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Conto de aventura 11 a 12 anos Leitura 22 min.

Inês e o farol que sonha por dentro

Inês, uma menina com medo do próprio eco, parte numa aventura mágica guiada por uma bússola, um gato e um jovem do mar para enfrentar os seus receios e aprender a ver-se com honestidade.

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Inês, 12 anos, tremendo porém determinada, rosto redondo, cabelos castanhos curtos e despenteados, olhos grandes e brilhantes, capa amarela e pequena bússola na mão, sentada na borda de uma barca de vidro segurando uma pena cinza; Nereo, cerca de 12 anos, expressão maliciosa e solidária, pele bronzeada, cabelos escuros ondulados como algas e cinto com gancho dourado, de pé ao fundo pronto para ajudar; Baltasar, gato negro, corpulento e elegante com colar de algas secas e olhos verdes, empoleirado na proa olhando para Inês; o Sussurrador, criatura marinha gigante em forma de nebulosa cinza-azulada com olhos luminosos e contornos enevoados, próximo à barca mas curioso, não hostil; cena numa praia surreal ao luar com mar retirando-se, areia húmida refletindo a luz, reflexos coloridos na barca de vidro e céu estrelado baixo; confronto mágico e suave — Inês fala ao monstro com coragem e vulnerabilidade, a barca flutua sobre um "oceano invertido", luz azul-dourada aquece os rostos, composição centrada em Inês, tom dramático e reconfortante, cores pastéis profundas, contrastes suaves e textura cel-shading. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Menina que Tinha Medo do Próprio Eco

Inês, aos doze anos, tinha medo de coisas estranhas e muito específicas: do estalo da madeira à noite, do brilho dos relâmpagos quando parecia que o céu rasgava a sua camisa, e até do próprio eco quando dizia “olá” num corredor vazio. O eco devolvia-lhe a palavra como um pássaro de pedra e ela sentia o coração a fazer tum-tum, tum-tum, como se quisesse fugir primeiro que ela.

Vivía numa vila junto ao mar, onde as ondas contavam histórias em voz alta, sem vergonha nenhuma. Ela, em contrapartida, guardava as suas histórias num bolso imaginário, bem fechado.

Numa tarde de vento, enquanto ajudava a avó a varrer folhas de louro do quintal, Inês perguntou, com um suspiro que parecia uma vela a apagar-se:

— Avó… como é que as pessoas vão para aventuras sem… sem tremerem por dentro?

A avó sorriu como quem já tinha visto muitas marés e muitos medos.

— Tremem, minha pequena. A coragem não é uma pedra. É um barco. E barco balança.

Inês fez uma careta.

— Então eu sou um barco furado.

— Um barco aprende a não ter medo da água — disse a avó, e apontou para a velha caixa de madeira encostada ao muro. — Vai ali buscar a caixa do teu bisavô. Prometo que só morde se lhe deres pontapés.

Inês aproximou-se como quem pisa nuvens frágeis. A caixa cheirava a sal e a tempo. Dentro, havia uma bússola antiga, tão redonda quanto uma lua pequena, e um mapa desenhado em tinta azul-esverdeada, como se tivesse sido feito com água do mar.

No mapa, lia-se: “Rota do Farol que Sonha”.

A bússola, quando Inês a pegou, tremelicou na palma da mão e o ponteiro girou, girou, até parar num lugar onde não havia norte nenhum. Apontava para… ela.

Inês engoliu em seco.

— Avó… acho que isto está… avariado.

A avó encostou o dedo ao nariz, conspiradora:

— Não. Está acordado. Há mapas que não mostram caminhos no mundo, mostram caminhos em nós.

E foi assim que, com medo a fazer-lhe cócegas nos calcanhares, Inês decidiu: ia viver um viaje iniciático. Mesmo que fosse devagar. Mesmo que o eco risse.

Capítulo 2 — O Farol que Chamava Pelo Nome

Na noite seguinte, Inês escapou com uma mochila leve: pão, uma capa amarela, um caderno e um lápis. A bússola ia no bolso, quente como se tivesse um coração próprio. A avó, antes de dormir, só lhe disse:

Humildade, Inês. Não faças de conta que já sabes tudo. Pergunta, escuta, agradece. Até a pedra tem coisas para ensinar.

A lua vigiava a vila, redonda e séria. Inês caminhou pela estrada de areia até ao farol velho, lá longe, que sempre parecera um dedo a apontar para o céu. Diziam que estava abandonado, mas naquela noite a luz girava, lenta, como um olho acordado.

