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História do Ramadan 9 a 10 anos Leitura 15 min.

As lanternas que acendiam o respeito

Karim e os amigos preparam uma salada de frutas e, com a avó e os vizinhos, descobrem a magia das noites de Ramadan através de gestos de partilha, lanternas e pequenas boas ações.

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Há três personagens: Karim, menino de cerca de 9 anos, pele clara e cabelos pretos encaracolados, com t‑shirt azul e avental verde, segurando com as duas mãos uma grande salada de frutas colorida no centro; Inês, menina de cerca de 10 anos, cabelo castanho em rabo de cavalo, vestido amarelo com flores, à esquerda de Karim, sorrindo e oferecendo uma colher de madeira; Tomás, menino de cerca de 9 anos, cabelo castanho curto, óculos redondos e casaco cinzento, à direita de Karim, segurando uma grande tigela vazia como “responsável oficial” e olhando orgulhoso. Ambiente acolhedor na sala da avó, mesa comprida de madeira ao fundo com toalhas xadrez e almofadas coloridas, lanternas e lâmpadas visíveis pela janela, paredes ocre, prateleiras com chávenas e caixa de chá, chão de azulejos claros e luz dourada do entardecer. Situação: as crianças levam uma salada de frutas vibrante (maçãs vermelhas, bananas amarelas, uvas roxas, manga laranja, tâmaras castanhas) para pôr na mesa familiar, com expressão de alegria e trabalho em equipa, em ambiente festivo discreto com lanternas coloridas e texturas visíveis. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A salada de frutas que parecia um arco-íris

O Karim adorava duas coisas: trabalhar em equipa e meter as mãos na cozinha, mesmo que às vezes saísse de lá com uma manga na testa e uma uva no sapato.

Nessa tarde, a cozinha da avó Fátima cheirava a laranja e a canela. O sol estava a descer devagarinho, como se também tivesse fome e quisesse ir jantar.

“Eu corto as maçãs!”, disse o Karim, com a tábua já pronta.

“Eu corto as bananas!”, respondeu a Inês, que tinha quase dez anos e uma energia que parecia ter molas.

O Tomás, também quase dez, apareceu com uma tigela enorme e uma cara muito séria.

“Eu… eu sou o responsável oficial pela tigela”, anunciou, como se fosse um cargo importante.

A Inês riu-se. “Responsável pela tigela? Isso existe?”

“Agora existe”, disse o Tomás, e abraçou a tigela como quem protege um tesouro.

A avó Fátima piscou o olho. “Equipa bem organizada. Assim gosto.”

O Karim olhou para a mesa: maçãs, peras, uvas, morangos, manga, uma laranja bem gorda e até um punhado de tâmaras, que a avó tinha separado com cuidado.

“Para dar um toque especial”, explicou ela.

O Karim mexeu a salada com a colher de pau, e as cores giraram como um carrossel: vermelho, amarelo, verde, roxo. A Inês cheirou a tigela.

“Parece um jardim comestível!”

O Tomás aproximou-se e sussurrou, como se não quisesse assustar as frutas: “Se isto cair ao chão, eu mudo de nome.”

“Para quê?” perguntou o Karim.

“Para ‘Tomás Triste'.”

E riram os três.

A avó chamou-os à sala. “Está quase a hora. Hoje a família vem cá, e os vizinhos também passam. À noite, no Ramadan, a casa fica mais cheia… e o coração também.”

O Karim não disse nada logo. Ele sabia que o Ramadan era um mês especial para algumas pessoas da família e do bairro, com rotinas diferentes, com jantares ao fim do dia e um clima de calma e partilha. Mas este ano ele estava especialmente curioso. Parecia que todas as noites havia uma espécie de segredo bom no ar.

Ele pegou na tigela da salada com as duas mãos. “Equipa, missão: levar o arco-íris para a mesa.”

O Tomás marchou atrás, ainda a proteger a tigela imaginária. “Eu vou escoltar.”

A Inês fez uma vénia. “Senhor escolta, cuidado com as uvas fugitivas!”

E assim começou a primeira noite, com fruta, gargalhadas e um cheirinho doce a descoberta.

