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História de invenção maluca 11 a 12 anos Leitura 17 min.

O aspirador de espirros e a caixa dos lembretes

Tomás inventa o A.E.I.I., uma máquina que transforma espirros em lembretes, e com a ajuda do amigo Ivo e da vizinha Adelaide aprende que, mais importante que invenções perfeitas, é reparar nas pessoas.

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Um adolescente chamado Tomás (15 anos), rosto rondo com sardas, cabelo castanho despenteado, expressão entusiasmada e um pouco envergonhada, veste uma velha camisa manchada de tinta e shorts; está ao centro, inclinado sobre uma máquina improvisada com ventosas, tubos e um megafone, segurando uma lata de cola e apertando um botão; à esquerda, um amigo de ~15 anos, Ivo, cabelo loiro curto, sorriso malicioso e capacete de bicicleta rosa torto, ri enquanto segura um tufo de cabelo soprado pela ventosa; à direita, perto da entrada, a Sra. Adelaide, cerca de 70 anos, cabelo grisalho em coque, óculos redondos no nariz e expressão doce e alegre, segura um pequeno cartão colorido e observa agradecida; o cenário é uma pequena oficina/garagem iluminada com prateleiras de madeira, ferramentas na parede, bobinas de corda, uma ventoinha vintage e uma caixa de biscoitos sobre uma mesa com papéis rasgados e croquis, chão de cimento com manchas de tinta e luz quente entrando pela janela; ação: teste cômico de uma invenção que suga um mini-nuvem de ar e imprime um bilhete com uma mensagem atrapalhada, cena dinâmica com bolhas de ar, onomatopeias como “ATCHIM!” e “QUÁ!”, cores vivas e atmosfera aconchegante e divertida. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A ideia que começou com um espirro

Eu chamo-me Tomás, tenho quinze anos e um caderno que já cheira a fita-cola. Não é culpa minha. É que as minhas ideias gostam de se prender às páginas, como pastilha elástica no sapato.

Naquela tarde, eu estava na garagem, a olhar para um monte de coisas “muito úteis”: uma ventoinha velha, um guarda-chuva torto, três molas, um megafone com voz de pato e uma caixa de biscoitos vazia (que, para mim, é uma peça de alta tecnologia).

Do outro lado da porta, ouvi a senhora Adelaide, a vizinha, a tossir e a reclamar:

— Ai, estes pólenes! Espirro, espirro… e depois esqueço-me onde pus os óculos!

Eu também espirrei. Não por alergia. Por solidariedade… e porque tinha soprado pó de serradura.

— Atchim!

E nesse “atchim” nasceu a ideia mais absurda do ano: um aparelho que apanha espirros no ar e os transforma em… lembretes. Sim, lembretes. Tipo: “Não esquecer os óculos” ou “Regar o cacto” ou “Não pôr o gato dentro do frigorífico”.

Chamei-lhe, com grande seriedade científica, o Aspirador de Espirros com Impressão de Ideias — A.E.I.I. (pronuncia-se “aê-ii”, como se fosse um grito de vitória de um marciano).

O meu amigo Ivo apareceu à janela da garagem, mastigando um pão com manteiga como se fosse um microfone.

— Tomás, o que estás a fazer? — perguntou, com a boca cheia.

— A salvar a humanidade de espirros inúteis.

— Ah. Então… normal.

Eu desenhei no caderno: uma mangueira ligada à ventoinha, um funil feito de garrafa cortada, e uma “impressora” feita com rolo de papel de talão e uma caneta presa por elástico.

— Isso vai funcionar? — Ivo inclinou-se para ver melhor.

— Claro! Se não funcionar, ao menos faz barulho. E barulho também é uma forma de arte.

Ivo engoliu e arregalou os olhos:

— E… porquê lembretes?

Eu encolhi os ombros.

— Porque toda a gente se esquece de coisas. E ninguém gosta de levar bronca por esquecer. Se o espirro ajudar, já é uma boa ação.

Do lado de fora, a senhora Adelaide espirrou outra vez. Eu senti que era um sinal do universo, ou pelo menos do pólen do bairro.

— Está decidido — declarei. — Hoje construo o A.E.I.I.

Capítulo 2 — Montagem, confusão e um megafone que grita “QUÁ!”

A construção começou com um plano tático: separar peças por categorias.

Categoria 1: “Isto parece importante”.

Categoria 2: “Isto parece perigoso mas brilhante”.

Categoria 3: “Isto não serve para nada, portanto é perfeito”.

O problema é que tudo caiu na categoria 3.

