O Tomás tinha quatro anos.
A Inês também tinha quatro anos.
Eles eram amigos.
Viviam no mesmo prédio.
Gostavam de brincar juntos.
Uma tarde, depois do lancho, a mãe do Tomás disse:
— Hoje vamos deitar um bocadinho mais cedo.
Tomás não gostou muito.
Ele gostava da parte da manhã.
Gostava do sol, dos brinquedos e do parque.
Mas à noite…
À noite o quarto ficava escuro.
E o escuro deixava o Tomás um bocadinho apertado por dentro.
Ele não queria dizer “tenho medo”.
Então dizia:
— Não gosto do buéu… do buéu escuro…
A mãe sorriu.
— Do breu escuro, filho?
Tomás abanou a cabeça, sério.
— Sim… do breu escuro…
Nessa tarde, a campainha tocou.
Era a Inês com o pai.
Ela trazia uma mochila pequena às costas.
— Olá! — disse a Inês. — Vim brincar!
— Viva! — disse o Tomás, a saltar.
Brincaram de construções.
Brincaram de carrinhos.
Brincaram de restaurante de peluches.
Depois, a mãe do Tomás olhou pela janela.
O céu ficava laranja.
O sol ia embora, devagar.
— Está quase a anoitecer — disse a mãe.
Tomás sentiu o peito apertar outra vez.
Ele olhou para o chão.
O pai da Inês perguntou:
— Está tudo bem, Tomás?
Tomás encolheu os ombros.
Não sabia bem o que dizer.
A Inês aproximou-se dele.
Falou baixinho:
— Eu também não gostava do escuro.
Tomás abriu muito os olhos.
— A sério?
— A sério — respondeu a Inês. — Mas agora eu tenho um truque.
Tomás ficou curioso.
— Um truque?
A Inês tirou da mochila um caderninho.
Era um caderno com capa azul.
Tinha um desenho de uma estrela amarela.
— Este é o meu caderno da noite — disse ela.
— Para quê? — perguntou o Tomás.
— Quando fico a pensar coisas esquisitas, escrevo aqui.
— Mas tu não sabes escrever tudo… — disse o Tomás.
— Eu faço desenhos. E alguns rabiscos. O pai escreve as palavras.
O pai da Inês sorriu.
— É verdade. Eu ajudo. Escrevo o que a Inês me diz.
A mãe do Tomás levantou-se.
Foi à gaveta da sala.
Tirou um caderno simples, com linhas.
— Tomás, queres ter também um caderno da noite?
Ele olhou para o caderno.
Parecia um bocadinho importante.
— Sim… quero tentar — respondeu.
A mãe trouxe também lápis de cores.
Um vermelho, um azul, um verde e um amarelo.
— Podemos começar hoje — disse ela.
Tomás sentiu-se mais calmo.
Um bocadinho só.
Ficaram todos sentados na mesa da cozinha.
Lá fora, o céu já estava roxo.
As primeiras luzes da rua acendiam-se.
— Então, Tomás — disse a mãe. — O que é que tu pensas quando chega o escuro?
Tomás pensou.
Pensou devagar.
— Penso que o quarto fica grande demais — respondeu.
— Boa — disse a mãe. — Queres desenhar o teu quarto?
Tomás pegou no lápis azul.
Fez um quadrado torto.
Fez a cama.
Fez um ursinho.
— Este sou eu — disse, a desenhar uma bolinha.
— E o que tu sentes? — perguntou a mãe.
— Sinto… barriguinha apertada.
A mãe escreveu no caderno:
“O quarto fica grande demais. A barriguinha fica apertada.”
A Inês olhou.
— Agora, pinta uma coisa que te ajuda — sugeriu.
— O quê? — perguntou o Tomás.
— Eu pinto sempre uma luzinha — disse a Inês.
Ela tirou da mochila uma pequena lanterna amarela.
— Eu tenho esta lanterna para a noite. Não é para brincar muito, é só para ver um bocadinho.
Tomás fez dois olhos grandes.
— Posso experimentar?
— Claro — disse a Inês.
Ele apontou a lanterna para o chão.
A luz fez um círculo quentinho.
Apontou para a parede.
A luz subiu, redonda.
— Olha — disse o pai da Inês — a escuridão é como um grande casaco.
— Um casaco? — perguntou o Tomás.
— Sim. De dia, o céu põe o casaco luz.
