Capítulo 1 — A ideia que começou com um espirro
Eu chamo-me Tomás, tenho quinze anos e um caderno que já cheira a fita-cola. Não é culpa minha. É que as minhas ideias gostam de se prender às páginas, como pastilha elástica no sapato.
Naquela tarde, eu estava na garagem, a olhar para um monte de coisas “muito úteis”: uma ventoinha velha, um guarda-chuva torto, três molas, um megafone com voz de pato e uma caixa de biscoitos vazia (que, para mim, é uma peça de alta tecnologia).
Do outro lado da porta, ouvi a senhora Adelaide, a vizinha, a tossir e a reclamar:
— Ai, estes pólenes! Espirro, espirro… e depois esqueço-me onde pus os óculos!
Eu também espirrei. Não por alergia. Por solidariedade… e porque tinha soprado pó de serradura.
— Atchim!
E nesse “atchim” nasceu a ideia mais absurda do ano: um aparelho que apanha espirros no ar e os transforma em… lembretes. Sim, lembretes. Tipo: “Não esquecer os óculos” ou “Regar o cacto” ou “Não pôr o gato dentro do frigorífico”.
Chamei-lhe, com grande seriedade científica, o Aspirador de Espirros com Impressão de Ideias — A.E.I.I. (pronuncia-se “aê-ii”, como se fosse um grito de vitória de um marciano).
O meu amigo Ivo apareceu à janela da garagem, mastigando um pão com manteiga como se fosse um microfone.
— Tomás, o que estás a fazer? — perguntou, com a boca cheia.
— A salvar a humanidade de espirros inúteis.
— Ah. Então… normal.
Eu desenhei no caderno: uma mangueira ligada à ventoinha, um funil feito de garrafa cortada, e uma “impressora” feita com rolo de papel de talão e uma caneta presa por elástico.
— Isso vai funcionar? — Ivo inclinou-se para ver melhor.
— Claro! Se não funcionar, ao menos faz barulho. E barulho também é uma forma de arte.
Ivo engoliu e arregalou os olhos:
— E… porquê lembretes?
Eu encolhi os ombros.
— Porque toda a gente se esquece de coisas. E ninguém gosta de levar bronca por esquecer. Se o espirro ajudar, já é uma boa ação.
Do lado de fora, a senhora Adelaide espirrou outra vez. Eu senti que era um sinal do universo, ou pelo menos do pólen do bairro.
— Está decidido — declarei. — Hoje construo o A.E.I.I.
Capítulo 2 — Montagem, confusão e um megafone que grita “QUÁ!”
A construção começou com um plano tático: separar peças por categorias.
Categoria 1: “Isto parece importante”.
Categoria 2: “Isto parece perigoso mas brilhante”.
Categoria 3: “Isto não serve para nada, portanto é perfeito”.
O problema é que tudo caiu na categoria 3.
Eu prendi a ventoinha à mesa com fita-cola, com tanta confiança que a fita-cola começou a duvidar de si própria. Liguei a mangueira ao funil com uma mola e um elástico. Para a parte da impressão, amarrei a caneta ao megafone, porque eu não tinha um motor pequeno… mas tinha um megafone grande, e o entusiasmo não mede tamanhos.
Ivo observava como se estivesse a ver um documentário sobre animais raros.
— Tomás, o megafone é mesmo necessário?
— Absolutamente. Se o lembrete for importante, precisa de voz. Além disso, dá estilo.
Testei o sistema de “sucção” com um pedaço de papel.
A ventoinha soprou o papel para a minha cara.
— Ok — murmurei. — Pequeno ajuste tático: inverter o sentido.
Quando inverti, a ventoinha puxou o papel… e puxou também um guardanapo, duas folhas do meu caderno (ai!) e o cabelo do Ivo, que estava demasiado perto.
— AIIII! — gritou ele, tentando salvar o próprio penteado com as duas mãos.