Quando ela se aproximou, o vento fez um assobio que parecia palavras:

“Inês… Inêêês…”

Ela parou. O medo puxou-lhe pela manga.

— Não, obrigada — murmurou, como se o medo fosse um vendedor chato.

A porta do farol rangeu sozinha, abrindo um pouco. Lá dentro, escadas em caracol subiam como uma concha gigante. E, no degrau mais baixo, estava sentado um gato preto com um colar de algas secas. Tinha olhos verdes, duas lanternas pequenas.

— Chegaste tarde — disse o gato, bocejando. — A aventura estava quase a adormecer.

Inês arregalou os olhos.

— Um… gato fala?

— E tu andas — respondeu ele. — Cada um com as suas habilidades. Eu sou Baltasar, Guardador de Passagens e Caçador de Ratossuspeitos. E tu és a menina do mapa.

— Eu sou a menina com medo — confessou Inês, e a sinceridade saiu-lhe antes da coragem.

O gato inclinou a cabeça.

— Ótimo. A coragem gosta de começar em lugares honestos.

A bússola no bolso de Inês vibrou. O farol, então, soprou uma luz diferente, não branca: era azul como promessa. No chão apareceu uma linha brilhante, desenhando um círculo.

— Passagem para onde? — perguntou Inês, já arrependida e curiosa ao mesmo tempo, como uma porta entreaberta.

Baltasar levantou-se e esticou as patas, muito digno.

— Para a Ilha de Dentro. Onde as pessoas encontram o que evitam. E descobrem o que são.

Inês respirou fundo. O medo estava lá, sim, mas agora parecia um animalzinho tremendo que ela podia carregar ao colo.

— Eu… posso ir devagar? — perguntou.

— Podes ir como quiseres — disse Baltasar. — Só não podes fingir que não queres ir.

E Inês entrou no círculo de luz.

Capítulo 3 — O Mar Virado do Avesso e a Barca de Vidro

O mundo virou-se como uma página. Inês sentiu o estômago flutuar e, de repente, estava numa praia onde o mar era estranho: não batia para dentro, batia para fora, como se o oceano estivesse a respirar ao contrário. As ondas saíam da areia e voltavam para o horizonte, levando conchas e segredos.

— Bem-vinda — disse Baltasar, que reapareceu ao lado dela, como se tivesse saltado de um pensamento para o outro. — Aqui, o mar devolve o que engoliu.

Na água rasa, uma barca transparente esperava. Era feita de vidro espesso, mas não frio; parecia feita de água solidificada. No fundo, brilhavam pequenos símbolos, como constelações.

Inês aproximou-se e viu o próprio reflexo no casco. Parecia a mesma, mas os olhos tinham um brilho de pergunta.

— Isso não vai partir? — ela perguntou, tocando de leve.

— Só parte se tentares ser mais dura do que és — respondeu uma voz de dentro da barca.

Inês deu um pulo. Uma figura levantou-se: um rapaz do tamanho dela, com pele cor de bronze e cabelo que se mexia como algas ao vento. Usava um cinto com um anzol dourado e tinha um sorriso meio atrevido.

— Sou Nereo — disse ele, com uma reverência exagerada. — Meio humano, meio história antiga. Digamos que tenho parentesco com as águas e com as mentiras que contamos para não admitir medo.

— Eu não conto mentiras — disse Inês, ofendida.

Nereo ergueu as sobrancelhas.

— Nunca disseste “estou bem” quando não estavas?

Inês corou. Baltasar soltou um “miau” que parecia riso.

— Entra — convidou Nereo. — A barca só navega com verdade. Nem que seja uma verdade pequena.

Inês hesitou, e então disse, baixinho:

— Estou com medo. Mas quero ir.

O casco da barca iluminou-se por baixo, aceitando. Ela entrou. O vidro não escorregava; era firme como decisão.

A barca deslizou sozinha. O mar ao contrário empurrava-os como uma mão enorme, cuidadosa. No caminho, peixes saltavam para trás, como se voltassem para o ovo, e gaivotas voavam ao contrário, pousando antes de levantar.

— Isto é impossível — sussurrou Inês, entre maravilhada e apavorada.

— O impossível é só o possível com vergonha — respondeu Nereo. — Aqui, as coisas largam a vergonha.

De repente, o céu escureceu. Não era noite: era uma sombra que vinha de dentro de Inês, como se o medo tivesse decidido fazer tempestade. O mar agitou-se. A barca tilintou.

