O começo do anoitecer
O coelhinho Tomás gostava de dizer “obrigado” por tudo. Obrigado pela cenoura doce. Obrigado pela água fresquinha. Obrigado pelo vento que fazia cócegas nas orelhas.
Mas, quando o sol descia atrás das árvores, Tomás ficava com o coração a bater depressa.
A toca dele era confortável. Tinha uma cama de folhas macias e um cobertor feito de capim seco. Só que, à noite, a toca ficava escura. Muito escura.
Tomás espiou para a entrada. Lá fora, o céu estava azul-escuro, como uma manta grande. Dentro, a escuridão parecia uma sopa sem cor.
“E se a escuridão esconder coisas?” pensou ele.
Nesse momento, a coruja Bia pousou num galho perto da entrada. Ela piscou devagar, como quem tem tempo.
— Boa noite, Tomás. Estás com a testa apertada — disse a coruja.
— Tenho medo do escuro — confessou Tomás, baixinho. — Eu queria ser corajoso, mas o meu corpo não vai tão rápido.
Bia inclinou a cabeça.
— Cada corpo tem o seu ritmo. A coragem também. Vamos devagar, como um passeio com passos pequenos.
Tomás respirou um pouco melhor. Ele gostava quando alguém não o empurrava.
Ferramentas pequeninas
A coruja entrou com cuidado na toca, sem bater asas forte.
— Primeiro, vamos ouvir — sugeriu. — O escuro não é uma coisa que morde. É só falta de luz. E, sem luz, os sons ficam mais claros.
Tomás parou e ouviu.
Tic… tic… era uma gota de água a cair numa pedra.
Fruu… fruu… era o vento a passar na entrada.
Cric… cric… eram grilos lá fora, a cantar como se fossem minúsculos violinos.
— Vês? O escuro não inventou esses sons. Eles já estavam aqui — disse Bia.
Tomás fez uma cara séria e depois riu um bocadinho.
— Eu pensei que o escuro fazia “BU!” — disse ele.
— Às vezes a nossa cabeça faz “BU!” por ele — respondeu Bia, com humor leve.
Depois, Bia mostrou uma pedrinha lisa que brilhava fraquinho, fraquinho. Não era uma luz forte. Era só um pontinho prateado.
— Esta pedra guardou um pouco de luz do dia. Não ilumina tudo. Só faz companhia.
Tomás pegou na pedrinha. Ela estava fria e agradável na pata.
— Posso ficar com ela?
— Podes. Mas lembra: a pedra ajuda. Quem aprende és tu.
Tomás assentiu. Ele gostava dessa ideia. Parecia importante e gentil.
Bia continuou:
— Agora, vamos fazer um jogo. Olha para a escuridão e dá nomes a três coisas que sabes que estão aqui.
Tomás olhou. O escuro parecia grande, mas ele tentou.
— A minha cama de folhas… o meu copo de casca… e a minha cenoura guardada.
— Muito bem. O escuro não mudou a tua casa. Só apagou as cores por um pouco — disse Bia.
Tomás mexeu as orelhas. Ele sentiu que a toca ainda era a mesma. Só estava com “luz baixa”, como se o dia estivesse a descansar.
A canção do Tomás
Chegou a hora de deitar. Tomás deitou-se, mas o coração ainda fazia tum-tum.
— Podemos fazer mais uma coisa? — perguntou ele. — Eu sei cantar uma canção pequenina. Ajuda-me.
— Claro — disse Bia. — A tua voz é uma lanterna por dentro.
Tomás sorriu, envergonhado e orgulhoso ao mesmo tempo. Ele apertou o cobertor e cantou bem baixinho, com palavras simples:
“Boa noite, noite mansa,
eu vou já descansar.
O escuro é só silêncio,
a casa vai guardar.
Se eu sinto um medo leve,
eu posso respirar.
Um, dois, três bem devagar,
e o sono vai chegar.”
Enquanto cantava, Tomás percebeu uma mini-surpresa: a escuridão não era igual em todo o lado. Perto da entrada, havia um cinzento mais claro. No fundo, era mais preto. E, no teto da toca, havia um risco de luz da lua, como um fio fininho.
— Olha! — sussurrou Tomás. — A lua fez um desenho.
— A noite gosta de desenhar devagar — disse Bia.
Tomás quis espreitar o risco de luz. Então ele levantou-se um pouquinho, só um pouquinho, no seu ritmo. Chegou perto da parede e viu uma sombra comprida da sua orelha.
Ele deu um pulo.
— Ai! Uma coisa grande!
Bia riu, bem baixinho.
— É a tua orelha, Tomás. A luz faz a sombra crescer. Não é um monstro. É só uma brincadeira de formas.
Tomás olhou de novo, mexeu a orelha e a sombra mexeu também.
— Então… eu estou a fazer o “monstro” com a minha própria orelha!
— Exatamente — disse Bia. — E tu és um coelho muito simpático.
Tomás riu, e o riso tirou um nó que ele nem sabia que tinha.
Um sopro de noite
Já mais calmo, Tomás voltou para a cama. Bia ficou na entrada, a vigiar em silêncio, como um guarda-chuva contra preocupações.
— Se eu acordar com medo, o que eu faço? — perguntou Tomás, com voz de sono.
— Três passos pequenos — ensinou Bia. — Primeiro: mão na barriga e respira. Segundo: diz o nome de três coisas que estão contigo. Terceiro: lembra da tua canção, nem que seja só uma frase.
Tomás repetiu baixinho:
— Respirar… três coisas… canção.
— Isso. E, se um dia for difícil, não faz mal. Respeita o teu ritmo. Amanhã tentas outra vez.
Tomás sentiu o corpo pesado, como uma pedra quente ao sol. Ele segurou a pedrinha brilhante e agradeceu em pensamento: obrigado, cama; obrigado, noite; obrigado, coragem que chega aos pedacinhos.
Lá fora, o vento passou outra vez: fruu… fruu… como um cobertor a ser ajeitado.
Tomás fechou os olhos. Antes de dormir, ele fez um último sopro, bem suave, como se apagasse uma vela imaginária e, ao mesmo tempo, embalasse a escuridão.
Foi um sopro de noite.