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História sobre o inverno 9 a 10 anos Leitura 16 min.

Lume e o Segredo Calmo do Inverno

No inverno, Lume, um pequeno raposo, e seu amigo aprendem a importância de observar o mundo ao seu redor com calma e atenção, enquanto descobrem os segredos que a estação gelada guarda. Juntos, enfrentam desafios e aprendem lições valiosas sobre a curiosidade e a amizade.

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Um pequeno raposo com pelagem ruiva brilhante, grandes olhos curiosos e um sorriso travesso, está em um caminho coberto de neve, admirando os flocos de neve que caem suavemente ao seu redor. Ao lado dele, uma corvo de plumagem negra brilhante, empoleirada em um galho, observa a cena com um ar sábio e divertido, seus olhos brilhando de malícia. O cenário é uma vasta paisagem de inverno, com árvores majestosas cobertas de neve cintilante, um lago congelado que reflete o céu azul claro e colinas suaves envoltas em um manto branco. Nessa cena, o pequeno raposo, maravilhado com a beleza do inverno, tenta pegar um floco de neve que cai, enquanto a corvo, divertida, o encoraja com um grito alegre. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 – O inverno que chegou devagarinho

Naquela manhã, o bosque parecia envolto num cobertor branco. A neve cobria os ramos, os troncos e até o pequeno caminho que levava até à escola dos animais.

Eu caminhava com cuidado, sentindo a neve fofa debaixo das patas. Ao meu lado vinha Lume, o pequeno raposo ruivo, com o focinho no ar e os olhos a brilhar.

Lume vivia quase sempre nas nuvens. Gostava de olhar para tudo ao mesmo tempo: o céu, as árvores, as pegadas, os flocos que dançavam. Por causa disso, às vezes tropeçava nas raízes, nas pedras… e até no próprio rabo.

Nesse dia, eu decidi andar mais devagar.

“Vou esperar por ti, Lume”, disse. “O chão pode estar escorregadio.”

Ele continuou a olhar para as árvores geladas.

“Olha aquele ramo”, murmurou, encantado. “Parece coberto de açúcar.”

Sorri e abrandei o passo ainda mais. O ar frio fazia cócegas no nariz. Cada vez que respirávamos, saía uma nuvem branca da boca, como se fossemos duas chaleiras a deitar vapor.

“Sabes, o inverno não é só frio”, comentei. “Também tem cheiros diferentes. Sentes?”

Lume cheirou o vento.

“Cheira a silêncio”, respondeu, muito sério. “E a neve limpa.”

Achei graça à expressão dele, mas não me ri alto para não o fazer sentir-se estranho. Em vez disso, concordei:

“É isso mesmo. Cheira a silêncio.

Fomos caminhando, devagarinho, lado a lado. Eu observava o caminho à frente. Lume observava tudo o que havia à volta.

Quando passámos junto ao lago, vimos uma fina camada de gelo.

“Olha!”, exclamou Lume. “Um espelho enorme!”

Cheguei-me mais perto dele.

“Não chegues muito perto, Lume. O gelo ainda é fino.”

Ele deu um passo atrás sem protestar. Os olhos continuavam curiosos, mas obedientes.

Naquele momento, percebi uma coisa: Lume sonhava muito, mas também ouvia. Só precisava que alguém andasse ao lado dele, com calma.

Continuámos o caminho até à escola, deixando um rasto de pequenas pegadas na neve fresca.

Capítulo 2 – O recreio gelado

A escola dos animais era uma clareira grande, cercada por pinheiros altos. Em vez de paredes, havia troncos alinhados. Em vez de sineta, um esquilo tocava numa casca oca para chamar todos.

Quando chegámos, já lá estavam coelhos, texugos, esquilos e até uma coruja jovem que estudava durante o dia. Naquele dia, todos pareciam um pouco mais lentos. O inverno deixava o ar pesado, mas também tranquilo.