À noite, o céu põe o casaco escuro, para descansar.
A luz vai dormir um bocadinho.
Tomás pensou outra vez.
— A luz vai dormir como eu?
— Sim — respondeu a mãe. — O sol vai dormir. As estrelas acordam. É só uma troca.
Tomás desenhou agora uma pequena lâmpada.
Pintou-a amarela.
A mãe escreveu ao lado:
“Tenho uma luzinha que ajuda.”
A Inês bateu palminhas.
— Vês? O teu caderno já está a trabalhar!
De repente, a sala ficou um pouco mais escura.
O dia tinha mesmo acabado.
A mãe acendeu uma luz suave.
— Está na hora de lavar os dentes — disse.
Tomás e Inês foram à casa de banho.
Lavaram os dentes com calma.
A espuma fazia-lhes bigodes brancos.
— Olha o meu bigode de nuvem! — brincou o Tomás.
Inês riu.
— Eu tenho um bigode de leite!
Voltaram ao quarto do Tomás.
A mãe baixou os estores.
Ficou quase escuro.
Mas não totalmente.
Havia uma pequena luz de noite no canto.
Era em forma de lua.
Brilhava fraquinho, como um sussurro.
Tomás sentou-se na cama.
Segurava o caderno.
A Inês sentou-se ao lado.
— Agora o que é que escrevemos? — perguntou a mãe.
Tomás respirou fundo.
Olhou à volta.
— Agora… o meu quarto não parece tão grande — disse.
— Porquê? — perguntou a mãe.
— Porque estou aqui… com a minha luz… e com o meu caderno… e com a Inês.
A mãe escreveu:
“O quarto parece mais pequeno e mais calmo.”
O pai da Inês olhou para o relógio.
— Está quase na hora de a Inês ir dormir em casa.
Tomás sentiu um pequeno medo a querer aparecer.
Mas ele olhou logo para o caderno.
Passou a mão pela folha.
— Posso desenhar mais uma coisa? — perguntou.
— Podes — disse a mãe.
Ele desenhou um coração.
Um coração grande, vermelho.
— Este é o meu coração — explicou.
— O que é que ele faz no escuro? — perguntou a mãe.
Tomás fechou os olhos um momento.
Depois disse devagar:
— Ele bate… devagarinho… e espera.
Ele espera a luz voltar.
A mãe sorriu, com os olhos brilhantes.
Escreveu:
“O meu coração espera com paciência a luz voltar.”
A Inês disse:
— Gosto disso. O coração sabe esperar.
O pai da Inês levantou-se.
— Vamos, Inês. Vamos para casa. Está na hora da tua história da noite.
Inês abraçou o Tomás.
— Amanhã podes contar-me o que o teu caderno da noite escreveu contigo.
Tomás sorriu.
— Está bem. Eu conto.
Eles foram embora.
Ficou só o silêncio suave no quarto.
A mãe sentou-se na beira da cama.
— Queres que eu fique um bocadinho aqui? — perguntou.
— Quero — disse o Tomás.
Ela apagou a luz grande.
Ficou só a luz de lua.
O escuro era macio, não era duro.
— O que é que tu vês agora? — sussurrou a mãe.
Tomás olhou.
— Vejo a minha estante de livros…
Vejo o ursinho…
Vejo a luz de lua…
E vejo o meu caderno da noite.
— O que é que o teu corpo sente agora? — perguntou a mãe.
Tomás mexeu os pés dentro do lençol.
— Sente-se quentinho…
Sente-se mais calmo…
A barriguinha não está tão apertada.
A mãe fez uma festinha na testa dele.
— O escuro não é mau, filho. É só o mundo a descansar.
— E eu também descanso — murmurou Tomás, a bocejar.
Ele puxou o caderno mais para perto.
Abraçou o ursinho.
Fechou os olhos devagar.
Por um instante, pensou:
“Se eu ficar com medo outra vez, posso desenhar.”
Depois respirou fundo.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
O coração batia, paciente.
Lá fora, as luzes da rua piscavam mansas.
As estrelas faziam guarda ao céu.
No quarto, o silêncio era amigo.
O escuro era um cobertor gigante sobre a casa inteira.
Tomás sussurrou, quase sem som:
— Boa noite, escuro… eu espero contigo.
E, devagarinho, muito devagarinho,
o sono chegou,
macio, calmo e sereno,
para dormir ao lado dele até de manhã.