Do fundo da água, subiu uma forma enorme, feita de névoa e olhos: uma criatura com orelhas de vento e dentes de trovão.

— O que é isso?! — gritou Inês, agarrando-se às bordas.

Baltasar arqueou o dorso.

— É o Sussurrador. Alimenta-se de “e se…”.

Nereo apontou o anzol dourado.

— Não o enfrentes com força. Enfrenta-o com humildade.

— Humildade?! — Inês quase riu de nervos. — Eu só quero que ele vá embora!

A criatura aproximou-se, e a voz dela parecia um coro de preocupações:

“E se falhas? E se te ris? E se não fores suficiente?”

Inês sentiu as palavras a apertarem-lhe o peito. Mas então lembrou-se da avó: “Pergunta, escuta, agradece”. E, com uma coragem que parecia emprestada, ela fez algo estranho: falou com o monstro como se ele fosse… alguém.

— Olá — disse Inês, com a voz a tremer. — Eu… não sei fazer isto bem. Não sei ser valente o tempo todo. Mas posso aprender. Se me deixares passar.

O Sussurrador parou. Os olhos dele piscaram como faróis na neblina.

— Ela falou comigo… — murmurou a criatura, surpresa. — Ninguém me fala. Só fogem.

— Eu também quero fugir — admitiu Inês. — Só… não quero que o medo mande em mim.

A criatura baixou a cabeça, e a tempestade abrandou, como um cão grande a deitar-se.

“Passa, então,” sussurrou. “Mas lembra-te de mim. Eu sou parte da estrada.”

E afundou-se de novo, deixando na superfície uma pena cinzenta. Nereo apanhou-a e deu-lha.

— Para lembrares: o medo pode ser escutado. Não precisa ser rei.

Inês guardou a pena no bolso, junto da bússola. O coração ainda batia depressa, mas agora o som parecia um tambor de marcha.

Capítulo 4 — A Floresta dos Espelhos Sinceros

A barca encalhou numa margem coberta de musgo. Ali começava uma floresta onde as árvores tinham casca prateada e folhas que brilhavam como moedas ao sol. Entre os troncos, pendiam espelhos de vários tamanhos, presos por cipós.

— Não gosto disto — disse Inês. — Espelhos… parecem olhos.

Baltasar caminhou à frente, com o rabo erguido.

— Aqui, os espelhos mostram o que escondes atrás do sorriso.

— E se eu não quiser ver? — perguntou Inês.

Nereo fez um gesto para ela seguir.

— Ninguém gosta de ver tudo. Mas ver um pouco já muda o caminho.

Ao primeiro espelho, Inês passou depressa. Nele, viu-se com uma armadura enorme, ridícula, a tropeçar. No segundo, viu-se a apontar o dedo aos outros, como se fosse chefe. No terceiro, viu-se pequena, muito pequena, a pedir desculpa por existir.

Inês parou, engolindo um nó.

— Isto não sou eu.

Baltasar sentou-se e limpou uma pata com calma, como se a floresta fosse uma sala de estar.

— Não és só uma coisa. És muitas. E algumas têm vergonha de aparecer.

Nereo tocou num espelho oval. A superfície ondulou e mostrou Inês numa sala de aula, com a mão a meio caminho no ar e depois a baixar, por medo de errar. Mostrou-a a rir de uma piada que não achou graça, só para não ficar de fora. Mostrou-a a dizer “tanto faz” quando queria dizer “não”.

Inês sentiu as bochechas arderem.

— Eu faço isso para… para não ser chata.

— Para não ocupares espaço — disse Nereo, sem crueldade, só com clareza. — Humildade não é encolher-se até desaparecer. É reconhecer o teu tamanho real: nem gigante, nem invisível.

O espelho seguinte mostrou-a com a avó, varrendo folhas. Inês via-se impaciente, a querer acabar depressa. E então, na imagem, a avó deixava cair a vassoura e ria, apontando para uma joaninha nas folhas, como se fosse um tesouro. Inês da imagem parava, e o rosto amolecia.

— Eu… esqueço-me de reparar — sussurrou Inês.

Baltasar levantou-se.

— A aventura não é só monstros e abismos. Também é aprender a ver joaninhas.

A floresta pareceu ouvir. Um vento suave passou, e alguns espelhos apagaram-se, como se estivessem satisfeitos.

Mais adiante, no meio das árvores, havia um pedestal de pedra com uma concha gigante em cima. Dentro da concha, dormia uma pequena chama azul, do tamanho de uma unha, tremeluzindo.