No meio da clareira, andava o diretor da escola, o velho urso Castanho. Ele era o adulto que tomava conta de todos durante o recreio, principalmente quando o chão ficava perigoso.

O urso caminhava com passos largos e cuidadosos, olhando para o solo.

“Hoje o chão está escorregadio”, avisou ele, com a voz grossa, mas calma. “Cuidado com o gelo, pequenos. Nada de corridas malucas.”

Alguns coelhos murcharam as orelhas, desanimados.

“Sem corridas?”, murmuraram.

Lume, porém, não pareceu triste. Olhava para as poças congeladas, para os flocos que ainda caíam devagar, para as marcas de garras na neve.

“Vamos explorar o recreio devagarinho?” sugeri. “Como se fôssemos detetives do inverno.”

Os olhos dele brilharam ainda mais.

“Detetives? Gostei! Vamos descobrir pistas frias!”

Fomos andando muito devagar, lado a lado. Eu adaptava o meu passo ao dele. Lume andava devagar não por causa do gelo, mas porque parava a cada dois passos para observar qualquer coisa.

“Olha estas pegadas”, disse ele, apontando com a pata. “São de quem?”

Baixei-me para ver melhor. A neve guardava o desenho perfeito de pequenas patas.

“Parecem de esquilo”, respondi. “Vês como os dedos são alongados?”

Lume aproximou o focinho.

“E vão até ao pinheiro grande”, reparou. “Se as seguirmos, chegamos à cantina das pinhas!”

Fosse verão ou inverno, Lume transformava tudo em aventura. Mas naquele dia, a aventura tinha de ser calma. O chão brilhava em certos pontos, onde o gelo se misturava com a neve pisada.

“Lume, vê ali”, indiquei. “Aquela parte está a brilhar demais. O urso disse que é perigoso.”

Ele olhou com atenção.

“Brilha como vidro”, murmurou. “Então… se brilha assim, não é bom caminho para as patas, pois não?”

“Pois não”, concordei. “Boa observação, detetive.”

Ele fez um meio sorriso, orgulhoso.

Continuámos a andar, sempre a olhar para o chão, para os ramos, para o céu. O urso Castanho, ao longe, vigiava com atenção, mas sem interromper as nossas descobertas.

Capítulo 3 – Quase a escorregar

O vento soprou mais forte e fez dançar um montinho de folhas secas. Algumas folhas passaram mesmo à frente do nariz de Lume.

“Folhas dançarinas!” riu-se ele, correndo atrás delas.

Dei um salto atrás dele.

“Lume, cuidado! O gelo!”

Mas ele já tinha dado três passos rápidos. As patas deslizaram ligeiramente e o corpo inclinou-se para o lado. Durante um segundo, pareceu que ia mesmo cair.

O urso Castanho levantou a cabeça, atento. Outros animais olharam na nossa direção.

Nesse instante, Lume travou com as garras, como tinha aprendido no outono quando corria nas folhas molhadas. As patas fizeram um risco na neve e ele conseguiu parar.

Fiquei ao lado dele, ofegante.

“Estás bem?”, perguntei.

Ele respirou fundo e olhou para trás, para a marca deixada na neve.

“Estou”, disse, com os olhos um pouco mais sérios. “Mas… não reparei no gelo. Só nas folhas.” Fez uma pausa. “O inverno quer que a gente olhe melhor, não é?”

Assenti devagar.

“Quer, sim. No inverno não basta olhar para uma coisa só. Temos de reparar em tudo ao mesmo tempo.”

O urso aproximou-se com passos pesados, mas tranquilos.

“Vi o que aconteceu, pequeno raposo”, disse ele. “Não caíste, e isso foi corajoso. Mas lembra-te: a curiosidade é boa, desde que ande de pata dada com a atenção.”

Lume baixou um pouco as orelhas, envergonhado, mas o urso pousou uma grande pata gentil nas suas costas.

“Estás a aprender”, continuou o urso. “É para isso que serve o inverno: para nos ensinar a andar com mais cuidado e a ver mais longe.”

