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Conto assustador 11 a 12 anos Leitura 18 min.

O carilhão que tocava ao contrário e a menina do método

Lia, uma menina curiosa, descobre que o carilhão da casa toca ao contrário e, com método e coragem, investiga o sótão e enfrenta um misterioso Guardador do Reverso para entender e consertar o enigma sonoro.

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Uma menina de 12 anos, rosto redondo com sardas, cabelo castanho apanhado em rabo de cavalo, de joelhos diante de um carrilhão de parede em madeira, segurando uma chave de fenda pequena e com um caderno aberto ao lado; um homem sombrio, alto e esguio, pele como fumaça e olhos como dois relances de lua, cerca de 60 anos, encostado num canto com os braços cruzados a observá‑la; o carrilhão envernizado com lâminas metálicas, engrenagens à vista e uma tampa aberta com parafusos e uma gota de óleo num pano; corredor estreito com assoalho de tábuas gastas, passadeira vermelha, quadros antigos nas paredes e pintura gretada, luz trémula de um candeeiro e reflexo da lua; ela recoloca lentamente uma lâmina do carrilhão, movimento preciso, a sombra recua, tensão suave, atmosfera misteriosa e acolhedora, contrastes entre os tons quentes da madeira e os azuis frios das sombras. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Noite que Faz Rondas

Lia tinha doze anos e um segredo guardado como um pirilampo dentro de um punho fechado: queria consertar o carilhão antigo do corredor, aquele que tocava ao contrário, como se as notas descessem uma escada em vez de subir.

Na casa da Rua do Mirante, a noite não era só escuridão. Era quase uma pessoa. Quando o sol se apagava, a Noite chegava com passos de veludo, fechava as janelas com mãos invisíveis e estendia um cobertor de sombras sobre as coisas, como quem cuida de visitantes cansados. Às vezes, Lia jurava sentir um carinho frio na testa quando bocejava.

Nessa noite, o carilhão desafinado gemeu seu costume: “DÓ… SI… LÁ…”, como um rio correndo para trás. O som se espalhou pelo corredor, e as molduras dos retratos pareceram prender a respiração.

— Um dia eu arrumo você — sussurrou Lia, e o carilhão respondeu com um tilintar teimoso, quase um riso.

A avó dizia que o carilhão tinha “memória” e que as memórias, quando se embaralham, precisam de método — palavra que ela falava como quem coloca uma régua em cima da mesa: firme, reto, seguro.

Lia abriu sua caixa de ferramentas: chave de fenda pequena, alicate, pano, um caderno e um lápis. Não consertaria naquela hora, não ainda. Primeiro, iria observar. A noite gostava de quem observava.

No corredor, a lâmpada do teto piscou. A sombra do carilhão, projetada na parede, pareceu crescer, comprida como um dedo apontando para a porta do sótão.

E então, bem baixinho, veio um som que não era do carilhão: um roçar de unhas, como se alguém escrevesse no ar.

— Tem alguém aí? — Lia perguntou, tentando soar corajosa.

A Noite, do lado de fora, estalou um galho, como se dissesse: “Estou aqui. Siga com cuidado.”

Capítulo 2 — O Sótão e o Vento que Sussurra

A escada do sótão rangia com um humor irritadiço, como se cada degrau fosse um velho reclamando: “Pra quê subir? Pra quê mexer?”

Lia subiu mesmo assim, segurando a lanterna. A luz abriu um caminho estreito, um túnel de claridade em meio às sombras. O sótão cheirava a madeira antiga e chuva guardada.

Lá em cima, caixas empilhadas formavam pequenas montanhas, e entre elas havia um espelho coberto por um lençol. O lençol se mexeu sozinho, como se respirasse. Lia congelou por um segundo.

— Não vai me assustar — ela falou, mais para o próprio coração do que para o lençol. — Eu só… preciso entender.

O lençol escorregou um pouco, revelando a borda do espelho. A lanterna tremia na mão de Lia. No vidro, não apareceu o rosto dela; apareceu o corredor lá embaixo, o carilhão na parede, e uma sombra atrás dele — alta, estreita, com ombros pontudos, como um cabide com fome.

Lia piscou, e a imagem mudou: agora era apenas o reflexo normal do sótão. Ela engoliu em seco.

— Certo. Ok. Método — murmurou. — Passo um: descobrir por que ele toca ao contrário.

Ela abriu uma caixa marcada com letras apagadas. Dentro, havia papéis, uma fita de seda e um livrinho de capa azul. O livrinho tinha um desenho de um sino e, embaixo, uma frase: “Para a música seguir em frente, cada peça precisa do seu lugar.”

