Capítulo 1 — O teatro que cheira a cortina velha e pipoca
O Teatro Municipal de Vila Marinha tinha um cheiro muito específico: cortina velha, madeira encerada e… pipoca esquecida em algum canto desde a última sessão de cinema da escola. A Leonor, 11 anos, dizia que era “o perfume oficial das aventuras”.
Ela entrou a saltitar pelo corredor, mochila às costas, garrafa de água a bater na lateral: toc-toc-toc, como se já fosse uma percussão.
— Malta, cheguei! — anunciou, abrindo a porta da sala de ensaios com um empurrão que parecia coreografia.
Lá dentro estavam os amigos:
O Tomás, que era alto e tinha a mania de marcar o ritmo com estalos de dedos, mesmo quando estava a comer sandes.
A Yasmin, rápida a pensar e ainda mais rápida a rir, com um caderno cheio de rabiscos e planos.
E o Rafa, que dizia sempre “calma, calma” com uma calma que… irritava e salvava ao mesmo tempo.
No canto, a professora Fátima afinava a coluna de som como quem negocia com um dragão.
— Hoje é ensaio geral — avisou. — Amanhã, apresentação para a cidade inteira. Sem distrações.
A Leonor endireitou-se, como se tivesse posto uma coroa invisível.
— Sem distrações? Eu? Nunca!
O Tomás levantou uma sobrancelha.
— A última vez que disseste isso, dançaste em cima de uma cadeira porque “o chão parecia tímido”.
— O chão estava tímido! — insistiu a Leonor, muito séria, e depois piscou o olho. — Pronto, talvez eu também estivesse.
Todos riram. Era aquele riso de grupo, que parece um cobertor quente. E aí começou o ensaio: passos coordenados, palmas, giros, e a Leonor a liderar com energia de foguete.
Até que a porta rangeu.
Uma senhora da equipa do teatro, a dona Emília, apareceu com um papel na mão e cara de quem viu um fantasma a fazer sapateado.
— Meninos… alguém viu o… o… o quê que se chama… o microfone grande? O da apresentadora?
— O microfone grande? — repetiu a Yasmin. — O com o brilhinho?
A dona Emília abanou o papel.
— Esse mesmo. Sumiu. Puf. E amanhã há espetáculo.
O Rafa piscou devagar.
— Calma, calma.
A Leonor já estava a imaginar o microfone com pernas a fugir pelo corredor.
— Vamos encontrar! E, prometo, sem subir em cadeiras.
— Só se o chão ficar tímido — murmurou o Tomás.
Capítulo 2 — A caçada ao microfone fugitivo
A professora Fátima olhou para eles como quem mede um bolo com os olhos: “se cair, não chorem”.
— Vocês quatro têm energia para abastecer a cidade. Usem-na para procurar, mas sem confusões. O ensaio continua em dez minutos.
— Dez minutos? — a Leonor pôs as mãos na cabeça. — Isso é o tempo que eu demoro a… a… a procurar a minha outra mão!
— Drama aprovado — disse a Yasmin. — Vamos.
O corredor do teatro parecia maior quando se procura alguma coisa. As paredes tinham cartazes antigos: “Festival de Fado”, “Comédia em Três Atos”, “A Tragédia do Peixe Desaparecido”. O Tomás parou no último.
— Olhem. Já houve um peixe desaparecido aqui. Isto é um padrão.
— Concentração, detetive do peixe — cortou o Rafa, mas a sorrir.
Eles começaram pela cabine técnica. Havia botões, luzinhas e cabos que pareciam esparguete preto.
— Se eu tropeçar nisto, viro um nó humano — avisou a Leonor.
— Não toques em nada — pediu a Yasmin, já a espreitar gavetas.
O Tomás apontou para uma caixa.
— Ali diz “MIC.”. Deve ser.
A Leonor abriu com cuidado dramático, como se fosse um tesouro.
Lá dentro… estava um pente.
Um pente muito normal.
Um pente que parecia dizer: “Olá, eu não sou um microfone.”
— Este microfone está… careca? — perguntou a Leonor, tentando não rir.
O Rafa encostou-se à parede.
— Calma, calma. Isso é “mic” de… “micro… pente”.
— Claro — disse a Yasmin. — O famoso micro-pente. Muito usado em ópera.
Riram, baixinho, porque o teatro tem eco e o eco entrega-te.
Continuaram. Foram ao camarim. Havia espelhos com lâmpadas, perucas, um bigode falso e um chapéu com penas.
A Leonor pegou no bigode e colou-o por baixo do nariz.
— Agora sou o senhor… Microfone!
— És o senhor “Problema” — corrigiu o Tomás.
No cabide, pendurado num saco de pano, havia algo comprido.
A Yasmin puxou. Apareceu… uma flauta.
— Não é microfone — disse ela. — Mas dá para fazer barulho.