Capítulo 2 — A rua que acendia estrelas

Quando o céu ficou cor-de-azul-escuro, a rua pareceu mudar de roupa. As janelas acenderam-se, e algumas tinham luzes pequeninas como estrelas de bolso.

O Karim foi à varanda com a Inês e o Tomás. Lá em baixo, a Dona Lídia, a vizinha do 2.º andar, carregava um tabuleiro coberto com um pano.

“Boa noite!” gritou ela. “Vou levar uns pastéis à avó Fátima. Hoje estou em modo ‘chef'!”

O Tomás murmurou: “Toda a gente vira chef neste mês.”

A Inês apontou para a esquina. “Olhem! O senhor Nuno está a pendurar lanternas!”

O senhor Nuno era do café da esquina e tinha um bigode que parecia sorrir sozinho. Ele estava num escadote, a prender lanternas coloridas numa corda.

“Lanternas para quê?” perguntou o Karim, descendo as escadas com os amigos.

“Para a rua ficar mais bonita”, respondeu o senhor Nuno. “E para lembrar que a noite também pode ser luminosa.”

A Inês tocou numa lanterna verde. “Posso ajudar?”

“Claro! Trabalho em equipa é sempre mais rápido”, disse o senhor Nuno.

O Karim endireitou-se, contente. “Isso é comigo.”

Em poucos minutos, os três estavam a passar molas, a segurar a corda e a escolher as lanternas. O Tomás ficou encarregado de uma missão importante: dizer se a corda estava direita.

“Está… quase… torta… agora está direita!” anunciava, com ar de juiz.

Quando a última lanterna foi acesa, aconteceu uma coisa engraçada: o vento soprou e as lanternas balançaram, fazendo sombras na parede. As sombras pareciam peixinhos a nadar, um atrás do outro, como se a rua tivesse virado aquário.

A Inês abriu muito os olhos. “Viram isto?”

O Karim piscou. “É só sombra.”

Nesse momento, uma sombra em forma de peixe pareceu fazer uma pirueta e… apontar com a cauda para a casa da avó.

O Tomás engoliu em seco. “Sombra não aponta.”

O senhor Nuno riu-se, sem achar nada estranho. “Com lanternas e vento, a imaginação acorda. E quando a imaginação acorda, começa a dançar.”

O Karim olhou outra vez. As sombras continuavam a nadar, agora mais calmas, como se estivessem a levar uma mensagem invisível. E o Karim sentiu uma alegria quietinha, como quando se ouve uma canção baixinho.

“Vamos voltar”, disse ele. “A nossa salada de frutas deve estar a sentir saudades.”

E subiram os três, com as lanternas a brilhar lá fora como um caminho de estrelas.

Capítulo 3 — A mesa comprida e as palavras pequenas

A sala da avó Fátima parecia maior. A mesa estava comprida, com pratos, copos, guardanapos e várias travessas. Havia sopa, pão, algo que cheirava a especiarias e, no meio, a salada de frutas do Karim, brilhante como se tivesse guardado um pedaço do dia.

Chegaram tios, primos, a Dona Lídia com os tais pastéis e até o senhor Nuno, que trouxe uma cesta de pães e disse:

“Hoje eu só vim provar a salada do chef Karim.”

O Karim corou. “Não fui só eu. Foi equipa.”

A avó Fátima bateu palmas devagar. “A equipa do Karim e dos amigos. Aqui toda a gente ajuda, toda a gente respeita o ritmo do outro. Quem está cansado senta-se, quem quer falar fala, quem quer ficar quieto também pode.”

A Inês sentou-se ao lado de uma prima mais nova, a Sara, que tinha sete anos e fazia mil perguntas por minuto.

“Por que é que as tâmaras são tão pegajosas?” perguntou a Sara.

O Tomás respondeu com seriedade: “Para não fugirem da tigela.”

A Sara riu-se tanto que quase deixou cair o copo de água.

Quando chegou a hora de comer, ninguém se apressou. Havia um cuidado leve no ar, como se todos estivessem a lembrar-se de dizer “por favor”, “obrigado”, “passas-me o pão?”, “desculpa”.

