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História sobre a tolerância 11 a 12 anos Leitura 15 min.

O clube das histórias e o nome de Amir

Três crianças recebem um novo colega, Amir, e juntos aprendem a importância de perguntar com respeito, ouvir as histórias dos outros e criar um espaço acolhedor na biblioteca.

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Quatro crianças: Bia, 11 anos, pele clara, cabelos castanhos lisos em rabo, camiseta amarela, agachada no centro alinhando palavras com uma régua; Tomás, 11 anos, pele clara, cabelos castanhos despenteados, camiseta vermelha, em pé à esquerda escrevendo letras grandes no cartaz com marcador preto; Rafa, 11 anos, pele clara, cabelos cacheados escuros, moletom azul, à direita desenhando planetas e estrelas coloridas nas bordas; Amir, 11 anos, de origem médio-oriental, pele morena, cabelos pretos, camisa verde, sentado à frente segurando um pião de madeira vermelho e verde e escrevendo uma frase com letra caprichada. Ambiente: interior de biblioteca comunitária com estantes de madeira e livros ao fundo, mesa grande com folhas e canetas, tapete com mapa parcialmente visível. Situação: os quatro colaboram para criar um grande cartaz de regras do clube, com gestos precisos, sorrisos e clima de tolerância e acolhimento; cores quentes e estilo claro, cada um com uma função (Tomás escreve, Bia organiza, Rafa ilustra, Amir acrescenta texto). reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Cartaz na Porta da Biblioteca

Na segunda-feira, a Biblioteca do bairro cheirava a papel novo e cola de capa, como se alguém tivesse acabado de arrumar o mundo nas estantes. A Bia entrou primeiro, como sempre, com a mochila bem fechada e o caderno de tarefas apertado contra o peito. Ela era do tipo leal: se combinava uma coisa, cumpria; se prometia esperar, esperava. Logo atrás vieram o Tomás, com o cabelo sempre meio despenteado, e o Rafa, que andava com um estojo cheio de canetas coloridas como se fosse uma caixa de ferramentas.

Na porta, um cartaz grande dizia: “CLUBE DE HISTÓRIAS — QUARTA, 17h. Tragam uma história da vossa família.”

— Isso parece fixe — disse o Tomás, esticando o pescoço para ler melhor. — Mas… “tragam uma história da vossa família” é tipo… uma história verdadeira?

— Acho que sim — respondeu a Bia. — E é bom. Histórias verdadeiras também podem ser emocionantes.

O Rafa apontou para outro papel, menor, preso com fita: “Voluntários para preparar a sala.”

— Vamos? — perguntou ele, já com aquele brilho nos olhos de quem quer mexer em cadeiras e organizar coisas.

Bia assentiu. — Vamos os três. E fazemos direitinho.

A bibliotecária, a senhora Leonor, ouviu e sorriu por cima dos óculos.

— Que bom ver gente com iniciativa. Na quarta vai vir um aluno novo, também, para conhecer a turma e o clube. Ajudem-no a sentir-se em casa.

— Aluno novo? — Tomás repetiu, como se a palavra tivesse um ponto de interrogação pendurado.

— Sim. Chega hoje à escola, mas só aparece aqui na quarta. Chama-se Amir — disse a senhora Leonor, com um cuidado especial na pronúncia.

Bia guardou o nome na cabeça, como quem guarda um segredo importante.

Capítulo 2 — Um Nome que Pede Atenção

No dia seguinte, a professora apresentou o novo colega. Era um rapaz da idade deles, magro, com olhos atentos e uma pasta simples. Vestia uma camisola azul e segurava as alças da mochila como se fossem um volante, pronto para manter o controlo.

— Turma, este é o Amir — disse a professora. — Ele vai estudar connosco a partir de agora.

Alguns sussurros atravessaram a sala como vento por baixo da porta. Tomás olhou para o Rafa e levantou as sobrancelhas. A Bia, sem pensar, fez um gesto pequeno com a mão, tipo “olá”, e sorriu.

No intervalo, o Tomás aproximou-se do grupo da Bia e do Rafa e falou baixo:

— Eu não sei de onde ele vem. E… o nome dele… pronuncia-se como “Amir” mesmo? Ou é “Amír”? Ou “Âmir”?

Rafa encolheu os ombros. — Boa pergunta.

Bia respirou fundo. Ela sentiu aquela vontade de acertar, de não magoar ninguém por distração. E também aquela lealdade que fazia com que não deixasse as coisas pela metade.

— Vamos perguntar a ele — disse. — Com calma.

Quando o Amir passou perto do banco onde eles estavam, Bia levantou-se devagar.

— Olá, Amir. Eu sou a Bia. Este é o Tomás e este é o Rafa. — Ela apontou para cada um, como quem apresenta personagens importantes de um livro. — Posso perguntar uma coisa? Como é que se pronuncia corretamente o teu nome?

O Amir olhou para ela, surpreso, mas não de um jeito mau. Pareceu aliviado, até.

— Obrigado por perguntar. É “A-mir”, com o “a” bem aberto. Sem acento especial — explicou, fazendo um gesto com a mão como quem abre uma janela.