— Calma! — eu disse, cheio de empatia e fita-cola. — O teu cabelo está a contribuir para a ciência.
Ele soltou-se com um puxão dramático.
— A minha ciência agora precisa de gel.
A impressora improvisada ficou pronta: o rolo de papel preso num suporte de cabide, e o megafone encostado à caneta para “vibrar” e escrever. Eu tinha muita fé e pouca lógica, que é a combinação favorita das minhas invenções.
— Vamos precisar de um espirro — anunciei, olhando para o tecto como se os espirros caíssem de lá.
— Posso fazer cócegas no nariz com uma pena — sugeriu Ivo, com aquele sorriso de quem já se arrependeu mas vai fazer na mesma.
Antes que eu respondesse, a porta da garagem abriu-se e a senhora Adelaide apareceu, com um lenço na mão e uma expressão cansada.
— Menino Tomás, desculpe incomodar… mas não encontra… — ela parou e olhou para o “monstro” de mangueiras. — O que é isso? Um aspirador de tempestades?
Eu engoli em seco. A senhora Adelaide parecia frágil, e eu não queria assustá-la com o meu megafone-pato.
— É… um aparelho para ajudar pessoas que espirram e depois se esquecem das coisas — expliquei, suavemente.
Ela piscou.
— Isso existe?
— Vai existir — corrigiu Ivo, esfregando a cabeça.
A senhora Adelaide suspirou, com aquele ar de quem gostaria de acreditar.
— Eu só queria encontrar os meus óculos.
Eu senti um aperto no peito. A minha invenção era uma piada, mas a preocupação dela não.
— Vamos ajudar, já — disse, e desliguei a ventoinha. — Primeiro os óculos. Depois a ciência.
Capítulo 3 — A caçada aos óculos e o poder de reparar nas pessoas
Procurámos os óculos pela casa da senhora Adelaide como se fossem um tesouro lendário. O Ivo espreitava por baixo do sofá, eu abria gavetas com cuidado. A senhora Adelaide seguia-nos, pedindo desculpa por tudo, até pelo pó.
— Desculpem a confusão — dizia ela. — A cabeça anda uma nuvem…
— Nuvens são ótimas — respondi. — Às vezes trazem chuva, às vezes trazem ideias.
No corredor, vi uma fotografia antiga: a senhora Adelaide mais nova, ao lado de um homem sorridente com um chapéu ridículo.
— É o meu marido — explicou ela, percebendo o meu olhar. — Ele fazia-me rir. Agora eu rio menos… e esqueço mais.
Eu fiquei quieto por um instante. Não era só falta de óculos. Era falta de alguém para rir junto.
— A gente encontra — garanti, com a convicção de quem precisa que isso seja verdade. — E depois… se quiser, a gente pode trazer mais risos. Nem que seja com máquinas parvas.
Ivo encontrou uma caixa em cima do frigorífico.
— Senhora Adelaide! Isto é seu?
Ela abriu. Dentro estava… um lenço. E dentro do lenço… os óculos.
— Ah! — ela riu, um riso pequenino, mas real. — Eu embrulhei para não riscar. E depois… esqueci que embrulhei.
Eu ri também.
— Está a ver? O espirro não tem culpa. É o lenço que é muito competente.
Voltámos à garagem com a senhora Adelaide já de óculos, olhando para tudo com mais nitidez — inclusive para o meu A.E.I.I. horrendo.
— Então essa máquina faz o quê, exatamente? — perguntou ela, curiosa.
— Apanha espirros no ar e transforma em lembretes — repeti.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Menino, eu espirro tanto que a sua máquina vai escrever um romance.
— Um romance de lembretes! — Ivo bateu palmas. — “Capítulo 1: Comprar pão.”
A senhora Adelaide riu outra vez, e isso deu-me coragem. Eu queria que a minha invenção fosse engraçada, sim, mas também queria que ela se sentisse cuidada. E, sinceramente, eu também queria provar que o meu caderno não estava a desperdiçar tinta.
