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História de viagem espacial 11 a 12 anos Leitura 23 min.

O cabo de segurança e a música do asteroide Tálassa-9

O biólogo Tomás embarca numa missão ao asteroide Tálassa-9 depois que uma sonda capta sinais de uma entidade de poeira e gelo; com paciência, escuta e um cabo de segurança, ele tenta estabelecer comunicação sem provocar.

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Tomás, homem adulto de rosto suave e curioso, olhos brilhantes, capacete aberto, segura um pequeno gerador vibrante numa mão e o cabo de segurança laranja na outra, inclinando‑se suavemente para uma figura de poeira cintilante; Lira, comandante, postura firme e capacete fechado, segura a linha de ancoragem atrás e à direita, pronta para intervir; Maela, linguista, cabelos curtos, filma a cena com um pequeno dispositivo luminoso e anota sinais numa tablet à esquerda; Jun, piloto, nervoso e maravilhado, observa a dois passos, mãos próximas ao capacete; local: caverna gelada num asteroide com paredes de gelo translúcido e veias escuras, cristais pendentes vibrantes e chão coberto por névoa de pó fino e fragmentos de gelo; situação: contacto silencioso e respeitoso — a silhueta de poeira e minúsculos cristais roça o cabo laranja como exploração, ondas sonoras visíveis em vagas coloridas flutuam ao redor, atmosfera de descoberta calma e mágica. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Biólogo e o Convite

O doutor Tomás Avelar gostava de dizer que a vida era teimosa: aparecia onde ninguém esperava, e ainda por cima com estilo. Era biólogo exoplanetário, daqueles que ficam felizes só de ver uma mancha verde numa imagem tremida.

Naquela manhã, a Estação Orbital Íris parecia um aquário gigante. Pela janela do laboratório, a Terra era um mármore azul com nuvens como pinceladas. Tomás alinhava frascos de amostras de gelo de uma lua distante quando o pulso-comunicador vibrou.

— Tomás, aqui é a Comandante Lira. Tem um minuto? — a voz veio firme, com um sorriso escondido.

— Tenho dois, se forem bons — respondeu ele, limpando as mãos no avental magnético.

— São excelentes. O Instituto de Xeno-Linguística de Kepler-186f pediu você. E pediu “com urgência” — Lira destacou as aspas com uma pequena pausa. — Detectaram padrões sonoros numa sonda biológica. Precisam de um biólogo que saiba… ouvir.

Tomás ergueu uma sobrancelha.

“Ouvir” é parte do meu trabalho. Metade do tempo eu escuto coisas que nem têm boca.

Lira riu.

— Vai embarcar na nave Arco-Sete em três horas. Leve o kit de campo e… paciência. O Instituto é brilhante, mas adora complicar o simples.

Tomás guardou os frascos com cuidado, como se fossem ovos de cristal. O coração dele batia com a alegria calma de quem ganha um mapa novo.

No corredor, encontrou Nara, engenheira de manutenção, presa até os cotovelos numa gaveta de cabos.

— Vai viajar, doutor? — ela perguntou sem tirar a cabeça do painel.

— Vou para um instituto onde as pessoas conversam com o desconhecido.

— Ah. Então leve isto — Nara puxou um rolo compacto, preso num estojo laranja. — Cabo de segurança de nova geração. Leve e use, ouviu? Não quero mais relatórios de “quase flutuei para sempre”.

Tomás segurou o estojo e fez continência com exagero.

— Sim, senhora chefe dos cabos. Vou me amarrar à realidade.

— Boa. A realidade tem tendência a escapar — disse ela, finalmente sorrindo.

Capítulo 2 — Arco-Sete, Procedimentos e Estrelas

A Arco-Sete era elegante sem ser exibida. Parecia uma flecha branca com cicatrizes honestas de viagens longas. No hangar, o cheiro era de metal frio e café quente.

Tomás entrou pela eclusa e foi recebido por um robô de bordo com olhos luminosos.

— Bem-vindo, doutor Tomás Avelar. Sou o assistente ORI. Deseja um resumo de segurança ou prefere a versão “rápida e assustadora”?