A Leonor levou a flauta à boca e soprou. Saiu um som desafinado, meio pato, meio apito de autocarro.
O Tomás tapou os ouvidos.
— O teatro vai pedir tolerância… pelos nossos tímpanos.
— Tolerância é isto — disse a Leonor, a rir, e pousou a flauta como quem pede desculpa a um objeto.
— Dez minutos já passaram — lembrou o Rafa. — Vamos voltar ao ensaio e depois continuamos.
— Mas e o microfone? — perguntou a Leonor, já a andar.
— Talvez tenha ido dançar — disse o Tomás.
— Se foi, espero que tenha ensaiado — respondeu a Yasmin.
Capítulo 3 — O ensaio geral e o “monstro” do palco
De volta à sala, a professora Fátima estava com os braços cruzados, mas com um brilho divertido nos olhos.
— Encontraram?
— Encontrámos um pente que se identifica como microfone — disse a Yasmin, muito séria.
A professora engasgou-se com o próprio riso.
— Voltem à formação. Música!
A coluna soltou a batida e o grupo entrou no “Modo Dança”. A Leonor contava mentalmente: um-dois-três, vira, salta, palma. O Tomás estava perfeito nos estalos. A Yasmin tinha um sorriso de quem sabe o passo seguinte. O Rafa… bem, o Rafa era a âncora: seguro, constante.
No meio da coreografia, uma sombra grande apareceu por trás da cortina do palco, como um monstro de tecido. Um “monstro” com duas pontas no topo, como antenas.
A Leonor travou um segundo. O pé dela ficou no ar, indeciso, como se perguntasse: “desço ou peço licença?”
O Tomás viu e sussurrou:
— O chão voltou a ficar tímido?
A sombra mexeu-se. A cortina estremeceu. A Yasmin arregalou os olhos.
— O quê que é aquilo?
O Rafa respirou fundo.
— Calma, calma. Pode ser… um cabide grande.
A Leonor, que tinha coragem feita de risos e teimosia, avançou dois passos sem perder o ritmo. O “monstro” também avançou. Parecia imitar.
Ela fez um giro. O “monstro” girou.
Ela levantou os braços. O “monstro” levantou os braços.
— Ele está a copiar! — sussurrou a Yasmin, a meio de um passo.
— Então ele já sabe a coreografia — disse o Tomás. — Contratamos um monstro dançarino.
A professora Fátima parou a música com um clique.
— O que se passa?
A Leonor apontou para a cortina.
— Temos… um fã escondido. Muito grande.
A dona Emília apareceu, aflita, a correr pelo corredor.
— Ai meu Deus, ai meu Deus! Vocês mexeram no “Homem de Cartão”?
— No quê? — disseram os quatro, em coro.
A dona Emília puxou a cortina e revelou o “monstro”: era um manequim de papelão, usado em peças antigas, com braços articulados. Alguém tinha posto por cima um casaco enorme e, na cabeça, duas escovas de cabelo, como antenas.
A Leonor aproximou-se e leu o que estava colado no peito do manequim: um papel com letras tortas.
“MI-CRO-FONE. NÃO MEXER.”
— Ah! — fez a Yasmin. — Espera… isso é um aviso sobre o microfone ou o nome do homem?
O Tomás apontou para o papel.
— Alguém separou “microfone” em duas partes: “mi” e “cro” e “fone”. Talvez tenha achado que era uma pessoa: o senhor Mi Cro Fone.
A Leonor tapou a boca para não soltar uma gargalhada gigante.
— Então o microfone não fugiu. Só… virou lenda.
A dona Emília ficou vermelha.
— Eu… eu escrevi isso para lembrar a mim mesma. Mas alguém colou no manequim. E agora toda a gente acha que o microfone é o “Homem de Cartão”.
A professora Fátima suspirou, mas com humor.
— Está bem. Pelo menos o homem dança melhor do que alguns adultos.
O Rafa levantou a mão.
— Podemos procurar o microfone de verdade depois do ensaio? Com método, sem… flautas.
A Leonor pousou a mão no coração.
— Prometo. Sem flautas. Talvez só um bocadinho de… detetive.
Capítulo 4 — O mapa impossível da Yasmin e a chave que não era chave
Depois do ensaio, a Yasmin abriu o caderno e desenhou um mapa do teatro: setas, caixas, “aqui há pó”, “aqui ecoa”, “aqui mora um bigode”.
— Isto parece o mapa de um jogo — disse a Leonor.
— É um jogo — respondeu a Yasmin. — O jogo de não passarmos vergonha amanhã.
O Tomás inclinou-se por cima do caderno.
— Onde foi a última vez que o microfone foi visto?
A dona Emília, agora mais calma, apareceu com um molho de papéis e uma expressão de quem admite: “ok, eu compliquei”.
