriu os olhos, animada:

— Três passos a partir da rocha da estrela!

Procuraram a rocha. Não foi fácil: havia muitas pedras e o vento atirava areia para todo o lado, como se quisesse baralhar o mapa. Marta levou areia na boca e fez cara feia.

— A praia está a tentar transformar-me numa bolacha — resmungou ela.

A avó riu tanto que quase lhe caíram as bolachas da mochila.

Finalmente encontraram a rocha com a marca. A estrela estava meio escondida, mas dava para sentir com o dedo: uma ranhura em forma de pontas.

Marta posicionou-se.

— Um… dois… três passos para trás — contou.

No terceiro passo, o pé dela bateu em algo duro.

— Ai! — disse Marta, mas logo se agachou. — É uma tábua?

Debaixo de uma camada de areia, havia uma pequena tampa de madeira, como a porta de um baú enterrado. Marta e a avó afastaram a areia com as mãos. A textura era fria e granulada, escorregando pelos dedos.

De repente, um caranguejo saiu a correr debaixo da tampa, levantando as patinhas, como se estivesse zangado por terem batido à porta sem avisar.

— Desculpa! — Marta disse ao caranguejo, rindo. — Não sabia que era tua casa!

O caranguejo parou um segundo, como se estivesse a avaliar a educação da menina, e depois fugiu de lado, fazendo um “tic-tic-tic” apressado.

A avó abanou a cabeça, divertida:

— Este guardião fala com as pernas.

Marta levantou a tampa. Lá dentro, havia um saco de pano, igual ao da foto do cão. O pano cheirava a lavanda e a mar, uma mistura estranha e boa. Marta tirou o saco e abriu devagar.

Dentro não havia moedas. Havia um caderno pequeno, com capa de couro, e um monte de cartas e fotos embrulhadas em papel manteiga.

Marta sentiu um arrepio, não de frio, mas de emoção.

— Encontrámos… — ela sussurrou.

A avó tocou no caderno com carinho, como se cumprimentasse um velho amigo.

— O tesouro — disse ela. — O tesouro que não brilha, mas ilumina.

Capítulo 5: O Tesouro das Palavras e a Promessa

Sentaram-se numa zona abrigada, atrás de uma duna. O vento ali era mais manso, e o som das ondas parecia um cobertor de barulho bom.

Marta abriu o caderno. As páginas tinham um toque áspero, como folhas secas. A letra era bonita, inclinada, cheia de voltas.

A primeira frase dizia:

“Se estás a ler isto, és corajoso. E também curioso. As duas coisas juntas fazem grandes aventuras.”

Marta olhou para a avó, com um sorriso tímido.

— Parece que ele nos conhece.

A avó passou o dedo por uma página, devagar.

— Era o bisavô. Ele escrevia como quem deixa migalhas para alguém encontrar o caminho.

Marta começou a folhear as cartas e as fotos. Havia imagens de festas na praia, pessoas a rir com os pés cheios de areia, o cão de orelhas grandes com uma fita ao pescoço, e a menina das tranças — que, Marta percebeu, era a avó quando era pequena.

— Avó… és tu! — Marta disse, espantada.

A avó corou, como se tivesse sido apanhada a fazer uma careta.

— Eu tinha esse penteado porque achava que ia ficar famosa — confessou. — Não fiquei. Mas fiquei feliz.

As cartas contavam pequenas histórias: um dia em que ajudaram um menino perdido a encontrar a mãe; um dia em que devolveram uma carteira encontrada na areia; um dia em que fizeram uma “brigada da bondade” para limpar a praia, mesmo quando toda a gente dizia que era inútil.

Marta leu uma parte em voz alta:

“A verdadeira riqueza é cuidar. Quem cuida, encontra sempre um lugar para guardar o que ama.”

Ela ficou em silêncio por um instante. O tesouro parecia mexer por dentro, como se as palavras fossem mãos a arrumar o coração.

— Avó… por que escondeste isto?

A avó demorou a responder. Olhou o farol ao longe, imóvel, atento.

— Porque estas cartas são de pessoas que já partiram. E também… porque algumas histórias não são para qualquer um. São para quem vai tratá-las com respeito.

Marta segurou uma foto com duas pessoas abraçadas, a rir. Sentiu vontade de guardar tudo num cofre, num lugar seguro e quentinho.

— Eu quero revelar este tesouro… mas do jeito certo — disse Marta. — Posso copiar as fotos e as cartas? Para fazermos um álbum? Para a família ver, sem estragar os originais?

A avó sorriu, com os olhos molhados, mas felizes.

— Isso é inteligência. E bondade.

Marta respirou fundo. O vento trouxe cheiro de algas e um pouco de bolo vindo de algum café distante.

— E prometo uma coisa — disse Marta, endireitando as costas como se fosse uma exploradora a fazer juramento. — O lugar exato onde encontrámos isto… vai ficar em segredo. Só nós duas. Para proteger as memórias.

A avó apertou a mão dela, firme e doce.

— Promessa feita.

Juntas, embrulharam o caderno e as cartas com cuidado, como quem embrulha um presente para o tempo. Enquanto caminhavam de volta, o farol parecia piscar para elas, mesmo sem luz: como se dissesse, baixinho, que algumas aventuras terminam com um segredo guardado… e com o coração mais cheio do que antes.

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Sótão
Cômodo em cima da casa, perto do telhado, onde se guarda coisas velhas.
Tralhas
Coisas velhas, brinquedos ou objetos sem muito uso, bagunça de casa.
Pirilampos
Insetos que brilham à noite, parecendo pequenas luzes no ar.
Desbotada
Que perdeu a cor com o tempo, ficando mais clara e apagada.
Cordel antigo
Fio grosso usado para amarrar, feito há muito tempo.
Cinzas
Pó que sobra quando algo queimou, como madeira no fogo.
Musgo
Planta verde e macia que cresce em pedras ou madeira úmida.
Guardião
Alguém ou algo que protege um lugar ou um objeto importante.
Ranhura
Fenda longa e estreita numa superfície, como um risco fundo.
Dunas
Montes de areia formados pelo vento junto à praia.
Cedro
Tipo de madeira dura e cheirosa, usada em caixas e móveis.

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