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História de Cantor e Músico 7 a 8 anos Leitura 20 min.

O concerto de boa-noite e a viola Violeta

Lia, uma musicista que cuida da sua viola Violeta, ajuda crianças da aldeia a encontrar ritmo, ouvir e cantar com confiança num ensaio e num concerto de boa‑noite, ensinando paciência e como ajustar-se às pequenas surpresas do som.

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Mulher adulta Lia, sorridente e amável, cabelo castanho claro preso num coque solto, vestido midi azul-petróleo às bolinhas, sentada ao centro com uma pequena viola violeta no colo, olhando concentrada e acompanhando a canção com as mãos; menina Rita, ~7 anos, cabelos castanhos em tranças, vestido amarelo claro, à esquerda de Lia, cantando confiante com a mão no peito; menino João, ~8 anos, cabelo curto e encaracolado, camiseta verde, sentado à direita de Lia, segurando um pandeiro calmamente e levantando um dedo para marcar o “tum”; menino Tomás, ~8 anos, cabelo ruivo bagunçado, suéter listrado, um pouco atrás à esquerda, sacudindo maracas suavemente com sorriso travesso; mulher adulta Inês (professora), postura serena, blusa clara, em pé ao fundo perto de um quadro-negro, observando orgulhosa com as mãos juntas; sala de aula transformada em pequeno teatro com paredes de madeira clara, tapete redondo vermelho, cadeiras em semicírculo, partituras espalhadas, janela aberta deixando entrar crepúsculo dourado e vaga-lumes; situação: concerto íntimo de boa-noite em clima caloroso e terno, instrumentos e vozes formando um círculo sonoro, iluminação quente e textura aquarela suave com brilhos e realces. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Som da Aldeia

A aldeia acordou com um vento leve, desses que parecem assobiar baixinho entre as árvores. No caminho de terra, as folhas secas faziam “crac, cric, crac” debaixo dos sapatos, como se fossem um tambor pequenino.

Lia caminhava devagar, para não se apressar mais do que o próprio dia. Ela era acompanhante musical: ajudava cantores e grupos a ensaiar, tocava junto, ajustava o ritmo e, quando alguém se perdia, encontrava o caminho de volta com um sorriso e uma batida firme. Naquele fim de tarde, ia até à escola da aldeia, onde haveria uma apresentação antes da hora de dormir das crianças: um “concerto de boa-noite”, como chamavam.

Às costas, Lia levava uma capa de tecido macio e, dentro dela, a sua viola de cordas. Gostava de a chamar “Violeta”, porque o som dela tinha a cor das flores do jardim da professora Inês.

Ao chegar ao portão da escola, ouviu risos e passos a correrem no pátio. A campainha tocou, mas não era uma campainha comum: era a panela da cantina, batida com uma colher, “tin-tin-tin”, porque alguém tinha achado graça.

“Boa tarde, dona Lia!” gritou o Tomás, com as bochechas coradas de brincar.

“Boa tarde, maestro das corridas,” respondeu Lia, rindo. “E hoje… quem vai cantar?”

“Todo o mundo!” disse a Rita, abrindo os braços como se quisesse abraçar o céu. “Mas eu tenho medo de me esquecer.”

Lia agachou-se para ficar à altura dela. “A música é como uma estrada com pedras. Se tropeçares numa, continuas. Eu estarei ao teu lado.”

Dentro da escola, a professora Inês esperava com um caderno cheio de notas e desenhos de estrelas. A sala cheirava a giz e a lápis, e as cadeiras estavam em meia-lua, como uma lua pronta para ouvir.

“Lia, que bom que chegaste,” disse a professora. “As crianças estão animadas, mas precisamos de ritmo. E… de calma.”

“Ritmo e calma combinam,” respondeu Lia. “É como o coração: tum-tum, tum-tum. Não corre, não pára. Apenas segue.”

Ela pousou a capa no chão com cuidado, como quem põe uma manta sobre um bebé. Abriu o estojo da viola e passou os dedos pelas cordas, uma a uma. Não tocou logo. Primeiro, escutou.

“Hoje vou fazer uma coisa importante,” anunciou, para que todos vissem. “Vou verificar as cordas.”

O João arregalou os olhos. “As cordas ficam doentes?”

