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História sobre a diversidade 11 a 12 anos Leitura 14 min.

As cinco pedrinhas e a rampa do recreio

Dois rapazes de origens diferentes tornam-se amigos ao aprenderem e ensinarem o jogo tradicional das cinco pedrinhas, descobrindo que a diversidade, a paciência e a cooperação transformam o recreio numa ponte entre mundos.

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Dois meninos de 11 anos: Miguel, pele clara levemente bronzeada, cabelo castanho curto, camiseta azul viva e tênis gastos, ajoelhado à direita da rampa com as mãos em concha a apanhar uma pequena pedra brilhante, olhar concentrado e leve sorriso; Ravi, pele morena-clara de origem sul-asiática, cabelo preto encaracolado, moletom verde claro e mochila listrada, em pé à esquerda da rampa segurando a mochila para impedir que Miguel caia, expressão atenciosa e orgulhosa. Cena num ginásio escolar iluminado com chão de madeira, cartazes coloridos e mesas com trabalhos manuais; uma rampa de madeira lisa atravessa a cena, ao lado um pequeno tapete vermelho e um saquinho de tecido floral com cinco pedras lisas; outros crianças desfocadas ao fundo observam e aplaudem, clima de festival escolar caloroso. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O recreio e o sotaque

O recreio cheirava a pão com queijo e a terra quente do pátio. As bolas batiam no muro com um “poc” seco, e as vozes subiam e desciam como ondas.

Miguel, com 11 anos e ténis sempre meio desatados, tentava terminar o seu lanche sem deixar cair migalhas no caderno. Ia ter treino de basquete depois das aulas e já se imaginava a correr. Foi quando viu um rapaz novo, da mesma idade, sentado num banco, a observar tudo como quem está a ver um filme sem legendas.

Miguel aproximou-se devagar, mais curioso do que corajoso.

— Olá. Sou o Miguel. Queres jogar qualquer coisa?

O rapaz levantou os olhos. Tinha um sorriso rápido, daqueles que aparecem antes das palavras.

— Sou o Ravi — disse, com um sotaque diferente, macio. — Ainda estou a... a conhecer.

Miguel sentou-se ao lado, como se aquele banco sempre tivesse lugar para mais um.

— Aqui a regra é simples: se não conheces, perguntas. Se te enganas, ris. E depois tentas outra vez.

Ravi riu, aliviado.

— Posso perguntar uma coisa? Por que é que vocês dizem “fixe” a toda a hora? Parece que o mundo está sempre colado.

Miguel soltou uma gargalhada.

— É uma palavra elástica. Serve para quase tudo. Queres aprender uma coisa fixe?

— Quero — respondeu Ravi. — Mas nada com cola, por favor.

Os dois riram, e o recreio já não pareceu tão grande.

Capítulo 2 — Um jogo chamado “cinco pedrinhas”

Depois das aulas, o sol estava mais baixo, a fazer sombras compridas no chão. Miguel ia a caminho de casa quando Ravi o alcançou, com a mochila a saltar nas costas.

— Miguel! Lembrei-me de um jogo que o meu avô me ensinou. É antigo, mas dá para jogar aqui. Só precisamos de cinco pedrinhas.

— Cinco? Não parece muito desporto… — Miguel fingiu desconfiança. — Mas eu gosto de desafios.

Encontraram pedrinhas lisas perto do canteiro da escola. Ravi escolheu-as com cuidado, como se escolhesse notas para uma música.

— No sítio de onde eu vim, jogávamos isto no chão da varanda — explicou. — Chamamos “cinco pedrinhas”. Cada fase é um pouco mais difícil.

Sentaram-se no chão, de pernas cruzadas. O cimento estava morno.

— Primeiro — disse Ravi — atiras uma pedrinha ao ar, apanhas uma do chão, e depois apanhas a que está a cair. Sem deixar cair nenhuma.

Miguel tentou. Atirou a pedrinha, mas ficou a olhar para ela como quem vê um pássaro a fugir. Quando se lembrou da outra, já era tarde: “tic”, a pedrinha bateu no chão.

— Ponto para a gravidade — comentou Miguel, dramático, levando a mão à testa.

Ravi riu alto.

— No início é assim. A minha avó dizia: “As mãos precisam de aprender a pensar”.

— As minhas mãos ainda estão no primeiro ano — disse Miguel, tentando outra vez.

Desta vez conseguiu. O gesto saiu meio torto, mas funcionou. Os olhos de Miguel brilharam.

— Ok… isto é mesmo fixe. Elástico e tudo.

Capítulo 3 — Enganos, paciência e uma história no meio

Nos dias seguintes, encontravam-se no mesmo canto do pátio. O jogo virou um ritual: cinco pedrinhas, duas mochilas no chão, e a sensação de que o tempo abrandava um pouco.

Miguel melhorava, mas nem sempre. Às vezes, a pedrinha escapava, como se tivesse vontade própria.

— Ela saltou porque não gosta de mim — resmungou Miguel, depois de mais uma falha.