— Vamos testar com segurança — prometi. — Se der errado, só dá… mais risada.
Capítulo 4 — O primeiro teste e o lembrete mais embaraçoso do bairro
Organizei o “laboratório”: janela aberta, mesa livre, e um capacete de bicicleta na cabeça do Ivo “por precaução”. Ele reclamou, mas pôs.
— Por que é que eu tenho de usar capacete?
— Porque és o meu melhor amigo — respondi. — E os melhores amigos são os primeiros a sobreviver aos testes.
A senhora Adelaide ficou a uma distância respeitosa, com o lenço pronto.
— Como é que eu espirro na direção certa? — perguntou, como se estivesse a aprender um desporto.
— Pense numa pena — sugeriu Ivo.
— Pense em pólen — corrigi eu.
Ela inspirou, fez uma cara de quem está a negociar com o próprio nariz e então aconteceu:
— Atchim!
A ventoinha puxou o ar, a mangueira vibrou como uma cobra a dançar, e a caneta começou a tremer. O megafone deu um grito:
— QUÁ!
— O megafone está… a falar? — a senhora Adelaide arregalou os olhos.
— É a função “motivacional” — expliquei, fingindo que era de propósito.
O rolo de papel saiu com uma tirinha escrita. Eu peguei nela com pinça (na verdade, com uma colher de pau, que é a pinça da garagem).
O lembrete dizia, em letras tremidas e dramáticas:
“NAO ESQUECER: DIZER AO TOMAS QUE ELE CHEIRA A COLA.”
Silêncio.
Ivo foi o primeiro a explodir:
— AHAA! — ele dobrou-se a rir. — A máquina é sincera!
Eu fiquei vermelho até às orelhas.
— Senhora Adelaide…
Ela tapou a boca, mas estava claramente a rir.
— Menino… é só que você usa muita fita-cola. O cheiro fica… como perfume de oficina.
Eu cheirei a minha camisola. De facto, parecia que eu tinha abraçado um rolo de fita-cola durante uma semana.
— Ok — eu disse, tentando manter a dignidade. — A máquina captou um pensamento… talvez… um pensamento do ambiente.
Ivo apontou para o meu caderno.
— Ou captou a verdade.
Eu ia desligar tudo quando a senhora Adelaide pousou a mão no meu braço, com delicadeza.
— Não fique triste. Eu gostei. Fez-me rir. E eu… precisava disso.
A minha vergonha encolheu. O lembrete era embaraçoso, mas tinha sido… carinhoso, de um jeito estranho. Ela não estava a gozar comigo para magoar. Estava a partilhar uma coisa honesta, e ainda por cima com humor.
— Vamos ajustar — prometi. — Para os lembretes serem… úteis.
Ivo levantou a mão.
— Sugiro também um filtro anti-“QUÁ”.
Capítulo 5 — Um sonho com a próxima invenção e uma solução inesperada
Nessa noite, eu adormeci em cima do caderno. A página colou na minha bochecha. Quando acordei no sonho, eu estava numa cidade onde todas as pessoas andavam com antenas na cabeça e os espirros saíam em forma de bolhas de sabão.
Eu corria com um A.E.I.I. melhorado: elegante, silencioso e com um botão escrito “EMPATIA”. Sempre que alguém espirrava, a máquina imprimia não um lembrete qualquer, mas uma frase gentil:
“Respira.”
“Estás a ir bem.”
“Queres ajuda?”
E o megafone não dizia “QUÁ”. Dizia “Obrigado”.
A senhora Adelaide aparecia no sonho, a flutuar numa bolha de sabão, rindo como se a saudade também pudesse ser leve.
— Menino Tomás — ela dizia —, às vezes o melhor lembrete é lembrar que a gente não está sozinho.
Eu acordei com o coração a bater rápido e uma ideia simples, sem mangueiras a dançar: talvez eu estivesse a complicar tudo.