Lume levantou de novo as orelhas.

“Vou ser um detetive ainda melhor”, prometeu. “Detetive que olha para as folhas e para o gelo.”

O urso sorriu, satisfeito, e voltou para o centro da clareira, de onde conseguia ver todos.

Olhei para Lume.

“Se quiseres, posso lembrar-te de olhar para o chão quando te distraíres.”

Ele abanou a cabeça.

“E eu posso lembrar-te de olhar para o céu quando te esqueceres de sonhar”, respondeu, com um ar matreiro.

Rimo-nos os dois. O susto tinha passado, mas a lição tinha ficado.

Capítulo 4 – A aula de silêncio

Depois do recreio, sentámo-nos em troncos cobertos de neve fofa, à volta da professora Coruja-Branca. Ela ensinava-nos coisas sobre as estações do ano.

Naquele dia, trouxe uma pena fina e prateada.

“O inverno”, começou ela, “é a estação da observação. No verão, tudo grita: cores fortes, cheiros fortes, sons altos. No inverno, tudo fala baixinho. Só escuta quem quer mesmo ouvir.”

Lume estava especialmente atento. Em vez de olhar para todos os lados, mantinha os olhos fixos na coruja.

“Como é que se escuta o inverno?”, perguntou ele.

A professora sorriu.

“Com os ouvidos, claro. Mas também com os olhos, com o nariz e com as patas.” Fez uma pausa. “Fechem os olhos um bocadinho.”

Fechámos todos os olhos. O vento fazia um som suave entre os pinheiros. A neve caía quase sem ruído, mas sentia-se qualquer coisa no ar, como se o bosque respirasse muito devagar.

“Sentes alguma coisa, Lume?”, perguntei em voz baixa.

“Sinto o silêncio a caminhar”, murmurou ele. “E o frio a pousar nas minhas orelhas.”

A professora continuou:

“Agora abram os olhos e olhem à vossa volta. Procurem três coisas que não tinham reparado antes.”

Olhei para os troncos, para o chão, para o céu. Vi um pequeno ninho escondido entre dois ramos, um ramo partido preso no gelo e uma linha de gotas congeladas numa folha.

“E tu, Lume?”, perguntei.

Ele respirou fundo.

“Vejo… um floco preso no teu bigode”, disse, rindo baixinho. “Vejo também a marca das garras do urso ali, fundo na neve. E vejo… um galho torto a desenhar um sorriso no ar.”

Olhei para onde ele apontava. De facto, o galho fazia um arco engraçado.

A professora assentiu, contente.

“Quando observamos com calma, o inverno deixa de ser só frio. Passa a ser um livro aberto, cheio de desenhos e histórias.”

Lume apoiou o queixo na pata, pensativo.

“Então, se eu andar devagar, posso ler melhor esse livro, não posso?”

“Podes, sim”, respondeu a coruja. “E também podes ajudar os outros a ver coisas que eles não notam.”

Senti um calorzinho dentro do peito, mesmo com o ar gelado à volta. Era bom pensar que o jeito sonhador de Lume também era um dom.

Capítulo 5 – O caminho de volta para casa

Quando as aulas terminaram, o céu já começava a ficar cor-de-rosa. No inverno, a noite chegava cedo, como uma manta escura a tapar o bosque.

Eu e Lume preparámo-nos para voltar para casa. O urso Castanho estava à saída da escola, a observar o chão.

“Continuem a ter cuidado”, recomendou ele. “A esta hora, o gelo acorda outra vez.”

Assentimos, sérios.

“Vamos seguir o mesmo caminho da manhã”, sugeri. “Já conhecemos as partes mais escorregadias.”

Lume sorriu.

“E agora somos detetives experientes”, acrescentou.

Começámos a andar, lado a lado. Eu mantinha o passo lento, de propósito. Lume não se importava. Parava de vez em quando, mas agora observava também o terreno à frente.