— A-mir — repetiu a Bia, com atenção.

— A-mir — disse o Rafa.

Tomás tentou também: — A-mir.

O Amir sorriu. — Isso. Perfeito.

E foi como se a mesa do intervalo ficasse um pouco maior, com lugar para mais um.

Capítulo 3 — Preparativos e Pequenos Enganos

Na quarta-feira, às cinco em ponto, os três chegaram à biblioteca para preparar a sala do clube. Havia cadeiras empilhadas, uma caixa de marcadores e um tapete grande com um desenho de mapa-múndi desbotado.

— Eu fico com as cadeiras — disse o Rafa, já a puxar uma pilha.

— Eu organizo os marcadores e as folhas — disse a Bia.

Tomás pegou no mapa-múndi do tapete e apontou para um canto. — Olhem! Aqui tem um país que parece uma bota.

— Itália — respondeu o Rafa, sem hesitar.

— E este aqui? — Tomás apontou para outro. — Parece uma orelha.

Bia riu. — Tomás, isso não ajuda ninguém.

— Ajuda a perceber que o mundo é meio engraçado — insistiu ele, e fez uma careta tão séria que acabou por ficar ainda mais cómica.

A porta abriu e o Amir entrou com a senhora Leonor. Ele trazia um livro de capa gasta e um saco de pano com algo lá dentro.

— Oi — disse ele, com voz baixa.

— Oi, Amir! — respondeu a Bia, e notou como ele pareceu relaxar ao ouvir o nome dito certo.

Tomás, nervoso, falou depressa demais:

— Oi, Am… A-mir! Desculpa, eu… às vezes a minha boca corre mais do que a cabeça.

O Amir soltou um riso curto. — Acontece comigo também… mas em português.

A senhora Leonor bateu palmas uma vez, bem suave.

— Hoje vamos partilhar histórias da família. E vamos ouvir com atenção. Aqui não há pressa, nem competição.

Enquanto esperavam os outros colegas, o Amir abriu o saco de pano e tirou um pequeno objeto: um pião de madeira, pintado com faixas vermelhas e verdes.

— É do meu avô — explicou. — Ele fazia estes piões.

Rafa aproximou-se, curioso. — Uau. Dá para brincar?

— Dá. Mas este é mais para lembrar — disse Amir, passando o dedo pelas marcas, como se lesse uma mensagem secreta.

Tomás, querendo participar, soltou:

— No meu bairro, a gente chama isso de… “peão”.

Amir inclinou a cabeça. — Pião?

— Sim, pião. Com “i”. — Tomás repetiu, satisfeito por poder ensinar uma palavra.

Bia percebeu a troca e pensou: às vezes, todos nós somos novos em alguma coisa.

Capítulo 4 — A História no Círculo

Quando a sala ficou cheia, as cadeiras formaram um círculo. Era um círculo imperfeito: uma cadeira mais afastada, outra ligeiramente torta, e uma que fazia “nhic” sempre que alguém se mexia. Mesmo assim, parecia aconchegante, como um ninho feito às pressas.

A senhora Leonor começou:

— Quem quer partilhar primeiro?

A Bia levantou a mão, mas depois baixou. Não por medo. Só para não ser sempre a primeira. Ela olhou para o Amir e percebeu que ele segurava o livro com as duas mãos, como se fosse um escudo e um abraço ao mesmo tempo.

Tomás falou baixinho: — Amir, queres ir tu? Se não quiseres, eu posso contar sobre a vez que o meu tio confundiu sal com açúcar e estragou um bolo inteiro.

Rafa tapou a boca para não rir alto. Bia deu um empurrão leve no Tomás com o cotovelo, tipo “calma”.

Amir olhou para os três e, pela primeira vez, parecia ter certeza de que podia escolher.

— Eu posso tentar — disse.

Ele abriu o livro. Não era um livro de histórias; era um caderno antigo, cheio de anotações.

— A minha avó escrevia receitas e… pequenas lembranças. — Ele respirou. — Ela escreveu sobre o dia em que a família teve de mudar de cidade. Eu era pequeno, mas lembro do som das malas a fechar, como portas pequenas.

A sala ficou quieta. Não um silêncio pesado. Um silêncio atento.

— No início, eu não entendia as palavras aqui — ele apontou para um trecho. — É noutra língua. A minha avó dizia que cada língua é uma casa. Às vezes a gente muda de casa e sente falta do chão. Mas dá para construir chão novo, com amigos.

Bia sentiu um nó bom na garganta, daqueles que aparecem quando a gente reconhece algo importante. Rafa olhou para o pião, como se imaginasse o avô do Amir a pintar as faixas.

Quando Amir terminou, Tomás foi o primeiro a bater palmas, devagar, para não quebrar o clima.

— Eu gostei da parte da “casa” — disse ele. — E gostei do teu pião também. Ele roda?

Amir hesitou e depois colocou o pião no chão. Com um gesto firme, puxou a cordinha (que estava escondida no saco) e o pião começou a rodar, desenhando um círculo brilhante no tapete do mapa-múndi.

O Rafa, com olhos enormes, soltou: — Isso é hipnótico.

