Parte 1 — O Sorriso de Lulo
Lulo era um dragãozinho lilás com asas cor de nuvem e orelhas que tremiam quando fazia vento. Lulo tinha um problema muito engraçado: ele sorria sem mexer. O sorriso ficava ali, aberto e brilhante, como uma lua pequena presa no rosto. Sempre que Lulo queria falar, o sorriso piscava, mas a boca não se movia. "Oi!", dizia Lulo com olhos brilhantes. O sorriso dizia "oi" também, calmo e firme.
Na vila, todos conheciam o sorriso parado de Lulo. A tartaruga Nina ria baixinho. O coelhinho Pipo fazia cócegas no ar. O peixe Belu, que morava num aquário, mandava bolhas de risada. "Lulo sorri sem mexer", cantavam as crianças como uma canção fácil. Lulo gostava. Lulo gostava muito.
Numa manhã de céu macio, Lulo decidiu explorar. Ele enrolou o rabo, bateu as asas devagar, que não produziam vento forte, só um sopro cheiroso de flores. "Vamos passear?", perguntou Lulo com os olhos. O sorriso respondeu com um brilho. E assim eles saíram, sorriso e tudo.
Parte 2 — As Pequenas Surpresas
Primeiro, passaram pela padaria da Dona Coruja. O cheiro do pão era tão bom que o nariz de Lulo fez festa. "Um pão com geleia, por favor", fez Lulo com os olhos. A coruja serviu um pão minúsculo, perfeito para um dragãozinho de bolso. Quando Lulo mordeu, o sorriso ficou ainda mais redondo. "Hum!", soprou o sorriso, sem mover a boca. Todos riram. A padaria ficou com uma música leve.
Depois, encontraram um bosque com árvores que cochichavam. As folhas diziam segredos bobos: "Hoje a chuva vai escorregar como gelatina!" As pedras, engraçadas, responderam: "E eu vou rir sem fazer som!" O coelhinho Pipo pulou entre os cogumelos. O peixe Belu flutuou numa sacola d'água que Nina carregava com cuidado.
Lulo viu um espelho no meio do bosque. Não era espelho comum. Era o espelho da curiosidade. Lulo olhou e viu o sorriso sem mexer. "Ei, você me acha engraçado?", perguntou Lulo com os olhos. O espelho mostrou um Lulo que dançava com o vento. O sorriso no espelho tinha um brilho maior. O sorriso de Lulo respondeu com um brilho ainda maior. Eles riram, cada um do seu jeito.
Mais adiante, encontraram um sapo cantor que tinha perdido sua voz. O sapo estava triste, sem coaxar. Lulo sentou perto, muito perto, e fez uma careta de pensamento. O sorriso sorriu mais e, sem querer, soprou uma nota pequena. A nota era tão suave que fez o sapo espreguiçar e, de repente, coaxar: "Croc-croó!" O sapo cantou alto, sem medo, e a canção virou uma roda de vozes. O sapo agradeceu com pulos e o riso de todos foi como pipoca estourando.
Enquanto caminhavam, Lulo e o sorriso encontraram uma porta cor-de-mel no tronco de um velho carvalho. A porta tinha uma fechadura em forma de estrela. Lulo colocou a pata na fechadura e, com os olhos bem abertos, perguntou: "Posso entrar?" O sorriso piscou. A porta se abriu devagarzinho e dentro havia... uma sala de almofadas que flutuavam! Almofadas voadoras! Cada almofada tinha uma estampa diferente: bolinhas, corações, risos desenhados. Lulo subiu numa almofada que cheirava a camomila. A almofada deu um pulinho leve, como um tronco que conta piadas. Lulo riu com o peito. O sorriso ficou ainda mais iluminado, como se tivesse bebido uma xícara de sol.
A noite começou a chegar, com estrelas pequeninas acendendo lampiões no céu. Lulo sentiu os olhinhos pesarem. O mundo estava cheio de sons calmantes: grilos que dedilhavam violões, uma brisa que passava como uma canção de ninar. "Hora de voltar", sussurrou Nina. Lulo respondeu com um bocejo que parecia um suspiro de nuvem.
Parte 3 — O Sorriso que Acalmava
No caminho de casa, passou-se algo engraçado de novo. Um vento travesso tentou mexer o sorriso de Lulo. O vento puxou as bochechas, puxou os bigodes, puxou a cauda, mas o sorriso não se mexeu. "Ah!" fez o vento, surpreendido. "Esse sorriso é preguiçoso!" O vento fez cócegas nas orelhas de Lulo. Lulo riu com os olhos. O sorriso piscou, mas continuou firme. O vento, envergonhado, soprou mais suave e acabou fazendo uma música que embalava os passos dos amigos.
Lulo chegou em casa — uma casinha cor de canela com janelas que pareciam olhos fechados. Por fora, tudo brilhava tranquilo. Por dentro, havia lanternas que piscavam como vaga-lumes tímidos. Lulo tirou as botas, pendurou a mochila cheia de pedrinhas que riam quando choviam, e colocou uma almofada nova na cama. A almofada bocejou de volta.
Na cama, Lulo olhou o teto. O teto tinha desenhos de nuvens que viravam bichinhos. Um dos desenhos era um elefante que voava com balões. "Boa noite, elefante", murmurou Lulo com os olhos. O sorriso sussurrou luz. Papo de travesseiro foi feito. A manta tinha cheiro de histórias contadas pela avó coruja. Lulo se ajeitou, enrolando o rabo como quem se enrola num cobertor quente.
As frases ficaram mais suaves. O coração de Lulo bateu devagar, devagarinho. Os olhos fecharam quase todo. Antes de adormecer, Lulo pensou nas aventuras do dia: o pão com geleia, o espelho curioso, o sapo que voltou a cantar, as almofadas voadoras, e o vento que aprendeu a soprar devagar.
"Você foi engraçado hoje", disse o sorriso, em silêncio que se sentia. Lulo respondeu com um suspiro, e o suspiro virou um pulo de espuma. O quarto cheirou a banho quente e a estrelas. O silêncio ficou amigo, tão macio que dava vontade de cantar baixinho.
Os amigos de Lulo, cada um na sua cama, mandaram um aceno. Pipo com as patas, Nina com a cabeça, Belu com uma última bolha que flutuou até a janela e estourou em um sussurro. A vila inteira parecia um grande cobertor.
Lulo bocejou uma última vez. As frases ficaram longas e suaves, como um fio que se estende. Os olhos se fecharam por completo. O sorriso permaneceu, brilhante e imóvel, guardando o rosto como uma lua que não precisa caminhar para iluminar. E assim, Lulo dormiu.
O sono chegou lento, doce e macio. O mundo ao redor ficou tão calmo que dava vontade de respirar devagar. Cada respiração era um abraço. Cada abraço era um cobertor. E no fim, tudo se acomodou, tudo se aninhou, tudo ficou calmo em algodão.