“Ficam cansadas,” explicou Lia. “E às vezes ficam muito apertadas ou muito soltas. Se estiverem muito soltas, a nota fica triste e baixa. Se estiverem muito apertadas, a nota fica nervosa e alta. A nossa tarefa é deixá-las confortáveis.”

A turma fez “oooh”, como se tivesse descoberto um segredo.

Lia puxou a primeira corda com o dedo: “plim”. Depois a segunda: “plom”. A terceira: “plim-plim”. Aproximou o ouvido, como se a viola lhe estivesse a contar uma história.

“Está quase,” murmurou. Com uma chave pequena, girou devagar numa das tarraxas. “Assim, só um bocadinho. Ouvir é mais importante do que forçar.”

Rita quis experimentar. “Posso ouvir também?”

“Claro,” disse Lia. “Mas com dedos leves. A música gosta de carinho.”

Rita tocou uma corda: “pling”. Sorriu, surpresa com a vibração.

“Parece que faz cócegas,” disse ela.

“Faz cócegas no ar,” respondeu Lia. “E no coração também.”

A professora Inês bateu palmas baixinho. “Então hoje vamos aprender sobre o trabalho de quem canta e toca?”

“Vamos,” disse Lia. “E também sobre quem acompanha. Às vezes a estrela brilha, mas alguém segura a lanterna para o caminho. Eu adoro segurar a lanterna.”

A turma sentou-se. Lá fora, o céu começava a mudar de azul claro para azul de noite, como tinta espalhada devagar.

“Primeira lição,” disse Lia, com a voz quente. “Antes de cantar, aquecemos a voz e o corpo. A voz mora dentro de nós, e gosta de acordar com gentileza.”

Ela inspirou e fez um “mmm” suave, como uma abelha a dormir. As crianças imitaram: “mmmm”.

Tomás riu. “Parece uma colmeia!”

“Uma colmeia afinada,” corrigiu Lia. “Agora, vamos ao ritmo. Ritmo é a forma de a música andar sem cair.”

E, com a palma da mão na perna, fez: “tum… tum… tum-tum.” As crianças tentaram. Alguns foram rápidos demais, outros atrasaram-se, mas ninguém ficou triste, porque Lia sorria como se cada erro fosse apenas mais uma brincadeira.

“Está bem,” disse ela. “O importante é ouvir e tentar outra vez. Ritmo é amizade entre os sons.”

Capítulo 2: O Ensaio que Dançava

No ensaio, Lia colocou uma cadeira no centro e sentou-se com a viola no colo. “Violeta está pronta,” anunciou. “As cordas estão felizes.”

João levantou a mão. “Como sabes que estão felizes?”

Lia tocou um acorde macio, que pareceu encher a sala como um cobertor. “Porque soam limpas e brilhantes, sem se queixarem. Ouvir é o nosso superpoder.”

A professora Inês entregou folhas com a letra da canção. Era uma música simples sobre a aldeia, o rio, as estrelas e o pão quente do forno. Cada verso tinha espaço para respirar.

“Quem começa?” perguntou Lia.

Rita deu um passo à frente. “Eu… mas só se a dona Lia tocar comigo.”

“Eu acompanho-te,” disse Lia. “Acompanhar é caminhar ao lado. Nem à frente, nem atrás. Ao lado.”

Ela deu o ritmo com o pé: “tum, tum, tum.” Tocou as cordas, e a sala ganhou um caminho. Rita cantou:

“A aldeia acende luzinhas,

quando a tarde quer dormir…”

A voz da Rita saiu pequenina no início, como um passarinho escondido. Lia tocou mais suave, para não empurrar. Quando Rita ganhou confiança, Lia encheu o som um pouco, como quem abre a janela para entrar ar fresco.

Tomás sussurrou para o João: “A viola dela é um tapete voador.”

Lia ouviu e respondeu, sem parar de tocar: “E vocês são os pilotos!”

Todos riram, mas continuaram no ritmo.

Depois foi a vez do coro. Lia explicou: “Quando cantamos juntos, precisamos de uma coisa especial: escutar o outro. Não é para gritar mais alto. É para combinar.”

Ela fez um jogo. “Eu bato palmas uma vez, vocês respondem com duas. Prontos?”

“Pá!” — Lia.

“Pá-pá!” — as crianças.

“Pá-pá!” — Lia.

“Pá!” — as crianças, enganando-se, e logo a sala explodiu em gargalhadas.

