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Conto do Japão 11 a 12 anos Leitura 16 min.

O sino que aprendeu a cantar de novo

Num vale onde o silêncio dos antigos pesa, o mensageiro Takumi parte numa jornada entre espíritos e memórias para levar um pedido de desculpas e aprender a escutar o que as árvores e os santuários tentam dizer.

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Takumi, homem de 30–40 anos, rosto gentil e concentrado, quimono índigo simples com mangas arregaçadas, ajoelhado nas lajes enquanto prende uma grossa lâmina de cedro ao badalo do grande sino do santuário e puxa suavemente a corda, fazendo-o soar num tilintar roux; um tanuki pequeno e travesso, pelagem castanha e olhos brilhantes, à esquerda no chão com um saco de serapilheira cheio de lascas como se ajudasse; uma kitsune branca elegante, de nove caudas estilizadas (ou uma cauda sutil), pelagem nacarada, sentada num rochedo à direita observando com serenidade; santuário xintoísta no alto de uma colina ao entardecer, torii vermelho ao fundo, degraus de pedra gastas, lanternas de pedra com brilho quente, cedros gigantes e folhas de outono vermelhas e douradas sobre o solo húmido; cena íntima e luminosa com paleta outonal quente (ocre, vermelho, madeira, índigo) e luz dourada do crepúsculo filtrando entre os troncos; estilo gráfico tipo manga com traços suaves, texturas de madeira e tecidos, contraste quente/frio e composição centrada em Takumi e no sino, profundidade com árvores e torii ao fundo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — Folhas como Cartas

No vale de Momiji, o outono não chegava: ele pousava. Pousava devagar, como um gato sobre um telhado, e deixava as árvores corarem em silêncio. As folhas dos áceres caíam como pequenas cartas sem remetente, e o vento lia cada uma em voz baixa.

Takumi, um homem já feito, de ombros firmes e passos tranquilos, atravessava a ponte de madeira que rangia como um velho contando segredos. Ele era mensageiro do chefe da aldeia, o senhor Shigure, e carregava dentro da manga do quimono um rolo de papel bem enrolado, preso com um cordão azul.

Não era um convite. Não era uma ordem. Era um pedido de desculpas.

“Leva isto ao santuário de Kogane,” dissera o chefe, na noite anterior, sem levantar os olhos do chão. “E… não voltes sem que o silêncio dos antigos se desfaça.”

Takumi não tinha certeza do que doía mais: o peso do rolo ou a frase “silêncio dos antigos”. Havia semanas que o santuário parecia mudo. O sino do torii não ecoava, os talismãs não dançavam no vento, e até os corvos, que sempre tinham opinião sobre tudo, tinham ficado reservados, como se alguém lhes tivesse pedido para não atrapalhar.

Ao passar por uma figueira perto do caminho, Takumi ouviu um estalo e uma risadinha.

— Estás a levar um trovão dobrado? — perguntou uma voz fina.

Entre duas raízes, um tanuki pequeno espreitou, com olhos brilhantes como castanhas assadas.

Takumi suspirou, sem se assustar. Em Momiji, espíritos e animais eram vizinhos, e às vezes até melhores conselheiros do que gente.

— Levo um pedido de desculpas — respondeu ele. — Que é quase a mesma coisa que um trovão, mas por dentro.

O tanuki inclinou a cabeça.

— Pedidos de desculpas são pontes. Mas pontes precisam de madeira boa… e de coragem para atravessar.

Takumi seguiu, enquanto as folhas iam desenhando um tapete que parecia uma estrada de fogo manso.

Capítulo 2 — A Porta Vermelha e o Vento Preso

O santuário de Kogane ficava no alto de um morro, guardado por cedros tão altos que pareciam segurar o céu com as mãos. O torii vermelho estava lá, firme, mas sem alegria. Era como um sorriso pintado num rosto cansado.

Takumi subiu os degraus de pedra. A cada passo, o mundo ficava mais quieto. Não era o silêncio confortável da neve. Era um silêncio de boca fechada, de quem guarda uma mágoa.

Ele parou diante da caixa de oferendas. Colocou uma moeda, bateu palmas.

Uma vez. Duas.

Nada.

Nem um assobio. Nem um fio de vento. Nem o leve tremor de um kami curioso.