“Ali”, apontou. “Vês? O chão está a brilhar. Vamos pelo outro lado.”

Mudámos de direção. A neve fazia um som baixinho sob as patas, como se estivéssemos a caminhar sobre almofadas.

O céu foi escurecendo. As primeiras estrelas começaram a aparecer, tímidas.

“Sabes”, disse Lume de repente, “antes o inverno parecia-me só frio e comprido. Agora… parece-me um grande segredo para descobrir.”

“Porque começaste a observar melhor”, respondi. “Quando a gente repara nas coisas, elas deixam de meter tanto medo.”

Ele pensou um pouco.

“Também é mais fácil quando não ando sozinho”, confessou. “Tu andas devagar comigo. Assim sinto menos pressa cá dentro.”

As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça. Talvez fosse isso que o inverno ensinava: a não ter pressa, a andar ao ritmo de quem está ao nosso lado.

Passámos de novo junto ao lago. Agora o gelo estava mais espesso, mas continuámos a manter distância.

“Não é porque parece mais forte que deixa de ser perigoso”, lembrei.

“Eu sei”, disse Lume. “Hoje aprendi a olhar duas vezes.”

O vento ficou mais calmo. A neve parou de cair. O bosque parecia segurar a respiração, tranquilo.

Capítulo 6 – A serenidade do inverno

Chegámos perto da toca de Lume. Era uma entrada discreta, entre raízes de um grande carvalho. De lá dentro vinha um cheirinho a folhas secas e a calor guardado.

Antes de entrar, Lume ficou a olhar para o bosque adormecido.

“Sabes o que mais gosto no inverno agora?”, perguntou.

“O quê?”

“Gosto do silêncio que deixa a gente ouvir os próprios pensamentos”, respondeu. “E gosto de quando tu andas devagarinho ao meu lado.”

Senti outra vez aquele calor suave no peito.

“Eu também gosto”, confessei. “Quando andamos devagar, vemos coisas que a pressa esconde.”

Lume fechou os olhos por um momento, como se quisesse guardar numa caixinha invisível tudo o que tinha sentido naquele dia: o frio no nariz, o susto no gelo, o riso com as folhas dançarinas, a voz calma do urso, as explicações da coruja, o caminho de volta.

“Hoje o inverno já não me parece tão grande”, disse ele, abrindo os olhos. “Parece… do meu tamanho.”

“Talvez porque aprendeste a andar ao teu ritmo”, sugeri. “Nem rápido demais, nem devagar demais. O ritmo certo para reparar nas coisas.”

Ele sorriu, cansado mas sereno.

“Sabes o que vou fazer amanhã?”, perguntou.

“O quê?”

“Vou voltar a ser detetive. Mas agora, detetive do inverno calmo”, disse. “Vou procurar o som da neve a cair, o cheiro do frio, e os brilhos que avisam que o chão é escorregadio.”

“E eu vou caminhar ao teu lado”, prometi. “Para ver o que tu vês e para te lembrar de olhar para o chão quando sonhares demais.”

Lume bocejou, longo e tranquilo.

“O inverno é uma boa estação para dormir e pensar”, murmurou.

“É, sim”, concordei. “O inverno é como uma grande manta. Por fora é fria, mas por dentro pode ser muito quente.”

Ele entrou na toca, virou-se uma última vez e disse:

“Obrigado por andares devagar comigo.”

“Obrigado por me mostrares as coisas que eu não via”, respondi.

Quando Lume desapareceu lá dentro, o bosque ficou em silêncio. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio de neve, de estrelas e de passos pequenos, dados com atenção.

Enquanto regressava à minha própria toca, senti que o inverno já não parecia tão escuro. Parecia apenas calmo, como um livro branco à espera de ser lido com olhos atentos.

E, naquela noite, enquanto o vento cantava baixinho entre os pinheiros, o pequeno raposo sonhador dormiu em paz, com o coração leve e a serenidade do inverno a abraçá-lo por dentro.

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