“Viram?” disse Lia, com calma. “Não faz mal. O ritmo é como uma bola. Cai? Apanhamos e voltamos a lançar.”

A professora Inês acrescentou: “E também aprendemos a ter paciência.”

Lia assentiu. “Paciência e ritmo são primos.”

Quando a turma voltou a tentar, desta vez acertou mais. “Pá! Pá-pá! Pá! Pá-pá!” O som parecia pingos de chuva organizados.

“Agora,” disse Lia, “vamos praticar as entradas. Cantores precisam saber quando entrar, quando respirar e quando ficar em silêncio.

“Ficar em silêncio é parte da música?” perguntou João, desconfiado.

“Sim,” respondeu Lia. “O silêncio é o lugar onde a nota descansa. Se não houver descanso, a música fica cansada. E nós também.”

Ela tocou uma frase musical e parou. No meio do ar, ficou uma espécie de brilho. As crianças ficaram quietas por um segundo, como se estivessem a ouvir o eco com os olhos.

“Ouviram?” perguntou Lia.

“Eu ouvi… nada,” disse Tomás, muito sério.

“E esse nada era importante,” disse Lia. “Era um espaço para a próxima nota chegar.”

No canto da sala, havia uma caixa com pequenos instrumentos da escola: pandeiretas, maracas, um triângulo. Lia foi até lá e escolheu um pandeiro.

“Quem quer ser a batida do coração?” perguntou.

Quase todas as mãos subiram. Lia escolheu o João, que sempre parecia querer entender como as coisas funcionavam.

“Lembra-te,” disse Lia, entregando o pandeiro. “Não é para fazer barulho sem parar. É para marcar o caminho.”

João segurou o pandeiro com cuidado, como se fosse um prato com sopa. “Assim?”

“Assim mesmo. Bate aqui, no centro, e sente o ‘tum'.”

João bateu: “tum.”

“Perfeito,” disse Lia. “Agora, sempre que eu tocar este acorde, tu fazes ‘tum'. Só uma vez.”

A música começou. Rita cantou, o coro entrou, e João marcou o “tum” como um guardião do tempo. Quando alguém se adiantava, Lia olhava com gentileza e diminuía um pouco, puxando o ritmo de volta, como quem segura uma fita para ninguém se perder.

A professora Inês aproximou-se de Lia durante uma pausa. “Tu tens um jeito especial. Parece que ouves até as dúvidas.”

Lia sorriu. “O meu trabalho é cuidar do som e das pessoas. Uma canção não é só notas. É coragem em forma de voz.”

Antes de terminar o ensaio, Lia voltou a verificar as cordas rapidamente. Puxou uma, ouviu: “plim.” Ajustou um nada. “Às vezes, com a sala mais quente, as cordas mudam,” explicou. “Por isso o músico confere sempre. É como verificar os atacadores antes de correr.”

Tomás olhou para os seus sapatos e apertou os laços. “Então eu também sou músico!”

“Quando cuidas do teu ritmo, és,” respondeu Lia.

Lá fora, as primeiras estrelas surgiam. A escola ficou com uma luz amarela, aconchegante, como uma lanterna a dizer: “Podem ficar, está tudo bem.”

Capítulo 3: O Concerto de Boa-Noite

A pequena sala da escola transformou-se em palco. Não havia cortinas nem holofotes, mas havia algo melhor: cadeiras alinhadas, pais e avós sentados com olhos atentos, e um silêncio que parecia um cobertor de lã.

A professora Inês falou baixinho: “Lembrem-se, isto é para ser suave, como uma história antes de dormir.”

Lia sentou-se à frente, com a viola no colo. As crianças ficaram atrás dela, em duas filas. João segurava o pandeiro; Rita, um triângulo; Tomás, duas maracas, mas prometeu não “sacudir como um furacão”.

“Prometo,” disse ele, e depois cochichou: “Só como uma brisa.”

Lia inclinou a cabeça para o grupo. “Prontos? Vamos respirar juntos.”

Inspiraram. O ar entrou como água fresca. Expiraram. O corpo ficou leve.

Lia deu o ritmo com o pé, quase sem se ver. Tocou o primeiro acorde, e a sala pareceu sorrir. Rita começou a cantar, agora com a voz mais firme:

“A aldeia acende luzinhas,

quando a tarde quer dormir…”

O coro entrou no momento certo. João fez o “tum” do pandeiro, com cuidado. Tomás sacudiu as maracas como uma brisa mesmo, “shhh-shhh”, e não como um furacão. O triângulo tilintou “tlim” aqui e ali, como uma estrela a piscar.