No dia seguinte, chamei Ivo e a senhora Adelaide para a garagem.
— Nova versão — anunciei, mostrando uma caixa de biscoitos (a mesma de sempre) com cartões coloridos lá dentro.
Ivo olhou, desconfiado.
— Isso é… uma caixa.
— É a parte genial — respondi.
Expliquei o sistema: cada vez que a senhora Adelaide espirrasse e se esquecesse de algo, ela puxava um cartão. Em cada cartão, eu e o Ivo escreveríamos lembretes úteis e, principalmente, frases que a fizessem sentir-se acompanhada. Coisas como: “Pedir ajuda não é vergonha” e “Liga ao Tomás se não encontrares a chave” e “Hoje mereces um chá e uma gargalhada”.
— Mas isso não apanha espirros — protestou Ivo, só para manter a tradição de protestar.
— Apanha a pessoa — respondi. — E isso é mais importante.
A senhora Adelaide pegou num cartão e leu em voz alta:
— “Se te esqueceres, não te zangues contigo. Respira e tenta de novo.” — Ela ficou com os olhos brilhantes. — Posso ficar com este?
— Pode ficar com todos — disse eu, rápido. — A caixa é sua.
Ivo coçou a cabeça.
— Então a invenção maluca virou… uma invenção de papel?
— Sim — eu disse. — Às vezes a melhor engenharia é reparar no que o outro sente.
A senhora Adelaide abraçou a caixa como se fosse um presente de aniversário.
— Obrigada, meninos. Isto… ajuda.
E, naquele momento, eu percebi que o meu A.E.I.I. tinha funcionado de um jeito torto: não imprimiu um lembrete perfeito, mas imprimiu uma ligação. E isso não dá para comprar em loja nenhuma.
Capítulo 6 — Um último “QUÁ!” e o “vemos amanhã”
Antes de a senhora Adelaide ir embora, Ivo apontou para a minha máquina ainda montada.
— E o A.E.I.I. original? Vai para o museu das coisas que quase explodem?
Eu olhei para a ventoinha, para a mangueira, para o megafone.
— Vamos dar-lhe uma despedida digna.
A senhora Adelaide, agora cúmplice, colocou o lenço no bolso.
— Um espirro final?
— Um espirro final — concordei.
Ela fez a cara de negociação com o nariz e soltou:
— Atchim!
A ventoinha sugou o ar, a caneta tremeu, o rolo saiu… e o megafone, claro, não perdeu a chance:
— QUÁ!
O papel dizia:
“LEMBRETE: SORRIR PARA QUEM TENTA.”
Eu fiquei parado. Ivo também. A senhora Adelaide leu e deu um sorriso largo, daqueles que fazem a sala parecer mais clara.
— Está a ver? — ela disse, guardando a tirinha no bolso. — Até a sua máquina aprende.
Eu desliguei o A.E.I.I. com cuidado, como se fosse um bicho de estimação barulhento.
— Amanhã eu arrumo tudo e penso numa versão que não puxe cabelo de ninguém.
— Obrigado — disse Ivo, muito sério. — A minha cabeça agradece.
A senhora Adelaide caminhou até à porta, com a caixa de cartões apertada contra o peito.
— Meninos… se eu me esquecer de alguma coisa, eu ligo.
— Ligue — respondi. — A gente ajuda.
Quando ela saiu, eu abri o caderno numa página nova. Escrevi: “Próxima invenção: Tradutor de Suspiros (para descobrir o que as pessoas não conseguem dizer)”.
Ivo espreitou por cima do meu ombro.
— Isso parece… perigoso.
— Perigoso não — corrigi. — Só… sensível.
Ele sorriu.
— Então vamos com calma.
Eu fechei o caderno, ouvindo ao longe um passarinho que parecia imitar o megafone.
— Com calma — concordei. — A gente vê amanhã.