Eu prendi a ventoinha à mesa com fita-cola, com tanta confiança que a fita-cola começou a duvidar de si própria. Liguei a mangueira ao funil com uma mola e um elástico. Para a parte da impressão, amarrei a caneta ao megafone, porque eu não tinha um motor pequeno… mas tinha um megafone grande, e o entusiasmo não mede tamanhos.

Ivo observava como se estivesse a ver um documentário sobre animais raros.

— Tomás, o megafone é mesmo necessário?

— Absolutamente. Se o lembrete for importante, precisa de voz. Além disso, dá estilo.

Testei o sistema de “sucção” com um pedaço de papel.

A ventoinha soprou o papel para a minha cara.

— Ok — murmurei. — Pequeno ajuste tático: inverter o sentido.

Quando inverti, a ventoinha puxou o papel… e puxou também um guardanapo, duas folhas do meu caderno (ai!) e o cabelo do Ivo, que estava demasiado perto.

— AIIII! — gritou ele, tentando salvar o próprio penteado com as duas mãos.

— Calma! — eu disse, cheio de empatia e fita-cola. — O teu cabelo está a contribuir para a ciência.

Ele soltou-se com um puxão dramático.

— A minha ciência agora precisa de gel.

A impressora improvisada ficou pronta: o rolo de papel preso num suporte de cabide, e o megafone encostado à caneta para “vibrar” e escrever. Eu tinha muita fé e pouca lógica, que é a combinação favorita das minhas invenções.

— Vamos precisar de um espirro — anunciei, olhando para o tecto como se os espirros caíssem de lá.

— Posso fazer cócegas no nariz com uma pena — sugeriu Ivo, com aquele sorriso de quem já se arrependeu mas vai fazer na mesma.

Antes que eu respondesse, a porta da garagem abriu-se e a senhora Adelaide apareceu, com um lenço na mão e uma expressão cansada.

— Menino Tomás, desculpe incomodar… mas não encontra… — ela parou e olhou para o “monstro” de mangueiras. — O que é isso? Um aspirador de tempestades?

Eu engoli em seco. A senhora Adelaide parecia frágil, e eu não queria assustá-la com o meu megafone-pato.

— É… um aparelho para ajudar pessoas que espirram e depois se esquecem das coisas — expliquei, suavemente.

Ela piscou.

— Isso existe?

— Vai existir — corrigiu Ivo, esfregando a cabeça.

A senhora Adelaide suspirou, com aquele ar de quem gostaria de acreditar.

— Eu só queria encontrar os meus óculos.

Eu senti um aperto no peito. A minha invenção era uma piada, mas a preocupação dela não.

— Vamos ajudar, já — disse, e desliguei a ventoinha. — Primeiro os óculos. Depois a ciência.

Capítulo 3 — A caçada aos óculos e o poder de reparar nas pessoas

Procurámos os óculos pela casa da senhora Adelaide como se fossem um tesouro lendário. O Ivo espreitava por baixo do sofá, eu abria gavetas com cuidado. A senhora Adelaide seguia-nos, pedindo desculpa por tudo, até pelo pó.

— Desculpem a confusão — dizia ela. — A cabeça anda uma nuvem…

— Nuvens são ótimas — respondi. — Às vezes trazem chuva, às vezes trazem ideias.

No corredor, vi uma fotografia antiga: a senhora Adelaide mais nova, ao lado de um homem sorridente com um chapéu ridículo.

— É o meu marido — explicou ela, percebendo o meu olhar. — Ele fazia-me rir. Agora eu rio menos… e esqueço mais.

Eu fiquei quieto por um instante. Não era só falta de óculos. Era falta de alguém para rir junto.

— A gente encontra — garanti, com a convicção de quem precisa que isso seja verdade. — E depois… se quiser, a gente pode trazer mais risos. Nem que seja com máquinas parvas.

Ivo encontrou uma caixa em cima do frigorífico.

— Senhora Adelaide! Isto é seu?

Ela abriu. Dentro estava… um lenço. E dentro do lenço… os óculos.

— Ah! — ela riu, um riso pequenino, mas real. — Eu embrulhei para não riscar. E depois… esqueci que embrulhei.

Eu ri também.

— Está a ver? O espirro não tem culpa. É o lenço que é muito competente.

Voltámos à garagem com a senhora Adelaide já de óculos, olhando para tudo com mais nitidez — inclusive para o meu A.E.I.I. horrendo.

— Então essa máquina faz o quê, exatamente? — perguntou ela, curiosa.

