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Conto africano 7 a 8 anos Leitura 16 min.

Menos peso, mais caminho: a cabaça, a chuva e o baobá conselheiro

Amina, que carrega uma cabaça pesada, aprende com o griot, o baobá, um burro e crianças a distinguir o essencial do excesso e a pedir ajuda, enquanto uma tempestade e uma travessia põem à prova sua coragem.

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Amina, mulher adulta de rosto redondo, pele morena, cabelo trançado em coque, sorriso sereno e olhos suaves, carrega uma grande cabaça de vime no ombro e entrega um pequeno baú para um cesto no chão; à sua direita um menino de ~8 anos, cabelo curto preto, curioso e sorridente, agacha-se para ajudar a levantar a corda do cesto; à esquerda uma menina de ~6 anos, de rabo de cavalo e olhar risonho, mostra a Amina um pequeno sino enferrujado; ao fundo, sob um baobá de tronco áspero, um griot idoso de ~70 anos, pele vincada e cabelo grisalho curto, sentado com um pequeno tambor de madeira, toca-o suavemente; atrás do grupo fica um grande burro cinza carregando um cesto; cenário: base de um baobá com raízes grossas, solo de terra vermelha com pedras e ervas secas, céu nublado azul‑acinzentado; cena de partilha enquanto Amina transfere objetos para o cesto do burro, atmosfera calorosa, tons terrosos com acentos de ocre, vermelho e verde, estilo gráfico com texturas sobrepostas e sombras nítidas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A cabaça que cantava pesado

Ouçam, ouçam, pequenos ouvidos atentos, porque esta história nasceu de boca em boca, como milho estalando na panela. Dizem que, numa aldeia de terra vermelha e risos fáceis, vivia uma mulher chamada Amina. Amina era adulta, de passos firmes e coração manso. Não era alta como baobá, nem rápida como gazela, mas tinha um jeito de equilibrar o mundo na cabeça e ainda assim ver a flor miúda no caminho.

Amina levava sempre uma carga: uma grande cabaça amarrada com corda de sisal, cheia de água do poço e de pequenos objetos para a casa. A cabaça era redonda como lua cheia e, naquele dia, parecia mais pesada do que pedra molhada.

“Hoje está a puxar por mim, hein?” Amina falou com ela, dando um tapinha de leve. E como em conto antigo as coisas escutam, a cabaça respondeu com um “toc, toc” baixinho, como quem diz: “Também sinto.”

O céu, lá em cima, começou a vestir roupa escura. Nuvens se juntavam como ovelhas cinzentas, uma encostando na outra. O vento passou assobiando, cheirando a chuva. E os primeiros trovões, longe, eram tambores preguiçosos: tum… tum… tum…

Amina olhou para o caminho e para o céu. “Preciso aliviar esta carga antes que o céu derrame a sua panela”, pensou. Não por medo, porque Amina não era de se assustar por qualquer barulho, mas porque água e pressa não são amigas de quem carrega.

No caminho, ela encontrou duas crianças a brincar de saltar sombras.

“Bom dia, Amina!” gritaram, rindo.

“Bom dia, meus pequenos. Vejam só: quem sabe me ajudam com um segredo?” perguntou ela.

“Segredo é doce!” disse uma delas. “Conta!”

Amina sorriu. “O meu segredo é simples: eu quero aprender a carregar menos, sem perder o que preciso. Carregar menos para andar melhor, ouvir melhor, viver melhor.”

As crianças fizeram careta, como quem prova limão. “Mas… se tirar coisas, não fica faltando?”

“Talvez”, respondeu Amina. “Ou talvez a gente descubra o que é mesmo necessário.”

O trovão, mais perto, deu uma risada grossa: GRAAAM! E as crianças pularam, mas logo riram, porque Amina não mudou o olhar. Ela levantou o queixo e disse, calma: “É só o céu conversando.”

Então Amina seguiu, e a sua cabaça, redonda e cheia, balançava como barriga de tambor. Ela repetia para si mesma, como refrão de canção: “Menos peso, mais caminho. Menos peso, mais canto.”

