Parte 1: A ideia que fazia cócegas no cérebro
Lia era uma jovem inventora com cabelo preso num lápis e bolsos cheios de parafusos que apareciam do nada. Ela morava num bairro bem normal, com padaria cheirando a pão e gatos que fingiam que não ouviam ninguém. Mas, no quarto dela, havia uma mesa de invenções com cola, fita, botões e uma lupa que Lia usava até para olhar… biscoitos.
Nessa manhã, ela abriu o seu caderno de inventora maliciosa e escreveu bem grande: “HOJE VOU CRIAR UMA COISA INCRÍVEL!”
— Uma coisa que ajude e também dê risada! — disse ela, falando com a caneca de chocolate, que parecia prestar atenção.
Lia tinha duas ideias, e as duas pareciam pular no papel.
A primeira ideia era o “Guarda-Chuva Cantor”. Um guarda-chuva que, quando chovia, cantava uma música bem alegre, tipo “plim-plom, ping-ping!”. Assim, ninguém ficava triste na chuva.
A segunda ideia era a “Máquina de Abraços de Bolso”. Um aparelhinho que soltava um abraço quentinho quando a pessoa apertava um botão. Seria ótimo para dias de saudade.
Lia ficou com a ponta da língua de fora, pensando.
— Qual é melhor? — perguntou ela ao gato do vizinho, que estava na janela.
O gato piscou devagar, como se dissesse: “Eu gosto de qualquer coisa que não me molhe.”
Lia riu.
— Tá bom. Vou comparar! O guarda-chuva canta… mas a máquina abraça. Hmm.
Ela desenhou os dois. No desenho, o guarda-chuva tinha uma boquinha sorridente. A máquina de abraços tinha bracinhos de mola e um nariz de botão.
— Se eu escolher errado, tudo bem. Eu posso ajustar! — falou, bem confiante.
E então teve uma ideia que fez “plim!” dentro da cabeça dela:
— E se eu fizer os dois… juntos?
Parte 2: O protótipo mais atrapalhado do bairro
Lia juntou coisas simples: um guarda-chuva velho, um pequeno rádio de brinquedo, duas molas, uma meia fofinha, um botão grande e muita fita adesiva. Muita mesmo. Tanta fita que até a fita começou a grudar na própria fita.
Ela chamou a sua vizinha e amiga, Bia, que era ótima em segurar peças e em dar ideias engraçadas.
— Bia, vem co-criar comigo! — pediu Lia. — Preciso de mãos extras e de risadas.
Bia chegou com um elástico no cabelo e uma expressão de “isso vai dar muito certo… ou muito cócega”.
— O que vamos inventar?
— Um Guarda-Chuva que canta e dá abraço. Um “Guarda-Abracinho Cantor”! — anunciou Lia.
Bia arregalou os olhos e abriu um sorriso.
— Parece uma coisa que a chuva nem vai entender!
As duas começaram. Lia colocou o rádio no cabo do guarda-chuva. Bia segurou as molas como se fossem macarrões saltitantes.
— Cuidado, mola tem personalidade! — avisou Bia.
— Eu sei. Elas pulam de alegria — disse Lia.
Quando Lia apertou o botão para testar o som, o rádio fez “Piiiii!” bem fininho e, ao mesmo tempo, uma mola escapou e fez cócegas no nariz de Bia.
— ATCHIM! — espirrou Bia, e o espirro abriu o guarda-chuva sozinho.
PLOFT!
O guarda-chuva abriu tão rápido que a meia fofinha voou e caiu na cabeça de Lia como um chapéu torto.
As duas ficaram paradas um segundo… e depois começaram a rir.
— Pelo menos ele reage rápido! — disse Lia, com a meia pendurada na orelha.
— Ele é um guarda-chuva surpresa! — completou Bia.
Elas tentaram de novo, com calma. Lia ajustou o rádio para uma música suave. Bia prendeu as molas com mais fita e colocou a meia por dentro, para virar “almofadinha de abraço”.
— Agora, quando apertar o botão, ele canta e as molas fecham um pouquinho, tipo abraço — explicou Lia.
