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História sobre o dia das mães 9 a 10 anos Leitura 11 min.

O dia em que o céu caiu em estrelinhas

Leonor prepara uma surpresa de Dia da Mãe com um cartão e um desenho, enfrenta pequenos contratempos e descobre que o carinho e a verdade valem mais do que a perfeição.

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Menina de 10 anos, rosto redondo com sardas e cabelos castanho-claro em duas tranças, expressão alegre e um pouco nervosa, estende com as duas mãos um grande cartão amarelo decorado com estrelas brilhantes e um desenho para a mãe; a mãe, mulher de cerca de 35 anos, cabelos castanhos médios, sorriso terno e olhos brilhantes, sentada num sofá claro, inclina-se emocionada para receber o presente; no chão, o gato Pingo, tigrado cinza e ruivo, com uma estrela brilhante numa pata, observa curioso; sala com chão de madeira clara, algumas estrelas brilhantes espalhadas como confetes, uma mesa com uma chávena e desenhos infantis na parede, luz quente entrando pela janela, cena de entrega de presente do Dia das Mães, íntima e acolhedora. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: Um plano que cabe no bolso

A Leonor tinha 10 anos e um olhar esperto, daqueles que parecem estar sempre a resolver um mistério invisível. Naquela manhã, a casa cheirava a pão torrado e a domingo, e a mãe andava pela cozinha a arrumar coisas com o jeito calmo de quem segura o mundo sem fazer barulho.

Leonor encostou-se à mesa, tirou um caderno da mochila e, com muita solenidade, escreveu no canto da página: 5 de maio. Fez questão de sublinhar duas vezes, como se a data pudesse fugir.

Era Dia da Mãe.

Ela queria fazer uma surpresa. Mas uma surpresa a sério, não só “dou-te um beijo e pronto”. A mãe merecia um dia com brilhinhos, desses que ficam na memória como purpurinas difíceis de tirar.

Leonor abriu a gaveta das canetas e encontrou… quase nada. Uma caneta sem tampa, um lápis pequenino e um marcador que cheirava a melancia, mas já não pintava.

“Hoje vamos improvisar com respeito e com estilo”, murmurou para si mesma, como se fosse uma apresentadora de um programa secreto.

O problema era simples: ela tinha ideias, mas não tinha materiais. E uma ideia sem materiais é como um bolo sem farinha: fica muito bonito de imaginar, mas não dá para morder.

Capítulo 2: A missão da papelaria

Depois do pequeno-almoço, Leonor pediu para ir “dar uma volta rápida”. A mãe assentiu, com aquele olhar de quem confia — e confiança, Leonor sabia, era um presente grande. Por isso, prometeu a si mesma não fazer asneiras, nem atravessar sem olhar, nem gastar mais do que podia.

No caminho, o vento brincava com o seu cabelo, e ela caminhava depressa, como se a rua fosse um tapete rolante a favor.

A papelaria ficava na esquina, com uma montra cheia de cadernos coloridos e canetas alinhadas como soldadinhos. O sino da porta fez “trin-trin” e Leonor sentiu-se a entrar num lugar mágico onde as coisas nascem em branco e podem virar qualquer coisa.

A senhora da papelaria, a Dona Salomé, tinha óculos pendurados por uma corrente e um sorriso que parecia conhecer todas as crianças do bairro.

“Bom dia, Leonor! Chegas com ar de quem vem salvar o mundo.”

“Quase isso”, disse Leonor, com um sorriso tímido. “É Dia da Mãe.”

“Aaaah… então precisamos de coisas importantes: papel bonito, cola que não cole dedos para sempre, e talvez uma fita que faça ‘uau'.”

Leonor riu. “A cola que não cole dedos existe mesmo?”

“Existe… mas às vezes finge que não.”

Leonor escolheu uma cartolina cor-de-sol, uns autocolantes em forma de coração, uma caneta preta nova (com tampa, o que parecia luxo) e um saquinho de brilhantes que, segundo a embalagem, eram “estrelinhas”. Na verdade, pareciam migalhas de estrelas, o que ainda era melhor.