Capítulo 2: O céu de trovões e o baobá conselheiro

O caminho levou Amina até uma planície onde um baobá antigo morava, plantado no chão como um avô sentado. O tronco era tão largo que parecia guardar histórias dentro, enroladas em anéis. Quando o vento passava, as folhas faziam “sha-sha”, como palmas mansas.

Debaixo do baobá, estava sentado o velho griot da aldeia, o senhor Kofi, com um tambor pequeno no colo. Ele não tocava alto; tocava baixo, como quem conversa com o coração. Ao lado dele, um burro cinzento mastigava capim e parecia sorrir, porque burro, quando quer, também sabe rir com os olhos.

Amina se aproximou, e o céu, acima, já era um pano escuro. Um relâmpago riscou longe, como uma cobra de luz, e logo veio o trovão: BUM! Mas era um bum que não queria assustar; era só um bum de aviso, como mãe chamando para dentro.

“Amina, filha do caminho,” disse o griot Kofi, sem se levantar, “trazes água e trazes peso. O que o teu ombro te contou hoje?”

Amina ajeitou a corda. “Contou que está cansado. E eu, que sou dona do meu corpo, ouvi. Quero aliviar a carga, Kofi. Quero aprender a ser humilde com o meu próprio esforço. Às vezes eu penso que tenho de aguentar tudo sozinha, como se fosse pedra. Mas eu não sou pedra.”

Kofi deu uma risadinha, e o burro também, fazendo “ih-ó”, como quem concorda.

“O baobá tem raízes fundas,” disse Kofi. “Mas até ele bebe a água que vem do chão. Ele não diz: ‘Eu consigo sem a terra.' Humildade é lembrar que somos fortes, sim, mas também somos parte. Parte da aldeia, parte do vento, parte da ajuda.”

Amina olhou para a cabaça. “E como eu faço?”

Kofi apontou para três coisas: o burro, uma pilha de cestos vazios e um pequeno abrigo feito de palha perto do baobá.

“O teu desejo é aliviar,” disse ele. “Então faz como o céu antes da chuva: ele junta, ele solta, ele limpa. Primeiro, junta o que é essencial. Depois, solta o que é excesso.

Amina franziu a testa. “Excesso… mas tudo parece importante quando está na minha mão.”

Kofi bateu de leve no tambor: tum-tum. “Então faremos um jogo. Jogo de verdade, porque verdade também brinca.”

Ele chamou as crianças que tinham seguido Amina de longe, curiosas como passarinhos. “Venham cá! Vamos ajudar Amina a conversar com a carga.”

As crianças chegaram e se sentaram em roda. O vento rodeou também, empurrando folhas secas como se fossem pequenas canoas.

Kofi falou devagar, com voz de história: “Amina vai tirar da cabaça o que carrega. Cada coisa que sair vai dizer para que serve. Se serve de verdade, fica. Se serve só por costume, talvez descanse.”

“E a água?” perguntou uma criança.

“A água é vida,” disse Amina. “Essa fica.”

Ela abriu a tampa e mostrou: havia um pano extra, uma colher de madeira, um pote pequeno, umas frutas, uma pedrinha lisa “da sorte”, e até um sino enferrujado que não tocava mais.

As crianças riram do sino. “Ele nem canta!”

Amina riu também. “Eu carrego porque penso: ‘E se um dia eu precisar?'”

Kofi levantou um dedo. “A pergunta é boa. Mas há outra: ‘E se a tua força precisar descansar?'”

Amina pegou o sino e balançou. Saiu só um “clinc” cansado.

O burro, que até então só mastigava, virou a cabeça e pareceu dizer com olhar: “Deixa comigo.”

Amina entendeu a brincadeira. “Está bem,” disse ela ao burro. “Tu levas algumas coisas?”

O burro fez “ih-ó!” como quem diz: “Com prazer.”

Amina separou o pano extra, o sino e a pedrinha. “A pedrinha… eu gosto dela, mas talvez eu não precise provar sorte carregando peso. Posso guardar em casa.”

As crianças bateram palmas: “Isso!”

Nesse instante, um relâmpago riscou bem mais perto e o trovão veio logo, forte, mas curto: CRAAAM! As folhas do baobá tremeram, e uma das crianças se encolheu.

Amina colocou a mão no ombro da criança e disse baixinho: “É só o céu a bater o tambor. A chuva vem regar. Nada aqui vai fazer mal. Estamos juntos.”