— Apanha espirros no ar e transforma em lembretes — repeti.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Menino, eu espirro tanto que a sua máquina vai escrever um romance.

— Um romance de lembretes! — Ivo bateu palmas. — “Capítulo 1: Comprar pão.”

A senhora Adelaide riu outra vez, e isso deu-me coragem. Eu queria que a minha invenção fosse engraçada, sim, mas também queria que ela se sentisse cuidada. E, sinceramente, eu também queria provar que o meu caderno não estava a desperdiçar tinta.

— Vamos testar com segurança — prometi. — Se der errado, só dá… mais risada.

Capítulo 4 — O primeiro teste e o lembrete mais embaraçoso do bairro

Organizei o “laboratório”: janela aberta, mesa livre, e um capacete de bicicleta na cabeça do Ivo “por precaução”. Ele reclamou, mas pôs.

— Por que é que eu tenho de usar capacete?

— Porque és o meu melhor amigo — respondi. — E os melhores amigos são os primeiros a sobreviver aos testes.

A senhora Adelaide ficou a uma distância respeitosa, com o lenço pronto.

— Como é que eu espirro na direção certa? — perguntou, como se estivesse a aprender um desporto.

— Pense numa pena — sugeriu Ivo.

— Pense em pólen — corrigi eu.

Ela inspirou, fez uma cara de quem está a negociar com o próprio nariz e então aconteceu:

— Atchim!

A ventoinha puxou o ar, a mangueira vibrou como uma cobra a dançar, e a caneta começou a tremer. O megafone deu um grito:

— QUÁ!

— O megafone está… a falar? — a senhora Adelaide arregalou os olhos.

— É a função “motivacional” — expliquei, fingindo que era de propósito.

O rolo de papel saiu com uma tirinha escrita. Eu peguei nela com pinça (na verdade, com uma colher de pau, que é a pinça da garagem).

O lembrete dizia, em letras tremidas e dramáticas:

“NAO ESQUECER: DIZER AO TOMAS QUE ELE CHEIRA A COLA.”

Silêncio.

Ivo foi o primeiro a explodir:

— AHAA! — ele dobrou-se a rir. — A máquina é sincera!

Eu fiquei vermelho até às orelhas.

— Senhora Adelaide…

Ela tapou a boca, mas estava claramente a rir.

— Menino… é só que você usa muita fita-cola. O cheiro fica… como perfume de oficina.

Eu cheirei a minha camisola. De facto, parecia que eu tinha abraçado um rolo de fita-cola durante uma semana.

— Ok — eu disse, tentando manter a dignidade. — A máquina captou um pensamento… talvez… um pensamento do ambiente.

Ivo apontou para o meu caderno.

— Ou captou a verdade.

Eu ia desligar tudo quando a senhora Adelaide pousou a mão no meu braço, com delicadeza.

— Não fique triste. Eu gostei. Fez-me rir. E eu… precisava disso.

A minha vergonha encolheu. O lembrete era embaraçoso, mas tinha sido… carinhoso, de um jeito estranho. Ela não estava a gozar comigo para magoar. Estava a partilhar uma coisa honesta, e ainda por cima com humor.

— Vamos ajustar — prometi. — Para os lembretes serem… úteis.

Ivo levantou a mão.

— Sugiro também um filtro anti-“QUÁ”.

Capítulo 5 — Um sonho com a próxima invenção e uma solução inesperada

Nessa noite, eu adormeci em cima do caderno. A página colou na minha bochecha. Quando acordei no sonho, eu estava numa cidade onde todas as pessoas andavam com antenas na cabeça e os espirros saíam em forma de bolhas de sabão.

Eu corria com um A.E.I.I. melhorado: elegante, silencioso e com um botão escrito “EMPATIA”. Sempre que alguém espirrava, a máquina imprimia não um lembrete qualquer, mas uma frase gentil:

“Respira.”

“Estás a ir bem.”

“Queres ajuda?”

E o megafone não dizia “QUÁ”. Dizia “Obrigado”.

A senhora Adelaide aparecia no sonho, a flutuar numa bolha de sabão, rindo como se a saudade também pudesse ser leve.

— Menino Tomás — ela dizia —, às vezes o melhor lembrete é lembrar que a gente não está sozinho.

Eu acordei com o coração a bater rápido e uma ideia simples, sem mangueiras a dançar: talvez eu estivesse a complicar tudo.

No dia seguinte, chamei Ivo e a senhora Adelaide para a garagem.