Takumi tirou o rolo de papel e, por um momento, hesitou. Pedir desculpas não era só entregar palavras: era oferecer o peito para que o outro pudesse bater, se quisesse.

— Eu sou só o mensageiro… — murmurou, e achou a frase pequena demais, como uma folha tentando cobrir uma montanha.

Ao lado do santuário, havia um sino pendurado. Takumi puxou a corda.

O sino balançou… e não cantou.

Aquele som engolido fez a nuca dele arrepiar. Um sino que não canta é como um rio que esqueceu de correr.

— Então é verdade — disse ele, para o ar. — Os antigos estão calados.

Uma brisa tímida empurrou uma folha até os pés de Takumi. A folha girou e apontou para um trilho lateral, meio escondido, que descia para o bosque.

Takumi olhou o torii, depois o trilho. Sentiu que a desculpa do chefe não era uma carta para ser deixada numa caixa. Era um caminho para ser percorrido.

E desceu.

Capítulo 3 — O Lago que Guardava o Nome

O trilho levou-o a um lago pequeno, redondo como um espelho antigo. A água estava tão lisa que parecia segurar o céu para que ele não se partisse. Folhas flutuavam como barcos dourados, e cada uma parecia levar um pensamento.

Na margem, uma raposa branca — uma kitsune — estava sentada com a elegância de quem conhece histórias desde antes das primeiras casas.

— Takumi — disse ela, como se já o esperasse. — O silêncio dos ancestrais não é falta de som. É falta de escuta.

Ele engoliu em seco.

— Eu trouxe uma mensagem do chefe Shigure. Um pedido de desculpas. Ele… — Takumi procurou a palavra certa. — Ele errou.

A raposa inclinou as orelhas.

— Errou como?

Takumi olhou para a água, e a água devolveu-lhe um rosto sério, com linhas de cansaço nos cantos dos olhos.

— Cortaram um cedro antigo para alargar a estrada. Disseram que era necessário para o comércio. Mas aquele cedro… — ele respirou fundo — era árvore de marcação. Era a “testa” do morro, segundo os velhos. Diziam que ali os ancestrais pousavam para ver a aldeia.

A kitsune fechou os olhos por um segundo, como quem sente o peso de um inverno inteiro.

— Um cedro assim é um símbolo, Takumi. Quando o símbolo cai, a aldeia perde uma palavra do seu próprio idioma.

Takumi desenrolou o papel com cuidado. O pedido de desculpas do chefe era bonito, escrito com caligrafia humilde. Falava de pressa, de orgulho, de arrependimento. Prometia plantar dez cedros. Prometia escutar.

A kitsune não tocou no papel.

— Palavras são sementes — disse ela. — Mas algumas terras só aceitam sementes regadas com gesto. O chefe não pode mandar só tinta. Tem de mandar um pedaço do coração.

Takumi sentiu o peito apertar, como se o ar tivesse ficado mais denso.

— E o que eu posso fazer? Sou apenas um homem.

A raposa sorriu, e o sorriso dela foi como a lua a aparecer entre nuvens.

— Um homem é “apenas” um homem, até ser ponte. Leva esta desculpa ao local onde o cedro caiu. E quando chegares, não fales primeiro. Ouve.

Takumi voltou a enrolar o papel, agora com mais cuidado ainda, como quem segura um pássaro ferido.

— Vou ouvir — prometeu.

Capítulo 4 — O Coto e a Voz de Madeira

O local do cedro cortado ficava numa curva da estrada nova. O chão ainda cheirava a resina e a despedida. Havia um coto largo, com anéis de crescimento visíveis, como se a árvore tivesse guardado calendários dentro do corpo.

Takumi ajoelhou-se diante do coto. O vento passava, mas parecia evitar aquele ponto, como alguém que não quer mexer numa ferida.

Ele tirou o rolo de papel e colocou-o sobre o coto, com respeito.

Depois lembrou-se: “Não fales primeiro. Ouve.”

Takumi fechou os olhos.

No início, nada. Só o som distante de uma carroça, um pássaro hesitante, o próprio sangue a bater como tambor pequeno.

Então veio um ruído fino, quase uma risada presa.

— Ei… ei… — sussurrou algo, lá dentro da madeira.