Lia acompanhava com atenção, olhando de canto para cada criança, pronta para ajudar. Quando alguém se atrasava, ela acentuava o ritmo um pouco. Quando alguém se adiantava, ela fazia o som mais macio, convidando a esperar. Era como conduzir um barquinho num rio calmo.

No meio da música, o João teve vontade de bater mais vezes no pandeiro. A mão dele tremeu de entusiasmo.

Lia inclinou-se e sussurrou, sem parar de tocar: “Lembra-te: o ‘tum' é uma promessa. Uma vez, certinho.”

João respirou e voltou ao “tum” único. O rosto dele ficou orgulhoso, como quem acaba de aprender um segredo de verdade.

Depois da primeira canção, o público aplaudiu com palmas baixas, para manter a tranquilidade. “Pá… pá… pá…” parecia chuva mansa.

A professora Inês fez sinal para a próxima música, uma canção sobre o rio que passa perto da aldeia. Lia explicou às crianças, ainda no palco:

“Cantores e músicos contam histórias com sons. Para isso, precisam de três coisas: treino, ouvido e coração. O treino é repetir. O ouvido é escutar. O coração é sentir e cuidar.”

Tomás levantou um dedo. “E humor?”

Lia riu. “Humor também. O humor é como uma nota sorridente.”

Começaram a segunda canção. Lia tocou notas que imitavam água a correr: “plim-plim-plom”. As crianças cantaram “o rio leva segredos” e o som parecia mesmo uma corrente a passar entre pedras.

De repente, uma das cordas da viola fez um som um pouco diferente, como um “plong” mais fraco. Não era assustador, só um aviso pequenino.

Lia manteve a calma. Terminou a frase musical e, no silêncio, falou com voz tranquila:

“Violeta pediu uma pausa. Vou verificar a corda.”

O público ficou quieto, curioso. Lia mostrou, devagar, como tocava a corda e ouvia a altura do som. “Ouçam comigo,” disse.

Ela puxou a corda: “plong.” Depois ajustou a tarraxa um bocadinho: “pling.” Mais um pouquinho: “plim!” A nota voltou a brilhar.

“Pronto,” disse Lia. “Às vezes, no meio do trabalho, o instrumento fala. O músico responde com paciência.”

Rita sussurrou para o coro: “Ela fala com a viola!”

“E a viola responde,” sussurrou Tomás, com olhos redondos.

Lia recomeçou do ponto certo, sem pressa, e o grupo seguiu. Aquilo ensinou algo importante: não era preciso ficar nervoso quando algo mudava; bastava ouvir, ajustar e continuar.

No final, cantaram uma última música, mais lenta, para fechar a noite. A letra dizia:

“Quando a noite fecha a porta,

a canção fica a guardar…”

Lia tocou bem suave, como se as notas fossem penas a cair. As crianças cantaram com vozes pequenas e juntas. O pandeiro bateu “tum” espaçado, como um coração a adormecer.

Quando a última palavra terminou, Lia segurou um acorde e deixou-o crescer e ficar no ar. A nota parecia uma fita comprida, brilhante, que não queria acabar depressa.

Ela fez sinal para todos ficarem quietos. Segurou a nota mais um pouco, e depois deixou-a desaparecer lentamente. O silêncio que veio a seguir não era vazio; era cheio de luz.

O público aplaudiu de novo, ainda baixinho, e muitos sorriram com olhos de quem já está quase a sonhar.

Capítulo 4: A Nota Guardada no Coração

Depois do concerto, as crianças voltaram a sentar-se na sala, agora com uma tranquilidade doce. Alguns pais falavam em murmúrios, como se não quisessem acordar a música.

A professora Inês trouxe um jarro de água e copos pequenos. “Para as vozes,” disse. “Cantores também precisam cuidar do corpo.”

Rita bebeu um gole e perguntou a Lia: “Dona Lia, o teu trabalho é só tocar?”

“Não,” respondeu Lia, limpando a viola com um pano macio. “Eu acompanho. Ajudo a escolher o tom certo para a voz de cada um. Ajudo a manter o ritmo. E cuido do instrumento: verifico as cordas, afino, escuto. Um músico aprende a ser amigo do som.”