O Karim reparou nisso e sentiu que era uma magia diferente das sombras-peixe: uma magia feita de detalhes.

A Dona Lídia disse: “Karim, podes passar-me a salada?”

“Claro”, respondeu ele, e passou com as duas mãos, como se a tigela fosse uma coisa preciosa.

O senhor Nuno provou e fez um som exagerado: “Hmmm! Isto é tão bom que eu até consigo ouvir as uvas a cantar.”

“Que música?” perguntou a Inês.

“Uma música assim…” O senhor Nuno pigarreou e cantarolou duas notas desafinadas.

A sala inteira riu-se. Até a avó, que normalmente ria baixinho, soltou uma gargalhada redonda.

Depois, alguém contou uma história sobre quando era pequeno e confundiu açúcar com sal. A Sara pediu para ouvir outra. O Tomás, que gostava de fazer de sério, acabou por inventar uma história em que um morango era detetive.

E o Karim olhou à sua volta e pensou: “Isto é que é o Ramadan aqui. Não é só comida. É a forma como a casa fica cheia de ‘nós'.”

No fim, a avó Fátima puxou uma caixa de chá e disse: “Agora, um bocadinho de calma.”

A Inês sussurrou: “Eu gosto desta calma. Não é silêncio chato. É silêncio fofinho.”

O Karim concordou. Lá fora, as lanternas ainda balançavam, e ele teve a sensação de que as sombras-peixe estavam a descansar também.

Capítulo 4 — O segredo das lanternas e a patrulha do respeito

Na noite seguinte, o Karim e os amigos decidiram fazer uma surpresa ao prédio e à rua.

“Vamos fazer uma patrulha do respeito”, anunciou o Karim, com a seriedade divertida de quem está a planear uma missão.

A Inês ergueu a mão. “Eu sou a chefe das boas maneiras!”

O Tomás endireitou os ombros. “Eu sou o guarda do ‘desculpa' e do ‘com licença'.”

A avó Fátima ouviu e riu-se. “E qual é o vosso plano?”

O Karim mostrou um bloco de papel. “Vamos fazer pequenos cartões para oferecer: ‘Obrigado por partilhares', ‘Boa noite', ‘Se precisares de ajuda, chama'. Coisas simples.”

“E também podemos ajudar a arrumar a entrada do prédio”, sugeriu a Inês. “Ontem vi folhas e papéis.”

O Tomás acrescentou: “E avisar o senhor Nuno se as lanternas estiverem a cair. É um trabalho de segurança… muito importante.”

Foram os três para a entrada com um saquinho de cartões, fita-cola e uma vassoura que parecia quase do tamanho do Tomás.

Enquanto varriam, o Karim viu o senhor Abdel, um vizinho mais velho, a subir devagar. Ele tinha um saco pesado.

“Quer ajuda?” perguntou o Karim.

O senhor Abdel sorriu, com olhos cansados mas felizes. “Obrigado, rapaz. As minhas mãos hoje estão a fazer greve.”

O Tomás pegou num lado do saco. “Eu também faço greve, mas só quando há matemática.”

A Inês deu um cotovelo leve no Tomás. “Respeito, guarda do ‘desculpa'!”

“Desculpa”, disse ele logo, e fez uma continência.

Subiram com o saco e deixaram um cartão na porta do senhor Abdel: “Boa noite. Se precisar de ajuda, estamos por aqui.”

Quando voltaram à rua, as lanternas estavam acesas. E então aconteceu outra coisa estranha, mas bonita: uma das lanternas — a amarela — piscou duas vezes, como se estivesse a dizer “obrigado”.

A Inês arregalou os olhos. “Vocês viram?”

O Tomás aproximou-se da lanterna e falou baixinho: “Olá, lanterna. Se tiveres algum recado, não pisques demasiado, que eu fico nervoso.”

O Karim riu-se. “Talvez seja só o vento.”

Mas, no fundo, ele gostava de pensar que a rua tinha ouvido a patrulha do respeito. Que a gentileza acendia luzes invisíveis.

Antes de voltarem para casa, o senhor Nuno apareceu à porta do café e entregou-lhes três copinhos de sumo.