Takumi abriu os olhos. Não viu ninguém. Mas o ar tremia sobre o coto como calor sobre arroz acabado de cozinhar.

— Quem está aí? — perguntou ele, e logo se arrependeu: tinha falado primeiro, afinal.

Uma folha caiu no nariz dele, e Takumi espirrou. O som foi tão humano e desajeitado que o momento ficou menos assustador.

— Ainda tens bom fôlego — disse a voz, agora mais clara. — Melhor do que o chefe Shigure, que engoliu as próprias palavras.

Takumi endireitou-se, atento.

— Sou Takumi. Trago o pedido de desculpas dele.

— A desculpa dele tem pernas? — perguntou a voz, com um humor seco.

Takumi quase riu, apesar da tensão.

— Tem as minhas.

Um silêncio pesado caiu. Não o silêncio vazio: um silêncio de gente reunida antes de decidir.

— O chefe cortou um lugar de descanso — disse a voz do coto. — E a aldeia esqueceu que descanso também é trabalho dos vivos para com os mortos.

Takumi olhou o papel.

— Ele prometeu plantar cedros. Prometeu ouvir.

— Prometer é fácil como assobiar — respondeu a voz. — Difícil é assobiar com o coração a tremer.

Takumi pensou no chefe, no rosto dele virado para o chão, nas mãos tremendo ao prender o cordão azul.

— Ele está envergonhado — disse Takumi. — E o orgulho dele é grande. Mas o arrependimento também.

O vento, que até então evitava o lugar, passou de leve, como se alguém tivesse finalmente aberto uma janela.

— Se quer desculpa, que venha limpar as próprias mãos — disse a voz. — Mas tu, mensageiro, podes começar. Há uma coisa que ninguém fez.

Takumi inclinou-se.

— Diz.

— Colhe as lascas que ficaram. Junta-as. E leva-as ao santuário. A madeira do cedro ainda pode tocar o sino que calou.

Takumi olhou em volta. Havia pedaços pequenos de madeira espalhados, esquecidos como brinquedos partidos.

Ele arregaçou as mangas.

— Vou juntar tudo.

Enquanto trabalhava, uma sombra aproximou-se: o tanuki do caminho, com um saco de pano.

— Eu disse que pedidos de desculpas são pontes — comentou. — E tu estás a construir a primeira tábua.

Takumi encheu o saco com lascas e serragem, como se recolhesse estrelas caídas.

Capítulo 5 — O Sino Aprende a Respirar

De volta ao santuário, Takumi subiu os degraus com o saco ao ombro. O céu do fim da tarde tinha cor de chá âmbar, e as nuvens pareciam pinceladas lentas.

No pátio, a kitsune aguardava, silenciosa. O tanuki veio atrás, fingindo que não estava curioso.

Takumi colocou o saco diante do sino e abriu-o. As lascas brilhavam um pouco, como se guardassem luz por dentro.

— Madeira lembra — disse a kitsune. — E quando lembra, ensina.

Takumi pegou numa lasca maior, lisa e cheirosa, e amarrou-a com um fio ao badalo do sino, como se lhe desse uma língua nova.

Depois, segurou a corda. As mãos dele tremiam, não de medo, mas de respeito. Puxou.

O sino balançou.

Dessa vez, o som saiu.

Não foi alto. Não foi perfeito. Foi um som rouco, como voz de alguém que passou muito tempo calado e decidiu tentar de novo.

O ar ao redor pareceu soltar o que prendia. As folhas nos cedros mexeram-se, e um coro de passarinhos começou a tagarelar, como se tivessem recebido permissão.

Takumi sentiu o peito aliviar, mas ainda havia algo por terminar. Ele pegou o rolo do chefe e colocou-o na caixa de oferendas.

— Eu entrego as palavras — disse ele em voz baixa. — E também trago as mãos, através do gesto.

A kitsune aproximou-se.

— Falta a parte mais difícil.

Takumi franziu o cenho.

— Qual?

— Voltar e dizer ao chefe: não basta pedir desculpa de longe. A sabedoria é caminhar até o lugar onde o erro deixou sombra.

Takumi assentiu. Sabia que aquela mensagem seria como engolir espinhos. Mas espinhos também ensinam a mastigar devagar.

