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Grande lobo mau 9 a 10 anos Leitura 17 min. (1)

O sino da avó Rosa e o lobo de mil palavras

Inês, uma menina atenta e corajosa, atravessa a floresta para levar pão e mel à avó e enfrenta um lobo que usa palavras e artimanhas; com respeito pela natureza e sabedoria, aprende a distinguir verdade de engano.

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Garota de 10 anos, rosto redondo com sardas, cabelo castanho em trança, expressão determinada, segurando um pequeno bastão de madeira e tocando um sininho de metal, em pé junto à porta do quarto; idosa (avó) de cerca de 70 anos, cabelo grisalho em coque, vestido floral, aliviada mas cansada, sentada na cama com uma manta e cordas frouxas nos pulsos; homem adulto (lenhador) cerca de 35 anos, barba castanha, camisa xadrez, no batente da porta em postura protetora, machado apoiado no ombro, vigilante em direção ao lobo; o grande lobo mau, grande e robusto, pelo escuro com reflexos cinza, olhos brilhantes e sorriso exagerado, veste touca e avental da avó amassados, sentado na cadeira perto da cama, surpreso e meio envergonhado, orelhas baixas; interior de uma pequena casa de madeira com paredes de lambris quentes, coberta xadrez na cama, mesa com cesta de pão e pote de mel derramado, lareira acesa com fumaça suave e luz amarelo-alaranjada criando sombras longas; confronto calmo porém tenso: a menina toca o sininho, o lobo é desmascarado, a avó protegida, o lenhador chega; composição próxima, fortes contrastes entre tons quentes da casa e sombras frias do lobo, detalhes nítidos; estilo pintura acrílica, traços suaves, cores saturadas, atmosfera reconfortante apesar da tensão. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Olho que Escuta a Floresta

A Inês tinha nove anos e um hábito raro: ela sabia ficar quieta sem ficar vazia. Sentava-se numa pedra coberta de musgo, tão verde que parecia veludo, e deixava a floresta falar primeiro.

“Não é só árvores”, dizia a avó, quando a Inês lhe levava pão e mel. “A floresta é bonita, sim… mas pede respeito. É como um livro antigo: se abres à pressa, rasgas as páginas.”

Naquela tarde, o vento passava pelos ramos como dedos a tocar uma harpa. As folhas cochichavam segredos. E a Inês, paciente como um relógio que não se apressa, observava.

Havia um caminho estreito até à casa da avó: pedras redondas, raízes como serpentes adormecidas, e sombras que se esticavam e encolhiam como se respirassem. A Inês levava uma capa vermelha — não por ser famosa, mas porque a avó tinha costurado com cuidado e carinho. Vermelho, para lembrar: “Estou viva, estou atenta.”

“Não te afastes do trilho”, repetia a mãe, sempre com a mesma frase, como uma canção que protege.

“Eu sei”, respondia a Inês. “Eu olho. Eu escuto.”

E foi então que ela o viu: entre dois troncos grossos, um lobo. Grande, escuro, com olhos que brilhavam como duas moedas molhadas ao luar. Não rosnava. Não mostrava dentes. Apenas sorria com um sorriso fino, como uma porta entreaberta.

“Boa tarde, menina”, disse ele, com voz macia, macia demais, como um cobertor que quer prender.

A Inês sentiu o medo chegar devagar, como água fria nos tornozelos. Mas não fugiu. Lembrou-se do que a avó dizia: “O medo é um sino. Se toca, é para te acordar.”

“Boa tarde”, respondeu, segurando bem o cesto. “Vou à casa da minha avó.”

“Que bonita missão”, disse o lobo, inclinando a cabeça. “E onde mora a tua avó? A floresta é grande. Pode ser que eu… me perca.”

A Inês não respondeu logo. Olhou para as flores do caminho, para a terra, para o céu que se via em pedacinhos entre as folhas. E, muito baixinho, quase sem mexer os lábios, disse para si: “A floresta é bela, mas pede respeito.”

Depois, falou ao lobo, com educação e cuidado:

“Ela mora no fim do trilho, depois do carvalho torto e antes do riacho que canta.”

O lobo piscou. O sorriso dele ficou mais comprido, como sombra ao fim da tarde.

“Ah… conheço esse lugar. Vai com calma, menina. O mundo gosta de quem não corre.”

E desapareceu, não com passos pesados, mas com um deslizar silencioso, como fumo.