Ao pagar, contou as moedas uma a uma, com cuidado. Respeitar o dinheiro era também respeitar o esforço da mãe. E isso importava.

A Dona Salomé colocou tudo num saco e piscou o olho. “Faz a tua mãe sentir-se rainha.”

“Vou tentar que ela se sinta… universo inteiro”, respondeu Leonor, e saiu com o saco apertado ao peito, como se carregasse um segredo a bater palmas.

Capítulo 3: A oficina secreta da Leonor

Em casa, Leonor transformou o seu quarto numa oficina. Empurrou livros para o lado, limpou a secretária e avisou o gato, o Pingo, que ali não era zona de deitar bigodes em cima dos autocolantes.

O Pingo bocejou, ofendido, e deitou-se mesmo ao lado, com ar de fiscal.

Leonor abriu o caderno outra vez e, no canto de uma nova página, escreveu a data de novo: 5 de maio. Só para não haver dúvidas. Aquilo era um dia importante, e ela gostava de marcar o tempo como quem prende um balão com uma fita.

Começou a cortar a cartolina. Queria fazer um cartão que abrisse como uma janela. Só que a tesoura decidiu fazer curvas onde devia haver linhas direitas. O resultado ficou… artístico.

“Pronto. Isto é um estilo moderno”, disse Leonor ao Pingo. O gato piscou os olhos, como quem diz: moderno e torto são parentes.

Ela colou as estrelinhas com cuidado, tentando não as espalhar pelo chão. Mesmo assim, uma estrela colou-se à ponta do nariz e Leonor só reparou quando se viu ao espelho e pareceu, por um segundo, uma galáxia com sardas.

No cartão, escreveu com a caneta nova, devagar, para não borrar:

“Mãe, obrigado por fazeres do nosso dia um lugar seguro.

Obrigado por ouvires, por ajudares, por rires comigo.

Eu amo-te daqui até ao sítio onde as nuvens guardam segredos.”

Depois, acrescentou uma frase mais engraçada, porque a mãe adorava rir:

“E prometo tentar não deixar meias no sofá… pelo menos hoje.”

Leonor parou, leu tudo em voz baixa e sentiu um aperto bom no peito, como quando a música certa toca no momento certo.

Agora faltava o mais difícil: fazer com que a mãe recebesse aquilo sem perceber antes. A mãe tinha o superpoder de adivinhar coisas. Às vezes, Leonor achava que ela tinha antenas escondidas no cabelo.

Capítulo 4: Um pequeno susto e um grande abraço

Leonor esperou pela tarde. A mãe estava na sala a dobrar roupa, e Leonor andava pela casa como um espião desajeitado, tentando esconder o cartão atrás das costas, atrás de almofadas, atrás do próprio corpo — o que era difícil, porque ela não era propriamente uma cortina.

Quando a mãe se levantou para ir buscar mais roupa, Leonor tentou correr para o quarto. Mas o Pingo, o fiscal, escolheu esse momento para atravessar o corredor com a elegância de um tapete em movimento.

Leonor tropeçou. O saco com os brilhantes abriu-se. E as “estrelinhas” espalharam-se pelo chão como um céu a cair.

Por um segundo, Leonor ficou parada, olhos arregalados, coração aos pulos. Ia fazer barulho, ia estragar tudo, ia…!

A mãe apareceu à porta.

O olhar da mãe passou do chão brilhante para a cara da Leonor, que estava com uma estrela colada na bochecha, como um sinal de rendição.

Leonor respirou fundo. Respeito também era dizer a verdade.

“Mãe… eu… eu estava a fazer uma surpresa. Para hoje. E o céu caiu.”

A mãe olhou de novo para o chão e depois começou a rir. Um riso leve, com amor no meio, como mel.

“O céu caiu… mas caiu bonito.”

Leonor mordeu o lábio, sem saber se ria ou se chorava. A mãe agachou-se e começou a ajudar a apanhar as estrelinhas, uma a uma, com paciência.