— A versão rápida e não assustadora, por favor — Tomás respondeu.

— Impossível. Segurança é assustadora por definição — ORI disse com um tom seco que, estranhamente, parecia brincadeira. — Mas farei o meu melhor.

A tripulação era pequena: Comandante Lira, o piloto Jun, a médica Aisha e a linguista-chefe do Instituto, doutora Maela, que embarcaria como passageira para “supervisionar” o caso. Maela tinha olhos atentos, como se o mundo falasse baixinho e ela estivesse sempre decifrando.

Na sala de briefing, um holograma da rota brilhava no ar: um fio azul atravessando pontos de luz.

— Faremos salto por dobra curta — explicou Jun, batendo com o dedo no ar. — Chegaremos ao Instituto em dois dias, tempo local. Sem heroísmos desnecessários.

— E sem debates infinitos — acrescentou Lira, olhando de leve para Maela.

Maela cruzou os braços.

— Debate não é heroísmo, é método.

Tomás levantou a mão, divertido.

— Eu prometo fazer o meu método em silêncio… se me deixarem olhar as gravações.

Maela inclinou a cabeça, avaliando.

— Você é o biólogo que fala com manchas verdes?

— Eu sou o biólogo que tenta não gritar com manchas verdes — ele corrigiu.

No início do voo, Tomás se sentou no observatório. A dobra não era um “buraco” mágico; era uma engenharia de campos e energia, um jeito de dobrar distâncias como se dobrasse uma folha. O espaço, por um instante, parecia um lençol sendo puxado.

Ele sentiu um aperto no estômago — não de medo, mas de respeito.

ORI apareceu no painel.

— Dica não solicitada: respirar ajuda.

— Obrigado, ORI.

— De nada. Eu também não respiro, mas entendo o conceito.

Tomás abriu o estojo laranja e conferiu o cabo de segurança. Era fino, quase leve demais, feito de fibras inteligentes que travavam com comandos simples. Prendeu-o ao cinto por hábito.

— Não é para usar agora — murmurou para si mesmo. — Mas já está pronto.

Capítulo 3 — O Instituto que Escutava o Vazio

Kepler-186f era um mundo com céu pálido e mares escuros. O Instituto de Xeno-Linguística ficava numa plataforma costeira, onde o vento trazia cheiro de sal e algas — vida, vida de verdade, não só números num monitor.

Ao desembarcar, Tomás sentiu a gravidade um pouco diferente: como se o chão fosse um convite e uma cobrança ao mesmo tempo.

A doutora Maela os guiou por corredores claros, cheios de painéis com formas de onda, mapas sonoros, símbolos que pareciam dançar.

— Aqui nós não “traduzimos” — explicou ela. — Nós escutamos com cuidado até o significado se revelar.

— E se não se revelar? — perguntou Jun.

— Então admitimos que ainda não sabemos — Maela respondeu, e aquilo soou mais corajoso do que qualquer frase heroica.

Na sala principal, uma esfera metálica repousava numa mesa. Era a sonda biológica: um “ouvido” enviado meses antes ao cinturão de asteroides do sistema, onde haviam registrado sinais estranhos. Ao redor, técnicos cochichavam.

Tomás aproximou-se como quem se aproxima de um ninho.

— Posso ver os dados brutos?

Um técnico projetou as gravações: ondas sonoras convertidas em luz. Pareciam chuvas e estalos, depois uma sequência regular, como passos. E, por trás, algo mais: uma vibração longa, quase como um ronronar distante.

— Isso não é interferência? — Aisha perguntou.

— Não… — Tomás disse devagar. — Interferência é impaciente. Isso tem… intenção.

Maela sorriu, satisfeita.

— Foi por isso que pedi você. A maioria olha e procura palavras. Você escuta e procura comportamento.

Tomás ampliou o espectro. A vibração longa tinha variações minúsculas, como se alguém modulasse o som com cuidado.

— Parece… ecolocalização. Ou um tipo de comunicação por ressonância — ele arriscou. — Como baleias, mas no vácuo não funciona. A menos que…

— A menos que haja um meio — completou Maela. — Poeira densa. Gelo. Micro-partículas. Um “ar” improvisado.