— Um abraço educado, sem apertar demais — disse Bia.
Elas testaram. O guarda-chuva cantou uma musiquinha: “la-la-la, plic-plic-pli!” E as molas puxaram…
Só que puxaram o guarda-chuva para baixo, como se ele quisesse abraçar o chão.
— Opa! Ele está abraçando a calçada! — gritou Bia.
— Calçada também merece carinho — respondeu Lia, tentando segurar o cabo.
De repente, passou um senhor com um saco de pão. O guarda-chuva, bem na hora, cantou mais alto. O senhor olhou e sorriu.
— Que guarda-chuva simpático! — disse ele, e continuou andando, rindo baixinho.
Lia e Bia se olharam. Mesmo com trapalhada, estava funcionando… um pouco.
— Falta só o abraço abraçar gente, não chão — disse Lia.
— Então vamos co-criar uma trava! — sugeriu Bia. — Uma pecinha que impede ele de descer demais.
Elas acharam um prendedor de roupa. Simples, comum, perfeito. Lia prendeu o prendedor no cabo como “freio de abraço”.
— Agora, abraça até aqui e para — explicou Lia.
— Prendedor herói! — comemorou Bia.
Parte 3: A chuva, o show e o sorriso por dentro
No fim da tarde, o céu ficou cinza e começou a cair uma chuvinha fininha, daquelas que parecem cócegas no rosto. Era a hora do teste de verdade.
Lia e Bia foram para a calçada, debaixo de uma árvore. Havia poças pequenas brilhando como espelhos.
— Preparada? — perguntou Bia.
— Preparadíssima — respondeu Lia, segurando o “Guarda-Abracinho Cantor” com cuidado, como se fosse um bichinho curioso.
Lia apertou o botão.
O guarda-chuva abriu com calma, sem susto. Começou a tocar uma música alegre, bem baixinha: “plim-plom, ping-ping, la-la-lá!” A chuva batia no tecido e fazia ritmo junto.
— Ele está cantando com a chuva! — disse Bia.
E então Lia puxou o cabo um pouquinho, para perto do peito. As molas fecharam devagar, e a almofadinha de meia encostou no braço dela.
Era um abraço leve, quentinho e engraçado. Um abraço que parecia dizer: “Ei, você está indo bem!”
Uma menina pequena passou correndo e parou para olhar.
— O guarda-chuva tá cantando? — perguntou, com os olhos brilhando.
— Tá sim — disse Lia. — E também dá abraço… mas bem de leve.
A menina deu risada.
— Posso ouvir de perto?
Bia fez um gesto de “claro!”, e Lia abaixou o guarda-chuva um pouquinho. A música continuou, e a chuva fez “tic-tic” como aplauso.
Logo, outras pessoas pararam: uma senhora com sacolas, um rapaz com casaco azul, até o gato da janela (que fingiu que não ligava, mas ficou olhando).
Bia teve uma ideia:
— Lia, e se ele tiver “modo amizade”? Tipo, quando alguém está triste, ele toca uma música mais animada.
— Boa! — disse Lia. — E se tiver “modo silêncio” para quando alguém quer só ouvir a chuva.
Lia anotou no caderno, mesmo com gotinhas molhando a página.
— Co-criação é isso — falou ela. — Você dá uma ideia, eu dou outra, e a invenção fica mais esperta.
Bia assentiu.
— E mais divertida.
O guarda-chuva, como se entendesse, mudou a música sozinho por um segundo e fez um “plim!” bem engraçado, como um soluço musical. Todo mundo riu. Até o senhor do pão, que tinha voltado porque esqueceu a carteira.
A chuva parou devagar. O céu clareou um pouco. Lia fechou o guarda-chuva e olhou para ele com carinho.
Não tinha ficado perfeito. Tinha fita aparecendo. Tinha um prendedor de roupa que parecia um nariz torto. Mas funcionava. E, principalmente, tinha sido feito junto.
Lia sentiu um calorzinho bom, bem no peito, como se a máquina de abraços de bolso tivesse apertado um botão invisível.
Ela guardou o caderno, respirou fundo e fez um sorriso por dentro.