A criança respirou e sorriu, meio envergonhada. “Eu pensei que o céu estava bravo.”

“O céu não está bravo,” disse Kofi. “Ele está trabalhando.”

E assim, com o céu a trabalhar, Amina começou a aliviar. Colocaram as coisas num cesto e amarraram no burro, que caminhou dois passos e parou, orgulhoso, como se tivesse virado rei.

“Vês?” disse Kofi. “Dividir não diminui. Dividir aumenta o caminho.”

Amina sentiu o ombro mais leve, como se uma pena tivesse sido tirada. E repetiu, quase cantando: “Menos peso, mais caminho. Menos peso, mais canto.”

Capítulo 3: A ponte de risos e a panela da chuva

Amina precisava atravessar um pequeno riacho para voltar à aldeia. Havia uma ponte de troncos, não muito larga, mas segura. O riacho corria rindo, fazendo “plim-plim”, como se contasse piadas para as pedras.

Só que, com o céu pesado, o vento brincalhão tentou fazer a corda do burro se enrolar numa raiz. O burro parou e fez “ih-ó!” irritado, mais engraçado do que zangado.

“Calma, amigo,” disse Amina, rindo. “Não vamos brigar com raízes. Elas só fazem o trabalho delas.”

As crianças ajudaram a desenrolar a corda, e o burro ficou tranquilo. Kofi caminhou ao lado, batendo no tambor de leve, marcando o passo: tum… tum… tum…

Quando chegaram no meio da ponte, começou a chover. Não foi chuva de susto; foi chuva de abraço, grossa e fresca. Pingos grandes caíam como sementes de água. O céu derramou a sua panela, e o cheiro de terra molhada subiu, um cheiro que parece pão saindo do forno da natureza.

Uma das crianças abriu a boca para pegar pingos com a língua. “Hmmm! Tem gosto de nuvem!”

Amina riu tanto que quase perdeu o equilíbrio. “Cuidado, menina! A nuvem não é doce assim.”

A chuva aumentou um pouco, e o riacho ficou mais falante. Amina olhou para a ponte e depois para o burro. “Vamos devagar,” disse. “Devagar é amigo do seguro.”

O burro, molhado, parecia um penteado de palha. Sacudiu a cabeça e espirrou, fazendo todo mundo rir.

Do outro lado da ponte, havia um abrigo de pedras onde viajantes costumavam esperar a chuva passar. Lá dentro, já estavam duas mulheres da aldeia, tia Sali e tia Nana, com cestos na cabeça e risos no bolso.

“Amina!” chamou tia Sali. “Vem, vem! A chuva está a fazer festa.”

Amina entrou com as crianças e o burro ficou do lado de fora, debaixo de um beiral, comendo capim molhado, feliz.

Tia Nana olhou para a carga menor de Amina e arregalou os olhos. “Ué! Cadê o resto? Antes tu vinhas parecendo uma casa a andar.”

Amina coçou a cabeça, humilde. “Eu pensei que aguentar tudo sozinha me fazia forte. Mas hoje aprendi que pedir ajuda também é força. O burro levou um pouco. As crianças ajudaram. Kofi ensinou.”

Tia Sali bateu palmas devagar. “Isso é bonito. Quem carrega só, cansa. Quem carrega com os outros, chega cantando.”

A chuva lá fora fazia música nas pedras: tic-tic-tic. O trovão, agora longe, era só um “rum… rum…”, como avô roncando depois da comida.

Amina aproveitou o abrigo e abriu a cabaça para repartir as frutas com as crianças e com as tias. “Comam. O caminho fica mais alegre com boca feliz.”

Uma criança perguntou, com a cara séria de quem quer entender o mundo: “Amina, ser humilde é ser pequeno?”

Amina pensou um pouquinho, olhando os pingos escorrendo como contas de colar. “Não,” disse ela. “Ser humilde é como ser água. A água não grita ‘eu sou forte'. Mas ela corre, ela contorna, ela alimenta. E quando precisa, ela aceita o leito do rio. Ela não luta contra a pedra; ela aprende com a pedra.”

Kofi, que tinha ficado calado, fez um som no tambor: tum. “Ouviram? A água é professora. E Amina hoje foi aluna. Amanhã, pode ser professora.”