Lira inclinou-se.

— Onde a sonda estava?

— Perto do Asteroide Tálassa-9 — disse o técnico. — Um corpo rico em gelo e minerais. A sonda registrou o sinal e… depois foi puxada por algo. Ela voltou com arranhões e uma camada de poeira que não identificamos.

Tomás sentiu um arrepio. Não de terror; de curiosidade.

— Então alguém… ou alguma coisa… tocou na sonda. E talvez tenha tentado “falar” com ela.

Maela ativou um novo painel.

— Vamos voltar ao asteroide. O Instituto quer uma equipe pequena. Uma abordagem cuidadosa. E, Tomás… — ela olhou firme — aqui, a regra número um é escutar antes de agir.

Tomás assentiu.

— Escutar antes de agir. Parece simples. O difícil é lembrar quando o coração acelera.

ORI apareceu no comunicador de pulso dele, como se também estivesse no Instituto.

— Observação: o coração humano acelera com frequência. Sugestão: lista de checagem.

Tomás riu.

— Eu sabia que você ia dizer isso.

Capítulo 4 — O Cabo de Segurança e o Asteroide Tálassa-9

A nave de apoio do Instituto, uma cápsula chamada Lince, levou Tomás, Lira, Maela e Jun até Tálassa-9. Aisha ficou de prontidão na base, monitorando sinais vitais e preparada para emergências.

O asteroide era um diamante sujo, girando devagar. À luz distante da estrela, o gelo brilhava como vidro quebrado. Um halo de poeira o cercava, uma névoa de partículas finíssimas.

— Aí está o “meio” para o som — murmurou Tomás, observando os sensores. — Um mar de poeira.

Vestiram trajes extraveiculares. O silêncio do espaço apertou como um cobertor pesado, mas os comunicadores mantinham as vozes vivas.

— Procedimento: ancoragem dupla — disse Lira. — Tomás, você vai na frente comigo. Jun e Maela ficam a dois metros, cobertura e registro. E… — ela fez pausa — cabo de segurança.

Tomás puxou o rolo laranja do cinto e o prendeu ao ponto de ancoragem da Lince. O cabo desenrolou com um som suave no comunicador, como uma fita sendo liberada. Ele o conectou ao próprio traje e depois ao de Lira, criando uma linha firme.

— Isso é novo — comentou Jun. — Parece fino demais.

— Fino, mas teimoso — Tomás respondeu. — Como a vida.

Lira testou a tensão.

— Bom. Se alguém se empolgar e der um salto poético, eu puxo de volta.

— Eu não dou saltos poéticos — Tomás disse. — Eu dou tropeços científicos.

Eles avançaram sobre a superfície irregular. Botas magnéticas prendiam e soltavam com cliques. A poeira dançava ao redor, atraída e repelida por cargas eletrostáticas.

Maela apontou para uma fenda.

— A sonda foi arranhada por algo com bordas, mas não metálicas. Talvez gelo compactado.

Tomás aproximou-se da fenda. Dentro, o gelo parecia ter sido esculpido em linhas curvas, como se uma mão paciente tivesse passado ali — mas não havia mão, só matéria.

Então, um som atravessou o comunicador, captado pelo microfone externo: um “hummm” grave, prolongado, vindo da poeira.

Jun prendeu a respiração, audível no canal.

— Isso… é agora?

— É — respondeu Lira, voz baixa. — Todo mundo, imóvel. Escutem.

O “hummm” mudou, como se percebesse a presença deles. Pequenos estalos se seguiram, em sequência, como pingos numa janela.

Tomás não se moveu. A vontade dele era correr para a fenda, enfiar sensores, colher amostras, fazer mil perguntas ao mesmo tempo. Em vez disso, ficou quieto e contou mentalmente: um, dois, três… Até a ansiedade perder um pouco da força.

— Parece um padrão de aproximação — sussurrou Maela. — Tomás, você consegue responder sem assustar?

— Talvez — disse ele. — Eu posso… imitar. Não com voz, com vibração.