A Inês seguiu. E, no seu coração, o sino do medo continuou a tocar… mas agora tocava junto com outro som: o do pensamento.

Capítulo 2: A Estrada Curta e a Estrada Longa

O caminho parecia o mesmo, mas não era. A cada passo, a Inês sentia que a floresta tinha colocado um dedo nos lábios: “Shhh.” Até os pássaros cantavam mais baixo.

De repente, ouviu um estalido atrás de um arbusto. A Inês parou. Não era um monstro. Era apenas um coelho, branco como farinha, que a olhou e fugiu.

“Eu não vou assustar-me com sombras”, murmurou ela. “Mas também não vou brincar com elas.”

Andou mais um pouco e encontrou uma placa velha, pendurada num poste torto. A madeira tinha letras quase apagadas:

CAMINHO CURTO — por entre as amoreiras.

CAMINHO LONGO — pelo trilho principal.

O vento empurrou a placa, e ela rangeu como se estivesse a rir. A Inês lembrou-se do lobo e do seu sorriso de porta entreaberta. Lembrou-se também da avó, com as mãos cheias de farinha e doçura.

“Se eu for pelo caminho curto, chego mais depressa”, pensou. “Mas o ‘depressa' nem sempre é amigo.”

Foi então que um corvo pousou num ramo baixo. Era preto como noite em forma de pássaro.

“Crá, crá”, disse ele, como se falasse uma língua antiga.

A Inês respirou fundo.

“Olá, senhor corvo. Qual é o caminho mais seguro?”

O corvo inclinou a cabeça.

“Crá… seguro… é o que tu vês com os teus olhos, não o que te vendem com palavras.”

E levantou voo, deixando no ar um rastro de mistério.

A Inês sorriu, meio nervosa.

“Obrigada… acho eu.”

Ela escolheu o caminho longo, o trilho principal, onde o chão era mais firme e as árvores pareciam guardas calmos. Ao andar, repetia baixinho, como uma oração:

“Floresta bonita, floresta séria… eu passo com respeito.”

Mas, ao longe, ela ouviu um som que não era do vento nem do riacho: era uma porta a bater.

E, de repente, entendeu: o lobo não tinha querido saber o caminho para se perder. Tinha querido saber o caminho para chegar primeiro.

A Inês apertou o passo — não a correr, porque correr atrapalha os pensamentos — mas a andar com decisão, como quem leva uma lanterna por dentro.

Capítulo 3: A Casa com Luz de Mel

A casa da avó apareceu entre as árvores como um barco pequeno num mar verde. As janelas brilhavam com uma luz amarela, luz de mel, luz de “aqui estás em casa”. Mas havia algo diferente: a chaminé não fumegava e o jardim estava demasiado quieto.

A Inês aproximou-se devagar. O silêncio era um cobertor pesado.

Bateu à porta.

“Avó? Sou eu, a Inês.”

Uma voz respondeu, lá de dentro, fininha e tremida:

“Entra, minha querida…”

A Inês gelou um pouco. A voz parecia a avó… mas também parecia alguém a vestir a voz da avó, como quem veste um casaco que não lhe serve bem.

Ela não entrou logo. Lembrou-se: a floresta é bela, mas pede respeito. E respeito também é cuidado.

Olhou pela janela, só um bocadinho. Viu a cama. Viu uma figura deitada. Viu também, num canto, o armário da avó ligeiramente aberto. E, muito ao fundo, um brilho estranho… como olhos a espreitar dentro de olhos.

A Inês afastou-se da janela, com o coração a bater como tambor baixo.

“Avó”, disse ela em voz alta, firme, “antes de entrar, deixa-me dizer uma coisa: eu trouxe pão e mel. E trouxe também uma pergunta.”

“Pergunta?” a voz lá dentro fez-se mais áspera, como pedra escondida na farinha.

“Sim”, disse a Inês. “A avó sempre diz a mesma frase quando eu chego.”

Houve um silêncio. Um silêncio tão grande que parecia ter o tamanho da floresta inteira.

A Inês completou:

“Ela diz: ‘Lavaste as mãos no riacho que canta?'”

Dentro da casa, algo mexeu-se. Um ranger. Um suspiro pesado.

“Claro… claro”, respondeu a voz, agora apressada demais. “Entra logo!”

A Inês deu um passo para trás. O sino do medo tocou — e ela ouviu. Não como um grito, mas como um conselho.