— Foi na noite do ensaio da apresentadora. Ela esteve no palco, depois foi ao foyer… e depois eu guardei… eu acho que guardei.
O Rafa sorriu gentilmente.
— Às vezes o “acho” é o escondedor profissional.
A dona Emília fez um bico.
— Eu não sou desorganizada. Eu sou… criativa com lugares.
A Leonor deu um passo à frente.
— Não tem mal, dona Emília. Acontece. O meu estojo já foi encontrado dentro do frigorífico lá de casa. Não perguntem.
O Tomás abriu a boca.
— Eu preciso perguntar.
— Não — disse a Leonor, firme. — É uma história triste.
Riram todos, inclusive a dona Emília, aliviada por não ser a única com “lugares criativos”.
Seguindo o mapa, foram ao foyer. Havia sofás vermelhos e uma vitrine com troféus. Um cartaz dizia: “Por favor, não alimente os artistas”. A Leonor apontou.
— Então por isso é que eu tenho fome.
Debaixo de um sofá, encontraram uma coisa brilhante.
A Yasmin puxou: era uma chave.
— Chave do armário! — disse o Tomás, triunfante.
A dona Emília espreitou.
— Essa não é do armário. Essa é… do carrinho de limpeza.
O Rafa coçou a cabeça.
— E o carrinho de limpeza… limpa o quê?
A Leonor ergueu um dedo, como se estivesse a explicar um mistério mundial.
— Limpa pistas! É isso. O carrinho apagou as provas. Um carrinho vilão.
— Leonor — disse a Yasmin, com paciência divertida — às vezes um carrinho é só um carrinho.
— Tolerância com a minha imaginação — respondeu a Leonor, fazendo uma vénia.
Foram atrás do carrinho. Encontraram-no perto do armazém, com um balde e uma esfregona que parecia cabelo de bruxa.
A Leonor espreitou por trás da porta.
— Se eu virar a esquina e aparecer o senhor Mi Cro Fone, eu grito.
— Se gritares, o eco grita contigo — avisou o Rafa.
A Yasmin rodou a chave… e a porta abriu.
Lá dentro havia caixas, cenários desmontados e um silêncio cheio de poeira. O Tomás espirrou:
— Atchim! Isto é o pó de 1998.
— Shhh — fez a Yasmin. — Vamos procurar.
A Leonor viu uma caixa com a etiqueta “Som — IMPORTANTE”. Ela aproximou-se, os olhos a brilhar.
— Estou a sentir que é agora.
Ela abriu.
Dentro… havia um megafone.
— Quase! — disse o Tomás. — É primo do microfone.
A Leonor pegou no megafone e falou baixinho:
— “Olá, sou o senhor Mi Cro Fone e perdi-me.”
O megafone amplificou como se o teatro inteiro estivesse dentro dele:
— OLÁ, SOU O SENHOR MI CRO FONE E PERDI-ME!
O silêncio do armazém explodiu em eco. E o eco fez questão de repetir:
— PERDI-ME! PERDI-ME! PERDI-ME!
A dona Emília levou as mãos à cabeça.
— Ai, os meus ouvidos!
A professora Fátima apareceu à porta com uma cara que era metade espanto, metade “eu sabia”.
— O que é isto?
O Rafa, muito calmo, apontou para a Leonor e para o megafone.
— Um acidente sonoro com boas intenções.
A Leonor baixou o megafone, envergonhada, mas a sorrir.
— Desculpe. Ele… ele gritou sozinho.
A professora Fátima tentou manter a seriedade e falhou.
— Guardem isso antes que o teatro acorde.
Capítulo 5 — O microfone estava onde ninguém queria olhar
Com o megafone guardado e o orgulho da Leonor ligeiramente amassado, voltaram ao corredor. A Yasmin consultou o mapa.
— Falta-nos a sala das arrecadações pequenas. E… a cabine do porteiro.
— O senhor Álvaro! — lembrou o Tomás. — Ele coleciona rádios antigos e… bolachas.
— O microfone pode estar a comer bolachas — disse a Leonor, já animada outra vez.
Foram até à cabine. O senhor Álvaro estava sentado, a ler o jornal ao contrário.
— Está a ler assim por algum motivo? — perguntou o Rafa, educado.
O senhor Álvaro ajustou os óculos.
— Estou a ver se as notícias melhoram de cabeça para baixo. Não melhoram.
A Leonor aproximou-se do balcão.
— Senhor Álvaro, desculpe… viu um microfone grande, com brilhinho?
O senhor Álvaro franziu a testa.
— Microfone? Vi uma coisa a brilhar… achei que era uma lanterna… guardei para ninguém tropeçar.
A dona Emília deu um passo à frente, ansiosa.
— Onde, senhor Álvaro?
Ele apontou para um armário pequeno, mesmo ali, com uma placa: “ACHADOS E PERDIDOS”.
