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História sobre o medo do escuro 11 a 12 anos Leitura 12 min.

O detetive da noite e o mapa do escuro

Tomás, um menino com medo do escuro, cria com os pais estratégias — uma luz suave, um “mapa do escuro” e uma sequência de passos — para conhecer e enfrentar as sombras do seu quarto.

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Garoto de 12 anos, aliviado e concentrado, cabelos castanhos despenteados, sentado na cama com uma pequena lanterna que projeta um círculo quente de luz nas mãos; mãe cerca de 35 anos, sorriso gentil, de pé no batente à esquerda da cama, mão no marco; pai cerca de 38 anos, tranquilo e afetuoso, encostado na parede olhando o filho; quarto infantil em tons azul-pálido com luz suave do abajur, estante com livros, tapete geométrico e janela com chuva; cena principal: a lanterna como ponto de segurança para o garoto enquanto os pais vigiam, atmosfera calorosa e reconfortante, contraste entre o círculo luminoso e o resto do quarto mais escuro. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A sombra no corredor

O Tomás tinha 11 anos e uma imaginação rápida demais para a hora de dormir. De dia, era fácil: futebol na rua, trabalhos de casa, risos na cozinha. À noite, o mundo mudava de volume. As coisas ficavam mais silenciosas… e as sombras pareciam crescer.

Naquela terça-feira, ele desligou a luz do quarto e, como sempre, o corredor ficou com um brilho fraco vindo da sala. Era pouco. Um tapete enrolado virou “um bicho deitado”. O cabideiro virou “um homem magro” que não sabia onde pôr os braços.

Tomás puxou o lençol até ao queixo. Tentou brincar com a ideia:

“Se o cabideiro falasse, aposto que só pedia um casaco novo.”

Mas a garganta ainda assim apertou.

A mãe espreitou pela porta, com o cabelo preso de qualquer maneira e um sorriso cansado.

— Tudo bem por aí?

— Mais ou menos… — Tomás confessou. — Parece que o escuro fica… mais escuro do que devia.

A mãe sentou-se na beira da cama.

— O escuro é só falta de luz. Mas eu sei: a cabeça às vezes inventa personagens. Amanhã pensamos num plano. Combinado?

Tomás assentiu. Um plano soava melhor do que “aguenta e pronto”.

Antes de sair, a mãe apontou para a mesa de cabeceira, onde estava uma lampinha pequena.

— Esta luz é tua aliada. E aliados podem melhorar.

Tomás franziu a testa.

— Melhorar como?

— Já vais ver.

Nessa noite, ele demorou a adormecer, mas repetiu para si mesmo, baixinho: “O escuro é só falta de luz.” Soava simples. Quase como uma senha secreta.

Capítulo 2 — O plano do “detetive da noite”

No dia seguinte, Tomás chegou da escola com uma ideia colada na cabeça. Na aula de Ciências tinham falado sobre olhos, pupilas e como a visão se adapta. Isso parecia… útil.

À mesa do lanche, ele atirou:

— Mãe, os olhos precisam de tempo para se habituar à escuridão. Tipo… uns minutos.

O pai levantou a sobrancelha.

— Ora, ora. O professor Tomás apareceu.

Tomás fez pose séria.

— Não gozem. É investigação.

A mãe riu.

— Investigação é ótimo. Então vamos ser “detetives da noite”. Hoje, em vez de fugir do escuro, vamos conhecê-lo.

— Conhecer o escuro? — Tomás torceu o nariz. — Ele não dá entrevistas.

— Dá, dá. Só não usa microfone. — A mãe apontou para uma caixa em cima do armário. — E já sei por onde começamos.

Ela pôs a caixa na mesa. Lá dentro havia retalhos de tecido, um pedaço de papel vegetal, fita cola, cordel e marcadores.

— A tua lâmpada precisa de um abat-jour suave — disse ela. — Uma luz mais macia. Menos “pum!” e mais “ah…”.

O pai acrescentou:

— E sem monstros. A única coisa monstruosa aqui é a minha letra, quando escrevo listas.

— Confirmo — disse a mãe. — Já vi essa caligrafia. Parece pegadas de galinha.

Tomás soltou uma gargalhada. O riso foi como abrir uma janela.

— Então… fazemos o abat-jour hoje? — perguntou.

— Hoje — respondeu a mãe. — E depois criamos um ritual. Uma sequência. O cérebro gosta de saber o que vem a seguir.

Tomás gostou daquela palavra: sequência. Parecia uma escada. E escadas ajudam a subir o medo.

