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Fantasia Heroica 7 a 8 anos Leitura 10 min.

Lira e a erva-luar da longa noite

Lira, a quebrafesas, percorre vales e enfrenta guardiões e travessuras do vento para colher a erva-luar, usando canções, bondade e histórias para curar e proteger sua aldeia.

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Lira, mulher de cerca de 40 anos, rosto suave e determinado, olhos cor de gelo e cabelos grisalhos trançados, veste capa de pele e bolsa de couro; canta baixinho enquanto colhe com cuidado plantas prateadas que brilham sob a lua. Um pequeno corvo negro de penagem iridescente pousa no ombro, curioso; atrás, um golem de pedra maciço, talhado em granito coberto de musgo, vigia em silêncio. Tudo se passa numa vala circular sob uma grande lua, pedras rúnicas formam um círculo, neve cintila e tufos de erva-lua emitem um brilho prateado sobre o solo úmido. Cena principal: Lira serena e concentrada colhe a rara erva-lua sob tons azul e prata, o corvo observa e o golem protege, atmosfera mágica e tranquila. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A tunda da longa noite

Na tunda onde a neve canta e o vento conta histórias, morava Lira, a quebrafesas. Lira era uma mulher de olhos como gelo derretido e cabelo da cor da lã velha, com mãos firmes que curavam nós e quebravam feitiços. A noite ali era demorada, como um cobertor que não se dobra; a lua ficava alta semanas inteiras, derramando prata por sobre a relva curta e as rochas cobertas de musgo azul.

Numa noite brilhante, Lira ajeitou sua capa de pele, pegou a sacola de couro e sussurrou para o céu: "Hoje a lua me chama." Havia pessoas nas aldeias próximas que precisavam de suas ervas: raízes que acalmavam corações agitados, flores que faziam sonhos bons e folhas que desfaziam torpor de maldição. Mas naquela noite, seu alvo era raro — a erva-luar, que só crescia nos vales abertos sob a lua cheia da longa noite. Diziam que a erva-luar brilhava como um pedaço de luar preso às raízes.

O vento respondeu com um lamento suave, e Lira seguiu, os passos firmes na neve funda. Pelo caminho, ela encontrou animais curiosos: um pequeno corvo com uma pena cintilante pousou no ombro dela e cuspiu uma piada: "Você acha que pode levar a noite inteira nas suas mãos?" Lira riu. "Não levar, mas aprender a ouvir." Ela apertou a pena no bolso — presente de confiança.

Capítulo 2 — O vale das vozes

O vale onde a erva-luar crescia estava cercado por pedras altas, cada uma marcada por runas antigas. Lira sabia que para alcançar a erva, precisava cantar baixinho a canção das quebrafesas — uma melodia que desfazia fios de magia teimosos. A canção não era guerra; era conversa entre a mulher e a noite.

Ao entrar no vale, Lira sentiu a magia à volta como fios de luz subtis. Uma sombra de gelo escolheu aparecer: era um guardião de pedra, um golem criado para proteger a erva-luar das mãos imprudentes. Seus pés pesavam, e sua voz vibrava como trovejo. Lira podia ter lutado com ferro, mas ela preferia o método das curandeiras: falar. Ela colocou a mão sobre o peito do guardião e disse, com voz calma e firme: "Guardião, vim por cura, não por ganância. Ensina-me como a erva serve aos que sofrem."

O golem hesitou. "Há muitos que tomam sem agradecer," rugiu. "Promete que cuidarás dela com respeito." Lira respondeu: "Juro com o nome das noites que vi tecendo histórias. Usarei cada folha para tornar leve quem está pesado." O golem, tocado pela sinceridade, baixou seu enorme braço e deixou que Lira passasse. "Canta a canção da lua enquanto colhes," aconselhou. "Ela não gosta de pressa."

Lira cantou. As notas saíam como passos de patos sobre o lago congelado. A canção era simples, mas cheia de calor: lembrava as mães chamando, os amigos chamando para brincar, os anciãos contando. A erva-luar se curvou, como se despertasse de um sonho. Seus fios eram prateados e tinham um cheirinho de sopa de maçã. Lira cortou com cuidado, colocou cada talo na sacola e falou agradecimentos baixinho, como quem pede licença ao mundo.

Capítulo 3 — A ponte de gelo e o riacho que ria

Com a sacola cheia de erva-luar, Lira tomou outro caminho para voltar à aldeia, um caminho que passava por uma ponte de gelo sobre um riacho brincalhão. O riacho ria de pedras e fazia trocadilhos com as folhas que caíam. No rumo, surgiram sombras pequenas: gobelins do vento, conhecidos por suas travessuras. Eles tentaram soprar a sacola de Lira, desejando as ervas para fazer poções de sono eterno — coisa perigosa.

"Ei, mulher de músicas," guinchou um gobelin, "devolve as plantas! São para nós!" Lira parou, olhou-os com ternura e respondeu: "As plantas não servem aos que brincam com o sofrimento. Venham ouvir uma história, e se gostarem, eu lhes darei folhas de chá que fazem rir." Os gobelins adoravam rir; eram frágeis para doces histórias. Lira então cantou sobre uma coruja que usava botas e de um cavalo que aprendeu a dançar. Enquanto os gobelins riam, Lira partilhou, com cuidado, algumas folhas comuns e um pouco de mel. Eles aceitaram e prometeram proteger o caminho em troca.