As crianças mastigaram frutas e mastigaram também a ideia. Uma delas sorriu e disse: “Então eu posso ser água quando eu não consigo fazer a lição sozinho. Posso pedir ajuda.”

“Pode,” disse Amina, feliz. “E quando souber, pode ajudar outro.”

A chuva começou a diminuir, como quem fecha a torneira devagar. O céu clareou um pouquinho, deixando uma faixa de luz pálida.

Tia Nana olhou para Amina com carinho. “E a tua pedrinha da sorte?”

Amina deu risada. “Ficou em casa. Sorte também descansa.”

Todos riram. Até o burro pareceu rir, fazendo “ih-ó” baixinho, como quem conta uma piada secreta.

Capítulo 4: O regresso, a carga leve e a mão que se despede

Quando a chuva virou só chuvisco, o grupo voltou a andar. O caminho brilhava, e as poças eram espelhos onde o céu, agora mais calmo, se olhava.

A aldeia apareceu entre árvores e fumaça de cozinhas. Crianças correram, galinhas discutiam migalhas, e o cheiro de milho cozido dançava no ar.

Amina sentia o corpo mais leve e o coração mais leve ainda. Não porque tinha jogado coisas fora, mas porque tinha aprendido a escolher e a partilhar. A carga, antes uma montanha, agora era um morro pequeno. E um morro pequeno dá para subir cantando.

Ao chegar, Amina foi até a sua casa e guardou o que precisava. Depois, levou o burro de volta ao baobá, para devolver o cesto emprestado e agradecer.

Kofi estava lá, sentado como sempre, como se o tempo fosse um banco ao lado dele. O baobá gotejava água das folhas, como se também tivesse tomado banho.

Amina se aproximou, curvou um pouco a cabeça e disse: “Obrigada, Kofi. Obrigada por me lembrar que ninguém é ilha, e que a força não mora só no braço.”

Kofi sorriu, com olhos de quem guarda mil histórias. “Amina, quem é humilde não se abaixa por vergonha. Abaixa-se para beber melhor a água da vida.”

Amina riu. “E eu bebi. E ainda dei de beber.”

As crianças, que tinham acompanhado tudo, começaram a repetir como cantiga, pulando em volta do baobá: “Menos peso, mais caminho! Menos peso, mais canto!”

O burro, vaidoso, deu uma voltinha e fez “ih-ó!” como se fosse parte do coro.

Amina colocou a mão no peito e falou com voz firme e doce: “Vou lembrar disso quando eu quiser carregar o mundo. Vou perguntar: ‘Isso é necessário? Posso pedir ajuda? Posso partilhar?'”

O céu, já quase limpo, respondeu com um último trovão bem distante, como tambor que se despede: rum…

Kofi levantou a mão devagar, alta, aberta, e disse: “Vai em paz, Amina. Leva a tua leveza. E quando encontrares alguém com ombro cansado, lembra do baobá e da água.”

Amina também levantou a mão, bem alto, e acenou, sorrindo. “Adeus! Até a próxima história!”

E assim, com uma mão erguida em sinal de adeus, a história descansou, como chuva que termina sem pressa, deixando no chão a lição brilhando: humildade é reconhecer limites, aceitar ajuda e repartir o que se tem, para que o caminho fique mais leve e mais bonito para todos.

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Cabaça
Uma vasilha feita de fruto seco, usada para levar água ou guardar coisas.
Sisal
Tipo de fibra forte que se usa para fazer cordas e amarrar objetos.
Trovões
Barulhos grandes no céu quando há relâmpagos e chuva forte.
Baobá
Uma árvore muito grande com tronco largo, comum em algumas regiões.
Griot
Pessoa que conta histórias e canta as memórias do povo.
Tambor
Instrumento que se bate com as mãos ou baquetas para fazer som.
Planície
Terreno amplo e plano, sem muitas colinas ou árvores altas.
Humildade
Qualidade de quem aceita ajuda e não se acha sempre melhor.
Excesso
Quando há mais do que o necessário, coisa demais para carregar.
Riacho
Pequeno curso de água que corre pelo chão, menor que um rio.
Chuvisco
Chuva fraca, com gotas pequenas que molham devagar.

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