Parte 1
O pequeno lobo Lico morava numa floresta macia, onde as folhas eram como almofadas verdes. À noite, a lua parecia uma tigela de leite derramado no céu.
Numa tarde calma, Lico viu uma coisa brilhante na relva. Era uma pedrinha que parecia ter guardado um pedaço de sol dentro dela. Ele piscou, e a pedrinha piscou de volta, ou pelo menos parecia.
“És de verdade?”, perguntou Lico, com a voz baixinha, como quem não quer acordar os grilos.
A pedrinha não respondeu. Só brilhou. Brilhou muito.
Então Lico pensou: “Às vezes, o que brilha pode ser verdade. Mas às vezes, só parece.”
Lico decidiu fazer uma pequena viagem, não muito longe, só o suficiente para levar uma pergunta no bolso. Ele queria aprender a diferença entre o que é verdadeiro e o que só parece verdadeiro.
Pelo caminho, uma borboleta azul dançava no ar, como um pedacinho do céu que se esqueceu de voltar.
“Borboleta”, disse Lico, “o que é verdade?”
A borboleta deu uma volta e riu: “A verdade não pesa. Mas ela pousa.”
Lico olhou para as patas. “Então a pedrinha é verdade? Ela pesa.”
A borboleta respondeu: “Nem tudo o que pesa é verdade. E nem tudo o que é leve é mentira.”
Lico coçou a orelha. Aquilo parecia um enigma feito de algodão.
Parte 2
Mais adiante, Lico encontrou um lago. A água era um espelho redondo. Ele viu o seu focinho, as suas orelhas, e viu também duas luas, porque a lua lá em cima e a lua na água pareciam irmãs.
Lico inclinou-se e perguntou à água: “Qual é a lua verdadeira?”
O lago fez umas ondas pequenas, como se desse risadinhas. A lua de baixo tremeu.
“Eu sei!”, disse Lico. “A lua verdadeira é a do céu.”
Nesse momento, um peixe saltou, prateado como uma colher. “E a do lago?”, perguntou o peixe. “Não é verdadeira também, se a vês?”
Lico ficou quietinho. O que ele via era real para os seus olhos. Mas a lua do lago não dava luz no escuro. Era uma imagem, um desenho molhado.
“Então… parece lua, mas não é a lua de verdade”, murmurou Lico.
O peixe abanou a cauda. “Sim. Algumas coisas são reflexos. Bonitos, mas não dão calor.”
Lico olhou para a pedrinha brilhante na sua pata. “E tu? És lua ou és reflexo?”
O lago não respondeu. Só mostrou o céu, e mostrou Lico, e mostrou a pedrinha. Três imagens a boiar.
Aí Lico teve uma ideia simples, do tamanho de uma bolacha. Ele pôs a pedrinha na sombra de uma pedra grande. O brilho ficou mais fraco.
Depois ele levou a pedrinha para junto do sol. O brilho ficou forte outra vez.
“Ah”, disse Lico. “Tu brilhas porque o sol te empresta luz.”
A pedrinha não estava mentindo. Mas também não era um sol.
Parte 3
Quando a noite chegou, Lico voltou para casa. As estrelas pareciam sementes de luz plantadas no céu. Ele deitou-se na sua cama de folhas e segurou a pedrinha.
“Hoje eu aprendi”, sussurrou ele para a escuridão amiga. “A verdade é como uma vela: ela ilumina por dentro. O que só parece é como um espelho: mostra, mas não aquece.”
Uma coruja, pousada num ramo perto, perguntou com humor suave: “E como vais saber, pequeno lobo?”
Lico sorriu. “Eu vou perguntar: isto ajuda? Isto acalma? Isto fica igual quando muda a luz?”
A coruja piscou devagar. “Boa pergunta.”
Lico guardou a pedrinha ao lado do coração. Ela era bonita, e isso também era bom. Mas agora ele sabia: beleza não precisa fingir ser verdade. Pode ser só beleza.
E, com essa ideia quentinha, Lico adormeceu. A lua, a verdadeira, ficou a velar por ele, enquanto o lago lá longe guardava o seu reflexo, sem ciúmes, só feliz por poder mostrar.