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História sobre a escola 7 a 8 anos Leitura 10 min.

O conselho do erro útil e o “o” da coragem

Marta, uma aluna que teme errar, participa num Conselho de Turma onde, entre partilhas e uma ideia chamada “erro útil”, começa a confrontar o medo da perfeição e a aprender a falar sobre isso com os colegas.

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Menina de 8 anos, cabelo castanho em rabo de cavalo, rosto redondo com sardas, expressão tímida e orgulhosa, segura um marcador azul e escreve numa grande cartaz deixando um "o" muito grande visível; mulher adulta, professora de 30–40 anos, cabelo curto e sorriso suave, ao lado da mesa com a mão no ombro da menina em gesto tranquilizador; menino de 8 anos (João), cabelo preto bagunçado e olhar malicioso mas afetuoso, sentado um pouco atrás a aplaudir discretamente; sala do Clube de Ciências com grande mesa de madeira, frascos vazios, lupas, posters de planetas, planta no parapeito, luz quente e sombras suaves; cena centrada no cartaz colorido e no "o" visível, borracha gasta ao lado, atmosfera calma em cores pastel e formas arredondadas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A Marta e o caderno sem manchas

A Marta tinha 7 anos e uma mochila que parecia sempre organizada por magia. Na verdade, não era magia: era a própria Marta. Ela gostava de alinhar os lápis por cor, de apagar qualquer risquinho e de escrever o nome no caderno com letras redondinhas, todas do mesmo tamanho.

Naquela manhã, na escola, a professora tinha escrito no quadro: “Hoje há Conselho de Turma”. A Marta leu, engoliu em seco e endireitou-se na cadeira. Conselho de Turma era uma reunião pequena, na sala, para falar do que estava a correr bem e do que podia melhorar. Não era teste, nem castigo. Mesmo assim, a Marta sentiu um friozinho na barriga, como quando o leite no copo ameaça entornar.

Ela era aplicada e gostava de fazer tudo certinho. Só que, às vezes, isso deixava-a cansada. Quando o colega ao lado deixava cair migalhas da bolacha, ela ficava a olhar para o chão como se as migalhas fossem pedrinhas no sapato do mundo.

A professora aproximou-se e disse com voz tranquila: “Hoje vamos treinar coragem de um jeito diferente. Coragem para falar, para ouvir e para tentar melhorar juntos.”

A Marta pensou: coragem? Eu faço os trabalhos todos! Mas percebeu que havia outro tipo de coragem, uma coragem que não se mede com lápis bem afiados.

Na hora do intervalo, ela ouviu que o Conselho ia acontecer numa sala especial, reservada ao Clube das Ciências. A Marta gostava da ideia. O Clube tinha frascos vazios, lupas, cartazes com planetas e até uma planta pequena numa janela. Era uma sala que cheirava a papel e curiosidade.

Mesmo assim, quando voltou para a sala de aula, ela segurou o caderno com força, como se o caderno fosse um escudo. Não queria dizer nada errado. Não queria que alguém achasse a sua ideia “tonta”. E, acima de tudo, não queria que o Conselho ficasse… imperfeito.

Capítulo 2: A sala do Clube das Ciências

Depois do almoço, a turma caminhou em fila até à sala do Clube das Ciências. As cadeiras foram colocadas em círculo, e isso deixou a Marta um pouco surpresa. Em círculo, dava para ver toda a gente, e toda a gente podia ver a Marta. Ela ajeitou a saia e sentou-se com as mãos bem pousadas nos joelhos.

No centro, a professora colocou um papel grande com três colunas: “O que gostamos”, “O que é difícil”, “Ideias para melhorar”. Depois deu um sorriso que parecia um cobertor quentinho.

“Vamos começar pelo que gostamos”, disse ela.

Algumas crianças falaram de coisas simples: o recreio, as histórias, os trabalhos em grupo. A Marta queria falar que gostava quando a turma ficava em silêncio para ler, porque o silêncio parecia uma piscina calma. Mas ficou quieta, à espera do momento perfeito.

Quando passaram para “O que é difícil”, o Tomás levantou a mão e contou que se perdia nas contas quando toda a gente falava ao mesmo tempo. A Inês disse que ficava triste quando alguém ria do desenho dela.

A Marta sentiu o coração bater mais rápido. Ela sabia uma coisa que era difícil, mas tinha vergonha de dizer: ela ficava nervosa quando cometia erros. Um erro pequeno, como escrever “caza” em vez de “casa”, podia estragar o dia inteiro. E, às vezes, ela apagava tanto que a folha ficava fina e cheia de buracos, como queijo.

A professora olhou para o círculo, com paciência. “Mais alguém?”

A Marta levantou a mão devagar, como se a mão fosse um balão que podia fugir.

“Eu… eu fico muito preocupada quando não está perfeito”, disse, com a voz baixinha. “Às vezes apago tanto que faço um buraco. E depois fico com vontade de começar tudo de novo.”

Houve um silêncio. Mas não foi um silêncio pesado. Foi um silêncio de atenção. O João, que costumava mexer nos atacadores, olhou para ela e disse: “Eu também apago muito. A minha borracha já parece uma pedrinha!”

Alguns riram, mas foi um riso amigo. A Marta sentiu as bochechas quentes e, ao mesmo tempo, um alívio a espalhar-se como chocolate morno.

A professora escreveu na coluna “O que é difícil”: “Medo de errar” e “Querer tudo perfeito”. Depois perguntou: “Ideias para melhorar?”

