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História sobre a amizade 9 a 10 anos Leitura 12 min.

O obrigado dourado da feira das trocas

Quatro amigos organizam uma feira de trocas de livros na escola e, entre erros e risos, aprendem a cooperar, a reconhecer-se e a agradecer.

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Quatro crianças: Tomás, 9 anos, cabelos castanhos curtos, cardigan azul-claro, ao centro arrumando livros; Martim, 9 anos, cabelos loiros despenteados, t-shirt vermelha, à direita empilhando livros; Rui, 9 anos, cabelos negros lisos e óculos redondos, à esquerda segurando uma caixinha para moedas; Diogo, 9 anos, cabelo castanho claro e boné ao contrário, à frente tocando um cartaz com a palavra OBRIGADO em dourado. Cena numa pátio escolar ensolarado com mesas cobertas por toalhas xadrez, árvores ao fundo e famílias passeando; os quatro organizam uma mesa da Feira das Trocas cheia de livros por temas, sorriem e ajudam uma menina que estende um livro, atmosfera colaborativa, cores vivas e estilo infantil com doodles decorativos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O convite no recreio

Na escola do bairro, a manhã cheirava a pão com manteiga e a lápis bem apontado. No recreio, quatro rapazes de nove anos estavam encostados ao muro baixo do pátio, a ver as folhas da árvore grande a dançarem com o vento.

O Tomás era o mais sensato do grupo. Não era “mandão”, como ele dizia, era só alguém que gostava de pensar dois segundos antes de fazer as coisas. O Martim tinha energia a mais, como se tivesse molas nos ténis. O Rui era observador e calmo, daqueles que reparam quando alguém está quieto demais. E o Diogo fazia piadas pequenas e rápidas, como quem atira pedrinhas para a água e espera as ondas.

— Hoje à tarde podemos fazer uma coisa fixe — disse o Martim, já a meio de um salto que não servia para nada, mas servia para ele.

“Fixe” pode ser muitas coisas — respondeu o Tomás, a sorrir. — Tipo… fixe e seguro.

O Rui apontou para um cartaz colado na porta da biblioteca: “Feira das Trocas: traz um livro, leva outro. Sábado.”

— Se começarmos a juntar livros e a preparar uma banca para sábado, ajudamos a turma — sugeriu ele.

O Diogo levantou uma sobrancelha.

— Uma banca? Eu posso fazer um cartaz com letras gigantes. Gigantes mesmo. Tipo: dá para ver de Marte.

O Tomás bateu palmas uma vez, como quem aprova um plano que finalmente faz sentido.

— Boa. E podemos fazer isto juntos. Cada um traz uma coisa: livros, fita-cola, marcadores… e ideias.

Naquele instante, parecia simples: quatro amigos, um objetivo, e um recreio inteiro pela frente.

Capítulo 2: A lista do Tomás e a primeira dificuldade

Depois das aulas, encontraram-se no prédio do Tomás, na sala de condomínio onde havia uma mesa comprida e cadeiras que rangiam. O Tomás tirou do bolso um papel dobrado e abriu-o com cuidado, como se fosse um mapa do tesouro.

— Fiz uma lista — disse ele. — Para não nos esquecermos de nada.

O Martim suspirou, fingindo drama.

— Lá vem a parte chata…

— Chata não — corrigiu o Tomás, com um ar muito sério que durou só dois segundos, porque depois se riu. — A parte que evita desastres.

A lista tinha coisas simples: “livros”, “caixa para moedas (doações), “cartaz”, “fita-cola”, “canetas”, “panos para limpar a mesa”.

O Rui começou a separar os livros que tinham trazido. O Diogo abriu a mochila e tirou marcadores de várias cores.

— Eu trouxe um marcador dourado! — anunciou ele. — Dourado é metade da vitória.

O Martim, porém, ficou de mãos vazias. Remexeu na mochila, nos bolsos, até no casaco.

— Eu… eu esqueci-me. Não trouxe nada.

O silêncio caiu por um momento, como uma borracha no chão. O Martim ficou vermelho e olhou para os ténis.

O Tomás aproximou-se e baixou a voz, para não parecer que estava a dar uma lição.