Folheando, Lia viu um esquema do carilhão. Havia engrenagens, hastes e sininhos, e uma anotação com tinta já desbotada: “Ordem das lâminas: da mais longa à mais curta.”

— Então é isso… — Lia sussurrou, como quem encontra uma pista num labirinto.

Um vento passou pelo sótão, mesmo com tudo fechado. Ele soprou no ouvido dela e fez uma frase com o barulho das tábuas:

“Não mexa no que anda para trás.”

Lia apertou o livrinho contra o peito.

— Se anda para trás, tropeça. Eu só quero que ele pare de tropeçar.

Lá embaixo, o carilhão tocou de novo, em sua escada descendente. Só que, por um instante, a última nota ficou suspensa no ar, esticada, como se pedisse ajuda.

Capítulo 3 — O Homem de Sombras e o Relógio Invertido

De volta ao corredor, Lia sentiu a casa mais silenciosa do que o normal. Era um silêncio cheio, como uma xícara transbordando.

A Noite estava acordada. Ela rondava a casa como uma enfermeira de hospital antigo: atenta, cuidadosa, mas com olhos que não se viam.

Quando Lia passou pelo carilhão, a temperatura caiu, como se alguém tivesse aberto uma geladeira invisível. E a sombra atrás dele voltou — não no espelho desta vez, mas na parede, desenhada por uma luz que Lia não entendia de onde vinha.

A sombra se desprendeu da parede e tomou forma no corredor. Era um homem feito de escuridão, com um chapéu alto que parecia recortar o teto. O rosto era um borrão, mas os olhos… os olhos eram dois pedacinhos de luar quebrado.

— Boa noite, Lia — disse ele, e a voz parecia papel sendo amassado.

Lia recuou um passo, mas não gritou. O medo tentou subir pela garganta, mas ela segurou como quem segura uma porta contra o vento.

— Quem é você?

— Sou o Guardador do Reverso — respondeu ele. — Eu cuido do que anda ao contrário. Do que esqueceu a direção.

O carilhão tilintou, nervoso.

— Eu não quero estragar nada — Lia falou. — Só quero consertar. Ele toca ao contrário. Isso incomoda… até ele, eu acho.

O Guardador inclinou a cabeça, como um corvo curioso.

— Você acha que consertar é só apertar parafuso? — perguntou. — E se o contrário for a defesa dele?

A Noite, lá fora, fez um som de chuva distante. Como se escutasse.

Lia tirou o caderno do bolso, abriu numa página em branco e respirou fundo.

— Eu tenho método — disse, apontando o lápis como uma pequena espada. — Vou fazer perguntas e testar. Se estiver perigoso, eu paro. Mas se for só… um erro de ordem, eu arrumo.

O Guardador soltou um riso baixo.

— Corajosa com papel e lápis. Está bem. Três passos, então. Primeiro: observar. Segundo: registrar. Terceiro: agir sem pressa. Se falhar, o corredor vai ficar… mais longo.

— Mais longo?

As paredes pareceram esticar um milímetro, como quem alonga as costas.

Lia anotou: “Risco: corredor pode ficar mais longo.” Depois, com cuidado, colocou a mão no carilhão. A madeira estava fria e vibrava como um coração inquieto.

— Observação — murmurou. — Ele toca ao contrário, como se as lâminas estivessem na ordem errada.

O Guardador se aproximou. Quando ele passou perto, a luz da lanterna diminuiu, como se a sombra bebesse o brilho.

— Não toque ainda — ele sussurrou. — O Reverso gosta de truques. Ele coloca peças no lugar errado… e coloca medo no lugar certo.

— E como eu tiro o medo do lugar certo? — Lia perguntou, tentando não deixar o sarcasmo escapar.

— Com método — respondeu o Guardador, e por um segundo a palavra soou menos ameaçadora e mais… antiga, como um conselho de avó.

Capítulo 4 — O Plano de Lia

No quarto, Lia desenhou o carilhão no caderno. Fez setas, números, marcas. O desenho ficou torto, mas era um mapa. E mapa, mesmo torto, ainda ajuda.

Ela escreveu:

1) Ouvir a sequência atual.

2) Abrir com cuidado.

3) Fotografar (ou desenhar) a posição das lâminas.

4) Comparar com o livrinho.

5) Trocar UMA lâmina por vez.

6) Testar o som após cada troca.

A Noite encostou no vidro da janela como uma gata grande. A lua parecia um prego brilhando no céu, segurando a escuridão no lugar.