João aproximou-se. “Quando eu bati o pandeiro, eu senti o ‘tum' aqui.” E tocou no peito.

Lia sorriu. “Isso é o sentido do ritmo. Não é só na mão. É no corpo todo. Se sentires o ritmo, fica mais fácil cantar junto e esperar a tua vez.”

Tomás bocejou. “Eu senti o ritmo nos pés. Eles queriam dançar.”

“Os pés são ótimos professores,” disse Lia. “Mas antes de dormir, eles também merecem descanso.”

As crianças riram, baixinho.

A professora Inês pediu: “Lia, podes ensinar uma coisa pequena para levarem para casa? Uma lembrança musical?”

Lia pensou um instante e depois disse: “Vou ensinar-vos a ‘nota longa da calma'. É uma nota que não é para mostrar força, é para guardar serenidade.”

Ela pediu que todos colocassem uma mão na barriga. “Assim sentem a respiração. Inspiram pelo nariz… devagar. E soltam o ar fazendo ‘aaaa' bem suave, como se estivessem a desenhar uma linha no ar.”

Todos fizeram. “Aaaaa…” Algumas vozes tremiam, outras eram retas, mas todas eram sinceras.

“Agora,” disse Lia, “imaginem que essa nota é uma lanterninha. Ela não precisa iluminar a aldeia inteira. Só o caminho até à cama.”

As crianças repetiram a nota, ainda mais suave. A sala ficou com um brilho imaginário.

Rita perguntou, com olhos sonolentos: “E a nota vai comigo?”

“Vai,” disse Lia. “A música fica onde a gente guarda. Se tu a guardares no coração, ela volta quando precisares. Quando estiveres nervosa, fazes uma respiração e cantas uma nota longa por dentro. Ela segura a mão do teu pensamento.”

João olhou para a viola. “E a Violeta? Ela também guarda notas?”

“Guarda,” respondeu Lia, fechando o estojo. “Mas quem dá sentido às notas são vocês. O instrumento é uma ponte. A voz é o rio. E o ritmo é o caminho por onde o rio não se perde.”

Tomás levantou-se, já meio a dormir em pé. “Eu vou sonhar com um pandeiro a dizer ‘tum' para eu não cair do sonho.”

“Sonhos também têm ritmo,” disse Lia, rindo baixinho.

Os pais chamaram as crianças. Abraços, casacos, sapatilhas a apertar. No pátio, a noite estava macia e estrelada. A aldeia parecia ouvir de longe.

Antes de irem, Rita voltou e abraçou Lia com cuidado. “Obrigada por caminhares ao meu lado.”

Lia apertou-a de leve. “Obrigada por cantares. Cantores fazem o mundo lembrar que existe beleza.”

João acenou com o pandeiro na mão. “Vou praticar o ‘tum' em casa.”

“Mas baixinho,” avisou a professora Inês, com um sorriso.

Tomás piscou. “Como uma brisa.”

Quando o pátio ficou vazio, Lia ficou um pouco sozinha, ouvindo o silêncio da escola. Era um silêncio bom, com restos de melodia no ar, como migalhas de pão para os passarinhos da manhã.

Ela abriu o estojo só um pouco e tocou uma última nota, bem leve, para si. A corda respondeu redondinha, contente.

“Boa noite, Violeta,” sussurrou Lia.

E, enquanto fechava o estojo, sentiu que a nota não tinha acabado. Ela tinha apenas mudado de lugar: tinha ido descansar, quieta e quente, no coração de quem ouviu.

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Fazer um som agudo com a boca, como um apito suave.
Acompanhante musical
Pessoa que toca ou ajuda a música para apoiar quem canta.
Tarraxas
Peças da viola onde se apertam as cordas para afiná‑las.
Acorde
Várias notas tocadas ao mesmo tempo que soam juntas.
Coro
Conjunto de pessoas que cantam juntas as mesmas partes.
Silêncio
Momento sem som, quando ninguém fala ou toca.
Respiração
Ato de encher e esvaziar os pulmões com ar para viver e cantar.
Canção
Música com palavras que se canta.
Pandeiro
Instrumento redondo com pele e guizos, que se bate com a mão.
Triângulo
Instrumento de metal em forma de triângulo que soa quando se bate.

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