— Ou porque gosta de aventura — respondeu Ravi. — As pedrinhas também têm personalidade.

— Então esta é a “pedrinha rebelde”. E esta aqui é a “pedrinha tímida”.

— E aquela é a “pedrinha que finge que é redonda” — completou Ravi, e os dois riram.

Num desses dias, um grupo passou e um rapaz comentou, meio alto:

— Que jogo esquisito. Parece coisa de bebé.

Miguel sentiu o rosto aquecer. Olhou para Ravi, que ficou quieto por um segundo, mas não baixou os olhos.

— Não é esquisito — disse Miguel, com voz firme. — É um jogo tradicional. E dá trabalho. Queres tentar?

O rapaz fez uma careta e foi embora, como se a proposta fosse uma pedra demasiado pesada.

Ravi soltou o ar devagar.

— Obrigado — murmurou.

Miguel encolheu os ombros, tentando parecer natural.

— A minha mãe diz que o que é novo assusta algumas pessoas. E depois elas fingem que estão a gozar, para não parecer que têm medo.

Ravi mexeu nas pedrinhas, alinhando-as.

— No meu antigo bairro, eu falava diferente. Aqui também. Às vezes parece que as palavras têm roupa. A minha roupa ainda não combina com a de toda a gente.

Miguel pensou um pouco, olhando para as mãos.

— Mas isso é bom. Imagina se toda a gente falasse igual. As histórias iam ficar sem tempero.

Ravi sorriu, e a tarde ficou mais leve.

— Vamos para a fase dois? — perguntou ele. — Agora apanhas duas pedrinhas de cada vez.

Miguel engoliu em seco.

— A gravidade vai ficar muito contente comigo hoje.

Capítulo 4 — Preparativos para o festival da escola

Uma semana depois, a professora Clara anunciou na sala:

— Na sexta-feira vamos ter o Festival das Culturas. Cada grupo pode mostrar uma brincadeira, uma música, um objeto… algo que represente a diversidade à nossa volta. Lembrem-se: diversidade não é só “de longe”. É também o jeito de cada um ser.

Miguel olhou para Ravi. Ravi olhou para Miguel. Parecia que uma ideia saltava entre os dois, como pedrinha no ar.

No intervalo, Miguel falou primeiro:

— E se mostrássemos o jogo das cinco pedrinhas?

Ravi hesitou.

— Achas que as pessoas vão achar aborrecido?

— Achas que o basquete é aborrecido? — Miguel respondeu, com ar sério demais. — Há quem ache. E mesmo assim eu jogo.

Ravi riu, e o “sim” veio junto.

— Podemos ensinar as regras e contar de onde vem. E… podemos convidar outras pessoas a jogar, para não ser só “olhem para nós”.

— Boa! — Miguel bateu palma. — Um cantinho para experimentar. E a gente fica lá a ajudar.

Passaram a tarde a treinar. Miguel queria ser “perfeito”, mas Ravi lembrava:

— Não precisa ser perfeito. Precisa ser claro e gentil.

Miguel repetiu para si como um refrão: “claro e gentil”. E, sem perceber, começou a explicar melhor, a esperar o tempo do outro, a celebrar cada tentativa.

No dia antes do festival, Miguel levou de casa um saquinho de pano.

— Para guardar as pedrinhas. A minha avó fez. Disse que jogo tradicional merece um lugar bonito.

Ravi passou o dedo no tecido.

— A tua avó e o meu avô iam dar-se bem.

— Provavelmente iam discutir qual pedrinha é mais teimosa — disse Miguel.

— E iam ter razão os dois — respondeu Ravi.

Capítulo 5 — A rampa, o susto e a cooperação

Na sexta-feira, o ginásio da escola parecia outro lugar: cartazes coloridos, cheiros misturados de comidas, vozes animadas. Havia uma mesa com jogos de tabuleiro, outra com origami, outra com instrumentos. Num canto, a escola tinha montado uma rampa de madeira baixa, para uma demonstração de skate e para facilitar a passagem de quem tinha dificuldades de mobilidade naquele dia. A rampa brilhava, recém-lixada.

Miguel e Ravi prepararam o seu espaço no chão, ao lado da rampa: um tapete simples e o saquinho com as cinco pedrinhas.

Os primeiros colegas chegaram, curiosos.

— Como é que se joga? — perguntou a Inês, agachando-se.

Ravi começou a explicar, mas tropeçou numa palavra.

— Primeiro, atiras… hum… lanç… lanças uma…

Miguel entrou com naturalidade, sem cortar.

— Atiras uma pedrinha ao ar, apanhas uma do chão, e depois apanhas a do ar antes de cair. O Ravi mostra.

Ravi mostrou e, desta vez, a palavra saiu:

— Lançar — disse ele, satisfeito. — Obrigado.

— Sempre — respondeu Miguel.

Vários tentaram. Alguns falharam e riram. Outros conseguiram e fizeram cara de vitória, como se tivessem marcado um golo invisível.