“Para a equipa”, disse ele. “Vocês hoje fizeram a rua ficar mais arrumada… e mais alegre.”

O Karim levantou o copo. “À equipa.”

“Ao respeito!” disse a Inês.

“E às lanternas que não apontam… muito”, completou o Tomás, e todos riram outra vez.

Capítulo 5 — “Até amanhã” em letras grandes

Na terceira noite, a avó Fátima teve uma ideia: fazer um cartaz para a porta do prédio.

“Um cartaz?” perguntou o Karim.

“Sim”, disse ela. “Algo simples, para lembrar que amanhã há mais um encontro, mais uma conversa, mais uma partilha. Um ‘até amanhã' faz bem.”

A Inês já estava a procurar marcadores. “Eu faço letras com bolinhas!”

O Tomás pegou num marcador preto. “Eu faço letras sérias.”

“Letras sérias?” repetiu o Karim.

“Sim. Letras que não riem”, explicou o Tomás, e depois não conseguiu evitar rir ele próprio.

Sentaram-se no chão da sala com uma cartolina grande. O Karim desenhou uma moldura de pequenas frutas à volta: uvas, laranjas, tâmaras e um morango detetive, só porque o Tomás insistiu.

No meio, escreveram juntos, com cuidado e espaço para todos ajudarem: “ATÉ AMANHÔ.

A avó Fátima trouxe um pouco de purpurina dourada, mas avisou: “Só um bocadinho. Purpurina em excesso é como risos em hora de exame.”

A Inês pôs purpurina a mais. O chão ficou a brilhar como uma praia de estrelas.

O Tomás olhou para os sapatos e disse: “Pronto. Agora vou levar purpurina para a escola e vão pensar que eu sou um planeta.”

“És o planeta Tomás”, disse a Inês, e o Karim riu tanto que quase caiu para trás.

Quando acabaram, foram à entrada do prédio e colaram o cartaz na parede, bem ao lado das caixas do correio. As lanternas lá fora balançavam e lançavam luz suave.

Várias pessoas passaram e leram.

A Dona Lídia parou e disse: “Que bonito. Um ‘até amanhã' é como um abraço que cabe numa frase.”

O senhor Abdel levantou a mão em cumprimento. “Até amanhã, equipa.”

O senhor Nuno fez um teatro exagerado, como se estivesse num palco. “Eu, em nome da rua inteira, declaro este cartaz oficialmente… fofinho.”

O Karim olhou para as letras grandes. Sentiu uma coisa quentinha no peito, como chá morno numa noite fresca.

Ele percebeu que a magia das noites de Ramadan, para ele, estava ali: na família, nos amigos, nos vizinhos, nas lanternas a dançar e nas pequenas escolhas de respeito. Sem pressa, sem empurrar ninguém, só abrindo espaço para estarem juntos.

A Inês segurou no braço do Karim. “Amanhã fazemos outra coisa em equipa?”

“Fazemos”, disse ele. “Podemos inventar mais cartões… ou outra salada.”

O Tomás apontou para a cartolina. “Mas uma coisa já está combinada.”

“O quê?” perguntou o Karim.

O Tomás leu em voz alta, com as suas letras “sérias” a brilharem: “ATÉ AMANHÃ.”

E, por um instante, pareceu que até as lanternas concordaram, piscando muito devagar, como quem sorri sem fazer barulho.

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Ramadan
Mês religioso em que algumas pessoas jejuam e juntam a família à noite.
Tábua
Peça de madeira onde se cortam frutas e legumes na cozinha.
Tigela
Recipiente redondo para pôr comida, como a salada de frutas.
Responsável
Pessoa que tem um dever ou cargo e cuida do que é preciso.
Tesouro
Coisa muito valiosa ou querida que se protege com cuidado.
Especiarias
Plantas secas ou sementes que dão sabor diferente à comida.
Lanternas
Luzes protegidas por um suporte, usadas para iluminar a rua à noite.
Patrulha
Grupo que vigia ou ajuda um lugar para que fique seguro.
Travessas
Pratos fundos ou rasos onde se põe comida na mesa.
Cotovelo
Parte do braço que junta a parte de cima com a parte de baixo.

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