E a sala inteira riu baixinho, como se o riso também fosse uma forma de respeito.

Capítulo 5 — Um Mal-Entendido e Uma Ponte

Depois do clube, já na saída, um colega mais velho passou perto e comentou alto, sem pensar muito:

— Ei, “Amir”, isso soa esquisito. Parece nome de personagem de videojogo.

O Amir encolheu um pouco, como se levasse uma chuva inesperada. A Bia sentiu o calor subir-lhe ao rosto.

Tomás abriu a boca para responder, mas falou atrapalhado:

— O teu nome é… é… normal! Quer dizer… todos os nomes são… — Ele fez um gesto com as mãos e desistiu, frustrado.

Rafa deu um passo à frente, com calma. — Nomes são nomes. E se a gente não conhece, aprende. Como a palavra “pião”. Eu não sabia fazer rodar assim.

A Bia olhou para o colega mais velho e falou sem gritar, com firmeza:

— Ele chama-se Amir. E é importante dizer como ele pediu. Não custa nada.

O colega fez uma careta, meio sem graça. — Tá, tá. Foi só uma piada.

— Piada é quando todo mundo ri — murmurou o Tomás, desta vez acertando as palavras.

O colega foi embora, arrastando os pés.

Amir ficou parado, segurando o saco de pano. Bia aproximou-se.

— Desculpa por isso — disse ela.

Amir abanou a cabeça. — Não foi culpa tua. — E depois, com um sorriso pequeno: — Mas obrigado por… ficarem.

Rafa levantou uma das canetas coloridas do estojo. — A gente pode fazer uma coisa para a biblioteca. Um cartaz do clube, com regras boas. Tipo… “perguntar é melhor do que gozar”.

Tomás estalou os dedos. — E uma regra que eu gosto: “não interromper”. Porque eu interrompo sem querer.

Bia endireitou a mochila. — Vamos fazer. Amanhã, na hora do almoço. Juntos.

Amir olhou para eles como se estivesse a aprender um caminho novo no mapa do tapete.

— Eu ajudo — disse. — E posso escrever numa letra bonita. A minha avó dizia que letras bonitas fazem as pessoas abrandar.

Capítulo 6 — “A Gente Ouve Primeiro”

Na sexta-feira, na biblioteca, o cheiro a marcadores misturou-se ao de livros antigos. O Rafa desenhou uma moldura com planetas e estrelas, mas bem simples, sem exagero. Tomás ficou responsável por escrever as frases curtas, porque a letra dele era grande e fácil de ler, mesmo de longe. A Bia organizou tudo, medindo com uma régua para não ficar torto. Amir escreveu as palavras mais delicadas com cuidado, como se fossem algo frágil e valioso.

— Lê em voz alta, Tomás — pediu a senhora Leonor, curiosa.

Tomás pigarreou, fazendo pose de locutor, e depois desistiu da pose porque parecia ridículo.

“No Clube de Histórias: 1) Dizemos os nomes como as pessoas preferem. 2) Perguntamos com respeito quando não sabemos. 3) Não fazemos piadas que magoam. 4) Ajudamos quem está a chegar.” — Ele apontou para a última linha, escrita maior.

Bia olhou para Amir, como se pedisse confirmação. Amir assentiu.

Tomás leu a frase final, devagar, para ficar bem claro:

“A gente ouve primeiro.”

A senhora Leonor segurou o cartaz pelas pontas e sorriu, satisfeita.

— Isto é um bom lembrete para a biblioteca… e para a vida.

Rafa deu um passo atrás para ver o cartaz à distância. — Ficou mesmo fixe.

Bia prendeu o cartaz na parede, perto da porta, onde toda a gente passava. Depois, sem dizer nada, ela olhou para o Amir e fez aquele mesmo gesto pequeno do primeiro dia, como um “olá” que agora significava também “bem-vindo”.

Amir respondeu com um sorriso que parecia mais leve do que antes.

Tomás bocejou, de propósito, e disse:

— Pronto. Agora dá para dormir descansado. Se alguém reclamar, eu digo: “shhh… a gente ouve primeiro”.

Rafa riu. — Isso vai virar o teu novo superpoder.

E, enquanto apagavam as luzes e a biblioteca ficava quieta, o cartaz na parede continuava a dizer, simples e firme, como um aviso amigo: “A gente ouve primeiro.”

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Biblioteca
Lugar onde guardam livros para ler ou emprestar.
Cartaz
Papel grande com informação colado numa porta ou parede.
Voluntários
Pessoas que fazem algo sem receber dinheiro por isso.
Iniciativa
Ação de começar algo por tua própria vontade.
Bibliotecária
Pessoa que trabalha na biblioteca e ajuda a encontrar livros.
Pronúncia
Jeito de dizer as palavras corretamente com sons certos.
Pião
Brinquedo de madeira que roda no chão quando o puxam.
Mapa-múndi
Desenho do mundo com os países e os oceanos.
Aconchegante
Que faz sentir-se confortável e protegido.
Hipnótico
Que prende a atenção, como algo que dá vontade de olhar muito.
Cordinha
Cordão fino usado para puxar ou prender coisas pequenas.

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