Lia desceu de novo. O corredor estava lá, do mesmo tamanho… por enquanto. O Guardador do Reverso a esperava, encostado no canto como uma sombra que decidiu ser gente.

— Vai mesmo fazer isso? — ele perguntou.

— Vou — respondeu Lia. — E se você quiser me assustar, pode pegar senha. Tem fila.

O Guardador soltou um som que poderia ser uma risada ou um suspiro.

Lia ouviu o carilhão três vezes. Anotou as notas como conseguia, usando letras e setas para indicar “descendo”. Depois abriu a caixinha do mecanismo. O interior era um pequeno mundo de metal: engrenagens como luas minúsculas, parafusos como estrelas, e lâminas finas como folhas de outono.

Ela desenhou a posição de cada lâmina e marcou com números. Comparou com o esquema do livrinho: “da mais longa à mais curta”.

— Aqui está o problema — disse Lia, apontando. — A lâmina mais longa está no lugar da segunda. E as duas do meio estão trocadas.

O Guardador se inclinou.

— Se você mexer, o Reverso pode reagir.

— Então eu mexo devagar e registro tudo — Lia respondeu. — Se reagir, eu volto para o ponto anterior.

Ela soltou um parafuso com a chave de fenda. O som foi pequeno, mas o corredor respondeu com um estalo, como se a casa mordesse o ar. A sombra do Guardador pareceu crescer.

— Continue — ele disse, agora mais baixo.

Lia trocou uma única lâmina. Apenas uma. Apertou o parafuso. Fechou a caixinha. E testou: balançou levemente o carilhão.

“DÓ… SI… LÁ…”

Ainda ao contrário. Mas a última nota soou menos triste, como se tivesse levantado a cabeça.

— Não funcionou ainda — Lia disse. — Mas mudou um detalhe. Isso é importante.

Ela anotou: “Troca 1: pouca mudança. Som mais limpo.”

O Guardador ficou quieto. Pela primeira vez, parecia… respeitoso.

Capítulo 5 — Quando o Corredor Se Estica

Na segunda troca, Lia removeu outra lâmina. O parafuso parecia preso por teimosia e por medo. Ela respirou, contou até três e girou com firmeza, sem arrancar.

O corredor soltou um gemido. A luz do teto piscou duas vezes, como um olho cansado. E as paredes… as paredes se afastaram.

Não era muito. Mas era o bastante para Lia sentir, no estômago, que o espaço tinha virado elástico. O tapete do corredor parecia se estender, como uma língua comprida.

— Eu avisei — murmurou o Guardador. Agora ele estava mais alto, mais escuro. Os olhos de luar pareciam rachaduras.

Lia segurou o caderno com força.

— Método — disse, com a voz trêmula, mas firme. — Se o corredor mudou após a troca 2, eu volto.

Ela desfez a troca, recolocou a lâmina exatamente como estava no desenho. Apertou o parafuso com cuidado. Fechou.

O corredor parou de se esticar. As paredes voltaram devagar, como alguém voltando de um susto.

Lia soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.

— Viu? — ela falou, olhando para o Guardador. — Eu não brigo com a casa. Eu converso com ela.

O Guardador fez um gesto, e as sombras ao redor dele se acalmaram um pouco.

— O Reverso não gosta de pressa — ele disse. — A pressa é um tipo de bagunça.

— Então eu vou por partes — Lia respondeu. — Eu não preciso arrumar tudo hoje. Preciso arrumar certo.

Ela lembrou da avó dizendo que “método é uma lanterna”. E de fato, naquele corredor que queria virar túnel, método era luz.

— Vamos tentar de outro jeito — Lia decidiu. — Em vez de trocar a lâmina presa, vou ajustar primeiro a mais fácil. Uma mudança pequena, segura. Depois outra.

O Guardador observou, silencioso, como um juiz de sombra.

Lia fez uma terceira troca: uma lâmina do meio, solta e obediente. Apertou. Testou.

“DÓ… SI… LÁ…”

Ainda invertido. Mas agora a primeira nota parecia mais alta, mais desperta.

— Estamos chegando — Lia disse, e tentou sorrir. O sorriso saiu pequeno, mas verdadeiro.

Capítulo 6 — O Carilhão Aprende a Caminhar para a Frente

A noite já estava mais funda, e a casa parecia bocejar. Do lado de fora, o vento parou de soprar, como se também quisesse ouvir.

Lia colocou o livrinho aberto no chão, ao lado do caderno. Ajoelhou-se diante do carilhão como quem faz um pacto com uma criatura ferida.

