Capítulo 1 — O Regresso da Fada
Na ponta do vento, uma luz pequena cintilava. Era Liri, a fada do gelo, que voltava de um exílio longe. Seus cabelos eram fios de neve. Suas asas pareciam folhas de cristal. Ela andava devagar para não quebrar o silêncio branco.
O reino era de neve e rios presos. As árvores usavam mantos de geada. As casas tinham chaminés que soltavam fumaça prata. Mas algo andava errado. Um trovão de estrelas rolava no céu. As nuvens cantavam alto, confusas. O vento empurrava os flocos num baile selvagem.
Liri respirou fundo. "Olá, casa antiga", sussurrou. Sua voz era como sino de gelo. As portas do vilarejo abriram como se lembrassem dela. Crianças com luvas vermelhas espiaram. Um cachorro de neve abanou a cauda que fazia som de sino.
— Liri! — gritou uma menina. — Você voltou!
Liri sorriu. Tinha saudade do cheiro de chocolate quente e dos livros na biblioteca de gelo. Mas sabia da missão. Ela precisava acalmar a tempestade mágica. E precisava provar que o exílio lhe ensinara coisas novas.
Capítulo 2 — O Coração da Tempestade
No centro do vale, o rio estava preso por uma capa de cristal. O gelo cantava quando o vento passava. No céu, as nuvens rodopiavam e soltavam faíscas coloridas. A tempestade não queria descansar. Parecia triste, como se tivesse perdido algo.
Liri caminhou até o rio. Tocou a água que dormia. "Bom dia, amigo", disse ela. A água tremia. Uma voz baixa respondeu do gelo:
— Estou preso. Sinto falta de ouvir risos.
Liri pensou. Lembrava-se dos dias em que costurava canções no tecido do vento. Liri era criativa. Tinha guardado no bolso um pedaço de céu, um pedaço de riso e um punhado de poemas.
— Posso ajudar? — perguntou com cuidado.
— Mostre-me luz — murmurou o gelo.
Liri tirou do bolso o pedaço de riso. Ele era uma bolha dourada que cantava "tra-lá". Liri soprou. O riso subiu como fumaça e tocou o gelo. O gelo sorriu com uma rachadura pequena. Uma nota musical fugiu e foi para a tempestade.
— Mais — disse a tempestade, rouca e curiosa.
Liri então fez algo novo. Pegou um livro vazio que trouxera do exílio. Abriu as páginas em branco ao vento. "Cada vez que conto uma história, desenho com palavra", explicou. Com sua varinha, ela desenhou no ar pequenas imagens: um cão de neve que fazia piruetas, uma vassoura que varria as nuvens, um pássaro que guardava cartas. As imagens dançaram até as nuvens e ensinaram ritmos gentis.
As nuvens, que antes eram rabugentas, começaram a rir. Seus trovões viraram batidas de tambor para uma canção. As faíscas coloridas transformaram-se em luzes de festa. O vento dançava mais leve. O gelo no rio abriu uma fresta e cantou uma nota clara.
— Está funcionando! — exclamou Liri, os olhos brilhando.
Mas a tempestade ainda segurava uma sombra pequena. Era medo antigo. Um trovão mais forte sacudiu uma casinha no alto da colina. Trigos de cristais caíram como chuva de purpurina.
— Calma! — disse a fada com voz firme e doce. — Vamos brincar juntos.
Ela lembrou das brincadeiras que inventara no exílio: construir pontes de sopro, pintar nuvens com sal de lua, assobiar com conchas de gelo. Com riso e cuidado, Liri convidou a tempestade a participar. A tempestade hesitou, e depois soprou uma nuvem macia. Liri a tocou como se fosse uma pena. O trovão ficou pequeno como um bater de pandeiro.
Capítulo 3 — O Retorno e a Festa
Aos poucos, o reino respirou. As crianças voltaram a correr. O cão de neve latia notas musicais. As janelas brilharam com desenhos que o vento desenhava. O rio abriu um caminho prateado e deixou a água cantar de novo. A tempestade abriu o peito e soltou uma chuva fina de luzes. Era como se o céu pedisse desculpas e oferecesse presente.
Uma senhora da aldeia, com cachecol azul, aproximou-se e segurou a mão de Liri.
— Obrigada — disse ela, com voz doce. — Você trouxe música de novo.
Liri corou, como se seu rosto virasse floco de neve. — Eu aprendi que inventar coisas ajuda a curar o medo — respondeu. — Quando fazemos juntos, tudo fica mais leve.
Houve uma festa que a neve aplaudiu. Crianças fizeram bonecos que piscavam. Um velho sapateiro cantou uma canção sobre botas que iam até a lua. Liri mostrou o livro vazio para todos. Cada pessoa desenhou ali um desejo em palavras ou rabiscos. A cada desenho, o brilho aumentava. O exílio de Liri tinha ensinado a transformar lembranças em ideias. Agora o livro estava cheio de cores.
Antes de dormir, Liri caminhou até a beira do rio. O reflexo das estrelas beijava a água. O rio sussurrou:
— Volte quando quiser.
— Voltarei — disse Liri. — Sempre que a imaginação chamar, estarei aqui.
Ela fechou os olhos. Pensou nas nuvens como almofadas e nas crianças como pequenas lanternas. Sentiu-se inteira. O reino de neve era seu lar de novo. A tempestade virou amiga tonta que às vezes toca um tambor alto, mas agora sabe dançar em silêncio quando é preciso.
As luzes se apagarão devagar. Um vento leve cobriu a vila com um cobertor de paz. Liri, a fada criativa, pousou numa fenda de gelo, onde guardava sonhos. Sorriu. No seu bolso, um pedaço de riso ainda brilhava. Ela adormeceu sabendo que criar era um jeito de cuidar do mundo.
E assim a noite cantou. O céu ficou macio. E no reino de rios presos e flocos cantores, a criatividade cresceu como árvore de luz.