Ele soltou uma ferramenta do cinto: um pequeno gerador de pulso que podia vibrar a superfície do gelo com intensidade controlada. Fixou-o com cuidado, sem movimentos bruscos, e programou uma sequência simples: três pulsos curtos, um longo, pausa.

O gelo transmitiu a vibração para a poeira ao redor.

Por um instante, nada.

Então, o “hummm” voltou, mais próximo, e os estalos repetiram a sequência… com uma variação no final, como se alguém acrescentasse uma palavra.

— Ela respondeu — Tomás murmurou, a voz tremendo de alegria.

“Ela”? — Jun provocou, tentando aliviar a tensão.

“Ela”, “ele”, “isso”… ainda não sei — Tomás respondeu. — Mas respondeu.

A poeira diante deles se condensou. Não como fumaça, mas como uma nuvem que decide ter forma. Uma figura surgiu, feita de partículas e pequenos cristais de gelo, com contornos suaves, como um peixe em correnteza.

Lira apertou o cabo de segurança instintivamente.

— Tomás, não avance.

— Não vou — ele garantiu. — Eu vou… escutar.

A figura vibrou. O som não era uma fala comum; era um tremor que o traje captava e transformava. Mesmo assim, Tomás sentiu como se aquilo estivesse “olhando” para ele.

Ele deixou a ferramenta repetir o padrão, mais devagar, como quem bate à porta com delicadeza.

A figura respondeu com uma sequência mais longa. Maela gravou tudo, olhos brilhando.

— É uma conversa — ela disse, quase sem voz. — Uma conversa de verdade.

E então a figura tocou o cabo de segurança.

As fibras inteligentes do cabo reagiram, acendendo micro-luzes. A figura pareceu fascinada, como se o cabo fosse uma linha de som sólida.

— Cuidado — alertou Lira.

Mas não era agressivo. A figura “seguiu” o cabo com a ponta do corpo, como quem lê em braile. E, de repente, puxou de leve.

Tomás sentiu o tranco e o instinto dele gritou: “solta!” Só que o cabo estava ali por um motivo. Ele plantou as botas, ajustou a ancoragem e falou, calmo:

— Não. Devagar.

— Tomás, ela está te puxando — disse Jun.

— Está me convidando — corrigiu Tomás. — Acho que quer mostrar algo. Lira, posso avançar meio metro, com o cabo tensionado?

Lira hesitou. O silêncio durou um segundo inteiro, que no espaço parecia uma eternidade.

— Meio metro. E se eu disser “volta”, você volta sem discutir — ela ordenou.

— Sem discutir — Tomás prometeu.

Ele avançou meio metro. O cabo desenrolou mais um pouco, suave, controlado. A figura recuou para dentro da fenda, e a poeira abriu caminho como cortina.

Tomás sentiu uma coisa inesperada: confiança. Não cega, mas construída em pequenos gestos. Um convite. Um teste.

— Obrigado por nos mostrar — disse ele, mesmo sem saber se aquilo virava “palavra” do outro lado.

A figura vibrou, e o gelo respondeu com um brilho sutil.

Capítulo 5 — A Câmara de Ecos

Dentro da fenda havia um túnel curto, largo o suficiente para os quatro passarem em fila. As lanternas dos trajes revelavam paredes de gelo com veios escuros. A poeira ali dentro era mais densa; parecia um ar congelado.

Tomás manteve o cabo sempre preso, soltando-o aos poucos. O som da própria respiração era alto demais, então ele a desacelerou, lembrando a dica de ORI.

— Você está bem? — perguntou Maela, aproximando-se um pouco.

— Estou. Estou… tentando não parecer um filhote de cachorro solto numa loja de cristais — Tomás respondeu.

Jun soltou uma risada curta.

— Boa comparação.

A figura de poeira os guiava sem tocar neles. Ela vibrava e, quando eles paravam, vibrava de novo, como se confirmasse: “sim, assim”.

O túnel terminou numa câmara oval. No centro, havia uma espécie de arco feito de gelo e minerais, um anel incompleto, como um sorriso. Ao redor, cristais finos pendiam do teto e tremiam com qualquer vibração, produzindo notas suaves.

