Capítulo 1: O tapete que fazia “pof”
Numa toca cheirosa a chá de camomila, vivia Lume, um pequeno dragão de algodão, com escamas macias como almofadas e um focinho que espirrava purpurina quando ria. Lume era muito consciencioso: arrumava as penas da cama por cor, alinhava as pedrinhas da lareira por tamanho e dava boa-noite a cada canto do quarto.
Nessa noite, Lume abriu um livro de posições para relaxar. Na página da direita, havia um desenho de um ouriço enroladinho, com a legenda: “A Pose do Ouriço Fofo.”
Lume piscou os olhos.
“Fofo? Eu nasci para isto.”
Do lado do livro, o tapete redondo, feito de musgo, mexeu as franjas como se fossem sobrancelhas.
“Vais virar bola outra vez?” perguntou o tapete, que se chamava Tapetão.
“Não é ‘outra vez'. É ‘com intenção',” corrigiu Lume, sério. “Vou fazer a Pose do Ouriço Fofo. E vou fazê-la direitinho.”
Da prateleira, um relógio de cuco que não tinha cuco, só tinha um sapo muito tímido, fez “tic… tac… talvez.”
O sapo, Chamfrim, espreitou:
“E… e se a pose fizer cócegas?”
“Ótimo!” disse Lume. “Cócegas são risos pequeninos.”
Lume respirou fundo, como o livro mandava. Inspirou: barriga redonda. Expirou: barriga ainda mais redonda, porque ele era um dragão de algodão e o algodão tem ideias próprias.
Depois, tentou enrolar-se.
“Um, dois, três… ouriço!”
Ele fez força para juntar as patas… e o corpo fez “pof”, soltando um suspiro de almofada. Lume ficou uma bola… mas uma bola meio torta, com a cauda para fora, a abanar como uma colher a mexer sopa.
Tapetão riu baixinho.
“Parece um caracol com cachecol.”
“Eu sou um ouriço fofo em treino,” respondeu Lume, muito digno, mesmo com a cauda a fazer “plim, plim” no chão.
Capítulo 2: A escola de enrolar e desenrolar
Lume voltou a abrir o livro com cuidado, como quem abre uma janela para o sono.
“Diz aqui: ‘Enrola devagar, como se guardasses um segredo quente'.”
“Um segredo quente?” Tapetão abanou as franjas. “Tipo… ‘eu comi a última bolacha'?”
Chamfrim pigarreou de mansinho:
“Ou… ‘eu vi a lua a bocejar'.”
Lume arregalou os olhos.
“A lua boceja?”
“Às vezes,” disse Chamfrim. “Faz ‘aaaa' sem som.”
“Curiosidade alegre,” murmurou Lume, satisfeito. “Gostei.”
Ele tentou outra vez. Enrolou devagar. Muito devagar. Devagarzinho. Tão devagar que o próprio nariz adormeceu por um segundo e acordou com um espirro de purpurina.
“ATCHIM-glim!”
A purpurina caiu em cima do Tapetão.
Tapetão olhou para si e disse, com a voz mais séria do mundo:
“Agora sou um tapete estrelado. Exijo aplausos.”
Chamfrim bateu palminhas pequeninas.
“Ploc, ploc, ploc.”
Lume riu e tentou não se mexer, porque o livro dizia: “Fica quieto.”
“Estou quieto,” sussurrou.
Mas o corpo dele, por ser de algodão, fez um barulhinho: “fufufufu”.
Tapetão cochichou:
“Isso é o teu ‘motor do sono'.”
“É um motor muito fofo,” disse Lume. “Mas ainda não sou ouriço. Falta-me… a cara séria de ouriço.”
Lume fez cara séria.
Parecia mais uma cara de quem pensa numa sopa muito importante.
Chamfrim aproximou-se, com coragem de sapo tímido.
“Posso ajudar? Eu… eu posso ser o treinador.”
“Treinador Chamfrim!” Lume endireitou as orelhas (que eram pequenas e dobráveis). “Dá-me instruções!”
Chamfrim respirou, tentando parecer muito sábio.
“Primeiro: encosta o queixo. Segundo: esconde as patas. Terceiro: pensa numa coisa tranquila. Tipo… uma nuvem que usa pijama.”
“Nuvem de pijama,” repetiu Lume, curioso. “Como é o pijama dela?”
“Às riscas,” decidiu Tapetão. “Porque nuvem gosta de parecer bolo.”
Lume fechou os olhos e imaginou uma nuvem de pijama às riscas, a passear pelo céu com pantufas. O pensamento era tão absurdo que ele quase riu… mas conseguiu segurar o riso dentro, como um balão bem amarrado.
Ele enrolou. Encostou o queixo. Escondeu as patas.