— Nova versão — anunciei, mostrando uma caixa de biscoitos (a mesma de sempre) com cartões coloridos lá dentro.

Ivo olhou, desconfiado.

— Isso é… uma caixa.

— É a parte genial — respondi.

Expliquei o sistema: cada vez que a senhora Adelaide espirrasse e se esquecesse de algo, ela puxava um cartão. Em cada cartão, eu e o Ivo escreveríamos lembretes úteis e, principalmente, frases que a fizessem sentir-se acompanhada. Coisas como: “Pedir ajuda não é vergonha” e “Liga ao Tomás se não encontrares a chave” e “Hoje mereces um chá e uma gargalhada”.

— Mas isso não apanha espirros — protestou Ivo, só para manter a tradição de protestar.

— Apanha a pessoa — respondi. — E isso é mais importante.

A senhora Adelaide pegou num cartão e leu em voz alta:

“Se te esqueceres, não te zangues contigo. Respira e tenta de novo.” — Ela ficou com os olhos brilhantes. — Posso ficar com este?

— Pode ficar com todos — disse eu, rápido. — A caixa é sua.

Ivo coçou a cabeça.

— Então a invenção maluca virou… uma invenção de papel?

— Sim — eu disse. — Às vezes a melhor engenharia é reparar no que o outro sente.

A senhora Adelaide abraçou a caixa como se fosse um presente de aniversário.

— Obrigada, meninos. Isto… ajuda.

E, naquele momento, eu percebi que o meu A.E.I.I. tinha funcionado de um jeito torto: não imprimiu um lembrete perfeito, mas imprimiu uma ligação. E isso não dá para comprar em loja nenhuma.

Capítulo 6 — Um último “QUÁ!” e o “vemos amanhã”

Antes de a senhora Adelaide ir embora, Ivo apontou para a minha máquina ainda montada.

— E o A.E.I.I. original? Vai para o museu das coisas que quase explodem?

Eu olhei para a ventoinha, para a mangueira, para o megafone.

— Vamos dar-lhe uma despedida digna.

A senhora Adelaide, agora cúmplice, colocou o lenço no bolso.

— Um espirro final?

— Um espirro final — concordei.

Ela fez a cara de negociação com o nariz e soltou:

— Atchim!

A ventoinha sugou o ar, a caneta tremeu, o rolo saiu… e o megafone, claro, não perdeu a chance:

— QUÁ!

O papel dizia:

“LEMBRETE: SORRIR PARA QUEM TENTA.”

Eu fiquei parado. Ivo também. A senhora Adelaide leu e deu um sorriso largo, daqueles que fazem a sala parecer mais clara.

— Está a ver? — ela disse, guardando a tirinha no bolso. — Até a sua máquina aprende.

Eu desliguei o A.E.I.I. com cuidado, como se fosse um bicho de estimação barulhento.

— Amanhã eu arrumo tudo e penso numa versão que não puxe cabelo de ninguém.

— Obrigado — disse Ivo, muito sério. — A minha cabeça agradece.

A senhora Adelaide caminhou até à porta, com a caixa de cartões apertada contra o peito.

— Meninos… se eu me esquecer de alguma coisa, eu ligo.

— Ligue — respondi. — A gente ajuda.

Quando ela saiu, eu abri o caderno numa página nova. Escrevi: “Próxima invenção: Tradutor de Suspiros (para descobrir o que as pessoas não conseguem dizer)”.

Ivo espreitou por cima do meu ombro.

— Isso parece… perigoso.

— Perigoso não — corrigi. — Só… sensível.

Ele sorriu.

— Então vamos com calma.

Eu fechei o caderno, ouvindo ao longe um passarinho que parecia imitar o megafone.

— Com calma — concordei. — A gente vê amanhã.

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Caderno
Livro de folhas para escrever ou desenhar ideias e anotações.
Fita-cola
Fita adesiva usada para colar coisas ou consertar objetos quebrados.
Ventoinha
Aparelho com hélices que move o ar para refrescar ou soprar.
Megafone
Objeto que aumenta a voz para que muitas pessoas possam ouvir.
Mola
Peça de metal enrolada que pode esticar-se e voltar à forma.
Funil
Recipiente em forma de cone para verter líquido ou coisas sem derramar.
Mangueira
Tubo flexível por onde passa ar ou água.
Impressora
Máquina que escreve ou desenha em papel automaticamente.
Capacete de bicicleta
Proteção rígida que se usa na cabeça ao andar de bicicleta.
Rolo de papel de talão
Papel enrolado usado em máquinas para imprimir pequenos bilhetes.

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