— Aí está a Centelha do Farol — disse Baltasar. — É o que mantém a passagem aberta. Mas a centelha só segue quem não se acha dono dela.

Inês aproximou-se devagar. O medo voltou, mas menor, como sombra de nuvem.

— E se eu a deixar cair?

— Então apanhas — disse Nereo. — E pedes desculpa ao caminho. A queda não é o fim. É um professor.

Inês estendeu as mãos. Antes de tocar na chama, disse:

— Eu não mereço isto mais do que ninguém. Mas… vou cuidar.

A chama saltou para as suas palmas sem queimar. Era quente como lembrança boa. E, no instante em que a segurou, os espelhos à volta mostraram algo novo: Inês a caminhar com a cabeça erguida, não por orgulho, mas por presença.

Capítulo 5 — O Gigante que Guardava a Ponte do Orgulho

Com a Centelha protegida num frasco de vidro, Inês, Baltasar e Nereo seguiram até um vale onde uma ponte de pedra atravessava um abismo. A ponte era estreita e tão alta que as nuvens pareciam espuma em baixo.

No meio da ponte, sentado como se fosse parte dela, havia um gigante. Tinha barba de raízes e olhos castanhos como terra molhada. Segurava uma placa onde se lia: “PONTE DO ORGULHO — PASSAGEM SÓ PARA OS IMPORTANTES”.

— Ah, ótimo — murmurou Inês. — Eu não sou importante.

O gigante abriu um olho, preguiçoso.

— Quem quer passar?

Nereo deu um passo à frente, com ar de herói.

— Nós. Temos uma missão.

O gigante bocejou, e o bocejo fez o abismo ecoar.

— Missões, missões… Todo mundo tem missão quando quer alguma coisa. Só passa quem provar que é grande.

Nereo endireitou-se.

— Eu sou filho das marés e neto de lendas!

O gigante olhou para ele e coçou a orelha.

— E daí? Um monte de gente tem parentes famosos. Isso não enche barriga nem conserta ponte.

Nereo ficou vermelho, e Inês percebeu que ele também tinha medo: medo de não ser admirado.

Baltasar aproximou-se do gigante com calma.

— Senhor Guardião, a menina aqui não vem pedir destaque. Vem pedir passagem.

O gigante virou o rosto para Inês.

— E tu? O que tens?

Inês sentiu a garganta seca. O velho hábito queria que ela se encolhesse e dissesse “nada”. Mas a Centelha no frasco pulsou, como se lembrasse: tamanho real.

— Tenho… medo — disse Inês. — E tenho curiosidade. E trago isto para devolver ao Farol.

— Isso é pouco — resmungou o gigante.

Inês respirou fundo e continuou:

— É pouco porque eu ainda sou pequena. Mas eu não vou mentir. Não sou a melhor, nem a mais forte. Só estou a aprender. E preciso de ajuda para passar.

O gigante ficou quieto. As nuvens, lá em baixo, pareciam prender a respiração.

— Ajuda — repetiu ele, como se fosse palavra rara.

Inês assentiu.

— Sim. E se eu passar, não é porque sou “importante”. É porque alguém foi gentil.

Por um instante, o gigante pareceu mais velho do que a própria ponte. Depois, o rosto dele amoleceu, e ele sorriu, uma fissura de sol numa montanha.

— Finalmente alguém que não me dá dor de cabeça — disse ele. — Toda a gente chega aqui a gritar o seu nome como se o nome fosse uma espada. Mas a verdadeira grandeza é saber pedir.

O gigante levantou-se e, com cuidado, pôs duas pedras novas na ponte, alargando-a.

— Passa, Inês. E leva isto.

Ele tirou da barba uma pequena semente castanha.

— Semente de carvalho. Planta quando voltares. Para te lembrares de que crescer leva tempo e paciência.

Inês pegou na semente como quem recebe uma medalha silenciosa.

— Obrigada… de verdade.

Nereo coçou a nuca, envergonhado.

— Acho que… eu também precisava ouvir isso.

Baltasar piscou um olho para Inês, como quem diz: “Vês?”

E atravessaram a ponte.

Capítulo 6 — O Farol por Dentro e o Retorno com um Tesouro de Memória

Do outro lado, encontraram uma escadaria talhada na rocha. Subiram até uma porta redonda, igual à do farol da vila. A bússola no bolso de Inês batia como um coração impaciente.