“Sou… uma bolinha… silenciosa…”
E então a cauda, teimosa, deu um último salto.
“Boing!”
Lume abriu um olho.
“A cauda não quer ser ouriço.”
Tapetão falou com doçura:
“Talvez a cauda só queira dizer boa-noite ao mundo.”
Lume pensou nisso e achou bonito.
“Boa-noite, mundo,” disse a cauda, abanando uma vez, satisfeita, e finalmente entrou para dentro da bolinha.
Capítulo 3: A visita do vento que conta piadas
Quando Lume ficou bem enrolado, ouviu-se um assobio na janela. Era Brisaldo, o vento fininho, que às vezes entrava para arejar pensamentos.
Brisaldo entrou sem empurrar, porque vento não sabe empurrar; sabe dançar.
“Ouvi falar em pose de ouriço!” disse Brisaldo. “Eu trouxe piadas leves, daquelas que não acordam ninguém.”
“Piadas leves?” Lume tentou falar sem desenrolar. Saiu meio abafado:
“Mhmm?”
Brisaldo rodopiou e contou:
“Por que é que o travesseiro foi à escola? Para ficar mais… almofadado!”
Tapetão soltou um “pffft” de riso.
Chamfrim riu tão baixinho que parecia uma gota a cair num lago.
Lume, ainda enrolado, tremeu um pouco.
“Se eu rir, eu desenrolo!”
“Então ri por dentro,” sugeriu Brisaldo. “Riso secreto. Riso de bolso.”
Lume fez riso de bolso. Era quentinho.
Brisaldo continuou:
“E sabes o que a estrela disse para a lua? ‘Não brilha tanto, que eu fico com comichão nos olhos!'”
Tapetão comentou:
“Eu também fico com comichão quando o Lume espirra purpurina.”
“Eu tento espirrar com educação,” murmurou Lume, orgulhoso.
Brisaldo baixou a voz, como quem embrulha uma palavra em algodão:
“Agora uma última piada, bem pequenina: qual é o animal que adormece a sorrir? O… ouriço fofo.”
Lume sentiu o peito ficar morno. A pose estava a funcionar. Ele estava mesmo a aprender, passo a passo, riso a riso.
“Estou curioso,” disse Lume, ainda em bolinha. “Os ouriços verdadeiros… sonham com quê?”
Chamfrim respondeu, cheio de imaginação:
“Com folhas a fazer ‘chic-chic', e com maçãs que contam histórias.”
Tapetão acrescentou:
“E com tapetes que voam… mas só um bocadinho, para não dar tonturas.”
Lume guardou essas ideias como quem junta conchinhas no bolso.
“Curiosidade alegre,” suspirou. “É como colecionar perguntas.”
Brisaldo começou a sair, devagar, para não fazer barulho.
“Boa noite, equipa. Continuem a ser… fofos e curiosos.”
Capítulo 4: O livro fecha, e o sono abre
O quarto ficou com um silêncio macio. Tapetão parecia mais quentinho, Chamfrim piscava mais devagar, e até o relógio fazia “tic… tac…” como se embalasse uma canção.
Lume manteve a Pose do Ouriço Fofo. Sentiu as costas redondinhas, as patas escondidas, o queixo encostado. A cauda, agora comportada, estava lá dentro, a dormir antes do resto do corpo.
Tapetão sussurrou:
“Estás a conseguir.”
“Estou,” respondeu Lume, numa voz que já era quase um cobertor. “E sabe o que é mais engraçado?”
“O quê?” perguntou Chamfrim, com um bocejo pequeno.
“Eu pensei que precisava ficar perfeito… mas só precisei ficar curioso. Curioso e calmo. E um bocadinho torto.”
Tapetão riu sem som.
“O torto é o jeito certo de muitos confortos.”
Lume deixou a imaginação passear por coisas simples: a nuvem de pijama às riscas, a lua a bocejar sem som, as maçãs a contar histórias. As frases dentro dele começaram curtas… e depois foram ficando mais compridas, mais lentas, como um rio que encontra um lago e decide descansar.
Com cuidado, sem pressa, ele esticou uma patinha só o suficiente para tocar o livro aberto. A capa era lisa e simpática.
“Boa-noite, livro,” sussurrou Lume. “Obrigada por me ensinares a ser um ouriço… do meu jeito.”
E, com um movimento suave, fechou o livro.
O “clac” foi tão delicado que pareceu um beijo de papel.
Tapetão ficou quietinho, Chamfrim fechou os olhos, o relógio continuou a embalar o tempo, e Lume, enrolado e sorrindo por dentro, adormeceu com uma curiosidade feliz, como se o próximo sonho fosse uma página que se abre sozinha.