Ao atravessar a ponte, o vento tentou puxar a capa de Lira, mas a capa se enroscou no cinturão; o corvo no ombro grasnou satisfeito. Lira sentiu uma alegria simples: não era preciso lutar sempre. Às vezes, a bondade e a música eram melhores que a espada.

Capítulo 4 — Voltar para casa e curar

Quando Lira chegou à aldeia, as casas brilhavam com pequenas lâmpadas de óleo. Crianças corriam em torno das praças, e adultos olhavam com esperança. A primeira pessoa que a esperava era Miro, o ferreiro, que tivera a língua presa por uma maldição de silêncio. Ele caminhou até Lira com olhos contentes e sussurrou: "Você trouxe?" Lira assentiu e tirou da sacola dois talos de erva-luar, mais brilhantes que algumas estrelas do céu noturno.

Ela misturou as folhas em uma infusão quente e soprou sobre o líquido palavras antigas que aprendia com sua avó: palavras que não forçavam, palavras que acolhiam. "Beba, Miro, e pensa nas coisas que mais amas." Ele bebeu. Aos poucos, um calor subiu pelo peito dele, e um som — um suspiro, depois uma palavra — escapou. "Obrigado," murmurou, e então, rindo, chamou alguém de quem sentia falta. A aldeia aplaudiu em silêncio feliz. Lira sentiu as bochechas aquecidas, não de frio, mas de alegria.

Nos dias seguintes, ela visitou uma menina com pesadelos que mordiam o sono; a senhora que andava com passos pesados por causa de uma espinha de gelo presa na perna; e um menino cujo riso tinha sumido. Para cada um, Lira usou um pedaço da erva-luar, dizendo palavras que libertavam. "Sinta a noite, mas não a deixe ficar presa," dizia ela. "A lua dá luz, depois vai descansar." E assim a aldeia se tornou mais leve. As pessoas passaram a contar histórias sobre Lira, a quebrafesas que falava com a neve e transformava escuridão em cuidado.

Numa das noites finais da longa noite, a lua parecia espelho e Lira sentou-se sobre uma pedra quente para descansar. O corvo pousou e coçou a cabeça. "Fizeste bem," disse ele. Lira olhou para o céu e, por um instante, falou com a lua. "Agradeço por me emprestar sua prata." A lua respondeu com um fio de luz ainda mais branco, como um sorriso.

Capítulo 5 — Promessas sob a aurora

O fim da longa noite aproximava-se. As horas claras voltavam a se espalhar como um segredo aberto. Lira sabia que as ervas não eram para ser guardadas no bolso, mas para serem usadas como ponte entre corações. Antes de partir para outra jornada, ela plantou um pedaço da erva-luar nas margens do vale, cantando a canção antiga como quem sela um pacto: "Cresce onde há cuidado. Cresce onde há quem partilhe."

As pessoas da aldeia reuniram-se para vê-la partir. "Quando voltará?" perguntou uma criança de olhos curiosos. Lira sorriu, colocando a mochila nas costas. "Volto quando a lua precisar encontrar mãos amigas," respondeu. Ela sabia que haveria outras noites longas, outros vales, outras ervas que a chamariam.

No caminho de volta à seu chalé, Lira passou por onde antes o golem de pedra guardava o vale. Ele olhava as estrelas e, ao vê-la, levantou uma pedra pequena como oferenda — uma pedra de forma de coração. Lira riu e a colocou no bolso. "Volte a dormir bem, grande guardião," disse. "E conta aos viajantes que a noite também pode ser ternura."

O dia começou a alongar-se, e um brilho rosado apareceu no horizonte, prometendo auroras e novas histórias. Lira caminhou, leve, com a sacola vazia de erva-luar, mas cheia de novas memórias. Aprendera que sua força vinha de ouvir, de cantar e de ser paciente, e que as maldições, muitas vezes, só precisavam de uma mão amiga para perderem suas pontas frias.

Ao longe, a lua olhou para trás, satisfeita, e Lira respondeu com um aceno. Havia sempre mais lugares a cuidar, mais canções a ensinar, e o mundo — apesar de vasto e antigo — parecia um pouco menor, mais humano, quando alguém escolhia cuidar do que estava quebrado.

E naquela tunda de noites longas e luas generosas, Lira seguiu seu caminho como sempre: sem pressa, com coragem, sabendo que o herói verdadeiro às vezes é quem oferece chá e uma história ao luar.

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Tunda
Lugar frio e com pouca vegetação, parecido com uma planície gelada.
Quebrafesas
Nome de uma pessoa ou figura da história, que ajuda e cura os outros.
Erva-luar
Planta mágica que brilha à noite e ajuda a curar as pessoas.
Runas
Marcas antigas gravadas em pedras, usadas como símbolos ou escrita.
Golem
Criatura de pedra criada para proteger lugares ou coisas.
Guardião
Quem cuida e protege um lugar ou objeto importante.
Maldição
Feitiço ruim que causa problemas ou dor às pessoas.
Infusão
Bebida feita ao colocar plantas em água quente para tirar seu sabor.
Travessuras
Brincadeiras ou atitudes que podem causar confusão ou problema.
Curandeiras
Mulheres que usam plantas e cantos para curar os doentes.

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