A Yasmin ficou parada.
— Achados e perdidos. A solução estava… escrita.
O Tomás soltou uma gargalhada.
— Isto é quase ofensivo.
O Rafa assentiu.
— E ao mesmo tempo muito humano.
A Leonor abriu o armário com cuidado. Lá dentro, entre um cachecol, um sapato solitário e um guarda-chuva torto, estava o microfone. Grande. Brilhante. Absolutamente inocente.
A dona Emília quase chorou.
— O meu microfone!
A Leonor levantou-o como um troféu.
— Senhor Mi Cro Fone, finalmente! O senhor deu-nos trabalho!
O senhor Álvaro coçou a cabeça.
— Eu até pus um papel a dizer “microfone”…
A dona Emília arregalou os olhos.
— O senhor pôs?!
— Pus — respondeu ele. — Mas escrevi “MI-CRO-FONE” porque não cabia na etiqueta.
O Tomás apontou para a testa.
— Pronto. A lenda continua.
A Yasmin riu tanto que teve de se encostar à parede.
— Então foi assim que nasceu o Homem de Cartão!
A Leonor olhou para a dona Emília.
— Está tudo bem. Amanhã corre bem. E prometemos não gritar com megafones.
— Prometem mesmo? — perguntou a professora Fátima, que tinha aparecido atrás deles como uma ninja cansada.
— Mesmo — disse o Rafa.
— Mesmo — disse a Yasmin.
— Mesmo — disse o Tomás.
A Leonor hesitou um segundo.
— Mesmo… mas se o chão ficar tímido, eu aviso.
A professora Fátima abanou a cabeça, rindo.
— Vão descansar. E… obrigada. Trabalharam em equipa. Sem culpar ninguém. Isso é que importa.
A dona Emília respirou fundo, aliviada.
— Obrigada por terem paciência comigo. Às vezes eu confundo as coisas.
A Leonor deu de ombros, com um sorriso aberto.
— Toda a gente confunde. A graça é a gente confundir junto e depois… desconfundir junto.
Capítulo 6 — A apresentação, os risos e o coucou final
No dia seguinte, o teatro encheu-se. Havia pais, avós, irmãos pequenos com pés inquietos e uma senhora na primeira fila que abanava um leque como se estivesse a dar ordens ao ar.
Nos bastidores, a Leonor aqueceu as pernas, o Tomás estalou os dedos, a Yasmin conferiu o mapa como se fosse um amuleto, e o Rafa respirou devagar, como sempre.
— Nervosa? — perguntou o Tomás à Leonor.
— Um bocadinho — confessou ela. — Mas é um nervoso que dança.
A apresentadora entrou com o microfone brilhante na mão.
— Boa sorte, artistas!
A dona Emília, ao fundo, fez um gesto de vitória discreta, como quem diz: “agora vai”.
A música começou. As luzes acenderam. E o palco deixou de ser só madeira: virou mundo.
A coreografia correu solta, com a energia do grupo bem afinada. A Leonor liderava, mas não puxava ninguém à força; ela fazia espaço. Quando o Tomás escorregou num passo, a Yasmin ajustou-se como se estivesse combinado. Quando a Yasmin se adiantou meio segundo, o Rafa marcou o tempo com o corpo e trouxe todo o mundo de volta. E a Leonor, no meio, riu com os olhos, como quem diz: “estamos juntos”.
No final, o público bateu palmas, forte. A Leonor sentiu o peito cheio, como se tivesse engolido um monte de estrelas (sem espinhas).
Nos bastidores, a dona Emília aproximou-se.
— Vocês foram incríveis.
A professora Fátima assentiu.
— E mais: foram tolerantes. Com os erros, com as confusões, com as diferenças. É assim que um grupo cresce.
O Tomás apontou para o microfone, agora seguro.
— O senhor Mi Cro Fone não fugiu desta vez.
A Yasmin riu.
— Porque ele aprendeu que aqui ninguém grita com megafone.
O Rafa levantou a mão para um toque de grupo.
— Equipa?
As quatro mãos juntaram-se no ar. A Leonor olhou para os amigos, e as palavras saíram devagar, mais compridas, como se quisessem ficar ali um pouco.
— Obrigada por dançarem comigo, por me aturarem quando eu invento monstros de cortina e carrinhos vilões, por não se zangarem quando tudo parece confuso… e por rirem comigo. Eu gosto mesmo disto. De nós.
— Nós também — disse o Tomás, simples.
— Muito — disse a Yasmin, com os olhos brilhantes.
— Calma, calma — disse o Rafa, e depois sorriu. — Quer dizer: sim. Muito.
A Leonor espreitou pela cortina para a plateia e fez um gesto rápido com a mão, como um segredo partilhado.
— Cuckoo… coucou!