Ao abrir a porta, não havia sala: havia o interior de um farol feito de estrelas. As paredes rodopiavam lentamente, como se o céu tivesse sido enrolado. No centro, um pedestal vazio esperava pela Centelha.

— Coloca — disse Baltasar, com voz mais suave.

Inês tirou o frasco. As mãos tremiam um pouco, mas era um tremor diferente: não de pânico, de importância do momento. Ela aproximou-se do pedestal.

— Eu… não sei se fiz tudo certo — confessou, olhando para Nereo e Baltasar. — Houve vezes em que quase desisti.

— Quase desistir é parte — disse Nereo. — O “quase” é a ponte entre quem eras e quem estás a ser.

Baltasar acrescentou:

— E tu não vieste sozinha. Isso também é humildade: aceitar companhia.

Inês sorriu. Depois abriu o frasco. A Centelha saltou para o pedestal e cresceu, não em tamanho, mas em luz. Uma luz azul-dourada encheu o farol de estrelas, e uma voz antiga, como maré, falou sem boca:

“Quem devolve o que não é seu encontra o que é seu.”

No chão, apareceu um pequeno baú de madeira clara. Inês abriu-o e encontrou apenas uma coisa: uma fita simples, azul, como a cor do céu depois da chuva.

— Só isto? — ela perguntou, meio desapontada.

A voz do farol respondeu, como se sorrisse:

“É uma fita para atares ao pulso. Não para te prender. Para te lembrar.”

Inês atou a fita no pulso esquerdo. No instante em que o nó se fez, viu imagens como lanternas: ela a falar em sala de aula sem baixar a mão; ela a pedir desculpa quando errasse sem se chamar burra; ela a rir com a avó, reparando numa joaninha; ela a pedir ajuda sem vergonha.

Sentiu lágrimas, mas não eram tristes. Eram como chuva que lava o pó.

— Inês — disse Baltasar —, está na hora.

— Vocês vêm comigo? — perguntou ela, com um aperto no peito.

Nereo sorriu, e o sorriso dele tinha saudade antes de acontecer.

— Eu vivo nas passagens. Mas quando ouvires o mar, lembra-te: a água também devolve.

Baltasar aproximou-se e encostou a cabeça à perna dela.

— E quando ouvires um eco, responde. O eco só quer conversa.

A luz do farol rodou uma última vez. O mundo virou página outra vez.

Inês acordou no degrau do farol da vila, com o sol a nascer e a capa amarela sobre os ombros. A bússola estava quieta. No pulso, a fita azul. No bolso, a pena cinzenta e a semente de carvalho. E no coração… uma coisa nova, como um quarto a mais numa casa.

Voltou para casa devagar. A avó estava no quintal, a varrer, e levantou os olhos como se já soubesse.

Inês mostrou a fita.

— Eu fui — disse, simples.

A avó não perguntou “onde”, porque o “onde” às vezes é dentro.

— E como voltaste?

Inês pensou no Sussurrador, nos espelhos, no gigante, na Centelha.

— Voltei… maior por dentro. Mas sem me achar gigante.

A avó riu, e o riso parecia sino.

— Então voltaste certa.

Naquele mesmo dia, Inês plantou a semente de carvalho perto do muro. Regou-a com um copo de água e uma paciência nova. Depois, sentou-se com a avó para observar o nada, que afinal estava cheio de coisas: uma joaninha, o vento a brincar com folhas, e o mar a contar histórias, como sempre.

E, anos depois, sempre que o medo lhe soprava “e se…”, Inês tocava na fita azul e lembrava-se do farol por dentro, do mar virado do avesso e de um gigante que ensinava a pedir.

Esse era o seu tesouro: uma memória maravilhosa, brilhando quieta, como uma centelha que nunca mais se apagou.

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Viaje iniciático
Viagem que ensina sobre quem és e como crescer por dentro.
Humildade
Atitude de quem não se acha melhor; aceita aprender e pedir ajuda.
Cipós
Ramos longos e finos que pendem das árvores, como cordas naturais.
Pedestal
Base ou suporte onde se coloca algo importante para mostrar.
Frasco
Pequeno recipiente de vidro para guardar coisas, como uma chama.
Centelha
Pequena chama que tem força e pode guiar ou acender algo maior.
Sussurrador
Nome de uma criatura que fala baixo e alimenta medos com perguntas.
Anzol
Gancho de metal usado para pescar ou prender algo na água.
Musgo
Planta verde e macia que cresce em pedras e lugares húmidos.

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