Mais tarde, durante a confusão boa do festival, uma das pedrinhas rolou para fora do tapete. Miguel esticou a mão para a apanhar, mas alguém passou a correr e esbarrou sem querer no seu ombro. A pedrinha ganhou velocidade e foi direito para a rampa.

— Vai fugir! — gritou Miguel.

A pedrinha rolou pela rampa acima, devagar, como se quisesse subir ao palco. No topo, parou um segundo… e depois começou a descer para o lado oposto, onde havia muita gente a passar.

Ravi reagiu primeiro.

— Miguel, vem pela esquerda!

Os dois correram, um de cada lado da rampa, como guarda-redes de pedrinha. Miguel, mais rápido, escorregou um pouco no chão liso. Ravi esticou o braço e segurou-lhe a mochila, impedindo que ele caísse.

— Ei! — Miguel arfou. — Salvamento nível “super-herói”.

— Não é super-herói, é equilíbrio — respondeu Ravi, com um sorriso. — Agora a pedrinha!

Miguel ajoelhou-se perto do fim da rampa e colocou as mãos em concha. A pedrinha desceu, tocou nos seus dedos e ficou presa.

— Capturada! — anunciou Miguel, levantando-a como um troféu minúsculo.

Um senhor que estava a passar com uma bengala parou e observou a rampa.

— Boa coordenação vocês têm — disse ele. — E gostei da vossa estação. Posso tentar o jogo?

— Claro! — responderam os dois ao mesmo tempo.

Enquanto o senhor tentava, com calma, Miguel percebeu algo: a rampa não era só para skate. Era um caminho mais suave. Um convite.

E, de algum modo, ensinar o jogo também era isso.

Capítulo 6 — O que fica depois da brincadeira

No fim do festival, o ginásio esvaziou-se aos poucos. Restavam pedaços de fita-cola no chão e um cansaço bom nas pernas, como depois de uma tarde bem vivida.

Miguel e Ravi sentaram-se perto da rampa, agora silenciosa. O saquinho de pano estava entre eles, com as cinco pedrinhas de volta ao seu lugar.

— Sabes — disse Miguel — no começo eu achei que ia aprender só um jogo. Mas aprendi mais coisas.

Ravi inclinou a cabeça.

— Tipo o quê?

Miguel contou nos dedos, como se cada dedo fosse uma pedrinha.

— Primeiro: que tradição pode caber num bolso. Segundo: que errar faz parte, e rir ajuda. Terceiro: que sotaque não é defeito, é história.

Ravi ficou a olhar para a rampa, pensativo.

— Eu também aprendi. Aprendi que pedir ajuda não me deixa menor. E que ensinar é mais fácil quando alguém ensina contigo, não por cima de ti.

Miguel deu um leve empurrão no ombro do amigo.

— E aprendemos a capturar pedrinhas fugitivas em rampas perigosíssimas.

— Perigosíssimas — concordou Ravi, teatral, e os dois riram baixinho, para não acordar o eco.

Ravi pegou numa pedrinha e colocou-a na palma.

— Hoje a diversidade pareceu… como este jogo. Pedrinhas diferentes, mas todas precisam umas das outras para a brincadeira funcionar.

Miguel assentiu.

— E a rampa… foi tipo um lembrete. Nem toda a gente sobe os mesmos degraus. Às vezes, o caminho mais justo é o que dá espaço para todos.

Ravi fechou o saquinho com um nó simples.

— Amanhã jogamos outra vez?

— Amanhã e depois — disse Miguel. — E se alguém disser que é “coisa de bebé”, a gente oferece uma pedrinha rebelde para ele tentar.

— E se ele falhar?

— A gente diz: “Bem-vindo. As mãos precisam de aprender a pensar.”

Ravi sorriu, tranquilo.

Saíram do ginásio lado a lado, com passos leves, como se o chão também fosse uma grande rampa: uma passagem suave para casa, para o descanso, e para um mundo onde ser diferente era uma maneira bonita de pertencer.

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Recreio
Momento do dia na escola para descansar, brincar e comer o lanche.
Migalhas
Pequenos pedaços de pão ou bolo que ficam quando se come.
Ténis
Calçado desportivo usado para correr e jogar, parecido com sapatilha.
Sotaque
Jeito particular de falar que mostra de onde a pessoa vem.
Elástica
Que pode esticar ou voltar à forma, usado aqui para dizer versátil.
Gravidade
Força que faz as coisas caírem para o chão.
Ritual
Conjunto de ações feitas sempre da mesma forma, como um costume.
Cimento
Material duro usado no chão e nas construções.
Tradicional
Algo que vem de muito tempo e faz parte de uma cultura.
Diversidade
Variedade de pessoas, ideias ou costumes num grupo.
Mobilidade
Capacidade de se mover ou de facilitar o movimento de alguém.
Rampa
Superfície inclinada que liga dois níveis diferentes.
Recém-lixada
Que acabou de ser alisada com lixa para ficar suave.
Concha
Forma das mãos quando se juntam para segurar algo.
Cooperação
Trabalhar junto com outra pessoa para conseguir algo.
Capturada
Algo que foi apanhado ou segurado e já não consegue fugir.

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