— É um instrumento — sussurrou Maela. — Um lugar de ressonância.

Tomás aproximou-se do anel, sem ultrapassar o limite do cabo.

— Pode ser uma… antena acústica. Um amplificador para vibrações na poeira.

A figura tocou o anel. Um acorde grave encheu a câmara, e os cristais responderam com notas mais altas, como se o espaço tivesse virado um sino.

No comunicador, ORI apareceu com a voz surpreendentemente baixa:

— Detecto padrão matemático nas frequências. Harmônicos consistentes.

— Obrigado, ORI — disse Tomás. — Continua registrando.

Maela ajustou um tradutor experimental: não para “traduzir palavras”, mas para mapear repetições e intenções prováveis.

A figura vibrou de novo. O anel cantou. Os cristais responderam. Era como um código musical.

Tomás tentou um gesto: fez o gerador de pulso vibrar em duas notas, simples. O anel respondeu com uma terceira nota, completando uma sequência.

— Ela está… completando — Tomás falou, encantado. — Como um jogo de pergunta e resposta.

— Ou como uma lição — Maela disse. — Ela está testando se vocês escutam.

Lira manteve a postura firme, mas os olhos dela estavam menos duros.

— Então vamos escutar direito.

Eles repetiram o padrão, mais claro. A figura respondeu, e o tradutor mostrou uma probabilidade: “atenção”, “seguir”, “segurança”.

Tomás olhou para o cabo.

— Segurança… — ele repetiu. — Ela percebeu o cabo. O cabo é uma “linha”. Talvez ela entenda linhas como caminhos.

A figura vibrou, e a poeira desenhou no ar uma linha que ia do anel até uma parede. Ali, marcas antigas riscavam o gelo: canais finos, como trilhas.

Jun aproximou-se, sem tocar.

— São como mapas.

— Mapas de som — Tomás disse. — Trilhas por onde a vibração viaja melhor.

Maela respirou fundo.

— Tomás, eu quero tentar algo. Eu vou falar com… com cuidado. Sem impor.

Ela se colocou diante do anel e disse, devagar:

— Nós viemos em paz. Nós queremos aprender. Nós vamos embora sem machucar.

A figura não tinha rosto, mas a vibração dela suavizou, como se fosse um “bom”. O tradutor apontou: “calma”, “ouvir”.

Tomás sentiu uma pontada de emoção, tão simples quanto uma mão no ombro.

Então, um tremor mais forte sacudiu os cristais. Não vinha da figura. Vinha da rocha.

— Micrometeoritos — avisou ORI. — Pequeno impacto na superfície. Vibração secundária.

A câmara gemeu. Uma rachadura abriu no teto, deixando cair uma chuva de poeira e gelo. A figura se contraiu, como quem se assusta com um trovão.

Lira falou rápido:

— Recuar! Agora!

Tomás puxou o cabo com firmeza, e o cabo respondeu, travando e guiando. Ele não precisava “achar o caminho” no pânico; a linha estava ali, concreta, obediente.

— Maela, vem! — ele chamou.

Maela hesitou um segundo, olhando para a figura.

— Não queremos…—

— Escutar também é saber quando sair — Tomás disse, com uma calma que ele nem sabia que tinha. — Ela também quer segurança.

A figura vibrou em direção ao túnel, como se concordasse. Até pareceu empurrar a poeira para abrir caminho.

Eles recuaram, um por um, o cabo deslizando entre as luvas. O tremor continuou, mas diminuiu. Quando saíram da fenda para a superfície, o brilho da estrela parecia mais forte.

Jun soltou o ar, rindo nervoso:

— Eu juro que meu coração tentou pular pela viseira.

Lira respondeu, seca e aliviada:

— Mantenha seu coração onde ele pertence. Dá trabalho recolocar.

Tomás olhou para a fenda. A figura surgiu na entrada, um contorno suave na poeira, e vibrou uma última sequência.

Maela verificou o tradutor.

— Acho que é… “voltem” e “devagar”.

Tomás levantou a mão, um gesto simples.

— Vamos devagar. Obrigado.

E, por um segundo, ele teve a impressão de que o espaço — aquele vazio enorme — estava menos vazio.