Capítulo 3 — O abat-jour de luz mansa

À tarde, espalharam tudo no chão da sala. O Tomás escolheu um tecido azul-claro, quase da cor do céu quando começa a escurecer. Não era noite total. Era “quase”.

— Quero que pareça um crepúsculo — disse ele, orgulhoso.

— Uau — respondeu o pai. — Um abat-jour poético. Quem diria.

A mãe mostrou como medir à volta da base da lâmpada e cortar o tecido sem ficar torto. Tomás tentou, claro, e ficou torto na mesma.

— Isto está a fugir — reclamou.

— O tecido não foge — o pai respondeu. — Ele só… dança.

— Então eu vou ser o DJ — disse Tomás, a segurar a fita cola como se fosse um microfone.

Fizeram uma estrutura simples com papel vegetal, para espalhar melhor a luz, e depois colaram o tecido por fora. Tomás desenhou pequenas estrelas com marcador prateado. Não eram estrelas brilhantes demais; eram discretas, como quem diz “estou aqui, mas não vou fazer barulho”.

Quando ligaram a lâmpada, a sala ganhou um brilho suave. A luz não cortava o escuro; misturava-se com ele, como leite no café.

Tomás aproximou a mão do abat-jour.

— Parece… mais quente.

— Porque está mais difusa — explicou a mãe. — Menos sombras duras.

O pai apontou para a parede:

— Vês? O cabideiro já não parece um “homem magro”. Parece… um cabideiro. Que, sinceramente, é o que ele sempre foi.

Tomás riu.

— E eu sempre fui eu.

Mais tarde, no quarto, colocaram a lâmpada no sítio certo. A mãe sugeriu:

— Vamos escolher também um “canto seguro”: uma parte do quarto que fica sempre arrumada. Quando a mente começa a inventar coisas, tu olhas para lá e lembraste: “Aqui está tudo sob controlo.”

Tomás escolheu a estante. Pôs os livros alinhados e deixou o estojo em cima.

— Este é o meu posto de comando — declarou.

A luz mansa ficou ligada por uns minutos, só para “apresentar” o novo abat-jour ao quarto.

Capítulo 4 — O mapa do escuro

Nessa noite, antes de apagar a luz principal, a mãe entregou ao Tomás um caderno.

— Vamos fazer uma coisa: um mapa do escuro. Não é mapa de tesouro. É mapa de realidade.

Tomás abriu na primeira página.

— Como assim?

— Escreve o que te assusta e, ao lado, o que é de verdade.

Ele respirou fundo e escreveu:

“Som no corredor”“o frigorífico a trabalhar / o prédio a mexer”.

“Sombra grande na parede”“cadeira com camisola”.

“Porta a chiar”“dobradiça precisa de óleo”.

— E se eu não souber o que é? — perguntou.

— Então investigas com calma. — A mãe apontou para uma pequena lanterna. — Ferramenta número um.

O pai apareceu à porta com um frasco.

— Ferramenta número dois: óleo para a dobradiça. O herói da noite cheira a… garagem.

Tomás fez cara de nojo.

— Que perfume horrível.

— É o cheiro da coragem — disse o pai, a piscar o olho.

Mais tarde, já na cama, Tomás ouviu um “toc… toc” suave.

O coração saltou.

Ele pegou na lanterna, acendeu e apontou para o canto. Nada. Apontou para a janela. A cortina mexia um pouco.

— Ah… vento — murmurou.

Ele escreveu no mapa:

“toc toc na janela”“cortina a bater no caixilho”.

Não era magia. Era lógica. E isso ajudou.

A mãe apagou a luz principal, deixou só a lâmpada com o abat-jour suave.

— Agora, um minuto para os olhos se adaptarem — lembrou ela. — Sem pressa.

Tomás contou mentalmente, devagar. Ao fim de um minuto, o quarto não parecia um abismo. Parecia… um quarto à noite.

Capítulo 5 — A sequência dos cinco passos

No dia seguinte, Tomás decidiu que precisava de um ritual fixo. Algo que acontecesse sempre, como uma música antes do jogo.

Ele escreveu numa folha e colou na parede do “posto de comando”:

1) Arrumar três coisas.

2) Beber um copo de água.

3) Luz suave ligada.

4) Respiração: 4 tempos a inspirar, 4 a expirar.

5) Uma frase calma.

À noite, ele começou.

Arrumou as meias para o cesto, fechou o estojo, alinhou um livro que estava torto. Três coisas. Simples.

Bebeu água. Não muita, para não ter de ir à casa de banho com o corredor “dramático”.