Antes de partir, a kitsune falou:

— Quando o chefe vier, os ancestrais talvez não falem com palavras. Podem falar com vento, com sonhos, com o cheiro do incenso. Que ele não exija resposta. Que aceite sinal.

Takumi fez uma reverência.

— Eu direi.

Capítulo 6 — O Chefe e a Estrada de Dentro

Na manhã seguinte, Takumi voltou à aldeia. As montanhas estavam cobertas por uma névoa fina, como se o mundo tivesse colocado um lenço ao pescoço.

O chefe Shigure esperava no salão comum. Ao ver Takumi, ergueu os olhos pela primeira vez em dias.

— E então? — perguntou, e a voz dele parecia um vaso rachado: ainda útil, mas frágil.

Takumi contou tudo: o sino que não cantava, o lago espelho, a kitsune, a voz do coto, as lascas recolhidas. Não exagerou, não enfeitou. Deixou que a verdade tivesse o seu próprio brilho.

Quando terminou, o chefe ficou calado. Mas não era o silêncio duro. Era um silêncio que trabalha por dentro.

— Eu… devo ir — disse Shigure, por fim.

— Sim — respondeu Takumi. — Não para seres perdoado depressa. Para aprenderes devagar.

O chefe respirou fundo, como alguém que prepara o corpo para atravessar água fria.

— Tenho medo de que me odeiem.

Takumi olhou pela janela. Uma folha vermelha pousou no parapeito e, por um segundo, pareceu um pequeno selo.

— A sabedoria não é fugir do ódio — disse Takumi. — É não deixar que ele seja o único som.

O chefe apanhou o chapéu, e os dois seguiram juntos até ao santuário.

No caminho, aldeões olharam, murmuraram. Alguns caras fechadas, outros curiosos. O chefe não se escondeu. Cada passo dele parecia pedir desculpa ao chão.

Ao chegarem ao local do cedro, Shigure parou diante do coto. Ajoelhou-se. As mãos dele, que antes só assinavam ordens, tocaram a madeira.

Ele não falou por um tempo. Apenas respirou.

O vento passou, e não evitou o lugar. Fez um círculo suave, como um abraço.

O chefe finalmente disse, numa voz simples:

— Eu fui rápido demais. Eu confundi caminho com pressa. Peço desculpa.

Nada respondeu em palavras. Mas uma folha caiu sobre o coto, bem no centro, como uma pequena promessa.

Quando chegaram ao santuário, o chefe puxou a corda do sino. O som saiu mais limpo do que antes, como se tivesse aprendido a respirar.

Shigure fechou os olhos, e uma lágrima escorreu, silenciosa.

Takumi, ao lado, sentiu que o outono não era só despedida. Era também a arte de preparar a próxima estação sem quebrar as raízes.

Nessa noite, ao regressar à aldeia, o céu estava cheio de estrelas, e cada uma parecia um ancestral a piscar, não para aprovar tudo, mas para lembrar:

A verdadeira sabedoria é pedir desculpa com palavras, sim — e com passos, com escuta, e com respeito pelo que não se vê.

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Torii
Portal tradicional japonês em madeira ou pedra na entrada de um santuário xintoísta.
Quimono
Roupa tradicional japonesa em tecido, usada enrolada e presa por um cinto.
Santuário
Lugar religioso onde se fazem orações e rituais, muitas vezes pequeno e antigo.
Resina
Substância pegajosa que sai de certas árvores, com cheiro forte.
Coto
Parte cortada de uma árvore, onde ficam os anéis que mostram a idade.
Badalo
Peça dentro de um sino que bate nas paredes e faz o som.
Kitsune
Palavra japonesa para raposa, muitas vezes ligada a espíritos nas histórias.
Tanuki
Animal parecido com guaxinim nas histórias japonesas, com jeito brincalhão.
Mensageiro
Pessoa que leva recados ou cartas de um lugar para outro.
Arrependimento
Sentir que fez algo errado e querer consertar ou pedir desculpa.
Oferendas
Coisas dadas num santuário, como comida ou moedas, para mostrar respeito.
Ancestrais
Pessoas que viveram antes na família ou na comunidade, lembradas com respeito.
Caligrafia
Jeito de escrever bonito e cuidado com uma caneta ou pincel.

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