Parte 1 – O caderno novo
O Tomás tinha quatro anos.
Um dia, a mãe deu-lhe um caderno novo.
Era um caderno branco, muito branco.
As folhas cheiravam a coisa nova.
O caderno esperava.
A mãe sorriu.
— Este caderno é só teu, Tomás.
— Só meu? — perguntou o Tomás.
— Só teu. Para desenhar, escrever riscos, colar coisas. O que o teu coração disser.
Tomás olhou para o caderno.
Sentiu uma coisa quente na barriga.
Era uma mistura de alegria e de medo.
— E se eu estragar? — sussurrou.
— Não há estragar — disse a mãe. — Há tentar. Tentar é bonito.
Tomás respirou fundo.
Abriu o caderno.
A primeira página era tão branca que fazia cócegas nos olhos.
Dentro da barriga, a tal coisa quente falou baixinho:
“Desenha, Tomás. Podes tentar.”
Tomás pensou:
“Talvez isto seja a minha voz de dentro.”
Parte 2 – A voz de dentro
No dia seguinte, Tomás levou o caderno para a mesa da cozinha.
Pôs os lápis ao lado. Todos alinhados.
— O que vou desenhar? — perguntou.
A cabeça parecia cheia de nuvens.
Fechou os olhos um bocadinho.
Ouviu de novo a voz pequenina, lá dentro:
“Começa com um ponto.”
Tomás fez um ponto.
Bem no meio da página.
— Só isso? — Ele riu. — É pouco.
A voz de dentro respondeu, como se fosse vento suave:
“Agora faz uma linha.”
Tomás fez uma linha.
Depois outra.
Viraram um círculo muito torto.
— Parece uma batata — disse ele, a rir.
A mãe olhou e disse:
— Que batata simpática!
Tomás sentiu-se leve.
Riscou olhos, boca, braços.
A batata virou uma cara. Uma cara divertida.
— Consegui! — gritou Tomás.
Dentro dele, a voz sussurrou:
“Vês? Quando tentas, acontecem coisas.”
Todos os dias, Tomás abria o caderno.
Às vezes fazia um sol amarelo.
Outras vezes, um carro com rodas quadradas.
Ou um gato com rabo comprido demais.
Quando saía torto, o coração apertava um bocadinho.
Mas a voz de dentro vinha logo:
“Está tudo bem. Tenta outra vez. Cada risco é um passo.”
Então ele fazia mais um risco, e outro, e outro.
Passo a passo.
Linha a linha.
Parte 3 – Um caderno cheio de passos
Um fim de tarde, a mãe chamou:
— Tomás, é hora de arrumar.
Tomás fechou o caderno com cuidado.
Estava pesado.
Tão pesado de páginas cheias.
Subiu para a cama.
A mãe sentou-se ao lado.
— Posso ver? — perguntou ela.
— Podes — disse Tomás, com um sorriso.
Abriram juntos.
Página a página.
Havia sóis, casas tortas, pessoas com cabelos malucos.
E havia também rabiscos que pareciam nada…
Mas que, para o Tomás, eram tudo.
— Olha, aqui eu tentei desenhar um avião — contou ele. — Ficou estranho.
— E o que fizeste depois? — perguntou a mãe.
Tomás virou a página.
Lá estava outro avião.
Um bocadinho melhor.
— Tentei outra vez — disse ele.
Sentiu o peito crescer, como um balão tranquilo.
— Sabes, Tomás — falou a mãe —, o teu caderno está cheio de coragem.
— Cheio de coragem? — Ele abriu muito os olhos.
— Sim. Cada risco é um “eu tentei”. E tu tentaste muitas vezes.
Tomás encostou a mão ao caderno fechado.
Estava quentinho.
Lá dentro dele, a voz falou outra vez:
“Eu consigo aprender. Eu posso tentar. Um passo de cada vez.”
Ele repetiu baixinho:
— Eu consigo aprender. Eu posso tentar. Um passo de cada vez.
A mãe fez-lhe uma festa no cabelo.
As luzes já eram suaves.
O quarto cheirava a noite calma.
Tomás abraçou o caderno, agora bem cheio.
Cheio de riscos.
Cheio de tentativas.
Cheio de confiança.
Fechou os olhos, a ouvir a sua voz de dentro, macia como cobertor:
“Quando eu acreditar em mim, o meu caderno nunca fica vazio.”
E assim, devagarinho, o Tomás adormeceu,
com o coração tranquilo
e o seu caderno, bem cheio,
a descansar ao seu lado.