— Acontece. O importante é o que fazemos agora. Podes ajudar de outras maneiras.

O Rui assentiu.

— Podes ser o responsável por arrumar os livros por temas. És rápido.

O Diogo piscou o olho ao Martim.

— E podes ser o testador oficial de piadas do cartaz. Se eu escrever algo parvo, tu gritas “NÃO!”

O Martim soltou uma gargalhada pequena, aliviada.

— Está bem. Eu grito “NÃO” com muito talento.

E foi assim que a primeira dificuldade não virou discussão. Virou tarefa. Virou cooperação.

Capítulo 3: A varanda ao sol e um “obrigado” que aquece

Quando terminaram de separar os livros, o Tomás propôs uma pausa.

— Vamos para a varanda. Está sol e precisamos de ar.

Subiram ao andar do Tomás e saíram para a varanda ensolarada. O chão estava quente, e a luz fazia as capas dos livros brilharem um pouco. Dava vontade de falar baixo, como se o sol pedisse calma.

Sentaram-se no chão, encostados à parede, com uma garrafa de água a passar de mão em mão.

O Rui observou:

— Sabe bem quando ninguém fica para trás.

O Martim mexeu num canto da etiqueta de um livro, com cuidado.

— Eu achei que iam ficar zangados comigo por eu não ter trazido nada.

O Tomás olhou para ele, sereno.

— Ficar zangado não faz aparecer livros. E amigos não são uma lista de coisas. São pessoas.

O Diogo apontou para o céu, fazendo de conta que analisava nuvens como um cientista muito trapalhão.

— A nuvem ali tem formato de… de sanduíche. Isto significa que devemos comer um lanche.

Riram os quatro. E depois, sem ser forçado, o Martim disse:

— Obrigado por não me fazerem sentir mal.

O Rui respondeu de imediato:

— Obrigado tu por teres ajudado a arrumar tudo. Ficaste mesmo focado.

O Tomás juntou:

— Obrigado por seres honesto.

E o Diogo rematou:

— Obrigado por gritares “NÃO” quando eu escrevo “TROCAS SUPER MEGA ULTRA GALÁCTICAS”. Eu precisava.

Na varanda ao sol, “obrigado” parecia uma coisa pequena, mas ficava grande dentro do peito.

Capítulo 4: O cartaz que quase virou confusão

No dia seguinte, voltaram à sala do condomínio para fazer o cartaz. O Diogo espalhou folhas pela mesa e começou a desenhar letras enormes.

— Tem de ser chamativo — dizia ele. — Senão as pessoas passam e pensam que é publicidade a detergente.

O Martim, fiel à tarefa, ia avaliando.

— Isso está bom. Isso… está muito bom. Isso… não.

“Não” a quê? — perguntou o Diogo, ofendido de brincadeira.

— A esse desenho de um livro com músculos — respondeu o Martim. — Parece que o livro vai dar uma chapada.

O Rui sugeriu:

— Podemos fazer um desenho simples: um livro a passar de uma mão para outra.

O Tomás concordou.

— E escrever “Feira das Trocas” e “Obrigado por partilhares”.

O Diogo fez uma careta.

“Obrigado por partilhares” é fofinho demais…

O Tomás manteve a voz calma.

— É a ideia. É para as pessoas lembrarem que alguém confiou nelas um livro. É um gesto.

O Diogo olhou para o marcador dourado, depois para os amigos.

— Está bem. Mas posso escrever “Obrigado” em dourado?

— Podes — disse o Rui. — Dourado fica como um sorriso no papel.

Começaram a trabalhar juntos. O Martim segurava a folha para não escorregar. O Rui alinhava as letras com uma régua. O Tomás lia em voz alta para ver se estava claro. O Diogo desenhava.

Por um segundo, o Diogo apressou-se e borratou a tinta. Uma mancha atravessou o “OBRIGADO”.

— Ai, estraguei! — ele lamentou, com a cara a cair.

O Martim ia dizer qualquer coisa, mas o Tomás levantou a mão, tranquilo.

— Nada está estragado. Vamos resolver.

O Rui trouxe um pano húmido. O Martim segurou a folha com firmeza. O Diogo respirou fundo e, com cuidado, passaram o pano por cima, suavemente.