“Desculpa, mãe. Queria que fosse perfeito.”

A mãe colocou uma estrelinha na palma da mão da Leonor. “Perfeito é quando existe intenção e carinho. O resto… são brilhos pelo caminho.”

Leonor sentiu o rosto quente. “Então… ainda é surpresa?”

A mãe fingiu pensar. “Depende. Vais esconder melhor do que um gato a esconder-se atrás de um vaso?”

O Pingo, como se tivesse sido chamado, meteu-se dentro de uma caixa vazia e ficou com a cauda de fora.

Leonor riu, aliviada, e deu um abraço apertado na mãe, daqueles que dizem “obrigada” sem precisar de palavras.

“Agora vai, artista”, disse a mãe. “Eu faço de conta que não vi nada… além do céu.”

Capítulo 5: O desenho pendurado

Mais tarde, Leonor pediu à mãe para se sentar no sofá “como uma rainha em dia de festa”. A mãe aceitou, cruzando as pernas e levantando o queixo, a brincar, como se tivesse uma coroa invisível.

Leonor apareceu com o cartão e, atrás dele, uma folha de desenho. A folha tinha no canto, escrito com letra pequena e caprichada: 5 de maio. Leonor gostava dessa marca. Era como assinar o momento.

“Pronto”, disse ela, entregando primeiro o cartão.

A mãe abriu devagar. Os olhos dela passearam pelas palavras, e o sorriso foi ficando mais macio. Quando chegou à parte das meias no sofá, soltou uma gargalhada curta e carinhosa.

“Leonor…” A mãe respirou fundo, como quem guarda uma coisa preciosa dentro do peito. “Isto é tão teu. E tão bonito.”

Leonor estendeu a folha de desenho. Era um retrato da mãe na cozinha, com um avental e uma colher na mão, mas com uma capa de super-heroína a esvoaçar. Ao lado, Leonor desenhou-se pequena, com uma lupa, como se investigasse o mundo para o entender melhor. E o Pingo aparecia com uma cauda enorme, parecida com um ponto de exclamação.

No topo, Leonor escreveu: “A minha mãe faz magia com coisas simples.”

A mãe passou o dedo pelo papel, com cuidado, como se tocasse numa fotografia viva. “Posso pendurar?”

“Deves”, disse Leonor, muito séria. “É obrigatório por lei do Dia da Mãe.”

“Ah, é? E quem fez essa lei?”

“A Assembleia das Filhas Espertas”, respondeu Leonor, e tentou não rir.

A mãe levantou-se, pegou numa fita adesiva e foi até ao corredor, onde já havia alguns desenhos antigos, como uma pequena galeria da vida. Escolheu um lugar bem à vista, ao lado da porta.

Quando o desenho ficou pendurado, parecia iluminar o corredor, como se tivesse uma janela por dentro.

A mãe voltou e puxou Leonor para um abraço demorado. “Obrigada por me veres. Por me respeitares. Por me amares com os teus jeitos.”

Leonor encostou a cabeça ao ombro da mãe. “Obrigada por seres o meu lugar seguro.”

E naquele dia, com o desenho a sorrir na parede e o céu em estrelinhas já arrumado, a casa ficou ainda mais casa.

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Solenidade
Atitude séria e importante, como quando se faz algo com muito respeito.
Improvisar
Fazer algo sem planejar, usando o que se tem à mão.
Papelaria
Loja onde se vendem papel, canetas, cadernos e material para escrever.
Montra
A parte da frente da loja onde se mostram os produtos para quem passa.
Autocolantes
Figurinhas adesivas que se colam em papel ou em outros objetos.
Cartolina cor-de-sol
Folha grossa de papel com cor amarela, usada para trabalhos manuais.
Oficina
Lugar onde se faz um trabalho com as mãos, como cortar e colar papéis.
Espião desajeitado
Pessoa que tenta esconder-se e falha um pouco, sem jeito para isso.

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