Capítulo 6 — Regresso e Plano Arrumado

De volta ao Instituto, o relatório foi direto, sem exageros: “Entidade de poeira e gelo com comunicação por ressonância; estrutura acústica no interior de Tálassa-9; interação não hostil; prioridade para abordagem baseada em escuta e segurança.”

Maela, pela primeira vez, parecia satisfeita sem estar inquieta.

— Você não tentou dominar a situação — ela disse a Tomás, no corredor. — Você deixou espaço para o outro existir.

— Eu queria muito correr e medir tudo — ele confessou. — Mas… eu lembrava da regra. Escutar antes de agir. E também do cabo, para não virar uma lenda triste.

Nara apareceu no comunicador com a imagem tremida, como se estivesse falando do meio de uma oficina.

— Então, usou o cabo?

— Usei — Tomás respondeu. — E não virei poeira.

— Ótimo. Eu detesto limpar “poeira de cientista” — ela disse. — Volta inteiro, ouviu?

Tomás sorriu.

— Prometo.

Na sala de planejamento, Lira reuniu todos. Um mapa do asteroide apareceu, com marcações de segurança.

— Próximos passos — ela disse. — Nada de visitas longas. Vamos mandar uma sonda com vibração controlada, sem entrar na câmara até termos mais dados. E vamos montar uma “linha” de comunicação: padrões curtos, pausas claras. Se a entidade responder, ótimo. Se não responder, nós respeitamos.

Jun levantou um dedo.

— E se ela quiser que a gente volte logo?

Maela respondeu antes de Tomás:

— Então voltamos devagar. E perguntamos, do nosso jeito, o que ela precisa. Comunicação não é só arrancar respostas; é oferecer atenção.

Aisha, no vídeo da base, assentiu.

— E atenção também é cuidar do corpo. Eu vi os batimentos de vocês lá em cima. Se a coragem fosse uma febre, eu teria receitado chá.

Tomás riu.

— Chá espacial?

— Chá com gravidade opcional — Aisha devolveu.

Ao final do dia, Tomás ficou sozinho um momento no alojamento. Tirou o estojo laranja e enrolou o cabo com calma, conferindo se não havia desgaste. Cada volta era um pensamento organizado.

Ele lembrava da figura seguindo a linha com curiosidade, como se a segurança fosse uma linguagem que ambos podiam entender.

No armário, arrumou o kit de campo: sensores limpos, baterias carregadas, etiquetas prontas. Em seguida, colocou o cabo no topo, fácil de alcançar.

Na prancheta digital, escreveu a última linha do plano: “Escutar. Responder com cuidado. Manter uma linha segura. Recolher e guardar.”

Quando apagou a luz, o mundo lá fora continuava enorme, cheio de poeira, gelo e possibilidades. Tomás fechou os olhos sem pressa.

Ele não sabia ainda o que aquela entidade era, nem quantas “palavras” cabiam num acorde de cristal. Mas sabia uma coisa com clareza tranquila: no espaço, como na vida, quem escuta primeiro costuma encontrar o caminho de volta — e também o caminho para a frente.

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Exoplanetário
Relacionado a planetas fora do nosso sistema solar, que os cientistas estudam.
Pulso-comunicador
Aparelho no braço que recebe mensagens e sons entre pessoas na nave.
Sonda biológica
Pequeno aparelho enviado ao espaço para ouvir ou estudar sinais de vida.
Frascos
Pequenos recipientes de vidro usados para guardar substâncias ou amostras.
Amostras
Partes de algo colhidas para testar ou estudar em laboratório.
Ecolocalização
Método de localizar objetos usando sons que voltam como eco.
Ressonância
Vibração que se destaca porque algo responde ao mesmo ritmo.
Partículas
Pequenas porções de matéria, como poeira ou grãos minúsculos.
Ancoragem dupla
Ponto de fixação por dois lados para segurar melhor e evitar quedas.
Trajes extraveiculares
Roupas especiais usadas pelos astronautas fora das naves no espaço.
Eletrostáticas
Forças elétricas que fazem poeira ou objetos pequenos se atrair ou repelir.

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