A mancha não desapareceu totalmente, mas ficou parecida com uma sombra.

— Parece… um brilho — disse o Martim.

O Diogo voltou a animar.

— Um brilho artístico, então.

O Tomás sorriu.

— Às vezes, os erros viram detalhes. O importante é não desistir e agradecer a ajuda.

Capítulo 5: Sábado na feira e o sorriso que sossega

Chegou o sábado. Na escola, o pátio estava cheio de mesas. Havia famílias, professores e colegas a falar ao mesmo tempo, como se todas as palavras tivessem acordado felizes.

A banca dos quatro rapazes tinha uma toalha simples, os livros arrumados por temas e o cartaz com o “OBRIGADO” dourado e um “brilho artístico” bem no meio.

No início, eles ficaram nervosos. O Martim endireitava os livros de dois em dois minutos. O Rui observava quem se aproximava. O Diogo preparava piadas, só por garantia. O Tomás fazia pequenas contas na cabeça para controlar as doações.

Uma menina da turma parou e perguntou:

— Como funciona?

O Tomás explicou, com paciência:

— Tu trazes um livro que já leste e que está em bom estado. Escolhes outro. E, se quiseres, podes deixar uma moeda para ajudar a biblioteca a comprar livros novos. Mas o mais importante é a troca.

O Rui acrescentou:

— E cuidar do livro do outro como se fosse teu.

A menina sorriu e pousou um livro.

— Obrigada.

O Diogo respondeu, sem exagerar:

— Obrigado tu!

Ao longo da manhã, eles repetiram o mesmo gesto: ouvir, explicar, ajudar a escolher, agradecer. O Martim descobriu que era ótimo a sugerir livros.

— Se gostas de aventuras, este é mesmo bom — dizia ele, com entusiasmo.

Uma senhora idosa aproximou-se e colocou duas moedas na caixa.

— Para a biblioteca. E parabéns por trabalharem juntos.

O Tomás sentiu o peito aquecer.

— Obrigado. Mesmo.

Quando a feira terminou, a professora veio ver a banca.

— Vocês organizaram isto muito bem. E reparo que disseram “obrigado” muitas vezes.

O Rui encolheu os ombros, meio envergonhado.

— É que as pessoas ajudam. E nós também.

O Martim olhou para os amigos, como se estivesse a guardar aquele momento numa gaveta segura.

— Hoje eu aprendi que, mesmo quando eu esqueço uma coisa… posso lembrar-me de ser útil.

O Diogo apontou para o cartaz.

— E eu aprendi que dourado combina com gratidão.

O Tomás juntou os três com o olhar.

— E eu aprendi que a amizade cresce quando a gente coopera e reconhece os gestos pequenos.

No fim do dia, voltaram à varanda ensolarada do Tomás, só por uns minutos, como uma tradição que estava a nascer. O sol estava mais baixo e mais macio. Sentaram-se lado a lado, cansados e contentes.

— Valeu a pena — disse o Rui.

— Valeu — confirmou o Martim.

— Valeu muito — disse o Diogo, com a voz mais calma do que o costume.

O Tomás olhou para os três e sorriu um sorriso que parecia dizer “está tudo bem”. E, ao verem esse sorriso, os outros três sentiram-se seguros, como se a amizade fosse uma manta leve a tapar o fim do dia.

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Condomínio
Prédio ou conjunto de prédios onde várias pessoas vivem e partilham espaços comuns.
Fita-cola
Tira de plástico com cola usada para juntar papel ou prender objetos.
Marcadores
Canetas de ponta grossa que fazem cores fortes, usadas para desenhar e escrever.
Doações
Coisas ou dinheiro dadas voluntariamente para ajudar outra pessoa ou instituição.
Mancha
Sinal ou sítio sujo numa superfície que não sai facilmente.
Sereno
Estado calmo e tranquilo, sem barulho ou confusão.
Pátio
Espaço aberto na escola ou casa onde se pode brincar e conversar.
Toalha
Tecido usado para cobrir uma mesa ou secar coisas.
Organizaram
Pôr as coisas em ordem para que tudo funcione bem.
Brilho artístico
Efeito bonito que aparece num desenho por causa de um erro convertido em detalhe.

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