Sem fazer barulho, ela pôs o cesto no chão e apanhou um pau comprido de vassoura que estava encostado ao muro. Também pegou num pequeno sino de metal que a avó pendurava à porta para espantar maus sonhos. O sino era simples, mas o som dele era claro como água.

A Inês tocou o sino uma vez. Ding.

Dentro da casa, ouviu-se um rosnado abafado, como um segredo a rasgar-se.

“Quem és tu?” perguntou a Inês, agora sem tremor. “Mostra-te.”

A porta abriu-se de repente.

E lá estava o lobo.

Não saltou para cima dela. Não mordeu. Ele apenas ficou ali, como uma sombra que decidiu virar corpo. Tinha a touca da avó na cabeça e um avental que lhe ficava ridículo.

“Que menina esperta”, disse ele, e a voz já não fingia ser outra. “A tua avó tem boas frases… mas tu tens bons ouvidos.”

A Inês levantou o pau como se fosse uma lança pequena.

“E tu tens muita lábia”, respondeu. “Mais lábia do que dentes.”

O lobo riu, um riso baixo.

“Lábia é mais limpa do que sangue. Eu prefiro vencer com palavras.”

“Mas palavras podem magoar”, disse a Inês. “E podem enganar.”

O lobo inclinou-se um pouco, como quem faz uma reverência.

“Então vamos fazer um jogo, menina. Se ganhares, eu vou embora. Se eu ganhar… eu fico com o pão e o mel. Só isso. Não quero mais. Hoje.”

A Inês engoliu em seco. Um jogo com um lobo não era brincadeira. Mas ela pensou na avó. E pensou nas outras crianças que passariam ali, com cestos e confiança.

“Qual é o jogo?” perguntou.

O lobo sorriu.

“Eu faço uma pergunta. Se responderes certo, ganhas.”

A Inês olhou para o sino na mão. Ding… o som parecia dizer: “Pensa.”

“Pergunta”, disse ela.

O lobo aproximou o focinho.

“O que é mais forte: o medo ou a coragem?”

A Inês ficou calada um segundo. A floresta, lá atrás, parecia prender a respiração.

E então ela respondeu:

“O medo é forte como uma raiz. A coragem é forte como uma árvore. Mas a árvore cresce… e a raiz, se não tiver cuidado, enrosca e prende. A coragem é mais forte quando aprende a usar o medo como aviso.”

O lobo arregalou os olhos. Por um momento, o sorriso dele falhou, como máscara que escorrega.

“Boa resposta”, murmurou ele, quase com respeito. “Mas não chega.”

E, num movimento rápido, puxou o cesto para dentro da casa com a pata.

A Inês tocou o sino com força. Ding! Ding! Ding!

O som atravessou o ar como uma flecha de prata.

Capítulo 4: O Sino, o Lenhador e a Verdade

Do outro lado da clareira, ouviu-se um “Eh!” forte, como trovão humano. Um lenhador apareceu entre as árvores. Era alto, com barba castanha e olhos atentos. Trazia um machado ao ombro, mas não o levantou para atacar. Primeiro, levantou a voz.

“Quem toca o sino da velha Rosa?” gritou ele.

A Inês respondeu:

“Sou eu! O lobo está na casa da minha avó!”

O lobo recuou um passo. A sua esperteza era grande, mas não gostava de testemunhas. A astúcia prefere sombras.

O lenhador aproximou-se, firme, e pôs-se ao lado da Inês, como uma parede boa.

“Lobo”, disse ele, “a floresta tem regras. Não é teu palco.”

O lobo soltou um riso curto.

“Regras… Quem as escreveu? As árvores?”

“Não”, disse a Inês, olhando o lobo bem nos olhos. “Nós escrevemos com escolhas. E com cuidado.”

O lobo olhou do lenhador para a menina, e da menina para o lenhador. Por um instante, parecia calcular, como quem joga xadrez com patas.

“Eu disse que preferia palavras”, sussurrou. “E palavras eu tenho.”

Ele virou-se para a porta, como se fosse entrar e fechar-se lá dentro. Mas o lenhador deu um passo à frente.

“Nem mais um”, avisou ele.

A Inês respirou fundo e falou, não ao lobo, mas à floresta, como se ela fosse uma sala cheia:

“Lobo, tu és rápido e sabes enganar. Mas eu sei observar. Eu sei esperar. Eu sei pedir ajuda. Isso também é coragem.”

O lobo ficou imóvel. E então… fez algo estranho: baixou a cabeça.