A Marta não tinha planeado falar outra vez, mas uma ideia apareceu, pequenina, na cabeça: e se a turma tivesse um jeito combinado para lidar com erros?

“Podíamos ter… uma regra do ‘erro útil'”, disse ela, mais confiante. “Tipo… errar e depois aprender com isso, sem gozar.”

A professora sorriu ainda mais. “Adorei. O erro útil é como uma pista. Mostra onde podemos crescer.”

O círculo continuou. Falaram de pedir a palavra, de ajudar quem fica para trás, de manter a sala arrumada sem virar uma obsessão. A Marta ouviu tudo com atenção. E, pela primeira vez, percebeu que o Conselho não era para encontrar culpados, mas para construir uma turma mais tranquila, como quem arruma uma manta para caberem todos.

Capítulo 3: Um cartaz e uma borracha cansada

No fim do Conselho, a professora teve uma ideia: fazer um cartaz para a sala, com as combinações. O cartaz ia ser feito no Clube das Ciências, porque lá havia uma mesa grande e marcadores coloridos.

A Marta adorou a tarefa e, ao mesmo tempo, ficou alerta. Um cartaz na parede era uma coisa importante. Se ficasse torto? Se a letra ficasse feia?

Ela escolheu um marcador azul e começou a escrever: “Na nossa turma, os erros ajudam a aprender.” Escreveu devagar, medindo o espaço com os olhos. Só que, no meio, a letra “o” saiu um pouco maior. Um “o” redondo demais, como uma bolacha grande.

A Marta parou. A vontade de apagar veio forte. Quase conseguia ouvir a borracha a chamar por ela.

A professora aproximou-se e perguntou baixinho: “O que está a acontecer, Marta?”

A Marta apontou para o “o” gigante. “Está… estranho.”

A professora inclinou a cabeça. “Está diferente. E sabes? Diferente também pode ser bonito. Mas tu decides: queres ajustar ou queres seguir em frente?”

A Marta pensou na regra do erro útil, que tinha sido ideia dela. Se ela apagasse tudo, ia estar a dizer que o erro era um monstro. Se ela continuasse, ia estar a dizer que o erro era só… um passo.

Ela respirou fundo. “Vou seguir.”

E seguiu. Escreveu a frase inteira. Depois, em baixo, acrescentou: “Falamos com respeito.” E: “Pedimos ajuda quando precisamos.” O “o” grande continuou lá, a sorrir no meio da frase, como se fosse uma bolacha a lembrar que ninguém é feito à régua.

Quando o cartaz ficou pronto, a turma aplaudiu baixinho, como num teatro pequeno. O João comentou: “Esse ‘o' é o ‘o' da coragem!”

A Marta soltou uma gargalhada que nem sabia que estava guardada. Sentiu-se leve, como quando se tira uma pedra do bolso.

No caminho de volta para a sala, ela notou a planta na janela do Clube. Tinha uma folha nova, ainda enroladinha. A Marta pensou que a planta não tentava ser perfeita. Ela simplesmente crescia, um bocadinho por dia.

Capítulo 4: A vontade nova

Ao final da tarde, a Marta arrumou os cadernos. O dela ainda estava limpo e bem cuidado, mas agora havia ali uma coisa diferente: uma pequena marca de lápis numa página, que ela tinha decidido não apagar. Era uma lembrança de que aprender não é só acertar; é também tentar.

Na saída, a professora disse: “Hoje foste corajosa. Coragem não é não ter medo. É falar mesmo com o friozinho na barriga.”

A Marta caminhou para casa com a mochila às costas e o pensamento a dançar. Quando chegou, abriu o estojo e olhou para a borracha. Parecia mesmo mais pequena, cansada de tanto trabalho. A Marta fez festinhas na borracha com o dedo e riu-se sozinha.

À noite, na cama, ela lembrou-se do círculo no Clube das Ciências, das vozes amigas e do cartaz com o “o” grande. E sentiu uma vontade nova, calma e brilhante: aprender coisas difíceis sem se prender ao “perfeito”.

No dia seguinte, decidiu que ia experimentar algo. Ia levantar a mão numa aula de matemática, mesmo que não tivesse a certeza absoluta. Ia tentar. Ia errar, se fosse preciso. E depois ia aprender com o erro útil, como uma pista no chão.

A Marta fechou os olhos e pensou: amanhã vou descobrir mais uma coisa. E adormeceu com um sorriso pequeno, corajoso e cheio de vontade de aprender.

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Conselho de Turma
Reunião da turma para falar do que corre bem ou precisa melhorar.
Engoliu em seco
Expressão que mostra nervosismo ou medo num momento importante.
Clube das Ciências
Sala ou grupo onde se fazem experiências e se estudam coisas da natureza.
Frascos
Recipientes de vidro ou plástico usados para guardar líquidos ou pequenos objetos.
Lupa
Pequeno instrumento de vidro que aumenta coisas para vermos melhor.
Paciência
Saber esperar com calma, sem ficar zangado ou triste rápido.
Escudo
Objeto que protege, como quando se quer sentir-se seguro.
Erro útil
Erro que nos mostra como aprender e melhorar depois de tentar.
Cartaz
Folha grande com palavras e desenhos para pôr na parede.
Obsessão
Pensar muito e de forma exagerada numa coisa, sem conseguir parar.
Bolacha
Alimento doce e seco, parecido com um biscoito, que se come no intervalo.
Planta
Ser vivo que cresce da terra, com folhas e raízes.

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