— Eu não vou te forçar — sussurrou. — Vou te guiar.

Ela seguiu o plano, passo por passo, como quem atravessa pedras num rio.

Fez uma troca pequena. Testou. Anotou.

Fez outra. Testou. Anotou.

Quando algo parecia “pior” — uma nota mais áspera, um tremor estranho no corredor — ela voltava, sem vergonha de recuar.

O Guardador do Reverso, aos poucos, foi encolhendo. A sombra dele afinava, como se o próprio trabalho dele estivesse perdendo força.

— Por que você quer tanto consertar isso? — ele perguntou, num tom menos duro.

Lia parou, com a chave na mão.

— Porque… — ela procurou palavras. — Porque é triste ver algo bonito fazendo tudo ao contrário e achando que é assim mesmo. E porque eu gosto quando as coisas fazem sentido. E porque… eu acho que ele quer.

O carilhão deu um tilintar suave, como se concordasse.

Finalmente, chegou a vez da lâmina “teimosa”. Lia não tentou vencer na força. Ela passou um pano para tirar o pó, aplicou uma gotinha de óleo que encontrou na caixa de ferramentas e esperou um minuto.

— Esperar também é método — ela disse, como se ensinasse ao próprio medo.

O parafuso cedeu. Sem estalo de casa mordendo o ar. Sem parede se esticando.

Lia trocou a lâmina para o lugar correto: da mais longa à mais curta, como o livrinho ensinava. Fechou a caixinha com cuidado, como quem fecha os olhos de um bebê adormecido.

— Agora — disse Lia, e a voz dela saiu como uma nota segura.

Ela balançou o carilhão.

“DÓ… RÉ… MI…”

As notas subiram. Subiram como pássaros ganhando coragem. O som encheu o corredor e pareceu escovar as sombras para o lado, abrindo espaço para um silêncio bom.

O Guardador do Reverso deu um passo para trás. O chapéu alto desfez-se em fumaça. Os olhos de luar viraram dois pontinhos e depois nada.

— Então… acabou? — Lia perguntou, com o coração ainda acelerado.

Uma brisa passou e tocou a campainha do carilhão de leve. Desta vez, o som foi claro, como água numa pedra.

Do lado de fora, a Noite fez sua ronda final. E Lia sentiu, bem de leve, um carinho frio na testa — como uma aprovação.

Capítulo 7 — A Moral que Fica no Silêncio

No dia seguinte, de manhã, o corredor parecia apenas um corredor: tapete, retratos, cheiro de café. Mas Lia sabia que a casa tinha segredos dobrados dentro dela como cartas.

A avó, ao ouvir o carilhão tocar “para a frente”, parou com a caneca na mão.

— Ora, ora… — ela disse, com um sorriso que tinha mais orgulho do que surpresa. — Você conseguiu.

Lia contou tudo, mas sem dramatizar demais. Falou do sótão, do esquema, do corredor que quase esticou. E falou, principalmente, do plano, dos passos, dos recuos e do jeito de não se apressar.

A avó assentiu.

— Medo é como neblina — disse ela. — Se você corre, ele entra nos olhos. Se você anda com método, ele fica do lado e você enxerga o caminho.

Lia olhou para o carilhão. Agora, cada nota parecia colocar um tijolinho no lugar certo dentro do peito dela.

À noite, antes de dormir, ela deixou a porta do quarto entreaberta. Não por insegurança, mas por respeito. A Noite passaria para cuidar dos visitantes — e, de algum jeito, Lia também era uma visitante no mundo dos segredos.

O carilhão tocou uma última vez, suave, como um “boa noite” musical.

E Lia adormeceu sabendo uma coisa simples e poderosa: coragem não é não sentir medo. É saber o que fazer com ele — passo por passo, como quem ensina uma canção a andar para a frente.

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Pirilampo
Inseto que brilha no escuro, também chamado vaga-lume.
Carilhão
Conjunto de sinos que tocam juntos para fazer uma melodia.
Tilintar
Som leve e metálico que sinos ou objetos pequenos fazem.
Engrenagens
Rodas com dentes que se encaixam para transmitir movimento.
Hastes
Peças finas e compridas que ligam ou sustentam outras partes.
Lâminas
Peças finas e achatadas, como as que fazem som em um carilhão.
Sótão
Parte de cima da casa, logo abaixo do teto, onde se guarda coisas.
Parafuso
Peça de metal que gira para prender ou juntar objetos.
Método
Jeito organizado de fazer algo, com passos e atenção.
Régua
Instrumento reto usado para medir ou traçar linhas retas.

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