“Hoje não mordo”, disse ele, com voz mais escura. “Hoje aprendo.”

“Aprender é melhor do que morder”, respondeu a Inês.

O lobo soltou o cesto, devagar, como quem devolve um tesouro.

“Fica com o teu mel, menina. E com a tua lição.”

Ele recuou para a sombra das árvores. Antes de desaparecer, disse:

“Nem toda a escuridão quer sangue. Algumas só querem silêncio para enganar. Tu fizeste barulho. Barulho de verdade.”

E sumiu, como se a noite o tivesse engolido.

O lenhador suspirou.

“Menina, foste valente.”

A Inês abanou a cabeça.

“Fui cuidadosa. A valentia sem cuidado é só pressa.”

Então os dois entraram na casa, com passos leves.

No armário, a avó estava amarrada com uma corda, mas viva, com os olhos brilhantes de raiva e alívio.

“Ah, seu malandro de pêlo!”, exclamou ela, enquanto o lenhador desatava a corda. “Quis roubar-me a voz!”

A Inês abraçou a avó com força. O cheiro da avó era chá de erva-doce e lenha quente. Um cheiro que dizia: “Estás segura.”

Capítulo 5: A Moraleja à Beira do Riacho que Canta

Mais tarde, com a lareira acesa e o pão partido em fatias grossas, a avó pôs mel em cima e deixou escorrer, dourado, como sol derretido.

O lenhador despediu-se à porta.

“Qualquer coisa, toquem o sino”, disse ele. “A floresta escuta.”

Quando ficaram só as duas, a avó olhou para a Inês com seriedade doce.

“Conta-me tudo.”

A Inês contou: o encontro, a pergunta, a placa, a voz fingida, o sino. A avó ouviu sem interromper, como quem ouve uma história e, ao mesmo tempo, um aviso.

No fim, a avó pegou nas mãos da Inês.

“A floresta é bela”, disse ela, repetindo como sempre, “mas pede respeito.”

A Inês assentiu.

“E o lobo… riu-se mais do que rosnou.”

“É assim”, respondeu a avó. “Há lobos que mordem com dentes. E há lobos que mordem com truques. Os segundos, às vezes, são mais perigosos, porque parecem gentis.”

A Inês ficou a olhar a chama da lareira. Ela dançava como uma rapariga pequenina de vestido laranja.

“Então… eu tenho de ter medo para sempre?”

A avó sorriu, e o sorriso dela era como um cobertor leve.

“Não. O medo é um sino, lembra-te. Não é uma prisão. Toca para te acordar, não para te adormecer.”

A Inês bocejou, já com o peso bom do sono nos olhos.

“E a coragem?”

“A coragem”, disse a avó, “é caminhar direito mesmo com o sino a tocar. É pedir ajuda quando precisas. É não te achares sozinha no mundo.”

Nessa noite, antes de a Inês adormecer, a avó abriu a janela um pouco. O ar entrou cheirando a pinho e mistério. Ao longe, o riacho cantava a sua canção antiga.

A Inês imaginou o lobo na escuridão, a pensar, talvez, com o focinho entre as patas. Imaginou também outras crianças, outros caminhos, outras placas.

E prometeu em voz baixa, como quem planta uma semente:

“Eu vou dizer às pessoas: a floresta é bonita, mas pede respeito. E o lobo… ruse mais do que morde. Por isso, eu vou olhar, eu vou escutar, e eu vou ser gentil sem ser enganada.”

A lareira estalou, como se aprovasse. O vento passou, mais suave. E o sono chegou, redondo e tranquilo, como a lua por trás das árvores.

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Musgo
Planta verde e macia que cobre pedras e troncos em lugares húmidos.
Harpa
Instrumento musical com muitas cordas que se toca puxando os fios.
Cochichavam
Falar baixinho, em voz tão baixa que parece um sussurro.
Trilho
Caminho estreito pela floresta por onde as pessoas andam.
Riacho
Pequeno curso de água que corre devagar pela terra.
Touca
Pequeno lenço ou gorro que se põe na cabeça.
Avental
Peça de pano que se põe à frente para proteger a roupa ao cozinhar.
Sino
Objeto de metal que faz som quando é batido ou tocado.
Lenhador
Pessoa que trabalha cortando e recolhendo madeira na floresta.
Reverência
Gestor de respeito, como curvar o corpo para cumprimentar alguém.
Astúcia
Capacidade de enganar ou de arranjar soluções com esperteza.

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