Ligou a luz suave. O abat-jour azul fez o quarto parecer mais macio.

Deitou-se e começou a respirar como a mãe ensinara.

Inspira: um, dois, três, quatro.

Expira: um, dois, três, quatro.

O pai, da porta, sussurrou:

— Isso parece treino de astronauta.

Tomás respondeu, sem abrir os olhos:

— Estou a preparar-me para a missão “Dormir em Paz”.

— Missão importante — concordou o pai.

Por fim, Tomás disse a frase calma, bem devagar:

“Eu estou seguro. O meu quarto é conhecido. O escuro é só silêncio com pouca luz.”

Houve um estalo na casa, daqueles de madeira a ajustar.

Tomás abriu um olho, quase automático.

Depois olhou para o mapa do escuro, na mesa.

“Estalo”“casa a mexer”.

Ele sorriu, como quem marca um ponto.

A ansiedade não desapareceu como por encanto. Mas diminuiu, como uma onda que recua.

Capítulo 6 — A noite em que o escuro ficou amigo

Uma semana passou. Tomás já não corria para a cama como se estivesse a fugir de um filme de terror. Ele andava mais devagar. Às vezes ainda sentia aquele friozinho no peito, mas agora tinha ferramentas: luz suave, lanterna, mapa, sequência.

Numa noite de chuva, a eletricidade falhou por um instante. A lâmpada apagou-se. O quarto ficou mesmo escuro, do tipo “não vejo a ponta do nariz”.

Tomás sentiu o corpo todo ficar tenso. O medo veio rápido, como um gato a saltar para o colo sem pedir licença.

Ele engoliu em seco. Depois lembrou-se: “Sequência.”

Pegou na lanterna da gaveta e acendeu. Um círculo de luz apareceu. Pequeno, mas suficiente.

— Mãe? — chamou, com voz firme o bastante.

— Estou aqui! — respondeu ela do corredor. — Foi só um pico. Já volta.

Tomás apontou a lanterna para a estante, o “posto de comando”. Os livros estavam lá. O mundo não tinha mudado. Só a luz.

A eletricidade voltou. A lâmpada acendeu de novo, com o abat-jour azul. A luz mansa parecia dizer: “Vês? Eu volto.”

A mãe entrou e sentou-se ao lado dele.

— Como foi?

Tomás pensou um segundo, honestamente.

— Assustador… mas eu consegui. Usei a lanterna. Respirei. Não inventei um monstro para cada canto.

— Isso é crescer — disse a mãe. — Não é nunca ter medo. É saber o que fazer quando ele aparece.

O pai apareceu com uma cara séria demais.

— Comunico que o cabideiro continua inocente.

Tomás riu, e a risada soltou o resto da tensão.

A mãe ajeitou o cobertor.

— Vamos fechar o dia com o teu final favorito.

Tomás assentiu. Apagaram a luz principal. Ficou só o brilho suave. Ele fez a respiração uma última vez, bem devagar. E, quando o ar saiu, soltou um sopro comprido e tranquilo, como se apagasse uma vela invisível dentro do peito.

O quarto ficou quieto. O escuro já não parecia um inimigo. Parecia apenas a noite a fazer o seu trabalho: guardar o mundo para o dia seguinte.

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Imaginação
Capacidade de criar imagens, ideias ou histórias na cabeça, sem ser real agora.
Corredor
Espaço longo dentro da casa que liga os quartos e outras divisões.
Cabideiro
Peça para pendurar casacos e chapéus, normalmente com ganchos verticais.
Abat-jour
Capa que se põe à volta da lâmpada para deixar a luz mais suave e menos direta.
Difusa
Quando a luz ou a imagem não tem contornos nítidos, fica espalhada e suave.
Crepúsculo
Momento do dia entre o fim do sol e a noite, com luz fraca e colorida.
Pupilas
Pequenos círculos escuros no centro dos olhos que mudam de tamanho com a luz.
Dobradiça
Pequena peça de metal que junta a porta ao batente e permite abrir e fechar.
Posto de comando
Lugar organizado onde se guardam as coisas importantes para sentir controlo.
Sequência
Ordem de passos que se faz sempre igual, como um ritual ou rotina.
Mapa do escuro
Lista ou desenho que mostra o que causa medo no escuro e o que realmente é.
Frigorífico
Grande aparelho na cozinha que mantém os alimentos frescos e frios.
Estalo
Som seco e curto que a casa ou objetos fazem quando mudam de temperatura.
Assustador
Algo que causa medo ou faz o coração bater mais rápido.

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